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Insegurança

O Labirinto de Vidro e o Eco do Silêncio

O céu de Tóquio era uma tapeçaria de neon e aço, uma vibração frenética que contrastava violentamente com o vazio que Karen sentia no peito. Havia se passado três semanas desde que ela deixou Paris, e o fuso horário parecia ser a única coisa que a mantinha sã; a exaustão física era um anestésico bem-vindo para a exaustão emocional. Ela estava no topo de um arranha-céu em Shinjuku, vestindo um robe de seda da Valentino, enquanto uma equipe de dez pessoas preparava o cenário para a campanha de inverno.

Seu celular, agora mantido permanentemente no modo "Não Perturbe", brilhava com dezenas de chamadas perdidas. Patrício. Sempre Patrício. Ela não tinha bloqueado o noivo, mas a distância era uma barreira necessária. Cada vez que ela pensava em atender, a imagem da postagem de Jaqueline no estúdio voltava como um flash cegante. Não era apenas ciúme; era a sensação de que, enquanto ela lutava para ser respeitada no mundo dele, ele permitia que as pessoas que o cercavam a desmantelassem peça por peça.

— Karen-san, estamos prontos — anunciou o assistente de fotografia com uma reverência educada.

Ela se levantou, a máscara de modelo profissional assumindo o controle. Seus movimentos eram fluidos, precisos, mas seu coração estava a milhares de quilômetros dali, em uma casa em Buenos Aires que agora parecia um museu de memórias dolorosas.

Enquanto isso, em Buenos Aires, o clima no estúdio da Airbag era de funeral. Patrício não comia direito, não dormia e, o pior de tudo para seus irmãos, não conseguia terminar uma única estrofe. Gastão e Guido trocavam olhares preocupados enquanto observavam o irmão mais velho encarar o nada, com a guitarra repousada no colo como um peso morto.

A porta se abriu e Jaqueline entrou, trazendo uma sacola de uma padaria famosa da Recoleta. Ela exibia um sorriso radiante, como se as últimas semanas de tensão não tivessem existido.

— Trouxe aquelas medialunas que você adora, Pato — disse ela, caminhando em direção a ele com uma intimidade que agora fazia o estômago de Patrício revirar. — Você precisa se alimentar. Está ficando pálido.

Patrício nem sequer olhou para ela. O som da voz de Jaqueline, que antes era o som de uma amizade de infância, agora soava como o ranger de metal em seus ouvidos.

— Eu não quero nada, Jaque — respondeu ele, a voz rouca de cigarro e noites em claro.

— Ah, não seja assim. Eu falei com alguns fãs hoje de manhã no fórum, eles estão organizando uma homenagem para a banda e...

— Chega — interrompeu Patrício, levantando-se abruptamente. A guitarra bateu no suporte com um som metálico agudo. — Chega de fãs, chega de fóruns e, principalmente, chega de você tentar "ajudar".

Jaqueline recuou um passo, a expressão de surpresa forçada vacilando por um segundo.

— Pato, eu só estou tentando manter o clima bom. A Karen foi embora para o Japão sem nem te dar tchau direito. Ela é instável, você sabe disso. O mundo da moda faz isso com as pessoas...

— A Karen não é instável — disse Patrício, aproximando-se dela, os olhos escuros brilhando com uma fúria contida. — A Karen é a mulher que eu pedi em casamento. A mulher que aguentou meses de ataques virtuais em silêncio enquanto eu, por covardia ou comodismo, deixei que você e outros "amigos" alimentassem essa nostalgia doentia por um passado que morreu.

— Você está sendo injusto — murmurou Jaqueline, os olhos começando a lacrimejar. — Eu sempre estive aqui por você. A Melissa e eu...

— A Melissa é parte da minha história, mas a Karen é o meu destino — cortou ele, sentindo um peso sair de seus ombros ao finalmente dizer as palavras em voz alta. — E você, Jaque, usou essa amizade para plantar sementes de dúvida no meu relacionamento. Aquela foto no estúdio? Aquela mensagem que você mandou para ela em Paris? Eu não sou idiota. Eu vi o que você estava fazendo.

— Eu só queria que ela se sentisse parte do grupo! — exclamou ela, a voz subindo de tom.

— Não — disse Gastão, intervindo pela primeira vez do fundo da sala. — Você queria que ela se sentisse uma estranha no ninho. E você conseguiu, Jaque. Parabéns. Você afastou a mulher que fazia o meu irmão feliz.

Patrício pegou sua jaqueta de couro e as chaves do carro. Ele não olhou para trás.

— Para onde você vai? — perguntou Guido, preocupado.

— Vou consertar o que eu quebrei — respondeu Patrício. — Ou pelo menos tentar, antes que o silêncio dela se torne permanente.

O voo de Buenos Aires para Tóquio foi a viagem mais longa da vida de Patrício. Trinta horas de agonia, escalas e pensamentos circulares. Ele não avisou que estava indo. Ele não sabia se ela o receberia. Ele só sabia que não podia passar mais um minuto sendo o homem que permitia que o passado ditasse seu futuro.

Em Tóquio, Karen havia acabado de chegar ao hotel após um dia exaustivo de dezoito horas de trabalho. Seus pés doíam, sua pele estava seca de tanta maquiagem e sua alma parecia um deserto. Ela se jogou na cama, olhando para o teto alto do quarto luxuoso. O anel de noivado ainda estava lá, mas ela o usava na mão direita agora, um símbolo de uma promessa que parecia estar em suspensão.

O interfone do quarto tocou. Ela franziu a testa. Eram quase duas da manhã.

— Sim? — respondeu ela em inglês.

— Karen? — A voz do outro lado fez seu coração parar por um segundo. Era a recepção, mas ela podia ouvir uma respiração ofegante ao fundo. — Senhora Patrício, há um senhor aqui embaixo... ele diz que é seu noivo. Ele não tem reserva, mas insiste...

Karen sentiu o sangue fugir do rosto.

— Deixe-o subir — disse ela, a voz falhando.

Cinco minutos depois, houve uma batida suave na porta. Karen respirou fundo, ajeitou o robe e abriu. Patrício estava parado ali, com a mesma jaqueta de couro, o cabelo bagunçado e olheiras profundas. Ele parecia ter atravessado um campo de batalha.

Eles ficaram em silêncio por um longo tempo, o corredor do hotel sendo o único testemunha do reencontro.

— O que você está fazendo aqui, Pato? — perguntou ela, finalmente, mantendo a voz o mais neutra possível.

— Eu vim te dizer que eu sou um idiota — disse ele, sem rodeios. — Eu vim te dizer que eu expulsei a Jaqueline da minha vida e do estúdio. E que eu apaguei todas as redes sociais do meu celular porque nada do que aquelas pessoas dizem importa se eu não tiver você para segurar minha mão no final do dia.

Karen cruzou os braços, encostando-se no batente da porta.

— Você atravessou o mundo para me dizer que apagou um aplicativo?

— Não — ele deu um passo à frente, a voz tremendo levemente. — Eu atravessei o mundo para te pedir perdão por não ter sido o homem que você merece. Eu deixei que o barulho do passado fosse mais alto que a nossa melodia. Eu achei que, se eu ignorasse a maldade dos outros, ela desapareceria. Mas eu percebi que, ao ignorar o que te machucava, eu estava te deixando lutar sozinha. E um noivado... uma "vida em vida"... não é sobre lutar sozinho.

Karen sentiu as lágrimas arderem em seus olhos. Ela queria manter a postura, queria mostrar que a campanha em Tóquio a tinha tornado invulnerável, mas a verdade é que ela estava exausta de ser forte.

— Eles me odeiam, Pato — sussurrou ela. — Seus fãs, seus amigos de infância... eles me veem como uma intrusa que veio roubar o ídolo deles.

— Então que eles me odeiem também — respondeu Patrício, aproximando-se o suficiente para que ela pudesse sentir o calor dele. — Porque se o preço para ter eles por perto é te perder, eu prefiro o silêncio absoluto. Eu não quero ser o "Pato do Airbag" para você, Karen. Eu quero ser apenas o homem que te ama, que te admira quando você desfila e que te abraça quando as luzes se apagam.

— A Jaqueline... ela disse que eu não pertencia ao seu mundo.

— Ela estava certa — disse ele, tocando suavemente o rosto dela com as pontas dos dedos. — Você não pertence ao meu mundo. Você é o meu mundo. O resto é apenas cenário.

Karen fechou os olhos, permitindo que a primeira lágrima caísse. O toque dele era familiar, um porto seguro no meio do caos de Tóquio.

— Eu aceitei o contrato de seis meses aqui — disse ela, a voz embargada. — Eu não posso simplesmente ir embora. Minha carreira...

— Eu sei — interrompeu ele. — E eu vou ficar. Vou alugar um apartamento, vou compor aqui, vou aprender japonês se for preciso. Eu não vou mais deixar oceanos entre nós, Karen. Nem oceanos de água, nem oceanos de mal-entendidos.

— Você faria isso? — perguntou ela, abrindo os olhos e procurando a verdade nos dele. — Deixaria Buenos Aires, deixaria a banda por um tempo?

— Gastão e Guido entendem. Eles sabem que, se eu não estiver bem com você, não existe música. A Airbag pode esperar. O meu coração não.

Karen finalmente desarmou a guarda e se lançou nos braços dele. O abraço foi apertado, desesperado, como se ambos estivessem tentando fundir suas almas para que ninguém mais pudesse criar fendas entre elas. O cheiro de Patrício — uma mistura de tabaco, perfume cítrico e cansaço — envolveu-a, trazendo uma paz que nenhum desfile de alta costura jamais poderia proporcionar.

— Me desculpa por ter fugido — sussurrou ela contra o peito dele.

— Me desculpa por ter te dado motivos para fugir — respondeu ele, beijando o topo da cabeça dela.

Eles entraram no quarto, fechando a porta para o mundo exterior. Lá fora, Tóquio continuava a brilhar, incessante e barulhenta, mas dentro daquelas quatro paredes, o tempo parecia ter parado.

Naquela noite, Patrício não pegou a guitarra. Ele apenas segurou Karen enquanto ela dormia, observando a luz da lua refletir no anel que ela havia colocado de volta no dedo anelar esquerdo. Ele sabia que o caminho de volta não seria fácil. Sabia que os fãs continuariam a falar e que as sombras do passado sempre tentariam encontrar uma brecha.

Mas, enquanto olhava para a mulher em seus braços, ele sentiu uma clareza que nunca tivera antes. O amor não era apenas sobre os momentos de glória sob os holofotes; era sobre a escolha diária de proteger o que é sagrado.

Na manhã seguinte, Karen acordou com o som de Patrício cantarolando algo baixo na varanda. Ela se aproximou e o viu observando o nascer do sol sobre a cidade.

— É uma música nova? — perguntou ela, abraçando-o por trás.

— É o começo de algo — disse ele, virando-se para beijá-la. — Fala sobre uma rainha que conquistou o mundo, mas que só encontrou o trono de verdade nos braços de um plebeu teimoso que viajou meio mundo para encontrá-la.

— Acho que vai ser um sucesso — sorriu ela, sentindo-se, pela primeira vez em muito tempo, completamente em casa.

O telefone de Patrício vibrou sobre a mesa. Era uma notificação de uma nova postagem de um fã-clube, uma foto antiga dele com Melissa. Ele olhou para o aparelho por um segundo, mas, em vez de sentir a ansiedade de antes, ele apenas sorriu. Ele pegou o telefone, caminhou até a borda da varanda e, com um gesto calmo, desinstalou permanentemente o aplicativo de redes sociais diante de Karen.

— O que você está fazendo? — perguntou ela, surpresa.

— Limpando o palco — respondeu ele. — A partir de agora, o único público que me interessa é você.

A distância entre Buenos Aires e Tóquio ainda existia no mapa, mas no coração deles, o abismo havia sido fechado. Eles sabiam que o mundo continuaria a tentar puxá-los para direções opostas, mas agora eles tinham algo que o passado nunca poderia tocar: a coragem de viver o presente, sem sombras, sem fantasmas, apenas com a verdade nua e crua de quem se escolhe todos os dias, de vida em vida.