"Just colleagues"
O Labirinto de Vidro e Embriaguez
O bar no centro de Bangkok era um santuário de luzes neon baixas e fumaça de cigarro, o tipo de lugar onde o luxo se encontrava com a decadência. Engfa Waraha estava sentada no canto mais escuro, cercada por garrafas vazias de uísque caro. O gelo já havia derretido há muito tempo, diluindo o líquido âmbar, mas ela continuava a virar copo após copo. A arrogância que ela ostentava no canteiro de obras, a máscara de frieza que usava para humilhar Charlotte, havia se estilhaçado sob o peso de um silêncio que só a bebida conseguia preencher.
Ela odiava Charlotte Austin. Odiava o modo como a engenheira a olhava com aquele misto de medo e desejo. Odiava as sardas que pontilhavam o nariz de Charlotte, e odiava ainda mais o fato de que, não importa quanto poder ela acumulasse, Charlotte era a única peça de seu império que ela não conseguia possuir plenamente.
A cada gole, a imagem de Charlotte no contêiner, trêmula e vulnerável, voltava para assombrá-la. Engfa sentia o gosto do batom dela, o calor da pele... e a dor de ser deixada para trás.
— Mais um — exigiu Engfa, a voz arrastada, batendo o copo no balcão de mármore.
— Sra. Waraha, acho que a senhora já teve o suficiente — o barman disse, hesitante.
— Eu decido quando é o suficiente! — ela disparou, a dualidade de sua personalidade emergindo como um monstro faminto. — Eu sou a dona desta cidade, você é apenas um funcionário medíocre. Sirva-me ou eu compro este lugar e te demito antes do amanhecer!
O homem obedeceu, mas Engfa não sentiu a vitória. Ela sentiu um vazio. Um abismo que tinha o nome de Charlotte gravado nas paredes.
Às três e meia da manhã, o bar estava quase vazio. Engfa pegou o celular com as mãos trêmulas. A tela brilhava, refletindo a desordem em seus olhos castanhos. Ela discou o número que sabia de cor, o número que ela prometera a si mesma apagar mil vezes.
Chamou uma, duas, três vezes.
— Engfa? — A voz de Charlotte soou rouca, carregada de sono e uma preocupação imediata que ela não conseguiu esconder. — O que aconteceu? São três da manhã.
— Charlie... — Engfa soluçou. O som foi patético, desprovido de qualquer orgulho. — Charlie, volta para mim. Por favor.
Houve um silêncio do outro lado da linha. Charlotte respirou fundo, o som audível através do telefone.
— Engfa, você está bêbada. Vá dormir.
— Não! — Engfa gritou, atraindo olhares dos poucos clientes restantes. — Eu não consigo dormir. O quarto é grande demais. A cama é fria demais. Eu sinto falta... das suas sardas. Daquelas malditas sardas que você tentava esconder com base. Eu sinto falta de como você se encaixava no meu abraço. Por favor, Charlie... eu estou implorando.
Charlotte fechou os olhos, sentindo a velha corda da dependência emocional apertar seu pescoço. Ouvir Engfa Waraha, a mulher mais orgulhosa e narcisista que já conhecera, implorar daquele jeito era como ter o coração arrancado com as mãos nuas.
— Onde você está, Engfa? — perguntou Charlotte, já se levantando e pegando as chaves do carro.
Quinze minutos depois, o SUV de Charlotte parou em frente ao bar. Ela encontrou Engfa sentada na calçada, a cabeça baixa, os cabelos castanho-escuros desgrenhados e a maquiagem levemente borrada. Ela parecia pequena, uma versão frágil da tirana que comandava as reuniões de diretoria.
— Vamos, Engfa. Levanta — disse Charlotte, segurando-a pelos ombros.
Engfa levantou o rosto e, ao ver Charlotte, um sorriso trêmulo e genuíno iluminou suas feições.
— Você veio. Você sempre vem.
— Eu sou uma idiota, é por isso — resmungou Charlotte, ajudando a ex-namorada a entrar no carro.
O caminho até o apartamento de Charlotte foi silencioso, exceto pelos murmúrios incoerentes de Engfa. Ao chegarem, Charlotte teve que praticamente carregar Engfa escada acima. O apartamento era simples, organizado, um refúgio que Charlotte construíra para se curar de Engfa, e agora, a própria fonte de sua dor estava sentada em seu sofá de linho.
— Vou te preparar um café — disse Charlotte, tentando manter a distância profissional que falhara miseravelmente.
— Não quero café — Engfa murmurou, puxando Charlotte pela mão. A força era mínima, mas a conexão era magnética. — Fica aqui. Comigo.
— Engfa, você está fora de si. Amanhã você vai acordar, vai me xingar no canteiro de obras e agir como se nada disso tivesse acontecido.
Engfa balançou a cabeça, as lágrimas voltando a cair.
— Eu te amo, Charlie. Eu sei que sou um monstro. Eu sei que eu te trato como um troféu... mas é porque eu tenho tanto medo de que, se eu não te segurar com força, você perceba que eu não sou nada sem você. Você é a única coisa real na minha vida de vidro.
Charlotte sentiu um nó na garganta. Era a confissão que ela sempre quis ouvir, mas que sabia ser a armadilha perfeita. O narcisismo de Engfa era alimentado pela adoração de Charlotte, e Charlotte, em sua dependência, precisava ser a salvadora de Engfa.
— Você precisa dormir — sussurrou Charlotte, a voz falhando.
— Posso... posso dormir com você? Só hoje? — Engfa pediu, os olhos grandes e suplicantes, a faceta "amigável" e vulnerável de sua personalidade em plena exibição.
Charlotte hesitou. Ela sabia que era um erro. Sabia que estava abrindo a porta para o caos novamente.
— Só dormir, Engfa.
No quarto, a penumbra era quebrada apenas pela luz da lua que entrava pela janela. Engfa deitou-se ao lado de Charlotte, mas não ficou quieta. Ela se aproximou, abraçando Charlotte por trás, enterrando o rosto na curva de seu pescoço.
— Você tem cheiro de casa — sussurrou Engfa, depositando um beijo suave nas costas de Charlotte.
O toque enviou descargas elétricas pelo corpo de Charlotte. Ela tentou se manter rígida, mas quando Engfa começou a trilhar beijos pela sua coluna, a resistência desmoronou.
— Engfa, para... — pediu Charlotte, embora seu corpo estivesse se virando para encontrar o dela.
— Eu senti tanta falta do seu corpo — Engfa continuou, a voz agora carregada de uma urgência sóbria que contrastava com sua embriaguez. Suas mãos desceram, encontrando a barra da camiseta de Charlotte, subindo para tocar a pele macia da barriga, contornando o piercing no umbigo que ela sempre adorou morder. — O meu prêmio mais bonito.
Charlotte virou-se, ficando cara a cara com ela. O hálito de Engfa ainda cheirava a uísque, mas seus olhos estavam focados, predatórios e cheios de uma adoração doentia.
— Isso é uma recaída, Engfa — disse Charlotte, as mãos segurando o rosto da outra. — Amanhã vamos nos odiar de novo. Eu vou odiar o jeito que você me trata e você vai odiar o fato de que eu te deixei.
— Então me odeie agora — desafiou Engfa, puxando-a para um beijo profundo.
O beijo era uma mistura de desespero e posse. Charlotte confessou a si mesma, naquele silêncio compartilhado, a dualidade que a consumia. Ela odiava a arrogância de Engfa, odiava a forma como ela sugava sua energia, mas amava a intensidade, amava a sensação de ser a única pessoa capaz de desarmar a grande Engfa Waraha.
As roupas foram descartadas como obstáculos desnecessários. Sob os lençóis, a toxicidade transformava-se em paixão bruta. Engfa, em seu desejo impulsivo de marcar o que considerava seu, deixou mordidas nos ombros e no pescoço de Charlotte, marcas que seriam difíceis de esconder sob o blazer no dia seguinte. Charlotte, por sua vez, cravou as unhas nas costas de Engfa, deixando marcas arroxeadas, um mapa de sua própria frustração e desejo.
— Você é minha, Charlie — arfou Engfa, prendendo os pulsos de Charlotte acima da cabeça dela, a possessividade voltando à tona mesmo no auge da intimidade. — Diga.
— Eu sou... — Charlotte gemeu, a dependência emocional falando mais alto que sua razão. — Eu sou sua, Engfa. Sempre fui.
Engfa sorriu, um sorriso que continha tanto amor quanto triunfo sádico. Ela sabia que tinha Charlotte de volta na palma de sua mão.
Horas depois, quando a respiração de Engfa se tornou pesada e regular pelo sono, Charlotte ficou acordada, observando o teto. Ela sentia o peso do corpo de Engfa contra o seu, o calor que era ao mesmo tempo reconfortante e sufocante. Ela sabia que o ciclo recomeçaria. Amanhã, no shopping, Engfa seria a patroa impiedosa e ela seria a engenheira teimosa. Elas gritariam uma com a outra, trocariam farpas na frente dos operários e fingiriam que aquela noite nunca aconteceu.
Mas as marcas no pescoço de Charlotte e os arranhões nas costas de Engfa eram a prova da verdade. O amor de Englot era um labirinto sem saída, uma construção magnífica feita sobre um terreno instável.
Charlotte fechou os olhos, permitindo-se, apenas por mais algumas horas, ser o prêmio de Engfa. Afinal, nas recaídas, o mundo parecia fazer sentido, mesmo que fosse um sentido distorcido e doloroso. Elas eram cimento e sangue, obsessão e necessidade, e enquanto o shopping subia em direção ao céu, elas continuariam a cavar, juntas, o abismo de seu próprio amor tóxico.