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Kart e um novo amor

O Asfalto e a Seda

A luz da manhã em Monte Carlo tinha uma tonalidade diferente, um dourado que parecia refletir não apenas no Mar Mediterrâneo, mas também na pele de Malu enquanto ela observava a cidade da varanda do hotel. O silêncio do quarto era quebrado apenas pela respiração compassada de Yudi, que ainda dormia, exausto pela adrenalina da corrida e pela intensidade do reencontro.

Malu sorriu, sentindo o peso do anel de credencial da FIA em seu pescoço. Sete anos. Setecentas voltas em circuitos emocionais diferentes, e ali estavam eles. Ela pegou o celular e viu uma mensagem de seu pai: "Vimos as fotos da gala. O Yudi parece mais rápido fora das pistas do que dentro delas. Juízo, diplomata."

Ela riu baixo, guardando o aparelho quando sentiu braços fortes envolverem sua cintura por trás. O cheiro de Yudi agora era uma mistura de sabonete caro e aquele traço familiar de determinação que nunca o abandonava.

— Você acorda cedo demais para quem não tem um treino livre às oito da manhã — sussurrou Yudi, enterrando o rosto na curva do pescoço dela.

— Hábito de quem precisa ler relatórios da ONU antes do café — respondeu Malu, virando-se nos braços dele. — E você? Pensei que pilotos de Fórmula 1 hibernassem depois de um pódio.

— Só quando não têm uma diplomata brasileira no quarto ao lado. Ou melhor, no mesmo quarto. — Yudi a olhou nos olhos, a seriedade substituindo o tom de brincadeira. — Malu, eu não quero que ontem tenha sido apenas uma "noite de gala em Mônaco".

— Eu também não, Yudi. Mas você sabe como é a minha agenda. E a sua... a sua é um circo itinerante.

Yudi a conduziu de volta para dentro do quarto, sentando-se na beira da cama e puxando-a para ficar entre seus joelhos.

— Eu andei pensando. A Aguatop... lembra do nosso antigo chefe de equipe? O Sr. Tanaka?

— Como esquecer? Ele dizia que eu era a única pessoa capaz de fazer você prestar atenção na telemetria.

— Ele sempre disse que o segredo de uma equipe vencedora não é ter os melhores carros, mas ter as pessoas certas nos lugares certos. — Yudi pegou as mãos dela. — Eu tenho o carro. Eu tenho a equipe técnica. Mas eu passei os últimos anos correndo sozinho, Malu. Mesmo com milhares de pessoas ao redor, era só eu e o rádio.

— Onde você quer chegar, Leonardo? — perguntou ela, sentindo o coração acelerar.

— Minha base é em Oxford, na Inglaterra. A sede da equipe fica lá. E eu sei que a embaixada brasileira em Londres está com vagas abertas para o setor de relações comerciais e diplomacia internacional. Eu andei pesquisando.

Malu arregalou os olhos, surpresa com a iniciativa dele.

— Você pesquisou vagas no Itamaraty?

— Eu sou um piloto, Malu. Eu estudo o terreno antes de entrar na pista. — Ele sorriu, mas havia uma vulnerabilidade em seus olhos. — Não estou pedindo para você abandonar seus sonhos. Nunca faria isso. Mas estou dizendo que, talvez, a gente possa fazer nossos circuitos convergirem. Pela primeira vez em sete anos, a reta está livre.

Malu caminhou até a janela, olhando para os iates luxuosos no porto. O desejo de construir uma família, algo que ambos compartilhavam desde os quinze anos, parecia subitamente tangível, não mais um desenho abstrato em um caderno de física ou um plano vago em um dormitório de universidade.

— Londres não é Genebra — disse ela, voltando-se para ele —, mas é cosmopolita o suficiente para mim. E tem jardins, Yudi. Muitos jardins para aquelas crianças que você dizia que teria.

Yudi levantou-se e cruzou o quarto em dois passos largos, segurando o rosto dela com as mãos que, apesar de calejadas pelo volante, eram infinitamente gentis.

— Então é um acordo? — perguntou ele. — Sem contratos assinados, por enquanto, apenas a palavra de dois ex-pilotos de kart?

— É um acordo — respondeu ela, antes de selar a promessa com um beijo.

As semanas seguintes foram um borrão de logística e emoção. As famílias, quando souberam, quase causaram um incidente diplomático de tanta comemoração. O pai de Malu e o pai de Yudi organizaram um churrasco via Zoom, com as telas divididas entre São Paulo e a Europa, celebrando o que eles chamavam de "A Grande Final".

No entanto, a realidade da vida pública logo os atingiu. Yudi era um dos solteiros mais cobiçados do paddock, e Malu, uma mulher com uma carreira em ascensão. Quando a primeira foto deles caminhando juntos por Oxford vazou em um tabloide esportivo, o mundo quis saber quem era a "misteriosa mulher de verde" que estava no box da escuderia.

— Eles estão nos chamando de "O Casal Veloz" — disse Malu, jogando o jornal sobre a mesa de centro do novo apartamento deles em Oxford, meses depois. — Que falta de criatividade.

Yudi, que estava analisando dados de um simulador no laptop, riu sem tirar os olhos da tela.

— Poderia ser pior. Poderiam ter descoberto que você me vencia no kartódromo de Interlagos toda vez que chovia.

— Eu não vencia você "toda vez" — corrigiu ela, sentando-se no braço da poltrona dele. — Só em 90% das vezes. O resto era sorte sua.

— Venha aqui — disse ele, fechando o laptop e puxando-a para o seu colo. — Como foi na embaixada hoje?

— Exaustivo. Estamos renegociando alguns protocolos de exportação. Às vezes, lidar com ministros é mais difícil do que fazer a curva do Sol a 100 por hora em um kart de dois tempos. Mas eu gosto. Sinto que estou onde deveria estar.

— E nós? — perguntou Yudi, a voz baixando de tom. — Onde nós estamos?

Malu olhou ao redor do apartamento. Ainda havia caixas para desempacotar, mas já havia flores de baunilha em um vaso sobre a mesa, e o capacete de Yudi repousava ao lado de uma pasta de couro com o brasão da República Brasileira.

— Estamos na volta de aquecimento, Yudi. A corrida de verdade está apenas começando.

A prova de fogo veio no Grande Prêmio de Silverstone. Era a corrida "em casa" para a equipe, e a pressão sobre Yudi era imensa. Malu estava lá, mas não apenas como namorada. Ela usava seus contatos diplomáticos para mediar um encontro entre os patrocinadores brasileiros da equipe e investidores britânicos, movendo-se pelo Paddock Club com a mesma elegância com que Yudi movia o carro na pista.

Minutos antes da largada, quando a tensão no box era quase sólida, Yudi estava sentado no cockpit, o olhar fixo no horizonte, o capacete já colocado. Malu se aproximou, passando pelos mecânicos que abriram caminho para ela. Ela tocou o ombro do macacão dele.

Yudi olhou para cima. Através da viseira escura, ela não conseguia ver seus olhos, mas sabia que ele estava sorrindo.

— Não aperte o volante com muita força — disse ela, repetindo o conselho que ele dera a ela anos atrás.

Yudi levantou o polegar em sinal de positivo.

— E você — a voz dele veio pelo rádio do box, que ela estava autorizada a ouvir —, não negocie a paz mundial antes de eu cruzar a linha de chegada. Quero comemorar com você.

A corrida foi um teste de nervos. Malu assistia aos monitores com o coração na boca. A cada ultrapassagem, ela sentia a mesma adrenalina dos quinze anos, a mesma torcida fervorosa pelo garoto que desenhava circuitos no caderno. Quando a bandeira quadriculada finalmente agitou-se e Yudi cruzou em segundo lugar, garantindo pontos cruciais para o campeonato, o box explodiu em gritos.

Malu foi a primeira a chegar ao parque fechado. Quando Yudi saiu do carro, banhado em suor e ofegante, ele não procurou as câmeras ou os chefes de equipe. Ele procurou por ela.

Ele a abraçou com força, o cheiro de borracha e gasolina impregnando o vestido de seda dela.

— Você viu? — perguntou ele, a voz falha pela exaustão. — A curva de Stowe. Eu fiz exatamente como a gente treinava naquelas tardes de sábado.

— Eu vi, Leo. Você foi perfeito.

Naquela noite, longe das câmeras e do champanhe do pódio, eles caminharam pelo jardim da casa que haviam alugado nos arredores de Oxford. O silêncio do subúrbio inglês era exatamente como Yudi descrevera anos atrás, mas a presença de Malu o tornava cosmopolita o suficiente para ela.

— Sabe — disse Malu, parando sob uma grande árvore —, eu costumava pensar que a diplomacia era sobre evitar conflitos. Mas agora eu percebo que é sobre encontrar um terreno comum.

— E nós encontramos o nosso? — perguntou Yudi, parando à frente dela.

— Sim. Mas acho que precisamos de um novo tratado.

— Que tipo de tratado?

Malu tirou uma pequena caixa do bolso do casaco. Yudi congelou.

— No nosso mundo, as coisas costumam ser ao contrário — disse ela, com um sorriso travesso. — Você é o piloto, mas eu sou a diplomata que toma a iniciativa. Leonardo Yudi, você aceita ser o meu porto seguro, o meu companheiro de equipe e o pai dos pequenos pilotos e diplomatas que ainda vamos ter?

Yudi ficou em silêncio por um segundo, o choque estampado em seu rosto, antes de soltar uma gargalhada alta que ecoou pelo jardim silencioso.

— Você me deu um "dibre" em plena reta final, Malu! — Ele a pegou pela cintura e a girou no ar. — É claro que eu aceito. Mil vezes sim. Mas eu vou escolher os nomes, e nenhum deles vai ser "Senna" ou "Piquet", para não dar pressão nos coitados.

— Justo — riu ela, enquanto ele colocava o anel no dedo dela.

Eles ficaram ali, abraçados sob o céu estrelado da Inglaterra, dois jovens que começaram em um kartódromo barulhento em São Paulo e que, através de curvas fechadas e retas intermináveis, haviam finalmente encontrado a linha de chegada.

A vida deles não seria um comercial de televisão. Haveria dias em que a Fórmula 1 o levaria para o Japão enquanto ela estaria presa em uma conferência em Nova York. Haveria o cansaço, a saudade e a pressão do mundo. Mas, como Yudi aprendera no primeiro dia em que viu Malu pilotar, se você não sufocar o volante, você consegue ouvir o que o carro tem a dizer.

E o que a vida estava dizendo para eles agora era que a melhor parte da corrida não era o troféu no final, mas sim quem estava no banco do carona, dividindo o mapa e a jornada.

— Ei, Malu? — chamou Yudi, enquanto entravam em casa.

— Sim?

— Eu ainda vou ganhar aquele título mundial.

— Eu sei que vai — disse ela, fechando a porta atrás deles. — E eu vou estar lá na tribuna, garantindo que o mundo inteiro saiba que o campeão é meu. Mas, por hoje... por hoje, apenas seja o Leonardo.

— O Leonardo é todo seu — respondeu ele, e pela primeira vez em muito tempo, o motor do mundo parecia estar em perfeita harmonia.

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