James Fraser no futuro
O Peso do Futuro e o Calor do Lar
O silêncio que se seguiu ao riso na cozinha de Claire não era desconfortável, mas carregado de uma perplexidade que nenhum deles conseguia traduzir em palavras. Jamie observava a luz elétrica que emanava de um globo de vidro no teto, sentindo um leve zumbido nos ouvidos. O mundo de 1961 era barulhento, mesmo na quietude daquela casa de pedra.
— Jamie? — Claire tocou o braço dele, trazendo-o de volta. — Você está pálido. Sente-se, por favor.
— Estou bem, Sassenach — ele murmurou, embora suas pernas parecessem feitas de água. — É apenas... muita luz. E muita vida para processar em uma única tarde.
Ian, sempre o mais prático, estava sentado à mesa, observando Brianna com uma mistura de reverência e espanto. O jovem Jamie e o pequeno Ian, no entanto, não conseguiam ficar parados. Eles circulavam pela cozinha como filhotes curiosos, tocando na superfície fria da geladeira e recuando quando o motor do aparelho vibrava.
— Tio Jamie, olhe! — exclamou o pequeno Ian, apontando para uma janela. — As carruagens de metal lá fora... elas têm olhos de fogo!
— São faróis, Ian — explicou Brianna, aproximando-se do primo. Ela ainda se sentia em transe, olhando para aqueles homens que pareciam ter saído diretamente das pinturas a óleo que ela estudara em Harvard. — Eles servem para iluminar o caminho à noite.
Jenny, que permanecia de braços cruzados e olhos semicerrados, soltou um estalo com a língua.
— Se as pessoas aqui precisam de olhos de fogo para enxergar no escuro, é porque perderam a visão que Deus lhes deu. Claire, você disse que Frank Randall criou esta menina?
Claire hesitou, sentindo o peso daquela pergunta. Ela olhou para Jamie, buscando permissão silenciosa.
— Sim, Jenny. Frank foi o pai que Brianna conheceu. Ele a amava muito. Mas ele sempre soube que... que o sangue dela pertencia a outro homem.
Jamie sentiu uma pontada de ciúme, um sentimento antigo e familiar, mas ele o afastou. Frank Randall estava morto. Ele, Jamie, estava ali, respirando o mesmo ar que sua filha. Ele olhou para Brianna e viu a curva exata do nariz de sua mãe, Ellen, e a determinação que ele mesmo carregava nos ombros.
— Sou grato a ele — disse Jamie, sua voz profunda ressoando pela sala. — Sou grato por ele ter mantido vocês seguras quando eu não pude. Mas agora... — Ele fez uma pausa, olhando para as próprias mãos calejadas. — Agora eu não sei o que sou neste mundo. Um fantasma que esqueceu de morrer?
— Você é meu pai — Brianna disse com uma firmeza que o surpreendeu. Ela deu um passo à frente, ignorando o protocolo que Jamie conhecia do século XVIII. — E você é um Fraser de Lallybroch. O tempo não muda isso.
Claire sorriu, as lágrimas brilhando novamente.
— Brianna tem razão. Mas temos problemas imediatos. Vocês não podem sair por aí usando kilts e carregando adagas em 1961. A polícia de Inverness teria um ataque de nervos.
— Polícia? — perguntou o jovem Jamie. — São como os Casacas Vermelhas?
— Mais ou menos, mas usam azul e não costumam atirar primeiro — respondeu Claire, tentando aliviar o clima. — Tenho algumas roupas de Frank no sótão. Ele era um homem alto, embora não tão largo quanto você, Jamie. Para Ian e os meninos, teremos que improvisar ou ir à cidade amanhã.
— Eu não vou usar as calças de um Randall — rosnou Jenny, embora houvesse menos veneno em sua voz do que o habitual. — Prefiro me enrolar em um tapete.
— Jenny, por favor — pediu Ian, colocando a mão sobre a da esposa. — Estamos em outro mundo. Se Claire diz que precisamos nos esconder à vista de todos, nós o faremos. Pense nos meninos.
Jenny olhou para os filhos e seu rosto suavizou. Ela suspirou, derrotada pela lógica e pelo cansaço.
— Está bem. Mas se eu vir um único símbolo dos Randall naquela roupa, eu a queimo no meio do seu jardim, Claire.
Claire riu e começou a organizar a logística da noite. A casa era espaçosa, mas acomodar sete pessoas que vinham de dois séculos atrás exigia criatividade. Brianna se ofereceu para ajudar a acomodar os primos, enquanto Claire levou Jamie para o andar de cima.
Ao subirem as escadas de madeira, o som dos degraus rangendo era o único som familiar para Jamie. Ele parou diante de um espelho de corpo inteiro no corredor e estancou.
— Quem é esse homem, Claire? — ele perguntou, tocando o vidro.
Claire parou ao lado dele. No reflexo, eles formavam uma imagem quase surreal: ela, com seu corte de cabelo moderno e roupas de algodão fino; ele, um guerreiro das Highlands coberto de poeira, sangue seco e história.
— É o homem que eu amo — sussurrou ela. — Apenas um pouco mais cansado e muito longe de casa.
— Eu sinto como se estivesse sonhando — confessou ele, virando-se para ela. — Tenho medo de fechar os olhos e acordar em uma cela em Ardsmuir, ou escondido em uma caverna, sentindo o cheiro de urze e desespero.
Claire envolveu a cintura dele com os braços, sentindo o calor sólido de seu corpo.
— Você não vai acordar em outro lugar. Eu prometo. Se for um sonho, estamos sonhando juntos.
Ela o conduziu até o quarto principal. Jamie olhou para a cama com lençóis brancos e macios, os abajures nas mesas de cabeceira e as fotografias nas paredes. Ele se aproximou de uma moldura de prata. Era uma foto de Brianna na formatura, ao lado de um homem de óculos e expressão gentil.
— Este era ele? — perguntou Jamie.
— Frank — confirmou Claire. — Ele foi um bom marido, Jamie. Ele me aceitou de volta quando eu estava grata por estar viva, mas morta por dentro. Ele sabia que meu coração nunca saiu da Escócia de 1743.
Jamie assentiu lentamente. Ele não sentia ódio pelo homem na fotografia. Sentia uma estranha camaradagem. Ambos haviam amado a mesma mulher impossível.
— Ele cuidou do que era meu — disse Jamie. — Eu o honrarei por isso.
Claire começou a separar as roupas para ele. Uma calça de sarja marrom, uma camisa de botões azul-clara. Jamie observava as peças como se fossem armaduras alienígenas.
— Claire... como eu vou viver aqui? Eu não sei ler esses sinais na estrada, não sei como ganhar a vida. Eu sou um ferreiro, um soldado, um proprietário de terras. O que um homem como eu faz em 1961?
Claire parou e olhou para ele, seus olhos brilhando com uma ideia.
— Você é um homem que conhece a terra, Jamie. E estamos na Escócia. Há fazendas, há cavalos... e há a universidade onde Brianna estuda. Eles dariam tudo por um homem que fala gaélico fluentemente e conhece a história dos clãs como ninguém. Mas, por enquanto, você só precisa ser Jamie. Meu Jamie.
Ela o ajudou a se despir. Quando o kilt caiu no chão, Jamie sentiu como se estivesse deixando para trás o último pedaço de sua identidade antiga. As cicatrizes em suas costas, marcas do chicote de Jack Randall, brilharam sob a luz elétrica. Claire passou os dedos por elas, um ritual de cura que nunca terminaria.
— Elas ainda doem? — ela perguntou.
— Só quando o tempo muda — ele respondeu, com um meio sorriso. — E o tempo mudou drasticamente hoje, não acha?
Depois de um banho que Jamie descreveu como "uma chuva mágica e quente dentro de uma caixa", ele vestiu as roupas de Frank. A calça estava um pouco curta e a camisa apertada nos ombros, mas ele parecia transformado. O highlander selvagem dera lugar a um homem que poderia, com algum esforço, passar por um cavalheiro moderno.
Lá embaixo, o jantar foi uma experiência caótica. Claire preparou sanduíches e serviu leite gelado. Os rapazes devoraram a comida, maravilhados com o sabor do pão branco e da mostarda. Ian e Jenny comiam com mais cautela, observando cada movimento de Brianna.
— Então, Brianna — disse Ian, limpando a boca com um guardanapo de papel que ele achou estranhamente frágil. — Você estuda o passado?
— Sim, tio Ian. Eu estudo como as pessoas viviam, como as guerras eram lutadas e como a sociedade mudou.
— E o que os livros dizem sobre nós? — perguntou o jovem Jamie, com os olhos brilhando. — Dizem que fomos heróis?
Brianna olhou para a mãe, depois para o pai.
— Dizem que vocês foram bravos. Mas os livros de história que eu li... eles diziam que quase todos os Fraser morreram em Culloden.
O silêncio caiu sobre a mesa. Jamie apertou a mão de Claire por baixo da mesa.
— Os livros estão errados — disse Jamie com firmeza. — Nós mudamos o curso do rio, Brianna. O Príncipe nunca chegou a Culloden. O exército se dispersou antes disso. A Escócia que deixamos estava ferida, mas não destruída.
— Isso é incrível — sussurrou Brianna. — Se vocês mudaram o passado, o presente que eu conheço pode ser diferente. Talvez... talvez seja por isso que vocês conseguiram passar. O tempo precisava se corrigir.
— Ou talvez — disse Jenny, levantando-se e começando a recolher os pratos, instintivamente querendo ser útil — as pedras simplesmente cansaram de ver Jamie e Claire sofrendo em séculos diferentes.
Mais tarde, quando os sobrinhos e Ian já estavam acomodados em colchões extras na sala de estar, e Jenny havia se retirado para um quarto de hóspedes (ainda resmungando sobre a maciez excessiva do colchão), Jamie e Brianna ficaram sozinhos na varanda dos fundos.
A noite estava fresca. Ao longe, as luzes de Inverness brilhavam como estrelas caídas na terra.
— Você fuma? — perguntou Brianna, oferecendo-lhe um maço de cigarros que ela escondia da mãe.
Jamie olhou para o objeto e balançou a cabeça.
— Eu prefiro meu tabaco em um cachimbo, moça. Mas obrigado.
Eles ficaram em silêncio por um longo tempo, observando a escuridão.
— Eu tive medo de você — Brianna confessou subitamente. — A vida inteira, você foi uma sombra. Um homem perfeito que minha mãe amava e que nenhum outro podia superar. Eu tinha raiva de você por não estar lá.
Jamie sentiu um aperto no peito.
— Eu sinto muito, Brianna. Se eu pudesse ter escolhido...
— Eu sei — ela o interrompeu. — Agora que vejo você aqui, eu entendo. Você não é uma sombra. Você é... você é real. E você é exatamente como ela descreveu.
Jamie virou-se para ela, a luz da lua refletida em seus cabelos ruivos.
— Eu perdi o seu primeiro choro, o seu primeiro passo, o seu primeiro dente caído. Eu perdi vinte anos da sua vida, Brianna. E isso é um fardo que eu carregarei até o fim dos meus dias. Mas se você me permitir, eu gostaria de estar presente para o resto.
Brianna sorriu, e Jamie viu nela toda a linhagem dos Fraser, a força de Lallybroch e a coragem de Claire.
— Você vai ter que aprender a dirigir um carro primeiro — ela brincou, embora houvesse emoção em sua voz. — E a não chamar todo mundo de "senhor" ou "madame". As pessoas vão achar que você é um ator de cinema.
— Ator de quê? — Jamie franziu a testa.
Brianna riu e encostou a cabeça no ombro do pai. Pela primeira vez em sua vida, ela se sentiu completa.
Dentro da casa, Claire observava os dois pela janela da cozinha. Ela sentiu uma mão em seu ombro. Era Jenny.
— Você fez bem, Claire — disse a cunhada, com uma suavidade rara. — Ela é uma Fraser, da cabeça aos pés. E você a manteve viva.
— Eu tentei, Jenny. Eu tentei todos os dias.
— Jamie está em paz — continuou Jenny, olhando para o irmão lá fora. — Eu não o via assim desde antes de Wentworth. Desde antes de tudo. Este mundo é louco, Claire. As carruagens correm sozinhas e as luzes não precisam de fogo. Mas se este é o mundo onde meu irmão pode sorrir assim, então eu acho que posso aprender a gostar dele.
Claire abraçou Jenny, uma união que teria sido impensável anos atrás. Duas mulheres fortes, unidas pelo amor a um homem e por um destino que desafiara as leis da natureza.
Naquela noite, Jamie Fraser dormiu em uma cama do século XX. Ele sonhou com campos de batalha e cavalos, mas quando acordou no meio da madrugada, assustado com o som de um avião passando alto no céu, ele sentiu o calor de Claire ao seu lado.
Ele estendeu a mão e tocou a mesa de cabeceira, encontrando um pequeno objeto que Brianna lhe deixara: um relógio de pulso. O tique-tique constante era um lembrete de que o tempo agora corria para frente, sem saltos, sem fendas nas pedras.
Jamie sorriu na escuridão. Ele era um homem fora do tempo, mas finalmente, ele tinha todo o tempo do mundo.