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Hoquei

O Peso das Palavras e o Gelo Quebrado

O ambiente do rinque de hóquei estava impregnado com aquele cheiro característico de gelo raspado, borracha e o suor persistente de atletas de alto rendimento. Para Tatsuyo, aquele era o cheiro do trabalho, um aroma que normalmente a deixava focada e alerta. Mas hoje, com cinco meses de gravidez, o olfato estava traindo sua paciência.

Ela ajeitou a alça da sua jardineira de shorts jeans claro, que agora marcava com clareza a curvatura adorável de sua barriga. Por baixo, a camiseta branca de manga longa e gola alta dava a ela um ar profissional, porém confortável — exatamente o que ela precisava para enfrentar uma tarde de entrevistas pré-jogo à beira da quadra. Seus cabelos pretos estavam presos em um rabo de cavalo prático, e o crachá de imprensa balançava em seu pescoço.

— Tudo bem, Tatsu? — perguntou o cinegrafista, ajustando o foco. — Você parece um pouco pálida.

— Só o enjoo matinal que decidiu aparecer à tarde — ela sorriu, respirando fundo. — Estou pronta. Vamos acabar logo com essa entrevista com o Miller, do time adversário, antes que o aquecimento dos Wolves comece.

Tatsuyo se posicionou. O entrevistado era Tyler Miller, um atacante de 25 anos conhecido tanto pelo seu talento bruto quanto pelo seu temperamento volátil. E, para o azar de Tatsuyo, Tyler também era o homem que, três meses atrás, tentara levá-la para jantar de forma agressiva em uma festa pós-jogo, recebendo um "não" educado, mas firme, acompanhado da revelação de que ela era casada com Kuro Hatake.

Tyler se aproximou, o uniforme do time visitante parecendo apertado demais em seus ombros largos. Ele tinha um sorriso cínico nos lábios que não chegava aos olhos.

— Ora, se não é a senhora Hatake — disse Tyler, a voz carregada de um sarcasmo desnecessário. — Achei que estivesse em casa tricotando sapatinhos, e não aqui no meio de homens de verdade.

Tatsuyo manteve a postura, ignorando a provocação. Ela ligou o microfone e fez o sinal para a câmera.

— Estamos aqui com Tyler Miller, do Chicago Frost, para falar sobre a estratégia de defesa contra o ataque agressivo dos Wolves hoje à noite. Tyler, seu time vem de uma sequência de derrotas fora de casa. Como vocês pretendem conter a velocidade de jogadores como o Kuro Hatake no primeiro período?

Era uma pergunta padrão. Profissional. Inofensiva. Mas Tyler parecia estar esperando apenas um pretexto para explodir. A menção ao nome de Kuro fez sua mandíbula travar.

— A gente vai jogar hóquei, Tatsuyo. Não é física quântica — ele respondeu, ríspido. — Talvez se você passasse menos tempo olhando para o abdômen do seu marido e mais tempo estudando o jogo, saberia que estatísticas de período não ganham partidas.

Tatsuyo piscou, surpresa com a hostilidade gratuita, mas manteve o tom calmo.

— Entendo. Mas os dados mostram que o Chicago tem tido dificuldade na transição defensiva. Você acredita que a ausência do capitão lesionado vai afetar a comunicação de vocês hoje?

Tyler deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela. O cinegrafista hesitou, mas continuou gravando.

— Sabe o que eu acredito? — Tyler rosnou, a voz agora baixa e venenosa, mas audível o suficiente para o microfone. — Eu acredito que você é uma hipócrita. Deu uma de santa quando eu te convidei para sair, agindo como se fosse superior, mas todo mundo sabe a verdade.

Tatsuyo sentiu um frio na espinha que não vinha do gelo.

— Tyler, estamos gravando. Por favor, mantenha o profissionalismo.

— Profissionalismo? — ele soltou uma gargalhada seca, os olhos injetados de raiva reprimida. — Você só tem esse crachá no pescoço porque abre as pernas para o Hatake. Você é só mais uma vadia de jogador que deu o golpe da barriga para garantir a pensão. Uma puta nojenta que usa essa carinha de inocente para circular nos bastidores.

O sangue de Tatsuyo gelou. Ela sentiu o mundo girar.

— Como você ousa... — ela começou, mas a voz falhou.

— Eu ouso porque é a verdade! — Tyler continuou, agora gritando, chamando a atenção de alguns jogadores que começavam a entrar no rinque. — Você não entende nada de esporte. Você é um lixo, Tatsuyo. Está aqui como um enfeite, uma aproveitadora. Aposto que nem sabe quem é o pai dessa coisa na sua barriga, só escolheu o Kuro porque ele é o que ganha mais.

Normalmente, Tatsuyo teria uma resposta afiada. Ela era forte, independente e sabia lidar com machismo no esporte. Mas os hormônios da gravidez, somados à crueldade gratuita e ao cansaço físico, formaram uma tempestade perfeita. Seus olhos se encheram de lágrimas instantaneamente. O lábio inferior tremeu e a primeira lágrima rolou, quente, contrastando com o ar frio do estádio. Ela se sentiu pequena, exposta e profundamente ferida.

Do outro lado do túnel, Kuro Hatake estava terminando de ajustar suas joelheiras. Ele estava rindo de uma piada de um colega de equipe, o capacete ainda nas mãos, o cabelo branco bagunçado. Mas o riso morreu no momento em que ele ouviu um grito vindo da lateral do gelo.

Ele reconheceu a voz de Tyler Miller. E, mais do que isso, ele reconheceu o tom de choro abafado que se seguiu.

Kuro não pensou. Ele simplesmente se moveu. Seus 1,80m de puro músculo atravessaram o espaço em segundos. Quando ele chegou perto o suficiente para ouvir Miller chamar Tatsuyo de "nojenta" e dizer que ela "dava para o time todo", o mundo de Kuro ficou vermelho.

Tatsuyo estava com as mãos sobre a barriga, soluçando baixinho, tentando se afastar enquanto o cinegrafista tentava intervir sem sucesso.

Kuro largou o capacete no chão — o som do plástico batendo no concreto ecoou como um tiro — e avançou. Ele não foi para cima como um jogador de hóquei; ele foi para cima como um homem protegendo sua vida inteira.

— Repete — rugiu Kuro, a voz tão profunda e carregada de fúria que o estádio pareceu silenciar por um segundo.

Tyler Miller virou-se, surpreso, mas tentou manter a pose de durão.

— Ah, chegou o salvador da pátria? Eu só estava dizendo a verdade para a sua...

Kuro não esperou ele terminar. Ele agarrou Miller pelo colarinho da camisa de jogo com as duas mãos, levantando o homem de 25 anos quase do chão, empurrando-o contra a parede de acrílico do rinque com uma força brutal. O impacto fez um barulho surdo e violento.

— Repete o que você disse sobre a minha esposa — Kuro sibilou, o rosto a centímetros do de Tyler. Os olhos castanhos de Kuro, geralmente cheios de diversão, agora eram duas brasas de puro ódio. — Repete cada palavra sobre o meu filho.

— Kuro, para! — Tatsuyo soluçou, tentando limpar o rosto, mas a visão do marido naquele estado de fúria a assustava tanto quanto as ofensas de Tyler.

— Ela sabe que é verdade, Hatake! — Tyler tentou reagir, mas a pressão no seu pescoço era implacável. — Ela é só uma...

O soco de Kuro foi rápido e preciso. Não foi um golpe de briga de rua desajeitada; foi a força de um atleta de elite concentrada em um único ponto. O punho de Kuro encontrou o maxilar de Miller, fazendo a cabeça do outro jogador chicotear para o lado.

Miller caiu no chão, atordoado. Kuro se preparou para avançar novamente, o corpo tenso, pronto para destruir qualquer coisa que estivesse no seu caminho.

— Kuro! Por favor! — O grito de Tatsuyo, quebrado pelo choro, finalmente o alcançou.

Ele parou no ar. A respiração estava pesada, os nós dos dedos ardendo. Ele olhou para o lado e viu Tatsuyo. Ela parecia tão frágil naquela jardineira jeans, com o rosto manchado de lágrimas e as mãos protegendo o bebê. A visão dela sofrendo drenou parte da sua raiva, substituindo-a por uma dor dilacerante.

Kuro soltou um rosnado para Miller, que ainda estava no chão sendo amparado por seguranças que chegavam correndo.

— Se você chegar a um centímetro dela de novo, se você sequer olhar na direção da minha família, eu juro por tudo o que é mais sagrado que eu acabo com a sua carreira e com a sua cara — Kuro disse, a voz fria como o gelo sob seus pés. — Você não é digno nem de limpar o chão que ela pisa.

Kuro deu as costas para o caos, ignorando os técnicos, os árbitros e as câmeras que registravam tudo. Ele caminhou até Tatsuyo e a envolveu em seus braços com uma urgência desesperada.

— Tatsu... meu amor, eu estou aqui — ele sussurrou, a voz mudando instantaneamente de fúria para uma doçura angustiada. — Não escuta ele. Por favor, não chora.

Tatsuyo escondeu o rosto no peito dele, molhando a camisa de treino de Kuro com suas lágrimas.

— Ele disse coisas horríveis, Kuro... sobre o bebê... sobre como eu consegui o emprego... — ela soluçava, o corpo tremendo contra o dele.

Kuro a apertou mais forte, uma mão protegendo a nuca dela e a outra descendo para a barriga, espalmando-se ali como se pudesse filtrar toda a maldade do mundo.

— Ele é um nada, Tatsu. Um fracassado que não suporta ver alguém tão brilhante e real quanto você — Kuro disse, beijando o topo da cabeça dela repetidamente. — Você é a melhor jornalista que eu conheço. Você é a mulher mais íntegra desse mundo. E esse bebê... esse bebê é a nossa maior benção. Nada do que um idiota invejoso diz muda quem você é.

— Eu quero ir embora — ela murmurou, a voz abafada.

— Nós vamos. Agora mesmo — Kuro declarou.

— Mas o jogo, Kuro... o treinador vai te suspender por causa do soco...

Kuro se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos dela. Ele limpou as lágrimas das bochechas pardas de Tatsuyo com os polegares, seu olhar transbordando uma adoração possessiva e protetora.

— Que se dane o jogo. Que se dane a suspensão. Se o mundo inteiro queimar, eu ainda vou estar do seu lado. Você e ele são a minha única prioridade.

Ele a guiou para fora do rinque, mantendo o braço firmemente ao redor de sua cintura, agindo como um escudo humano contra os olhares curiosos. No túnel, eles encontraram o técnico dos Wolves, que parecia lívido.

— Hatake! O que foi aquilo? Você perdeu a cabeça?

Kuro nem parou de caminhar. Ele apenas lançou um olhar gélido por cima do ombro.

— Aquele lixo insultou minha esposa grávida. Se você quer um jogador que aceite isso, contrate um robô. Eu vou levá-la para casa. Se quiser me multar, mande a conta.

O técnico ficou sem palavras enquanto via seu melhor defensor desaparecer pela saída dos fundos.

Já no carro, o silêncio era interrompido apenas pelos suspiros remanescentes de Tatsuyo. Kuro dirigia com uma mão, enquanto a outra permanecia firmemente entrelaçada na de sua esposa. Ele levava a mão dela aos lábios a cada poucos minutos, beijando seus nós dos dedos.

— Você está melhor? — perguntou ele, a voz carregada de preocupação.

— Sim — Tatsuyo respondeu, encostando a cabeça no banco. — Desculpe por ter chorado. Eu geralmente sou mais forte, mas... ele foi tão cruel, Kuro. E eu me senti tão vulnerável com a barriga...

— Nunca peça desculpas por sentir, Tatsu — Kuro disse seriamente. — Aquele cara é um covarde por atacar você onde ele sabia que doeria. Mas eu prometo a você, ele nunca mais vai ter a chance. Eu vou garantir que a liga saiba exatamente o que ele disse. O áudio do seu microfone pegou tudo, não pegou?

Tatsuyo assentiu.

— Então ele está acabado — Kuro deu um sorriso sombrio. — Ninguém toca na minha rainha e sai ileso.

Eles chegaram em casa e Kuro a ajudou a sair do carro como se ela fosse feita de cristal. Ele a levou para o sofá, trouxe um copo de água e um cobertor macio, apesar do clima não estar tão frio. Ele se ajoelhou entre as pernas dela, colocando as mãos sobre sua barriga.

— Ei, pequeno — Kuro sussurrou para o ventre de Tatsuyo. — Desculpa pelo papai ter ficado tão bravo, mas ninguém fala assim da sua mãe. Ela é perfeita, ouviu? E eu vou estar sempre aqui para garantir que você e ela fiquem seguros.

Tatsuyo sentiu um chute leve contra a mão de Kuro, e um sorriso finalmente surgiu em seu rosto.

— Acho que ele concorda com você — ela disse, passando a mão pelos cabelos brancos de Kuro.

Kuro olhou para cima, o fogo da briga agora completamente substituído por uma devoção absoluta.

— Eu te amo, Tatsuyo Hatake. Mais do que o hóquei, mais do que a fama, mais do que tudo. Nunca se esqueça que, para mim, você é o centro do universo. E quem não conseguir ver isso, não merece nem o seu olhar.

Tatsuyo inclinou-se para a frente e o beijou, um beijo que selava a promessa de proteção e amor que Kuro carregava em cada fibra de seu ser. O mundo lá fora podia ser barulhento, cruel e cheio de julgamentos, mas ali, no calor do abraço de Kuro, Tatsuyo sabia que ela e seu filho estavam exatamente onde deveriam estar: em casa.