Voltar ao resumo

Hotel Assombrado

O Abismo Sob a Pele de Criança

O ar no Hotel Assombrado sempre teve aquele cheiro característico de mofo, madeira velha e algo que Kuro só conseguia descrever como "o hálito do além". Mas, naquela noite, a atmosfera estava diferente. Estava pesada, densa, como se o próprio oxigênio tivesse sido substituído por chumbo líquido.

Kuro caminhava pelo corredor do segundo andar, ajustando a gola da sua camisa. Aos quatorze anos, ele já deveria estar acostumado com as esquisitices do lugar, mas seus olhos castanhos escuros não paravam de vasculhar as sombras. Ele passou a mão pelos cabelos brancos repicados, um tique nervoso que ele desenvolveu desde que Tatsuyo começara a agir de forma ainda mais estranha do que o habitual.

— Tatsuyo? — chamou ele, a voz falhando levemente. — Se isso for uma brincadeira pra me dar um susto e depois rir da minha cara, já pode parar. Eu já estou morrendo de medo, parabéns!

Não houve resposta imediata, apenas o som de um rangido vindo do final do corredor, onde a porta do quarto 204 estava entreaberta. Uma luz azulada e fria escapava pela fresta.

Kuro hesitou. Ele sabia que Tatsuyo, apesar da aparência de uma garota de dez anos com pele parda e cabelos pretos ondulados, era uma entidade milenar. Mas havia algo que ele acabara de descobrir em um dos livros proibidos da biblioteca do hotel, algo que fazia seu estômago dar voltas.

Ele empurrou a porta.

O quarto parecia ter se expandido. As paredes não eram mais de papel de parede descascado, mas sim feitas de uma escuridão que parecia pulsar. No centro, sentada em uma cadeira de madeira pequena demais para a presença que emanava, estava ela.

— Você demorou, Kuro — disse Tatsuyo. A voz dela não era a de uma criança; era um coro de mil almas sussurrando em uníssono.

Kuro deu um passo à frente, tentando manter a compostura. Seus hormônios de adolescente às vezes o faziam olhar para Tatsuyo de um jeito que ele sabia ser perigoso — afinal, ela era tecnicamente uma "garota" — mas, naquele momento, qualquer pensamento libidinoso foi substituído pelo puro instinto de sobrevivência.

— O que é tudo isso? — perguntou ele, apontando para o vazio que começava a consumir o chão. — O hotel está tremendo. Os outros espíritos estão se escondendo no porão. Até o gerente sumiu!

Tatsuyo levantou a cabeça. Seus olhos pretos não refletiam a luz; eles a devoravam.

— O hotel é apenas uma casca, Kuro. E eu me cansei de fingir que sou apenas uma hóspede indesejada — ela se levantou, e a sombra atrás dela se projetou na parede, assumindo a forma de uma criatura monumental com asas de gafanhoto e uma coroa de fumaça. — Você leu os nomes antigos, não leu? Eu vi você na biblioteca.

Kuro engoliu em seco, sentindo o suor frio escorrer pela nuca.

— Eu li sobre o Anjo do Abismo. Sobre Aquele que guarda a chave do poço sem fundo.

Tatsuyo sorriu, um sorriso que não cabia em um rosto tão pequeno.

— Abaddon — disse ela, o nome fazendo as janelas vibrarem até trincarem. — Eu sou a destruição que precede a criação. Eu sou o abismo que olha de volta para você quando você fecha os olhos à noite.

— Mas... você é a Tatsuyo — balbuciou Kuro, tentando se aproximar. — A garota irritante que rouba meus lanches e reclama do meu cabelo.

A entidade deu um passo na direção dele. A cada movimento, o chão sob seus pés desintegrava-se em cinzas.

— Tatsuyo é o nome desta carne — explicou ela, parando a poucos centímetros dele. — Uma prisão conveniente. Mas o selo está enfraquecendo. O Hotel Assombrado foi construído sobre uma das minhas muitas entradas, e hoje, o abismo quer reclamar o que é dele.

Kuro sentiu uma pressão insuportável no peito. O poder que emanava dela era vasto, antigo e aterrorizante. No entanto, mesmo diante da personificação da destruição, ele não conseguiu evitar que seus olhos baixassem por um segundo para o rosto dela, notando como as feições infantis pareciam tão delicadas em contraste com o horror que ela representava.

— E o que acontece comigo? — perguntou ele, a voz saindo quase como um sussurro. — Eu vou ser destruído também?

Tatsuyo estendeu a mão parda e tocou o rosto de Kuro. Os dedos dela estavam gelados como o vácuo do espaço.

— Você é curioso, Kuro. Um humano pequeno, com pensamentos tão... mundanos. Eu vejo como você me olha. Acha que eu não percebo o que passa nessa sua mente de adolescente?

Kuro corou violentamente, o contraste do vermelho em sua pele branca sendo evidente sob a luz fantasmagórica.

— Eu não... eu não estava pensando em nada! — mentiu ele, desviando o olhar.

— Mentiroso — riu ela, e o som foi como o bater de asas de milhões de insetos. — Mas é essa sua insolência que me diverte. Se eu fosse o Abismo total agora, você seria apenas poeira. Mas Tatsuyo ainda gosta de você.

— Então para com isso! — exclamou Kuro, ganhando uma coragem que não sabia que tinha. — Fecha esse poço, ou abismo, ou o que quer que seja. O hotel não vai aguentar. A gente não vai ter onde morar!

Tatsuyo inclinou a cabeça, observando-o como se ele fosse um espécime raro de inseto.

— Você está dando ordens ao Rei dos Gafanhotos? Ao senhor da perdição?

— Estou dando ordens à garota que me deve cinco ienes de um suco que eu comprei semana passada! — rebateu Kuro, cruzando os braços, embora suas pernas estivessem tremendo.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Por um momento, Kuro achou que seria obliterado ali mesmo. As sombras nas paredes se agitaram, as asas da criatura projetada se abriram, cobrindo todo o teto. O hotel soltou um gemido de agonia, as vigas de madeira rangendo sob o peso da presença de Abaddon.

Então, subitamente, a pressão diminuiu.

A escuridão recuou para dentro das sombras de Tatsuyo, e o chão voltou a ser madeira sólida, embora levemente chamuscada. Os olhos dela recuperaram um brilho um pouco mais humano, embora ainda mantivessem aquela profundidade infinita.

— Você é um idiota, Kuro — disse ela, a voz voltando ao tom de uma menina de dez anos, mas com um peso ancestral por trás de cada sílaba.

— Eu sou o idiota que ainda está aqui — respondeu ele, soltando o ar que nem percebera que estava prendendo.

Tatsuyo caminhou até a janela e olhou para a lua que brilhava lá fora, uma lua que parecia pálida diante do que acabara de acontecer.

— O abismo não vai embora para sempre — disse ela, sem olhar para trás. — Eu sou Abaddon. A destruição faz parte da minha natureza. Este hotel é apenas uma tampa em um caldeirão que está fervendo.

— A gente dá um jeito de manter a tampa fechada — disse Kuro, aproximando-se e ficando ao lado dela. — Eu ajudo você.

Tatsuyo olhou para ele de soslaio, um brilho de deboche nos olhos pretos.

— E como um garoto de quatorze anos que mal consegue arrumar o próprio quarto pretende ajudar uma entidade milenar a conter o fim do mundo?

Kuro deu de ombros, tentando parecer mais descolado do que realmente se sentia.

— Sei lá. Talvez eu possa te distrair. Você disse que eu sou divertido, não disse?

Tatsuyo soltou um suspiro longo, que pareceu carregar o cansaço de eras.

— É, você é. E é por isso que eu ainda não transformei este lugar em um buraco negro. Mas não se engane, Kuro. O Abismo é paciente.

— Eu também sou — mentiu ele, já pensando que, se sobrevivessem a mais uma semana, ele talvez devesse tentar aprender algum feitiço de proteção, ou pelo menos comprar mais suco para ela.

Tatsuyo voltou a se sentar em sua cadeira pequena, a aura de autoridade absoluta diminuindo até se tornar apenas a presença de uma garota estranha em um hotel mal-assombrado.

— Vá embora agora — ordenou ela. — Preciso descansar. Manter a forma humana depois de liberar tanto poder é exaustivo.

— Tá, tá. Já entendi — disse Kuro, caminhando em direção à porta. — Mas, Tatsuyo?

— O que é?

— Aquela coisa das asas... era bem legal. Assustadora pra caramba, mas legal.

Tatsuyo não respondeu, mas Kuro pôde jurar que viu o canto da boca dela subir em um quase imperceptível sorriso antes de ele fechar a porta.

Do lado de fora, o corredor parecia normal novamente. O cheiro de mofo estava de volta, e o silêncio era o silêncio comum de um prédio cheio de fantasmas. Mas Kuro sabia que, sob a pele parda daquela menina, o Abismo continuava à espreita, e ele, por algum motivo que a lógica não explicava, era o único que conseguia olhar para aquele vazio e ainda querer ficar por perto.

Ele desceu as escadas, as mãos nos bolsos, assobiando uma melodia nervosa. Ele tinha quatorze anos, morava em um hotel assombrado e era o melhor amigo (ou algo assim) da personificação da destruição bíblica.

— É — sussurrou para si mesmo —, minha vida é uma bagunça.

Lá em cima, no quarto 204, Tatsuyo fechou os olhos. Por um breve instante, a chave do poço sem fundo brilhou em seu peito, oculta pela roupa, um lembrete de que ela era Abaddon. Mas, ao ouvir os passos desajeitados de Kuro sumindo no andar de baixo, ela decidiu que o fim do mundo poderia esperar por mais uma noite. Afinal, ele ainda lhe devia o troco do suco.

Entrar com Telegram

Confirme o login no bot.