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Indio

O Veneno das Palavras e o Fogo do Ciúme

A poeira baixava lentamente sobre o assentamento, mas o ar permanecia carregado de uma eletricidade perigosa. O roubo dos cavalos havia deixado a comunidade em polvorosa. Para homens como Charles Ingalls, o cavalo não era apenas um animal, era o sustento, a força de trabalho e o elo com a civilização. E quando John Edwards foi injustamente levado sob custódia, a tensão escalou para algo que a diplomacia dificilmente resolveria.

Charles, com o rosto vincado pela preocupação e pela falta de sono, caminhava ao lado de Mitchell. Eles precisavam de respostas, e havia apenas um homem cujos olhos viam o que os outros ignoravam e cujos rastros na pradaria eram como um mapa aberto: Pequeno Puma.

Puma estava perto da margem do riacho, terminando de ajustar a sela de seu cavalo, quando sentiu a aproximação dos dois homens. Ele não precisava olhar para saber quem eram. O passo pesado e firme de Charles era inconfundível, assim como a presença mais rígida e, por vezes, arrogante de Mitchell.

— Puma — chamou Charles, parando a uma distância respeitosa. — Precisamos da sua ajuda. Levaram os cavalos e prenderam o John. Você viu algo? Algum rastro que não pertença a ninguém daqui?

O jovem indígena virou-se lentamente. Seus olhos escuros, geralmente impenetráveis, brilharam com um reconhecimento silencioso. Ele respeitava Charles, mas a presença de Mitchell sempre o deixava em alerta. Havia algo na maneira como Mitchell olhava para ele — um misto de desconfiança e um conhecimento que Puma preferia que permanecesse enterrado.

— A pradaria fala muitas línguas, Charles — respondeu Puma, sua voz baixa e rouca. — Vi rastros seguindo para o norte, perto das colinas rochosas. Homens que não buscam abrigo, apenas fuga.

— Você pode nos guiar? — perguntou Charles, dando um passo à frente. — John não vai durar muito naquela cela se não provarmos a inocência dele.

Puma assentiu levemente, mas antes que pudesse responder, Mitchell deu um passo lateral, cruzando os braços. Ele tinha um sorriso de lado, aquele tipo de sorriso que precede uma tempestade. Mitchell sabia sobre Clara. Ele tinha visto os olhares, as escapadas silenciosas e a mudança no comportamento da cunhada. E, mais do que tudo, ele conhecia o temperamento possessivo do homem à sua frente.

— É bom termos sua ajuda, Puma — disse Mitchell, a voz carregada de uma falsa casualidade. — Afinal, estamos todos em família aqui, de um jeito ou de outro, não é?

Puma estreitou os olhos. Charles, focado no problema dos cavalos, não percebeu o tom subjacente.

— Falando em família — continuou Mitchell, virando-se para Charles, mas garantindo que sua voz chegasse clara aos ouvidos de Puma —, eu queria te perguntar... como está indo o Adam?

Charles franziu a testa, confuso com a mudança repentina de assunto.

— O Adam? Ele tem sido de grande ajuda na fazenda, por quê?

— Ah, por nada — Mitchell soltou uma risada curta, chutando uma pequena pedra no chão. — É que eu soube que ele está te ajudando em dobro ultimamente. Me disseram que ele está seriamente interessado em cortejar a Clara. E, pelo que vi, ela não parece estar achando a ideia ruim. Ele é um bom rapaz, branco, trabalhador... o tipo de pretendente que qualquer irmão desejaria para uma irmã, certo, Charles?

O silêncio que se seguiu foi tão pesado que parecia palpável. Puma sentiu como se o chão sob seus pés tivesse desaparecido. O nome de Clara, quando pronunciado por Mitchell, soou como um insulto, mas o nome de *Adam* associado ao dela foi como uma facada em seu peito.

Adam. O rapaz da cidade. O homem que falava a mesma língua que ela, que compartilhava a mesma cor de pele, que podia entrar na igreja de Walnut Grove de braços dados com ela sem que ninguém lançasse um olhar de desprezo.

A mão de Puma apertou as rédeas do cavalo com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. O ciúme, um monstro verde e voraz que ele tentava manter enjaulado, rugiu dentro dele. Ele imaginou Clara — sua Clara, da pele macia e riso fácil — sorrindo para outro homem. Imaginou Adam tocando a mão dela durante o jantar, o tipo de toque que a sociedade aprovava.

— O Adam é um bom homem — respondeu Charles, alheio à tempestade que desabava dentro de Puma. — Se ele puder fazer a Clara feliz, eu não me oporia. Ela tem andado muito triste, e ele parece trazer um pouco de luz para ela.

Mitchell olhou de soslaio para Puma, deliciando-se com a reação silenciosa, mas devastadora, do rapaz. Ele viu a mandíbula de Puma travar e a respiração dele se tornar curta e pesada.

— Pois é — instigou Mitchell. — Um casamento na pradaria seria ótimo para animar as coisas. E a Clara merece alguém que possa dar a ela uma casa de verdade, um futuro seguro... sem complicações.

Puma montou em seu cavalo com um movimento brusco e selvagem. A agitação do animal refletia o estado de espírito de seu dono.

— Se querem encontrar os cavalos, sigam-me — disse Puma, a voz agora fria como o gelo do inverno. — Não tenho tempo para conversas sobre pretendentes.

Ele partiu em um galope furioso, sem esperar que Charles ou Mitchell montassem. A fúria o guiava. Cada batida dos cascos no solo parecia martelar o nome de Adam em sua mente. "Cortejar a Clara". "Um futuro seguro".

Enquanto cavalgava, a imagem daquela noite na cabana de caça voltou para assombrá-lo. O calor do corpo dela, a maneira como ela se entregara a ele sem reservas, apesar de todos os avisos. Ele a havia afastado, alegando que seus mundos eram diferentes, mas a ideia de que ela pudesse simplesmente seguir em frente, de que pudesse escolher a "segurança" de um homem como Adam, o queimava por dentro.

Horas depois, durante uma pausa na perseguição, Charles se afastou para verificar o mapa, deixando Mitchell e Puma sozinhos por um breve momento. Puma, que estivera em silêncio absoluto, aproximou-se de Mitchell. Seus olhos eram como brasas.

— Você fala demais, Mitchell — disse Puma, a voz vibrando com uma ameaça contida.

Mitchell não se intimidou. Ele deu um passo à frente, sustentando o olhar.

— Eu falo a verdade, Puma. Você sabe que não pode dar a ela o que o Adam pode. Você sabe que, no final das contas, ela é uma Ingalls. Ela pertence ao mundo das cercas e das igrejas, não às tendas e ao vento. Você a ama? Talvez. Mas o amor não muda quem vocês são. Deixe que o Adam a faça feliz. Ele já está fazendo o caminho dele até o coração dela.

Puma sentiu o impulso de avançar, de calar aquela boca com os punhos, mas o código de honra que seu pai lhe ensinara o segurou. No entanto, a semente da dúvida e da raiva já havia germinado.

Naquela noite, sob o manto de estrelas, Puma não conseguiu dormir. Enquanto Charles e Mitchell descansavam, ele se sentou afastado, olhando para a direção onde ficava a fazenda dos Ingalls. Ele imaginou Clara na varanda, talvez olhando para as mesmas estrelas, mas se perguntou se ela estaria pensando nele ou no tal Adam.

A insegurança de ser "diferente" sempre fora sua maior ferida, e Mitchell havia jogado sal nela com precisão cirúrgica. Puma sabia que era um guerreiro, um rastreador, um homem da terra. Mas ele poderia ser o homem que Clara precisava diante do mundo? Ou ele era apenas uma lembrança de uma noite fogosa que ela agora tentava substituir com a normalidade de um cortejo aceitável?

— Ela não é sua, Mitchell — sussurrou Puma para o vento, sua voz carregada de uma promessa sombria. — Ela nunca será dele.

Na manhã seguinte, a perseguição continuou com uma intensidade renovada. Puma liderava o grupo com uma ferocidade que assustava até Charles. Ele não estava apenas caçando ladrões de cavalos; ele estava caçando uma saída para a agonia que sentia.

Quando finalmente avistaram o acampamento dos bandidos, Puma não esperou por um plano. Ele avançou como um raio, a fúria acumulada transformando-se em ação. Charles e Mitchell mal conseguiram acompanhá-lo. O confronto foi rápido e violento. Puma lutava com uma imprudência que beirava o suicídio, desarmando dois homens antes mesmo que eles pudessem disparar.

Após a luta, com os cavalos recuperados e os bandidos rendidos, Charles aproximou-se de Puma, que estava limpando um pequeno corte no braço.

— Você lutou como se estivesse possuído, Puma — disse Charles, com um misto de gratidão e preocupação. — Obrigado. Sem você, John ainda estaria em perigo.

Puma apenas assentiu, seus olhos buscando Mitchell, que observava de longe.

— Vamos voltar — disse Puma, secamente. — Há assuntos em Walnut Grove que não podem esperar.

A viagem de volta foi rápida. A mente de Puma estava fixa em um único objetivo: ver Clara. Ele precisava ver nos olhos dela se as palavras de Mitchell eram verdadeiras. Ele precisava saber se o espaço que ele deixara vago havia sido preenchido por Adam.

Ao chegarem à fazenda Ingalls, o sol já estava se pondo, tingindo a pradaria de tons de laranja e violeta. Caroline e as meninas correram para receber Charles. Clara saiu por último, limpando as mãos no avental, o rosto iluminado pelo alívio ao ver o irmão a salvo.

Puma permaneceu montado, observando a cena. Ele viu quando um rapaz jovem, loiro e de aparência gentil, saiu de trás da casa com um balde de leite. Era Adam. O rapaz caminhou até Clara e disse algo que a fez sorrir — um sorriso pequeno, mas que para Puma pareceu um incêndio. Adam tocou levemente o ombro dela antes de seguir para o celeiro.

Aquele toque, por mais inocente que fosse, foi a gota d'água.

Puma não esperou pelas despedidas de Charles. Ele deu meia-volta com o cavalo e galopou em direção à clareira onde costumava se encontrar com Clara. Ele sabia que ela o seguiria. Ela sempre sabia quando ele estava por perto.

Minutos depois, o som de passos na grama alta denunciou a chegada dela. Clara apareceu, ofegante, o cabelo um pouco desgrenhado pelo vento.

— Puma! — ela exclamou, aproximando-se. — Eu vi vocês chegarem. Graças a Deus estão todos bem. Charles me contou o que você fez...

— Quem é ele, Clara? — a pergunta saiu como um tiro, cortando o entusiasmo dela.

Clara parou, confusa.

— Ele quem? Do que você está falando?

— Adam — disse ele, o nome saindo de sua boca com desprezo. — O homem que está te "cortejando". O homem que te faz sorrir enquanto eu estou fora, caçando ladrões e tentando entender por que não consigo te tirar da minha cabeça.

Clara piscou, a surpresa dando lugar a uma compreensão lenta. Ela viu a dor escondida atrás da raiva nos olhos de Puma.

— Mitchell falou com você, não foi? — ela perguntou, a voz suavizando. — Aquele homem não perde uma chance de semear discórdia.

— Não importa quem falou! — Puma desmontou com um salto, parando na frente dela. — Eu vi como ele te olhou. Eu vi como ele te tocou. Ele é um deles, Clara. Ele pode te dar a vida que seu irmão quer para você. É isso que você quer? Um homem que seja aceitável?

Clara sentiu a raiva começar a borbulhar. Ela deu um passo à frente, batendo com o dedo no peito dele.

— Como você ousa? Você me rejeita, me diz que não podemos ficar juntos, me deixa sozinha com meu coração partido, e agora vem aqui me cobrar lealdade? Adam é um amigo, Puma! Ele tem sido gentil comigo quando você só me deu silêncio e distância!

— Gentil? — Puma riu, um som amargo. — Ele quer você. E ele tem o direito de te pedir em casamento. Eu não tenho. É isso que está me matando, Clara. A ideia de que ele pode te ter simplesmente porque nasceu no mundo certo.

Clara segurou o rosto de Puma com as duas mãos, forçando-o a olhar para ela. As lágrimas agora corriam livremente por seu rosto branco.

— Ninguém me "tem", Puma. Eu não sou um cavalo roubado que pertence a quem chegar primeiro. Eu sou dona do meu coração. E, por mais que eu tente, por mais que Adam seja gentil e que meu irmão o aprove... meu coração é teimoso. Ele só bate por um homem que é selvagem demais para admitir que me ama e covarde demais para enfrentar o mundo por mim.

Puma fechou os olhos, sentindo o calor das mãos dela. O ciúme ainda estava lá, uma brasa latente, mas a verdade nas palavras dela começou a abafá-lo.

— Eu vi o toque dele, Clara — sussurrou ele. — Eu queria matar aquele homem apenas por estar perto de você.

— Então lute por mim — desafiou ela, a voz firme apesar do choro. — Não lute contra fantasmas ou contra o que Mitchell diz. Lute contra esse medo que você tem de não ser o bastante. Porque para mim, Puma... você é o único mundo que importa.

Puma a puxou para um abraço apertado, enterrando o rosto em seu pescoço. O cheiro de lavanda e de casa que emanava dela o acalmou. Ele sabia que Mitchell não pararia, que Adam continuaria por perto e que a pradaria ainda traria muitos desafios. Mas naquele momento, com Clara em seus braços, ele percebeu que o ciúme era apenas o reflexo do quanto ele estava disposto a perder tudo para não perdê-la.

— Ele não vai te ter — rosnou Puma, suavemente. — Eu não vou permitir.

Clara sorriu contra o peito dele, sabendo que, apesar da fúria e do ciúme, aquele era o homem que ela escolhera. E que nenhum Adam ou Mitchell no mundo poderia mudar o que o destino havia escrito sob a luz da lua na pradaria.

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