Jinbe e Chopper
O Calor de um Porto Seguro
— O banquete digno de um capitão da medicina — completou Jinbe com solenidade teatral, inclinando a cabeça enorme com todo o respeito fingido que conseguiu reunir. — Espero que esteja de acordo com os rigorosos padrões do nosso ilustre doutor.
Chopper olhou para o prato de biscoitos dourados, decorados com confeitos coloridos, e depois para o copo de leite que exalava o aroma doce de baunilha e canela. Seus olhos castanhos brilharam como duas joias reluzentes. As pequenas patas em forma de casco agarraram um biscoito em forma de estrela antes mesmo que ele pudesse pensar em manter qualquer postura profissional.
— Uaaau! O Sanji colocou aquele açúcar crocante por cima! — exclamou a rena, dando uma mordida generosa que encheu suas bochechas de farelos. Ele mastigou com uma expressão de puro êxtase, balançando as perninhas curtas no ar enquanto estava sentado na cadeira alta. — Está incrível! Uma delícia!
Jinbe puxou uma das cadeiras pesadas da cozinha, que pareceu uma miniatura sob sua estrutura formidável, e sentou-se diante do pequeno médico. Ele levou a xícara fumegante de chá verde aos lábios, soprando de leve o vapor antes de tomar um gole vagaroso. Um sorriso calmo e perspicaz dançava no canto de sua boca azulada.
— Fico aliviado — comentou o timoneiro, arqueando uma sobrancelha grossa com fingida preocupação. — Estava temendo que a terrível ferocidade do grande monstro dos mares rejeitasse um alimento tão delicado. Pensei que você preferiria mastigar espadas ou engolir rochas, como convém a um pirata implacável.
Chopper parou de mastigar por um instante. O focinho azul estremeceu, e o rubor escalou furiosamente por baixo da sua pelagem castanha clara até a ponta das orelhas peludas. Ele tentou franzir a testa em uma carranca intimidadora, mas a boca cheia de biscoito e a felicidade evidente em seu rostinho tornavam qualquer tentativa de parecer perigoso completamente inútil.
— Jinbe! — protestou Chopper, apontando a metade restante do biscoito de estrela para o peito maciço do timoneiro. — Pare de falar essas coisas! Eu sou perigoso sim quando preciso! O meu Monster Point pode derrubar edifícios inteiros, sabia?!
— É verdade, ouvi boatos estarrecedores sobre isso — respondeu Jinbe, assentindo com gravidade cômica. Ele esticou um dos seus dedos gigantescos com membranas e, com uma delicadeza quase milagrosa para o seu tamanho, limpou uma migalha presa no queixo felpudo da rena. — No entanto, neste exato momento, o grande monstro tem farelos no nariz e bigodinhos de leite. Se a Marinha visse esta cena, aumentaria sua recompensa para pelo menos cem berries a mais.
— Cem berries não é nada, seu bobo! — gritou Chopper, balançando a cabeça de um lado para o outro na sua dança envergonhada inconfundível, incapaz de conter o sorriso que rasgava seu focinho. — Dizer que eu sou perigoso não vai fazer eu te dar nenhum pedaço, seu peixão intrometido! Fica na sua!
— Wahahaha! — A risada retumbante de Jinbe sacudiu as panelas penduradas sobre o fogão, um som acolhedor que parecia afastar qualquer resquício de solidão daquele navio imenso. — Não se preocupe, meu pequeno. Minha cota de açúcar já foi preenchida só de ver essa sua carinha rechonchuda.
Chopper bufou, tentando esconder o rosto corado atrás da caneca de leite. Ele bebeu o líquido morno em longos goles gulosos, deixando uma marca branca perfeita ao redor da boca. Quando terminou, suspirou de barriga cheia, batendo os pequenos cascos na madeira da mesa.
— O que nós vamos fazer agora? — perguntou Chopper, inclinando a cabeça e olhando para o homem-peixe com genuína curiosidade infantil. — Quatro dias é muito tempo. A Nami disse que se o Sunny sofrer um único arranhão, ela vai cobrar cem mil berries de cada um de nós... e ela parecia falar muito sério.
— A navegadora sempre fala muito sério quando o assunto envolve dinheiro — Jinbe riu baixo, levantando-se e recolhendo a louça vazia com movimentos pacientes. — Mas o mar nesta enseada está em repouso absoluto. A maré não deve subir até o anoitecer, e não há nuvens de tempestade no horizonte. Acho que podemos nos dar ao luxo de patrulhar o convés enquanto tomamos um pouco de ar fresco. O que me diz, doutor?
— Sim! — Chopper ergueu os braços com entusiasmo. — Como médico de bordo, recomendo pelo menos trinta minutos diários de exposição à luz solar para sintetizar a vitamina D!
— Então suas ordens médicas serão cumpridas à risca — anuiu Jinbe, curvando-se para recolher o pequeno nos braços com a mesma naturalidade de um pai carregando seu bebê recém-nascido.
— Ei, eu sei andar! — Chopper tentou reclamar por mera formalidade, mas não ofereceu nenhuma resistência real quando foi aconchegado com firmeza contra o peito amplo do timoneiro.
— É claro que sabe — respondeu Jinbe, depositando um beijo sonoro e estalado na bochecha redonda da rena, arrancando outro guincho envergonhado do pequeno. — Mas carregar o nosso médico é uma tarefa honrosa demais para eu deixar passar. Considere isso parte do meu treinamento diário de força.
— Você é muito chato, Jinbe... — resmungou a rena, enfiando o focinho na curva do pescoço largo do homem-peixe para esconder a vergonha imensa, embora suas mãozinhas peludas segurassem a gola do quimono azul com força possessiva e carinhosa.
Ao saírem para o convés, a brisa marinha acariciou a pelugem de Chopper com frescor revigorante. O sol da manhã banhava a grama do Thousand Sunny com uma tonalidade verde esmeralda deslumbrante. As velas estavam recolhidas com esmero, e o único som audível era o suave marulhar das ondas quebrando brandamente contra o casco de madeira resistente do navio.
Jinbe caminhou sem pressa até a sombra fresca projetada pelo mastro principal. Com a agilidade serena que só os gigantes do mar possuíam, ele deslizou para o chão, sentando-se de pernas cruzadas sobre o gramado macio. Sua silhueta imensa formava uma barreira protetora perfeita contra o vento mais forte que começava a soprar da costa.
Chopper, ainda acomodado com segurança nos braços do timoneiro, espreguiçou-se como um filhote de gato preguiçoso antes de ser depositado gentilmente sobre a relva.
— Bem — disse Chopper, tentando restabelecer sua dignidade de médico experiente —, eu pretendia organizar as ervas medicinais que colhemos na última ilha. Algumas raízes precisam secar à sombra antes de serem maceradas no pilão...
— Ah, compreendo perfeitamente — interrompeu Jinbe, recostando as costas largas e tatuadas contra o mastro e cruzando os braços com um olhar divertido. — Uma tarefa de suma importância nacional. Certamente um guerreiro tão incansável não teria tempo para se deitar ao sol e descansar a mente, não é verdade? Deixar o velho Jinbe aqui sozinho seria o mais correto.
Chopper parou a meio caminho da porta da enfermaria, os ouvidos alertas em pé. Ele olhou para Jinbe, que agora fechava os olhos e parecia incrivelmente confortável, com a respiração compassada e profunda. O abdômen largo do homem-peixe, suave e arredondado sob a faixa escura do quimono, subia e descia em um ritmo quase hipnótico.
A pequena rena hesitou, alternando o olhar entre a responsabilidade e o conforto supremo que aquela cena oferecia.
— As ervas... elas podem secar mais tarde — murmurou Chopper, com os olhos brilhando em expectativa.
— Tem certeza? — Jinbe perguntou sem abrir os olhos, mantendo um tom solene que mal disfarçava a ironia afetuosa. — Não quero ser o responsável pela ruína da medicina mundial. Disseram que o doutor Chopper nunca procrastina suas obrigações.
— Jinbe! Você está fazendo de propósito de novo! — Chopper correu desajeitadamente pela grama, tropeçando nas próprias patinhas até se jogar contra a lateral do homem-peixe.
Jinbe soltou uma risada profunda, abrindo um olho amarelo brilhante com afeto puro.
— Wahahaha! Venha cá, criaturinha apressada.
Com um único movimento firme e seguro, Jinbe passou a mão por baixo do corpinho de Chopper e o ergueu, deitando a rena diretamente sobre sua barriga macia e espaçosa. Chopper acomodou-se instantaneamente, como se aquele fosse o lugar mais natural do mundo para ele estar. O peso da rena era quase imperceptível para o timoneiro, mas para Chopper, a sensação era a de estar deitado sobre uma montanha viva, quente e inabalável, que o protegia de tudo o que pudesse ser hostil no vasto oceano.
— Você é muito macio, Jinbe — murmurou Chopper, enterrando o rosto no tecido do quimono e soltando um suspiro longo e satisfeito.
— E você é muito leve, filhote. Parece uma nuvenzinha de algodão-doce que fugiu de Whole Cake — respondeu Jinbe, rindo baixinho.
— Não sou algodão-doce! Eu sou carne e osso! — protestou Chopper fracamente, sem fazer o menor esforço para sair dali.
— Se você diz, terei que acreditar — disse o homem-peixe.
A mão gigantesca de Jinbe, cujos nós dos dedos eram marcados por incontáveis batalhas e socos de Karatê Homem-Peixe capazes de perfurar aço, repousou no topo da cabeça de Chopper. Com movimentos lentos e infinitamente cuidadosos, as pontas grossas dos seus dedos começaram a acariciar a pelugem macia, descendo suavemente até a base das orelhinhas da rena.
Chopper soltou um murmúrio quase inaudível de deleite. Suas orelhas se abaixaram sozinhas, e sua patinha traseira começou a tremer em espasmos involuntários de puro prazer reflexo quando Jinbe encontrou exatamente aquele pontinho sensível atrás de sua orelha esquerda.
— Isso é golpe baixo... — balbuciou Chopper, os olhos ficando pesados e semicerrados. — Você sabe que eu não resisto a cafuné atrás da orelha... é contra a ética médica me desarmar assim...
— Ah, o grande e temível monstro tem um ponto fraco tão simples? — provocou Jinbe em um sussurro rouco, sem interromper o carinho rítmico. — Que descuido imperdoável para um membro da pior geração. Devo registrar isso no diário de bordo do Sunny: "O médico capitulou perante um simples carinho na cabeça".
— Eu não capitulei... só estou... analisando a eficácia terapêutica da massagem craniana... — Chopper bocejou longamente, esticando as patinhas curtas para a frente e afundando ainda mais na barriga acolhedora de Jinbe.
— Claro, doutor. Análise puramente científica — Jinbe sorriu com ternura infinita. Ele abaixou a cabeça enorme e depositou outro beijo carinhoso bem no topo da testa peluda de Chopper, entre os pequenos chifres de rena. — Durma um pouco, Tony. Você cuida de todos nós com tanto zelo todos os dias... Hoje é o dia em que alguém cuida de você.
As palavras de Jinbe desceram como um bálsamo quente sobre o coração da pequena rena. Desde que havia saído de Drum, Chopper encontrara no bando uma família incomparável, irmãos barulhentos que dariam a vida por ele. Mas com Jinbe, a dinâmica era diferente. Havia uma serenidade antiga, uma sabedoria paciente e uma proteção paternal que faziam Chopper se sentir verdadeiramente como o caçula querido, livre para baixar a guarda por completo e ser apenas uma criança bem cuidada.
— Jinbe? — chamou Chopper em voz baixa, quase cedendo ao sono profundo.
— Diga, meu filho.
— Você vai me contar uma história do fundo do mar? Antes de eu dormir totalmente?
Jinbe ajeitou a mão grande sobre as costas de Chopper, cobrindo o corpinho do médico com o calor reconfortante de sua palma para garantir que nenhuma brisa fria o incomodasse.
— Conto, com muito prazer — respondeu Jinbe, ajustando a voz para um tom cadenciado e musical, como o eco profundo das canções que as baleias entoavam nas fossas oceânicas. — Há muito tempo, nas profundezas onde a luz do sol nunca alcança diretamente, existia uma árvore imensa de raízes brilhantes chamada Luz Solar Eva. Ela trazia o calor dos céus para os seres que viviam nas trevas do abismo...
Chopper ouvia a voz grave vibrar diretamente na caixa torácica de Jinbe, um som que ressoava em seus próprios ossinhos como um acalanto poderoso. Ele fechou os olhos completamente, sentindo o cheiro de maresia e sabão, sentindo o calor constante sob seu corpo e o toque suave dos dedos calejados desenhando círculos delicados em sua pelugem.
— ...e diziam os velhos sábios — continuou Jinbe suavemente — que mesmo nas correntes mais perigosas da Grand Line, qualquer tempestade se acalma quando o coração encontra um porto seguro.
Chopper não respondeu com palavras. Um ronco miúdo e ritmado começou a escapar do focinho azul, acompanhado de um sorriso sereno estampado em seu rosto adormecido. Ele abraçou a lateral do quimono de Jinbe com as duas patinhas, completamente entregue à segurança daquele abraço maciço.
Jinbe olhou para a pequena rena descansando sobre seu peito e seus olhos se encheram de um carinho indescritível. Aquele mundo lá fora era cruel, repleto de marinheiros implacáveis, imperadores vorazes e ódios históricos difíceis de apagar. Jinbe havia sangrado em incontáveis guerras para tentar mudar o destino da sua gente. Mas ali, naquele gramado ensolarado, vendo o sono em paz daquele filhote que o escolhera como figura paterna, Jinbe sabia exatamente pelo que continuava lutando.
O timoneiro inclinou-se com cuidado supremo para não acordá-lo, descansando o queixo pesado suavemente no chapéu macio de Chopper. Ele puxou a borda do próprio quimono largo para cobrir as patinhas da rena, protegendo-o da sombra crescente do mastro.
— Bons sonhos, meu bravinho — sussurrou Jinbe, fechando os olhos sob a carícia do sol da tarde. — O papai está aqui para vigiar o leme.
E assim, sob o céu azul e infinito que acolhia o Thousand Sunny, o gigante dos mares e a pequena rena permaneceram abraçados, navegando juntos pela calmaria mais doce e calorosa que o oceano jamais poderia proporcionar.