Jinbe e Chopper
O Peso do Amor e a Firmeza da Alma
A tarde no Thousand Sunny havia se transformado em um crepúsculo tingido de tons rosados e violetas. O mar, após a fúria da tempestade matinal, agora se comportava como um espelho líquido, refletindo a paz que se instalara no convés. Chopper, ainda deitado sob a massa imponente de Jinbe, sentia o ritmo cardíaco do homem-peixe. Era uma batida lenta, poderosa e constante, como o motor de um grande navio que nunca se cansa.
— Jinbe? — a voz de Chopper saiu abafada, mas carregada de uma curiosidade serena.
— Diga, pequeno — respondeu o timoneiro, sem se mover um centímetro, mantendo sua pressão firme e protetora sobre a rena.
— Por que você gosta tanto de ser o meu "pai"? — Chopper sentiu o corpo de Jinbe vibrar com uma risada silenciosa. — Quero dizer, você é um herói, um ex-Shichibukai... você podia estar descansando ou treinando, mas gasta seu tempo sentado em cima de mim para me ensinar coisas.
Jinbe abriu os olhos e olhou para o horizonte, onde a primeira estrela da noite começava a piscar.
— No mar, Chopper, a força de um guerreiro não é medida apenas pelos seus golpes de Karatê Homem-Peixe — ele fez uma pausa, ajustando levemente seu peso para garantir que Chopper estivesse confortável na grama. — A verdadeira força está naquilo que ele deixa para trás, no que ele planta no coração dos mais jovens. Eu vi muitos amigos partirem cedo demais. Vi o peso do ódio esmagar povos inteiros. Quando olho para você, vejo a esperança que o Dr. Hiluluk e a Rainha Otohime tanto buscavam.
Chopper sentiu um nó na garganta. Ele não conseguia ver o rosto de Jinbe, mas sentia o amor transbordando em cada palavra.
— Então — continuou Chopper —, esse castigo... é a sua forma de me manter seguro?
— É a minha forma de dizer que você nunca está sozinho — afirmou Jinbe. — Quando eu sento sobre você, estou transferindo um pouco da minha estabilidade. Quero que, quando eu não estiver por perto, você se lembre da sensação de ser inabalável.
De repente, um som metálico ecoou vindo da cozinha. Sanji estava limpando as panelas após o jantar, e o cheiro de chá de ervas começou a flutuar pelo convés. Jinbe se espreguiçou lentamente, aliviando o peso e permitindo que Chopper rolasse para o lado.
— Acho que nossa sessão de "âncora" por hoje terminou — disse Jinbe, levantando-se com a graça de um gigante gentil. — Mas olhe só, suas pernas nem estão tremendo desta vez.
Chopper levantou-se de um salto, transformando-se em sua forma híbrida. Ele deu alguns socos no ar, testando sua energia.
— Eu me sinto incrível! — exclamou ele. — Jinbe, você é o melhor professor de todos!
— Ora, ora, o que temos aqui? — a voz de Robin surgiu das sombras da biblioteca. Ela caminhava com elegância, segurando um livro sob o braço. — Parece que o pequeno doutor passou por um treinamento intensivo.
— Robin! — Chopper correu até ela, as orelhas balançando. — O Jinbe estava me ensinando a ser uma âncora! Ele sentou em cima de mim e eu nem reclamei!
Robin soltou uma risadinha melodiosa, olhando para Jinbe com um olhar de compreensão.
— Um método de ensino bastante... literal, Jinbe-san — comentou ela, com um sorriso enigmático. — Mas parece que o resultado foi excelente. Chopper parece ter crescido alguns centímetros em confiança.
— Às vezes — disse Jinbe, cruzando os braços —, as lições mais pesadas são as que nos deixam mais leves no final.
— Falando em peso — disse Robin, aproximando-se de Chopper e fazendo carinho em seu chapéu —, Sanji preparou um bolo de chocolate especial para quem ajudou na enfermaria durante a tempestade. E ele disse que, se o médico não aparecer logo, o capitão vai dar um jeito de "desaparecer" com os pedaços extras.
— O bolo! — gritou Chopper, o pânico cômico voltando instantaneamente. — Eu esqueci do bolo! Jinbe, vamos!
Chopper saiu em disparada em direção à cozinha, mas parou na porta e olhou para trás. Jinbe ainda estava parado no mesmo lugar, observando-o com aquele olhar calmo.
— Você não vem, Jinbe? — perguntou Chopper.
— Vá na frente, pequeno. Eu vou apreciar o vento por mais alguns minutos.
Chopper sorriu, acenou com a pata e entrou na cozinha, onde os gritos de Luffy e as broncas de Sanji já podiam ser ouvidos.
Jinbe ficou sozinho no convés por um momento. Ele olhou para as próprias mãos, as mãos que já haviam derrubado exércitos, e depois para o lugar na grama onde Chopper estivera deitado. Ele sentia uma satisfação profunda. Ser um pirata do Chapéu de Palha era um destino imprevisível, mas ser o pilar de uma criatura tão pura quanto Chopper era a sua maior honraria.
No entanto, a paz durou pouco. Um vulto passou correndo por ele. Era Usopp, fugindo de um Luffy faminto que achava que o nariz do atirador parecia uma salsicha no escuro.
— Jinbe! Ajuda! — gritou Usopp, escondendo-se atrás das pernas do homem-peixe.
— Luffy-kun, por favor — disse Jinbe, interceptando o capitão com um braço estendido. — O jantar já acabou.
— Mas eu ainda tenho um buraco aqui! — Luffy apontou para a barriga, que roncava como um trovão. — Jinbe, você é grande! Você deve ter guardado algum lanche escondido!
Jinbe suspirou, mas o brilho divertido voltou aos seus olhos. Ele olhou para Luffy e depois para Usopp, que ainda tremia atrás dele.
— Luffy, se você não se acalmar e parar de perseguir seus companheiros, terei que aplicar em você o mesmo castigo que dei ao Chopper.
Luffy parou na hora, inclinando a cabeça para o lado, curioso.
— O castigo da sentada? — perguntou Luffy, abrindo um sorriso enorme. — Mas eu sou de borracha, Jinbe! Eu ia adorar ser esmagado por você! Ia ser como um pula-pula!
Jinbe piscou, processando a lógica impecável do seu capitão. Ele soltou uma gargalhada tão alta que Sanji apareceu na janela da cozinha para ver o que estava acontecendo.
— É verdade — disse Jinbe, rindo. — Com você, o peso não funcionaria da mesma forma. Mas talvez o Chopper possa te ensinar uma coisa ou duas sobre como ser uma âncora.
— Eu ouvi meu nome! — Chopper apareceu na porta da cozinha, com o rosto sujo de chocolate. — Luffy, se você quiser aprender, tem que ficar bem quietinho na grama!
— Eu quero! Eu quero! — Luffy correu para o centro do convés e se jogou no chão. — Vai, Jinbe! Senta! Faz o peso da montanha!
Jinbe olhou para Chopper, que agora estava ao seu lado, observando a cena com uma mistura de orgulho e diversão.
— O que você acha, doutor? — perguntou Jinbe. — O capitão está pronto para a lição?
Chopper colocou as patinhas na cintura, imitando a postura séria de Jinbe.
— Hum... — ele analisou Luffy no chão. — Acho que ele precisa de pelo menos dez vezes o peso que você usou em mim. Ele é muito agitado!
— Dez vezes? — Jinbe fingiu preocupação. — Acho que vou precisar de um lanche extra antes de tentar isso.
O resto da noite no Thousand Sunny foi preenchido por risadas e brincadeiras. Luffy tentava, sem sucesso, ficar parado por mais de dez segundos, enquanto Jinbe fingia que ia se sentar, apenas para fazer cócegas no capitão. Chopper, agora sentindo-se o "monitor" do treinamento, dava instruções sérias que ninguém seguia, mas que enchiam seu coração de alegria.
Quando a lua atingiu o ponto mais alto do céu, o cansaço finalmente venceu a tripulação. Luffy adormeceu ali mesmo no convés, enrolado como uma bola de borracha. Usopp e Brook foram para seus quartos, e Sanji terminou de organizar a cozinha.
Jinbe pegou Luffy nos braços com a facilidade de quem carrega uma pluma e o levou para dentro. Chopper o seguiu, caminhando ao lado do gigante azul.
— Jinbe — sussurrou Chopper, enquanto subiam as escadas. — Obrigado por hoje. Por tudo.
— Não precisa agradecer, Chopper — respondeu Jinbe, sua voz soando como uma canção de ninar. — Como eu disse, o peso é dividido entre nós. Hoje eu te segurei no chão, mas amanhã, você pode ser quem vai me segurar quando o mar ficar revolto demais.
Chopper sorriu, sentindo uma onda de calor percorrer seu corpo. Ele não era mais apenas a pequena rena que tinha medo de tudo. Ele era o médico dos Chapéu de Palha, o aprendiz do Cavaleiro do Mar, e o filho de um gigante que o ensinara que o maior peso que alguém pode carregar é, na verdade, o amor que sente pelos seus amigos.
Ao chegar no dormitório, Chopper subiu em sua rede e observou Jinbe colocar Luffy na cama ao lado. O homem-peixe deu um último aceno antes de sair para sua vigília noturna no leme.
— Boa noite, papai Jinbe — murmurou Chopper, fechando os olhos.
Lá fora, o timoneiro parou por um segundo ao ouvir o sussurro. Ele olhou para as estrelas, sentindo o peso suave do navio sob seus pés e a responsabilidade imensa de proteger cada uma daquelas vidas. Ele sorriu para a escuridão, sentindo-se o homem mais afortunado de todos os oceanos.
— Boa noite, meu filho — respondeu Jinbe ao vento, sabendo que, no Thousand Sunny, ninguém jamais carregaria um fardo sozinho.
E assim, sob a proteção da lua e a vigília constante do gigante azul, o pequeno médico dormiu o sono dos justos, sonhando com montanhas, âncoras e um mar que, por maior que fosse, nunca seria mais profundo do que o laço que os unia.