Jealous part 2
Genjutsu e Saltos Plataforma
O zumbido característico do pós-show ainda vibrava nas paredes de concreto do camarim. O Bad Omens havia acabado de descer do palco em uma de suas apresentações mais viscerais da turnê, e o cheiro de suor, cerveja, desodorante e adrenalina residual impregnava os corredores do backstage.
Nina caminhava com passos firmes, embora o assoalho parecesse protestar a cada impacto dos seus saltos plataforma de quase quinze centímetros. Se os saltos a colocavam em uma altura ligeiramente mais próxima da média humana, o restante de sua produção havia sido minuciosamente calculado para desestruturar qualquer resquício de sanidade masculina. O vestido de veludo preto colava-se ao seu corpo diminuto de um metro e cinquenta e cinco como uma segunda pele: as curvas latinas bem distribuídas em um quadril largo e coxas fartas contrastavam com a cintura inacreditavelmente fina. A frente ostentava um decote generoso que desafiava a gravidade, enquanto a parte de trás era um espetáculo à parte. As costas totalmente nuas exibiam, do ombro até a curva lombar, a sinuosidade imponente de um dragão oriental tatuado em linhas pretas e vermelhas, que parecia se mover a cada passada que ela dava. Os cabelos ruivos e curtos emolduravam o pescoço pálido com um corte moderno e desfiado.
Ela estava pronta para parabenizar o homem de sua vida pelo show impecável. Mas, ao empurrar a porta pesada que dava acesso à área restrita do lounge, o cenário que encontrou fez com que seus olhos verdes faíscassem instantaneamente.
O ambiente estava repleto. Jolly e Folio conversavam perto da geladeira de bebidas com algumas pessoas da equipe técnica e um pequeno grupo de garotas bem-vestidas que claramente haviam conseguido passes VIP. Porém, não eram os outros músicos que prendiam a atenção furiosa de Nina.
Era o seu namorado.
Noah Sebastian estava esparramado em um sofá de couro escuro. O vocalista de um metro e noventa e dois, cujo alcance vocal e presença de palco aterrorizavam e encantavam multidões, estava ali reduzido ao seu estado mais puro de conforto doméstico: vestindo uma bermuda preta de tecido esportivo e folgado, um moletom preto surrado com o logo da banda e, para coroar a sua essência completamente despretensiosa, meias brancas com chinelos *slider*. O cabelo castanho com a clássica franja dividida ao meio caía ligeiramente sobre o rosto de traços marcantes, misturando sua herança nativo-americana e japonesa de uma forma que Nina costumava considerar uma obra de arte.
Exceto naquele exato segundo. Porque, ajoelhada em um pufe logo à frente dos joelhos abertos de Noah, havia uma garota loira.
A menina vestia um vestido justo, tinha unhas perfeitamente esculpidas segurando a câmera do celular em modo de gravação e um sorriso meloso nos lábios.
— Por favor, Noah! Só mais um pouquinho! — pedia ela, com a voz esganiçada em falsa meiguice. — O pessoal do meu TikTok vai morrer se você não mostrar a tatuagem inteira! É o Itachi, não é? Mostra como ela fica de perto!
Noah, o maior nerd disfarçado de rockstar do planeta, não tinha um pingo de malícia ativado. Seu cérebro pós-show, ainda sob o efeito da exaustão e do amor genuíno por anime, viu naquilo apenas uma oportunidade de ouro para falar sobre cultura geek.
— É, cara, o traço é muito foda — dizia Noah, com aquela voz grave e aveludada, completamente alheio ao ângulo que a garota estava filmando. Ele puxou a barra da bermuda preta para cima com as mãos calejadas, subindo o tecido quase até a virilha para exibir a coxa maciça e definida por anos de treinos de jiu-jitsu. — O tatuador pegou a referência certinha do mangá, tá vendo? Aqui na dobra tem os corvos, e o Mangekyō Sharingan dele tem um sombreamento bem detalhado...
A garota aproximou o celular perigosamente da pele pálida da coxa do vocalista, soltando um suspiro fingido de fascínio.
— Nossa... é tão grande... e tão detalhado... — murmurou ela, focando a câmera muito mais na musculatura da perna dele do que no próprio personagem de Naruto.
Parada no batente da porta, Nina sentiu o sangue ferver. A fúria inicial transformou-se rapidamente em um cálculo frio. Fazer um escândalo? Gritar? Puxar o microfone e armar um barraco de reality show? Não. Nina era mulher demais para se rebaixar a disputas baratas. Se aquela garotinha achava que um celular na cara e um sorriso forçado eram armas pesadas, ela estava prestes a tomar uma lição sobre artilharia pesada.
Noah estava tão compenetrado explicando a linhagem do clã Uchiha que não viu a namorada se aproximar. Mas Jolly viu. E quase engasgou com a cerveja. O guitarrista cutucou Folio com o cotovelo, e os dois imediatamente recuaram dois passos, assistindo de camarote à tempestade que se aproximava com passos milimetricamente ritmados.
*Toc. Toc. Toc.*
O som seco do salto plataforma no chão calou momentaneamente as conversas laterais. Nina não acelerou. Ela deslizou pelo tapete, com o quadril balançando em um compasso hipnótico. Quando passou pela garota loira, mal olhou para baixo, agindo como se a criatura fosse meramente um tapete decorativo.
— Amor? — a voz de Nina saiu baixa, aveludada, carregada de um sotaque denso e uma sensualidade tão cortante que o ar da sala pareceu perder alguns graus.
Noah travou no mesmo instante. A palavra "Sharingan" morreu no fundo de sua garganta.
Ele levantou a cabeça devagar, ainda com a mão segurando a barra da bermuda no alto da coxa. Seus olhos castanhos, amendoados e expressivos, encontraram Nina parada bem diante dele, entre suas pernas entreabertas.
O cérebro do vocalista simplesmente parou de funcionar. *Erro 404: Sistema Operacional Indisponível.*
O olhar de Noah desceu pelo pescoço impecável dela, bateu no decote escandaloso que deixava quase nada para a imaginação e desceu para a saia inacreditavelmente curta que abraçava as curvas que ele conhecia de cor. O homem engoliu em seco, com o pomo de adão saltando de forma visível.
— N-Nina... — balbuciou ele, soltando a bermuda de repente como se o tecido tivesse entrado em chamas.
— Desculpe interromper a sua palestra sobre ninjas, lindo — disse ela, abrindo um sorriso deslumbrante, cheio de dentes perfeitamente alinhados e puro veneno disfarçado de doçura.
Nina deu mais um passo à frente, invadindo completamente o espaço pessoal dele. Com extrema lentidão, ela se inclinou para a frente. O movimento fez com que o decote ficasse a poucos centímetros dos olhos arregalados de Noah. Ela apoiou uma das mãos delicadas no peito dele, sentindo o coração do homem bater feito uma britadeira sob o tecido do moletom.
— Você foi brilhante no palco hoje — sussurrou ela, perto o suficiente para que o perfume de baunilha e jasmim entorpecesse os sentidos dele. — Eu fiquei tão orgulhosa... assisti tudo ali do cantinho. Mas você parece tão cansado agora...
Noah piscou, sentindo o calor subir do pescoço até as pontas das orelhas. As bochechas dele assumiram um tom avermelhado gritante, contrastando com sua postura habitual de roqueiro inabalável.
— E-eu... obrigado, amor. Você... uau. Você tá... — Ele gesticulou no ar, incapaz de formular uma frase completa. Os lábios grossos entreabertos tremiam levemente.
A garota loira, ainda agachada no chão ao lado, limpou a garganta, desconfortável com a súbita perda de protagonismo.
— Ahn... Noah? Você ia terminar de mostrar a parte de trás da tatuagem...?
Nina finalmente dignou-se a olhar para baixo. Lentamente. Ela não desfez a curva doce dos lábios, mas o olhar que lançou à garota continha a frieza de uma nevasca siberiana.
— Ele adoraria, querida — disse Nina, mantendo o tom suave —, mas o Noah é um homem ocupado. E, bem, ele geralmente só mostra o resto da perna... e tudo que vem acima dela... em particular. Para mim. No nosso quarto de hotel.
A menina empalideceu. O celular começou a baixar devagar.
— Ah... você é a...
— A namorada dele — completou Nina, antes de se virar de costas para a menina com uma elegância letal. Ao fazer o giro sobre os saltos altíssimos, o vestido revelou toda a extensão da tatuagem do dragão japonês, desenhado em curvas perfeitas ao longo de sua espinha até sumir perigosamente perto da curva dos glúteos.
Jolly cobriu a boca no fundo da sala para abafar uma gargalhada histérica. Folio apenas balançou a cabeça, sussurrando um "estamos em um funeral" que quase ecoou.
A garota loira percebeu que a humilhação estava prestes a se tornar um meme mundial caso continuasse ali. Ela se levantou tropeçando nas próprias pernas, murmurou um "com licença" inaudível e sumiu em direção à saída mais próxima, guardando o aparelho no bolso traseiro como se ele queimasse suas mãos.
No momento em que a porta bateu, Nina desfez a postura teatral e cruzou os braços sobre o peito, encarando o gigante sentado no sofá.
— Então quer dizer que você agora virou modelo de coxa no TikTok, Sebastian? — arqueou ela uma sobrancelha ruiva, o tom misturando sarcasmo genuíno e uma pontada divertida de ciúmes.
Noah ainda parecia estar se recuperando de um choque anafilático. Seus olhos iam do rosto de Nina para o dragão em suas costas e, inevitavelmente, desciam para o decote. Ele passou as duas mãos pelo rosto, puxando a franja para trás em um gesto de puro desespero.
— Nina, pelo amor de Deus, eu só tava falando do Itachi! — defendeu-se ele, a voz saindo uma oitava mais aguda do que o normal. — A garota disse que curtia Naruto, como eu ia adivinhar que ela tava filmando... sei lá o que ela tava filmando?! Eu nem reparei!
— Você subiu a bermuda até a virilha, Noah! Quase mostrou a árvore genealógica inteira do clã Uchiha junto com o resto do pacote!
— Eu sou inocente! — protestou o homem de um metro e noventa e dois, encolhendo os ombros largos como se fosse um menino de dez anos pego roubando biscoitos. — Eu sou apenas um nerd focado na arte da tatuagem!
Nina deu um passo à frente, o sorriso provocador voltando aos seus lábios. Ela colocou uma das mãos na cintura e arqueou o quadril.
— Ah, é? Um nerd inocente? Então levanta aí pra gente ir embora pro hotel. Minhas costas estão doendo desse salto.
Noah arregalou os olhos. Um pânico genuíno atravessou suas feições.
— Quê? Não!
— Não o quê? — Ela franziu a testa, dando mais um passo. — Vamos logo, Noah. O carro já tá esperando.
— Não posso.
— Como assim "não posso"? Levanta desse sofá agora.
— Eu não posso levantar, Nina! — gritou ele em um sussurro aflito, olhando para os lados para garantir que o restante da equipe não estava prestando atenção direta neles — embora Jolly estivesse muito ocupado fingindo limpar um copo enquanto observava cada segundo da desgraça do amigo.
— E por que cargas d'água você não pode levantar, homem?
Noah olhou para ela com uma mistura de adoração desesperada, vergonha profunda e luxúria mal contida. Seus olhos castanhos imploravam por misericórdia. Com um movimento sutil e constrangido, ele puxou a barra do moletom largo para baixo com as duas mãos e, em seguida, agarrou uma almofada decorativa de veludo cinza do sofá, prensando-a com força sobre o próprio colo.
Nina parou. Olhou para o moletom esticado. Olhou para a almofada posicionada estrategicamente sobre a bermuda esportiva preta.
E então ela entendeu.
O tecido fino de poliéster da bermuda de basquete não era exatamente conhecido por sua capacidade de conter a anatomia masculina quando esta decidia se manifestar com entusiasmo excessivo. E a visão de Nina naquele vestido, debruçada sobre ele com perfume de baunilha e promessas tácitas, havia causado uma reação fisiológica devastadora e instantânea no vocalista.
Um silêncio de três segundos pairou entre eles, quebrado apenas pela risada abafada e involuntária que escapou da garganta de Nina.
— Noah... — ela tapou a boca com as mãos, rindo até os olhos lacrimejarem. — Não me diga que você...
— Você não tem vergonha na cara, Nina? — sibilou ele, o rosto agora vermelho como uma pimenta madura, enquanto ele afundava a almofada ainda mais contra a pélvis para camuflar a protuberância constrangedora. — Você entra aqui parecendo uma deusa do apocalipse, joga esse decote na minha cara, esfrega essas costas tatuadas na frente de todo mundo e espera que meu corpo reaja como? Com meditação zen? Eu sou de carne e osso, porra!
— Você é ridículo! — riu ela, aproximando-se e se sentando na beirada do sofá, bem ao lado dele.
— Eu sou um homem arruinado, isso sim — resmungou Noah, respirando fundo e fechando os olhos na tentativa desesperada de recitar mentalmente tabelas periódicas, nomes de lutadores do UFC ou qualquer coisa que fizesse seu sangue circular em direções opostas ao seu quadril. — Pensa em coisas chatas, Noah... Pensa em imposto de renda. Planilhas do Excel. Pneus furados...
Nina apoiou o queixo no ombro dele, a boca encostando na curva do pescoço onde começava uma das tatuagens de flores pretas que cobriam o braço do cantor.
— E aí? O imposto de renda tá funcionando? — provocou ela, soprando suavemente a pele sensível atrás da orelha dele.
Noah soltou um gemido sôfrego, jogando a cabeça para trás no encosto do sofá.
— Você é sádica. Absolutamente perversa. Jolly tá olhando, Folio tá olhando... eu nunca mais vou ter respeito nessa banda.
— Ah, como se você tivesse muito respeito usando essas meias com slider — ela zombou, batendo de leve com a ponta do salto na borracha do calçado dele.
Noah abriu um dos olhos, fixando-o na namorada. Apesar da aflição cômica em que se encontrava, a intensidade do carinho que sentia transparecia em cada traço. Ele esticou um dos braços pesados e puxou Nina para mais perto, acomodando-a contra o seu lado, sem abrir mão da almofada salvadora com a outra mão.
— Você ficou com ciúmes da menina do TikTok — acusou ele, com um sorrisinho vitorioso finalmente quebrando sua expressão de vergonha.
— Eu não fico com ciúmes, Sebastian. Eu apenas marco território e elimino pragas — respondeu ela com altivez, aninhando a cabeça no peito dele e inspirando o cheiro familiar que tanto amava. — E você facilitou demais pro lado dela. Mostrando a coxa daquele jeito...
— Ela pediu pra ver o Itachi! — rebateu ele, indignado. — Nenhum homem de respeito nega uma oportunidade de falar bem do arco do Massacre dos Uchiha. É uma questão de honra ninja.
— Da próxima vez que você quiser falar de honra ninja mostrando as pernas, Noah, eu vou fazer você usar calça jeans até no calor de quarenta graus.
— Sim, senhora — concordou ele, abaixando a cabeça para deixar um beijo carinhoso no topo da cabeça ruiva de Nina, aspirando o perfume dos cabelos dela. O tom de brincadeira deu lugar a uma sinceridade quase desarmante. — Mas sério... você tá inacreditável nesse vestido. Linda pra caralho. Me deixou completamente idiota. Mais do que o normal.
Nina sorriu contra o tecido do moletom dele, sentindo o calor do corpo grande que a envolvia. A raiva boba havia desaparecido por completo, dando espaço apenas àquela cumplicidade gostosa e caótica que os unia.
— Eu sei — disse ela, com a modéstia que lhe era peculiar. — Foi pra isso mesmo que eu coloquei.
— Funcionou. Até demais — lamentou Noah, olhando com desânimo para a almofada em seu colo. — E agora a gente vai ter que morar nesse camarim pelas próximas três horas até esse efeito passar.
Nina deu uma risadinha gostosa, erguendo o rosto para encarar os traços marcantes do namorado, tocando a linha fina de sua mandíbula com as unhas vermelhas.
— Bom... a gente pode tentar acelerar esse processo lá no hotel — sussurrou ela, com uma piscadela travessa. — Mas só se você prometer que não vai falar de Naruto por pelo menos uma noite inteira.
Noah arregalou os olhos, um sorriso largo e repentinamente cheio de energia iluminando seu rosto. Ele olhou para Nina, depois para a saída do camarim, como se estivesse calculando mentalmente a física quântica necessária para atravessar o corredor sem expor sua condição deplorável.
— Trato feito — disse ele, levantando-se em um salto surpreendente, mas mantendo a almofada firmemente prensada na frente da cintura como se fosse uma pasta executiva de extrema importância. — Jolly! Pega minha mochila! A gente tá indo embora agora!
Folio e Jolly caíram na gargalhada do outro lado da sala, mas Noah nem se importou. Ele estendeu a mão livre para Nina, que se apoiou nele para equilibrar os saltos impossíveis.
Enquanto caminhavam em direção à saída — ele meio encurvado e com a almofada colada ao umbigo, ela desfilando como uma rainha —, Nina não conseguiu conter o sorriso de pura satisfação. Talvez a garota do TikTok tivesse conseguido uma foto do Itachi, mas quem estava levando o vocalista e todo o seu clã para casa era ela.