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O Labirinto de Ferro e Sangue

O Setor 45 estava em polvorosa. O som das sirenes de emergência cortava o ar estagnado dos corredores metálicos, um uivo agudo que anunciava o impensável: uma invasão em larga escala. Rebeldes haviam conseguido burlar o perímetro externo e agora avançavam pelas alas inferiores como uma praga.

Clara sentiu a vibração das explosões no chão sob seus pés. Ela estava trancada em seus aposentos por uma ordem direta de Aaron, que viera acompanhada de quatro guardas armados do lado de fora da porta. Ele a queria segura, protegida em sua torre de marfim enquanto o mundo lá fora queimava. Mas Clara não era uma princesa indefesa; ela era uma soldada, e o sangue que corria em suas veias fervia com a necessidade de agir.

A náusea matinal, que antes a derrubava, fora substituída por uma descarga de adrenalina pura. Ela se olhou no espelho, a mão repousando sobre a barriga ainda discreta sob a farda que ela insistira em vestir. Sentia uma pontada aguda no flanco, um lembrete do esforço de minutos atrás para mover o painel falso de seu armário, mas ignorou.

— Ele acha que pode nos manter aqui dentro — sussurrou ela para o vazio do quarto. — Mas nós não fomos feitos para esperar o fim sentados enquanto ele prioriza aquela cela de vidro.

Clara removeu seu rifle de precisão e um par de adagas de combate do esconderijo. Ela não lutaria apenas por si mesma ou pelo Setor 45. Ela lutaria para garantir que a base não caísse enquanto o seu comandante perdia tempo com Juliette.

O estrondo de uma explosão mais próxima fez as luzes do quarto piscarem. Era agora.

Clara aproximou-se da porta e bateu com força, simulando um grito de dor.

— Socorro! — ela clamou, a voz carregada de um desespero fingido. — Alguém ajude! Eu estou passando mal!

A porta se abriu quase instantaneamente. O primeiro guarda entrou apressado, a preocupação com a "propriedade" de Warner sobrepujando seu treinamento. Antes que ele pudesse processar a cena, Clara girou, usando o peso do próprio corpo para desequilibrá-lo e cravando a base da palma da mão em seu queixo. Enquanto ele caía, ela desarmou o segundo guarda com um chute preciso no pulso e o nocauteou com a coronha da pistola que acabara de roubar.

Os outros dois guardas no corredor mal tiveram tempo de reagir antes que Clara disparasse dardos tranquilizantes em seus pescoços. Ela respirou fundo, mas uma dor lancinante na coxa a fez vacilar. Ela olhou para baixo; seu uniforme estava intacto, mas a sensação de queimação era intensa. Ela ignorou. Tinha um objetivo.

O Setor 45 era um labirinto de aço, e Clara o conhecia melhor do que ninguém. Enquanto avançava, as vozes no rádio pintavam um cenário sombrio.

— Eles estão no nível 4! — gritava uma voz masculina entre sons de disparos. — Onde está o Comandante?

— O Comandante está na ala de contenção de Juliette! — respondeu outra voz, carregada de pânico. — Ele deu ordens para não ser perturbado!

Clara sentiu uma pontada de amargura. Mesmo no meio de uma invasão, a prioridade dele era Juliette. A segurança de centenas de soldados e a integridade da base eram secundárias diante da necessidade de Aaron de proteger sua obsessão.

— Idiota — sibilou ela, dobrando um corredor e dando de cara com três invasores.

A luta foi rápida e brutal. Clara usou o ambiente a seu favor, mas cada movimento brusco parecia rasgar algo dentro dela. Ela eliminou os rebeldes com uma precisão que deixaria Aaron orgulhoso, se ele estivesse olhando. Mas ele não estava. Ele nunca estava.

Ao chegar à sala de máquinas, ela encontrou o último grupo de insurgentes tentando plantar explosivos nos reatores de energia. Se eles conseguissem, o Setor 45 ficaria às escuras e sem oxigênio.

Clara posicionou-se atrás de uma viga de sustentação. Ela sentiu uma tontura súbita e uma pontada no ventre que a fez perder o fôlego. O suor frio escorria por seu rosto, misturando-se à graxa das máquinas.

— Agora não — implorou ela, fechando os olhos por um segundo. — Só mais um pouco.

Ela emergiu das sombras. Seus tiros eram metódicos, mas sua visão começava a nublar. Ela abateu os últimos homens com o que restava de sua força, sentindo o tecido do uniforme ficar úmido e quente em sua barriga e coxa, embora a cor escura da farda escondesse o segredo sangrento.

Quando o último rebelde caiu, o silêncio retornou à sala. Clara tentou dar um passo em direção ao console principal para desativar os alarmes, mas suas pernas simplesmente cederam.

— Clara!

A voz de Aaron ecoou pelo metal, mas parecia vir de uma distância infinita. Ele entrou na sala de máquinas como um furacão, os olhos verdes varrendo a destruição até pararem nela. Ele estava impecável, sem uma mancha de sangue, vindo diretamente da ala de Juliette.

— O que você pensa que está fazendo? — Aaron gritou, a fúria vibrando em cada palavra. — Eu dei uma ordem! Eu coloquei guardas para você ficar segura!

Clara tentou se levantar, apoiando-se em um cano de vapor, mas um grito abafado escapou de seus lábios. A dor na lateral da barriga agora era um incêndio.

— Seus guardas... — ela começou, a voz fraca — ...eram inúteis. Se eu não tivesse vindo... a base...

— Chega! — Aaron caminhou até ela, o rosto retorcido de raiva. — Você é uma insubordinada! Você colocou a vida do meu herdeiro em risco por um capricho de heroísmo! Você não entende que a única coisa que importa é que você fique onde eu te coloquei?

Ele a segurou pelos ombros, sacudindo-a levemente, mas parou quando sentiu Clara pender para frente, a cabeça caindo em seu peito.

— Clara? — O tom dele mudou de raiva para uma confusão alarmada.

— Você estava com ela... — sussurrou ela, as pálpebras pesando toneladas. — Você sempre está com ela... enquanto o mundo acaba...

Clara desmaiou. O peso morto de seu corpo nos braços de Aaron o fez vacilar. Foi então que ele sentiu. Sua mão, apoiada na cintura de Clara, ficou subitamente quente e pegajosa.

Aaron a deitou no chão com uma pressa frenética. Seus olhos se arregalaram quando ele finalmente notou o que a farda escura ocultava. Ele rasgou o tecido lateral do uniforme dela com um movimento violento.

O fôlego de Aaron fugiu de seus pulmões.

Havia um corte profundo e irregular na lateral de sua barriga, provavelmente causado por um estilhaço de metal durante a explosão ou por uma lâmina na luta corporal. O sangue manchava a pele clara e as curvas de seu corpo que ele conhecia tão bem. Ele desceu o olhar e viu que a coxa dela também estava aberta, um ferimento longo que vertia sangue sem parar.

— Não... não, não, não — murmurou Aaron, as mãos tremendo como nunca haviam tremido em toda a sua vida.

Ele pressionou a ferida da barriga, sentindo o terror gelado subir por sua espinha. Clara estava pálida, quase translúcida sob as luzes fluorescentes da sala de máquinas. Ela estivera lutando sozinha. Ela estivera sangrando enquanto ele estava sentado em uma cadeira confortável, observando Juliette dormir através de um vidro, acreditando que Clara estava a salvo em um quarto trancado.

— MÉDICO! — Aaron rugiu, sua voz quebrando de uma forma que nenhum soldado do Setor 45 jamais ouvira. — TRAGAM UMA MACA AGORA!

Ele pegou Clara nos braços, ignorando o sangue dela que agora manchava sua farda impecável. Ele a apertou contra o peito, sentindo a frieza da pele dela.

— Fique comigo, Clara — sussurrou ele, o pânico distorcendo suas feições. — Por favor, fique comigo.

Enquanto corria pelos corredores em direção à ala médica, cada batida do coração de Aaron era um golpe de culpa. Ele se lembrou das palavras dela: "Você mal olha para mim, a menos que seja para me usar quando ela te rejeita".

Ele a deixara sozinha. Ele a abandonara em uma gaiola enquanto o perigo real estava lá fora. Se ele estivesse com ela, se ele tivesse dado a ela a importância que ela merecia em vez de tratá-la como um plano de fundo para sua obsessão por Juliette, ela não estaria morrendo em seus braços agora.

— Se ela morrer... — ele murmurou para as paredes de metal, os olhos brilhando com uma fúria autodestrutiva — ...eu juro que não sobrará nada deste lugar.

Ele entrou na enfermaria chutando as portas duplas. Os médicos correram, aterrorizados pela visão do Comandante coberto de sangue, carregando a soldada que todos sabiam ser sua favorita, apesar de ele nunca admitir.

— Salvem-na! — Aaron ordenou, colocando-a na mesa de cirurgia. — Salvem a ela e ao bebê. Se algum deles parar de respirar, nenhum de vocês sairá desta sala vivo.

Ele foi forçado a se afastar enquanto os enfermeiros começavam o procedimento de emergência. Aaron ficou parado no canto da sala, as mãos manchadas do sangue de Clara. Ele olhou para as próprias palmas, o vermelho vívido denunciando sua negligência.

Ele pensou em Juliette. Pensou em como ela era intocável, pura e distante. E então olhou para Clara, que estava ali, lutando pela vida, real e quebrada por causa dele.

Pela primeira vez em sua vida, Aaron Warner sentiu o peso esmagador de uma escolha errada. Ele sempre disse que Juliette era sua luz, mas ali, no silêncio esterilizado da enfermaria, ele percebeu que Clara era o seu oxigênio. E ele estava sufocando.

Ele se sentou no chão, encostado na parede fria, as mãos ainda sujas, esperando para saber se o mundo que ele tanto desprezava ainda teria um motivo para deixá-lo viver. A culpa ardia em seu peito como ácido: ele deveria estar com ela. Ele deveria ter sido o escudo dela. Mas ele estava ocupado demais perseguindo um fantasma enquanto sua realidade escorria entre seus dedos.