Jogadas do Coração
O Controle e o Caos
O gelo da banheira parecia queimar a minha pele, mas a verdadeira queimação estava em outro lugar, bem no centro do meu peito. Eu estava submerso até a cintura, com os braços apoiados na borda, tentando focar na respiração para ignorar as agulhadas de frio na panturrilha. Mas, toda vez que eu fechava os olhos, a imagem da Gabriela voltava. Aquele jeito de falar, o sotaque carioca misturado com uma autoridade que eu nunca vi em mulher nenhuma... *maldita sea*, ela era hipnotizante.
— Tá com cara de quem viu um fantasma, *hermano* — a voz do De La Cruz ecoou na sala de recuperação. Ele sentou na banheira ao lado, fazendo uma careta quando a água gelada atingiu o corpo. — Ou será que foi o sermão da irmã do Carrascal que te deixou assim?
Eu abri um dos olhos, encarando o uruguaio com a minha melhor expressão de "não me amola".
— Ela só estava fazendo o trabalho dela, Nico. Nada de mais — respondi, tentando manter a voz neutra.
— Sei... — ele riu, balançando a cabeça. — O grupo todo tá comentando. Ninguém nunca viu o Pulgar baixar a cabeça pra ninguém no treino, nem pro Tite às vezes. E aí chega a Gabi, baixinha daquele jeito, e te coloca de castigo em dois minutos. A gente já amava ela como irmã, agora a gente respeita ela como general.
— Ela sabe o que faz — eu disse, curto e grosso, encerrando o assunto.
Mas, por dentro, eu sabia que o Nico tinha razão. Eu não era de baixar a cabeça. No campo, se alguém me desse uma entrada mais forte, eu devolvia com juros. Se o juiz errasse, eu estava na cara dele cobrando. Eu tinha fama de maluco, de "poucas ideias", e eu gostava disso. Mantinha os adversários longe. Mas Gabriela... ela não teve medo. Ela não recuou. Ela simplesmente me peitou com aquele olhar escuro e aquela voz que, apesar de firme, tinha uma melodia que não saía da minha cabeça.
Saí da banheira algum tempo depois, me secando e vestindo a roupa do clube. Eu precisava passar na sala de fisioterapia para pegar o cronograma do regenerativo de amanhã. Eu sabia que ela estaria lá. Meu coração deu um solavanco estranho, algo que eu só sentia antes de um clássico no Maracanã.
Caminhei pelo corredor do CT, o som das minhas chinelas batendo no chão sendo o único barulho. Quando cheguei à porta da sala, parei por um segundo. Ela estava de costas para mim, organizando alguns elásticos e equipamentos em uma prateleira. O cabelo cacheado estava preso em um coque alto e meio bagunçado agora, e alguns fios teimosos escapavam, caindo sobre a nuca dela.
Fiquei ali parado, observando o movimento dela. Ela era... *deliciosa*. Não tinha outra palavra. As curvas do corpo dela eram acentuadas pela calça de compressão que ela usava, e a postura era de alguém que sabia exatamente o seu valor.
— Vai ficar aí parado me vigiando ou vai entrar de uma vez, Erick? — ela perguntou, sem nem se virar.
Eu dei um sobressalto interno. Como ela sabia que eu estava ali?
— *¿Cómo lo supiste?* — perguntei, entrando na sala e tentando recuperar minha marra.
— O cheiro do seu perfume chegou antes de você — ela se virou, com um meio sorriso sarcástico nos lábios. — E você não é exatamente sutil caminhando, parece um urso.
— Um urso, é? — me aproximei, parando a uma distância que eu considerava segura, mas que ainda me permitia sentir o calor que emanava dela. — Pensei que eu fosse o "xerife".
— No campo, talvez — ela disse, cruzando os braços e me encarando. Aqueles olhos pretos pareciam ler meus pensamentos. — Aqui, você é só um paciente teimoso que precisa de gelo e repouso. Como está a panturrilha?
— Melhor. O spray ajudou — respondi, tentando não me perder no olhar dela. — Vim buscar o cronograma de amanhã. O Tite quer saber se posso treinar com bola.
Gabriela soltou uma risada curta, irônica, e caminhou até a mesa dela, pegando um tablet.
— Com bola? Nem pensar. Amanhã é fisioterapia preventiva, liberação miofascial e piscina. Se você se comportar e não tiver dor, na quarta a gente conversa sobre o gramado.
— Gabriela, temos jogo no fim de semana — eu disse, dando um passo à frente, a frustração começando a subir. — Eu não posso ficar parado.
— E você não vai jogar se romper o músculo, Erick! — ela rebateu, a voz subindo um tom, mas mantendo o controle. Ela se aproximou de mim, ficando cara a cara, ou melhor, cara a peito, dada a nossa diferença de altura. — Eu sei que você é o "maluco" do time, que briga com todo mundo e que acha que é indestrutível. Mas eu sou paga para garantir que você não se quebre. Então, abaixa essa bola.
Eu olhei para baixo, encarando-a. O topo da cabeça dela chegava no meu queixo. Eu conseguia ver as pequenas sardas no nariz dela e a intensidade no seu olhar. Ela era tão pequena, mas me fazia sentir como se eu estivesse diante de um gigante.
— Você é sempre assim... mandona? — perguntei, minha voz saindo mais baixa, quase um sussurro.
Ela sustentou o olhar, e por um momento, a tensão entre nós mudou. Não era mais uma disputa de autoridade, era algo... elétrico.
— Só com quem precisa — ela respondeu, e o canto da boca dela subiu levemente. — E você, Erick Pulgar, parece que precisa de muita supervisão.
Eu ia responder, ia dizer algo sarcástico para retomar o controle da situação, mas a porta da sala se abriu com estrondo.
— Gabi! Vamos? O papai ligou perguntando se a gente vai jantar lá hoje — Carrascal entrou, parando bruscamente ao nos ver tão próximos.
Eu me afastei imediatamente, sentindo meu rosto esquentar. Gabriela, por outro lado, nem se abalou. Ela se virou para o irmão com um sorriso doce, aquele que ela só guardava para a família.
— Oi, Jorge. Vou sim, só estava terminando de passar o cronograma pro seu amigo teimoso aqui.
Carrascal me olhou de cima a baixo, os olhos estreitados em desconfiança. Ele me conhecia bem demais, e eu sabia que qualquer sinal de interesse meu pela irmã dele seria um problema.
— O Pulgar já está de saída, não é, Erick? — Carrascal disse, a voz carregada de um aviso implícito.
— *Sí, claro* — respondi, pegando o papel que Gabriela me estendia. — Até amanhã, Gabriela.
— Até amanhã, Erick. Não esqueça do gelo antes de dormir — ela disse, e eu podia jurar que havia um brilho de diversão nos olhos dela.
Saí da sala sentindo o olhar do Carrascal nas minhas costas. Fui direto para o meu carro, um trajeto que fiz no automático. O Rio de Janeiro estava com o trânsito caótico de sempre, mas eu nem percebia. Minha mente estava em looping, revivendo aqueles poucos minutos na sala de fisioterapia.
Ela era a irmã do meu melhor amigo. Isso era uma regra não escrita no futebol: irmã de amigo é sagrada. Mas Gabriela não parecia querer ser tratada como algo sagrado e intocável. Ela era fogo, era desafio. E eu, que sempre fui atraído pelo caos, estava me sentindo perigosamente inclinado a mergulhar naquele incêndio.
Cheguei no meu apartamento na Barra, um lugar moderno, mas que muitas vezes parecia vazio demais. Joguei as chaves na mesa e fui direto para a cozinha, pegando uma garrafa de água. O silêncio da casa me fez pensar no jantar da família Carrascal. Imaginá-la lá, rindo, sendo o "amorzinho" que o Jorge descrevia, me deu um aperto estranho. Eu queria estar lá. Eu queria ver esse lado dela.
— *Cálmate*, Erick — falei para mim mesmo, em voz alta, meu sotaque chileno ecoando nas paredes. — É só uma fisio. Uma fisio muito bonita, mas só uma fisio.
Tentei me distrair com a televisão, mas nada prendia minha atenção. Peguei o celular e, sem pensar muito, entrei no Instagram. Procurei pelo perfil dela. Estava bloqueado, claro. Mas a foto de perfil... era ela na praia, sorrindo, com o mar ao fundo e o sol iluminando aqueles cachos. Ela parecia tão radiante que chegava a doer.
Joguei o celular no sofá e fui cumprir a ordem dela: gelo na panturrilha.
Enquanto o frio dominava minha perna, eu pensava na tatuagem que o Carrascal mencionou uma vez. Ele disse que ela era tão flamenguista que tinha o brasão tatuado. Onde seria? No braço? No tornozelo? "Só os íntimos podem ver", ele tinha dito rindo um dia desses.
Fechei os olhos e, por um momento, imaginei minhas mãos tatuadas percorrendo a pele dela, descobrindo esse segredo. A imagem foi tão vívida que senti meu corpo reagir instantaneamente.
— *Mierda* — resmunguei, cobrindo o rosto com as mãos.
Eu estava ferrado.
***
O dia seguinte no CT começou com uma tensão palpável. Eu cheguei cedo, esperando ser o primeiro na academia, mas para minha surpresa, ela já estava lá. Gabriela usava um short de treino preto e uma regata branca justa, o cabelo preso em um rabo de cavalo prático. Ela estava fazendo alguns exercícios de alongamento antes de começar a atender os jogadores.
Eu parei na porta, observando-a. Ela se curvou para frente, alcançando os pés, e a visão daquela curva... *Dios mío*. Respirei fundo, tentando manter o foco.
— Bom dia — falei, entrando na academia.
Ela se levantou, limpando o suor da testa com as costas da mão.
— Bom dia, Erick. Cedo hoje, hein? — ela me deu um sorriso que, dessa vez, pareceu mais genuíno e menos sarcástico. — A panturrilha reclamou durante a noite?
— Não, segui suas ordens. Gelo e repouso — respondi, aproximando-me.
— Ótimo. Então vamos começar. Quero você na bicicleta por vinte minutos, carga leve. Depois vamos para a maca para a liberação.
Eu obedeci sem reclamar, o que pareceu surpreendê-la. Enquanto eu pedalava, eu a observava atender outros jogadores. O Léo Pereira chegou fazendo piada, e ela deu um tapa no braço dele, rindo. O Pedro veio pedir um conselho sobre suplementação, e ela explicou tudo com uma paciência de santa. Todos a adoravam. Ela era a "irmãzinha" de todo mundo.
Mas quando os olhos dela cruzavam com os meus, o clima mudava. Não era aquele carinho fraternal. Era algo mais denso, mais pesado.
Depois da bicicleta, fui para a maca. Ela se aproximou com um rolo de liberação e alguns óleos.
— Isso vai doer um pouco, Erick. Tenta relaxar — ela disse, posicionando-se ao lado da minha perna.
— Eu aguento — respondi, apertando as bordas da maca.
Quando as mãos dela tocaram minha pele, eu senti um choque percorrer meu corpo. Ela começou a aplicar pressão no músculo, desfazendo os nós de tensão. Eu trinquei os dentes, soltando um grunhido baixo de dor.
— Eu disse que ia doer — ela comentou, concentrada no trabalho. — Você acumula muita tensão aqui. É o reflexo do seu estilo de jogo, eu suponho. Sempre pronto para o combate.
— É a única forma que eu conheço de jogar — falei, tentando focar na voz dela para esquecer a dor na perna.
— Você não precisa estar em guerra o tempo todo, sabe? — ela levantou os olhos para mim por um segundo. — Às vezes, a estratégia é melhor que a força bruta.
— No meio de campo, se você não impõe respeito, eles passam por cima de você — argumentei.
— E fora dele? — ela perguntou, com um tom de voz curioso, quase suave. — Você também está sempre pronto para a briga fora de campo?
Eu hesitei. Ninguém costumava me fazer esse tipo de pergunta.
— Fora de campo eu sou... tranquilo. Na minha. Gosto de silêncio — respondi, sendo sincero.
Gabriela parou o movimento das mãos por um momento, olhando para mim de um jeito novo. Como se estivesse tentando montar um quebra-cabeça.
— O xerife silencioso... — ela murmurou, voltando ao trabalho. — É uma combinação interessante, Pulgar.
— E você, Gabriela? — resolvi arriscar. — Veio de São Paulo para colocar ordem nos "loucos" do Rio?
Ela riu, um som claro e gostoso que preencheu o ambiente.
— Eu vim para casa, Erick. Minha família está aqui. Meu coração é rubro-negro desde que eu nasci. Trabalhar no Corinthians era... difícil. Eu tinha que esconder minha paixão. Aqui, eu posso ser quem eu sou.
— E quem é você? — perguntei, sentindo que estava entrando em um terreno perigoso.
Ela terminou a liberação e se afastou, pegando uma toalha para limpar as mãos. Ela me olhou profundamente, o sarcasmo voltando a brilhar nos olhos escuros.
— Eu sou a pessoa que vai te manter em campo, mesmo que você tente se destruir. E sou a pessoa que não aceita "não" como resposta. Acho que você já percebeu isso.
Ela deu um tapinha no meu joelho e se virou para atender o próximo. Eu fiquei ali, deitado na maca, sentindo o lugar onde ela tocou formigar.
Ao longo da semana, nossa rotina se estabeleceu. Eu era o primeiro a chegar, ela já estava lá. Nós trocávamos farpas, provocações irônicas e olhares que duravam mais do que deveriam. Eu descobri que ela adorava café forte, que ficava brava quando os meninos deixavam as toalhas jogadas e que tinha um senso de humor rápido e afiado.
Mas o Carrascal estava sempre por perto. Ele era como uma sombra protetora, sempre interrompendo nossas conversas, sempre lembrando, com um comentário ou outro, que ela era a irmã dele. E isso estava começando a me irritar.
Na sexta-feira, antes do jogo de domingo, eu estava terminando meu último atendimento com ela. A sala estava vazia, os outros já tinham ido para o banho ou para casa.
— Você está liberado para o jogo, Erick — ela disse, fechando minha ficha no tablet. — Mas se sentir qualquer fisgada, qualquer coisa...
— Eu aviso você, Gabriela. Prometo — eu disse, levantando-me da maca e ficando bem próximo a ela.
O silêncio na sala era absoluto. Eu conseguia ouvir a respiração dela, que parecia um pouco mais acelerada que o normal. O cheiro de baunilha estava lá, me entorpecendo.
— Boa sorte no jogo — ela sussurrou, sem desviar o olhar.
— *Gracias* — respondi, minha voz falhando um pouco.
Eu queria beijá-la. A vontade era tão física que minhas mãos chegaram a se mover em direção à cintura dela. Mas a voz da razão — e a imagem do Carrascal me dando um soco — me fez parar.
— Erick! — a voz do Carrascal veio do corredor. — Vamos, cara? O pessoal vai se reunir para um churrasco lá em casa, você vem, né?
Gabriela se afastou rapidamente, arrumando a camisa. Eu respirei fundo, tentando recompor minha máscara de indiferença.
— Vou sim, Jorge. Só estava pegando a liberação — respondi, saindo da sala.
Passei por ela e, por um breve segundo, nossas mãos se tocaram "sem querer". Foi rápido, mas o suficiente para me fazer ter certeza de uma coisa: o jogo dentro das quatro linhas seria fácil comparado ao jogo que estava começando entre nós dois.
E eu não tinha a menor intenção de perder. Nem que eu tivesse que levar um cartão vermelho da vida para ganhar o coração daquela morena.