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O Labirinto de Espinhos e Seda
O silêncio nos aposentos de Aaron Warner nunca fora tão pesado. O Setor 45 ainda cheirava a produtos de limpeza industriais, uma tentativa inútil de apagar o odor metálico do sangue de Victor e dos outros soldados que haviam caído sob a fúria dele. Clara estava sentada à beira da cama, as mãos repousando sobre o ventre que, embora ainda não mostrasse uma saliência óbvia, parecia pesar toneladas.
A porta se abriu. Aaron entrou com a elegância predatória de sempre. Ele havia trocado a farda manchada por uma túnica preta impecável, os cabelos loiros perfeitamente alinhados, como se não tivesse acabado de desmantelar vidas humanas com as próprias mãos. Ele carregava uma bandeja com frutas frescas e um copo de leite — luxos que apenas alguém com o poder dele poderia obter naquele mundo devastado.
— Você precisa comer — disse ele, a voz desprovida da agressividade de horas atrás. — O médico disse que seus níveis de ferro estão baixos.
Clara não olhou para ele. Ela fixou os olhos em um ponto na parede, sentindo a bile subir à garganta.
— O médico? — Ela soltou uma risada seca e sem vida. — Você quer dizer o homem que você provavelmente ameaçou de morte se não me desse o diagnóstico perfeito?
Aaron colocou a bandeja na mesa de cabeceira e deu um passo em direção a ela. O instinto de Clara foi recuar, mas ela se forçou a permanecer imóvel, rígida como uma estátua de gelo. Quando ele estendeu a mão para tocar seu ombro, ela se esquivou bruscamente.
— Não me toque — disse ela, a voz baixa, mas afiada como uma navalha.
Aaron congelou. Seus olhos verdes, geralmente tão calculistas, brilharam com uma faísca de surpresa e, logo em seguida, uma irritação contida.
— Clara, não seja infantil. O que aconteceu no corredor foi... uma necessidade. Disciplina.
— Disciplina? — Ela finalmente o encarou, os olhos vermelhos de tanto chorar. — Você matou o Victor. Você matou homens que juraram lealdade a você, tudo por causa de um surto de possessividade por algo que você nem ao menos admite que ama! Você passa o dia suspirando pelos cantos por Juliette, tratando-a como uma santa intocável, e depois vem aqui limpar o sangue das mãos nos meus lençóis.
Aaron fechou o punho ao lado do corpo, a mandíbula tensionada.
— Eu já expliquei a posição de Juliette. Ela é o futuro. Ela é a chave para tudo o que o Restabelecimento precisa.
— E eu sou o quê, Aaron? O seu depósito? O lugar onde você descarrega o que sobra quando ela te rejeita? — Clara levantou-se, ignorando a tontura que a atingiu. — Você quer participar disso? — Ela apontou para a própria barriga. — Quer ser o "pai" desse bebê que você sempre disse que odiaria ter? Ótimo. Você terá todos os relatórios médicos. Você poderá escolher o nome, se quiser. Mas você não vai mais encostar um dedo em mim.
O ar na sala pareceu esfriar dez graus. Aaron deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela, a presença física dele tentando esmagar a resistência de Clara.
— Você está esquecendo quem eu sou, Clara. Eu não recebo ordens. Eu as dou.
— Então me mate — desafiou ela, estufando o peito, as curvas de seu corpo pressionando o uniforme que agora parecia pequeno demais. — Mate a mim e ao seu herdeiro. Adicione-nos à sua coleção de corpos. Mas, enquanto eu estiver viva, o meu corpo é território proibido para você. Eu não sou sua terra, Aaron. Eu não sou o chão de ninguém.
Eles ficaram em silêncio por um longo tempo, um duelo de vontades no centro de um quarto que já fora palco de uma paixão desesperada e unilateral. Aaron a estudou, procurando qualquer sinal de hesitação, mas Clara sustentou o olhar. Ela estava exausta de ser a sombra, a amiga compreensiva que aceitava migalhas de afeto enquanto ele devorava Juliette com os olhos.
— Muito bem — disse ele, finalmente, a voz soando como o estalar de um chicote. — Se é assim que você deseja jogar, que seja. Mas não pense que isso muda o fato de que você me pertence. Você permanecerá nestes aposentos. Terá a melhor alimentação, a melhor assistência. Mas se eu souber que você dirigiu uma palavra a qualquer outro soldado... se eu vir você olhando para outro homem como olhava para aquele verme do Victor... o massacre de hoje parecerá uma brincadeira de criança.
— Você é um monstro — ela repetiu, a voz embargada.
— Eu sou o que este mundo me fez ser — retrucou ele, virando as costas. — Coma as frutas. Voltarei à noite para ler os relatórios do seu exame de sangue.
Ele saiu, batendo a porta com força suficiente para fazer os quadros nas paredes tremerem. Clara desabou na cama, o choro vindo em soluços violentos que faziam suas costelas doerem. Ela estava protegida, sim. Estava segura dentro da fortaleza de Aaron Warner, mas nunca se sentira tão prisioneira.
Nas semanas que se seguiram, o Setor 45 tornou-se um lugar de tensão insuportável. Aaron cumpriu sua palavra de uma forma distorcida. Ele não tentou forçá-la fisicamente, mas sua presença era constante, sufocante. Ele aparecia todas as noites, sentava-se na poltrona do canto e lia documentos enquanto Clara tentava dormir. Às vezes, ele simplesmente a observava, um olhar de fome e ressentimento que a fazia se encolher sob as cobertas.
Ele trazia presentes. Livros raros que o Restabelecimento havia confiscado, tecidos finos para roupas de maternidade, joias que brilhavam sob a luz fria do setor. Clara deixava tudo intocado.
Um dia, enquanto Clara caminhava pelo jardim interno — um pequeno espaço de vegetação controlada que Aaron havia liberado exclusivamente para ela —, ela o viu. Ele estava na varanda superior, observando a cela de vidro onde Juliette era mantida. A expressão no rosto dele era de uma adoração quase religiosa, uma vulnerabilidade que ele nunca permitia que Clara visse em relação a ela.
O coração de Clara se apertou. A dor da rejeição era física, uma pontada aguda logo acima do estômago. Ela colocou a mão sobre o ventre, sentindo um chute leve.
— Ele nunca vai nos amar daquele jeito — sussurrou ela para o bebê. — Nós somos a âncora dele, mas ela é o céu dele.
— Falando sozinha, Clara?
Ela se virou, encontrando Aaron parado a poucos metros. Ele havia descido sem que ela percebesse. Seus olhos caíram imediatamente para a mão dela em sua barriga.
— Ele se mexeu? — perguntou ele, e por um segundo, houve uma curiosidade genuína em sua voz, algo quase humano.
— Sim — respondeu ela, curta.
Aaron deu um passo à frente, a mão hesitantemente estendida. Ele parou no ar, lembrando-se do pacto. O conflito em seu rosto era evidente; o desejo de sentir a vida que ele mesmo criara lutando contra o orgulho ferido por ter sido rejeitado pela única pessoa que sempre o aceitara incondicionalmente.
— Eu quero sentir — disse ele, não como um pedido, mas como uma constatação de desejo.
— Não.
— Clara, é o meu filho.
— É o meu corpo — rebateu ela. — Você disse que eu era sua terra, Aaron. Pois bem, a terra está em pousio. Você não tem o direito de colher nada dela agora.
Aaron soltou um rosnado baixo, a frustração transbordando.
— Você está me punindo por causa de um soldado insignificante! Eu fiz o que fiz por você! Para proteger a sua reputação, para garantir que ninguém questionasse a paternidade dessa criança!
— Você fez isso por você! — Clara gritou, a raiva finalmente explodindo. — Você fez isso porque não suporta a ideia de perder o controle! Você não suporta que eu, a "gordinha" que sempre esteve à sua disposição, tenha encontrado valor em outra pessoa. Você não me ama, Aaron. Você tem medo de ficar sozinho no escuro, e eu sou a única que conhece o caminho para sair dele. Mas agora, você vai ter que aprender a andar no escuro sozinho.
Aaron avançou, segurando-a pelos braços com força, mas sem machucá-la. Seus rostos estavam a centímetros de distância. Clara podia sentir o cheiro de sabonete caro e o calor que emanava dele.
— Você acha que Juliette é tudo o que eu vejo? — ele sibilou, os olhos faiscando. — Sim, ela é a perfeição. Ela é o poder puro. Mas ela me odeia, Clara! Ela olha para mim e vê um carrasco. Você... você era a única que olhava para mim e via um homem. E agora você olha para mim como se eu fosse um verme.
— Você se tornou um verme quando matou o Victor — disse ela, as lágrimas escorrendo. — Você destruiu a única coisa que me fazia sentir bonita sem precisar de um uniforme ou de um título.
Aaron a soltou como se ela o tivesse queimado. Ele recuou, a máscara de frieza voltando ao lugar, mas suas mãos tremiam levemente.
— Eu não preciso da sua validação — disse ele, a voz voltando ao tom monótono e autoritário. — O bebê nascerá em seis meses. Até lá, você terá tudo o que precisa. Mas não espere que eu peça perdão por ser quem eu sou.
Ele deu as costas e saiu do jardim, deixando Clara sozinha entre as plantas artificiais e o ar reciclado.
Naquela noite, Aaron não apareceu. Nem na noite seguinte. Clara achou que finalmente teria paz, mas o vazio era pior. Ela se pegava olhando para a porta, esperando o som da tranca girando. O ódio e o amor estavam tão entrelaçados em seu peito que ela não conseguia mais distinguir onde um terminava e o outro começava.
Três dias depois, Aaron voltou. Ele parecia exausto. Havia olheiras profundas sob seus olhos verdes e ele não usava a túnica militar, apenas uma camisa de linho branca, aberta no pescoço. Ele não disse nada. Apenas caminhou até a poltrona e sentou-se, fechando os olhos.
Clara o observou da cama. Por um momento, ele não parecia o comandante implacável do Setor 45. Parecia apenas um rapaz sobrecarregado pelo peso de um mundo que estava desmoronando.
— Ela tentou fugir hoje — disse ele, sem abrir os olhos. A voz era um sussurro rouco.
Clara sentiu a pontada habitual de ciúme, mas algo na voz dele era diferente. Não era obsessão; era cansaço.
— Juliette? — perguntou ela.
— Sim. Ela me odeia tanto, Clara. Cada vez que toco nela, sinto o nojo que ela emana. Ela é a luz, mas a luz queima quem chega perto demais.
Clara hesitou. A soldada nela dizia para ficar calada, para manter a barreira. Mas a mulher que o amava há anos, a mulher que carregava o fruto daquela conexão sombria, falou mais alto.
— E por que você continua tentando, Aaron? Por que perseguir algo que só te traz dor?
Ele abriu os olhos e olhou para ela. Havia uma tristeza infinita naquela cor esmeralda.
— Porque se eu não tiver um ideal para perseguir, o que me resta? O sangue nas minhas mãos? Os gritos dos que eu matei? Se eu não acreditar que existe algo puro como ela para eu proteger, eu sou apenas o monstro que todos dizem que eu sou.
— Você não é apenas um monstro — disse Clara, a voz falhando. — Você é o homem que me trazia chocolate escondido quando éramos recrutas. O homem que leu poesia para mim quando eu estava com febre. Esse homem ainda está aí, Aaron. Mas você o está matando toda vez que escolhe a violência em vez da humanidade.
Aaron levantou-se lentamente e caminhou até a lateral da cama. Ele não tentou tocá-la. Ele apenas se ajoelhou no chão, ficando ao nível dos olhos dela.
— Eu não sei como ser esse homem sem você — confessou ele, a voz tão baixa que ela mal ouviu. — Quando você se afastou... quando você me olhou com aquele oficial... eu senti como se a última parte de mim que ainda estava viva estivesse sendo arrancada. Eu matei Victor porque ele tinha o que eu não sabia valorizar até perder.
Clara sentiu o coração martelar contra as costelas. Era a confissão mais próxima de um "eu te amo" que ela jamais receberia dele. Era distorcido, era doentio, mas era a verdade dele.
— Você não pode me ter daquele jeito, Aaron — disse ela, acariciando o próprio ventre. — Não enquanto você for o carrasco da Juliette e o meu carcereiro.
— E se eu mudar? — perguntou ele, embora ambos soubessem que a mudança era quase impossível naquele sistema.
— Comece deixando-me ser mais do que uma posse — disse Clara. — Deixe-me ser a mãe do seu filho com dignidade, não como um segredo sujo que você visita nas sombras.
Aaron inclinou a cabeça, encostando a testa na lateral do colchão, perto do quadril dela. Ele não a tocou com as mãos, respeitando o limite que ela impusera, mas a proximidade era eletrizante.
— Eu vou tentar — sussurrou ele.
Clara olhou para o topo da cabeça loira dele e, por um momento, permitiu-se tocar o cabelo dele, um gesto rápido e leve como o bater de asas de uma borboleta. Aaron estremeceu, mas não se moveu.
Naquele quarto silencioso, em meio ao caos de um mundo em guerra e à obsessão por uma garota de vidro, um novo tipo de batalha começava. Não era uma batalha de armas ou poderes, mas uma guerra de atrito entre a redenção e a ruína. E Clara, com a vida crescendo dentro de si, sabia que seria a única capaz de decidir quem sairia vencedor.
Aaron Warner ainda amava a ideia de Juliette. Mas, naquela noite, ajoelhado aos pés da mulher que ele tentara quebrar e que, em vez disso, o estava reconstruindo, ele percebeu que a terra era muito mais necessária do que o sol para quem já vivia no inferno.