Kim Seungmin
Sombras, Melodias e Traços Inconscientes
O jardim da escola, geralmente um lugar de passagem apressada entre as aulas, havia se tornado o cenário de algo que Lee Wonhee planejava há meses. O sol da tarde filtrava-se entre as folhas das árvores, criando um jogo de luz e sombra que parecia saído de um dos quadros de Hyunjin. Sohee observava de longe, escondida atrás de uma pilastra, com o coração disparado pela amiga.
Hyunjin estava encostado no tronco de uma cerejeira, segurando um caderno de esboços, mas seus olhos não estavam no papel. Eles estavam fixos em Wonhee, que falava animadamente sobre uma nova técnica de aquarela. O momento de hesitação dele, aquele brilho suave no olhar que ele reservava apenas para as coisas que considerava belas, foi o sinal. Wonhee deu um passo à frente, diminuindo a distância, e o silêncio que se seguiu foi carregado de expectativa.
— Hyunjin-ah... — sussurrou ela, a voz falhando levemente pela coragem.
Sem esperar por uma resposta articulada, Wonhee inclinou-se. Hyunjin, em um movimento que misturava surpresa e aceitação, fechou os olhos e inclinou a cabeça. O beijo foi calmo, artístico como tudo o que envolvia Hyunjin, mas transbordava a sinceridade que Wonhee guardava no peito.
Sohee sorriu, sentindo uma alegria genuína pela amiga, mas logo se afastou para dar privacidade aos dois. Ela começou a caminhar em direção ao ginásio, procurando por Felix. Sabia que o "sunshine" do grupo estaria distribuindo lanches ou energia positiva em algum lugar.
No entanto, ao dobrar o corredor dos armários, ela parou ao ouvir vozes baixas vindas de uma fresta na porta da sala de materiais esportivos.
— Cara, você precisa relaxar — a voz de Felix soou, mas não tinha o tom brincalhão de sempre. Estava séria, quase preocupada.
— Relaxar? — A resposta veio em um tom ríspido, cortante. Era Seungmin. — Felix, eu estou tentando ser racional, mas você não facilita. Você toca nela o tempo todo. Abraça, mexe no cabelo... você tem noção do quanto isso me irrita?
Sohee congelou. O ar pareceu sumir de seus pulmões. Ela sabia que eles estavam falando de alguém, mas seu cérebro se recusava a processar a possibilidade de ser ela.
— Eu sou assim com todo mundo, Minnie! — Felix exclamou, parecendo confuso. — A Sohee é minha melhor amiga, eu só quero que ela se sinta amada e protegida. Por que isso te incomoda tanto?
Houve um silêncio pesado. Sohee segurou a respiração, as pontas dos dedos pressionadas contra o metal frio do armário.
— Porque eu não consigo fazer o mesmo — a voz de Seungmin saiu baixa, desprovida de seu sarcasmo habitual, revelando uma vulnerabilidade que ele nunca mostrava em público. — Eu a observo há seis meses, Felix. Cada detalhe. Eu sei quando ela está nervosa porque ela aperta o lápis com mais força. Eu sei quando ela está triste porque ela desenha linhas mais retas e frias. Eu gosto dela. De verdade. E ver você sendo tão... livre com ela, enquanto eu estou preso atrás dessa droga de máscara de ironia, me mata por dentro.
Sohee sentiu o mundo girar. Seungmin... gostava dela? O garoto que passava o tempo todo fazendo comentários ácidos, que parecia indiferente a quase tudo, estava sofrendo em silêncio por causa dela?
— Seungmin... eu não fazia ideia — disse Felix, a voz agora suave. — Por que não conta para ela?
— Para quê? Para a Yuna infernizar a vida dela ainda mais? Ou para a Sohee ficar desconfortável e se afastar de mim? — Seungmin soltou um riso amargo. — Prefiro ser o cara sarcástico que ela tolera do que o cara que estragou a amizade dela com o grupo. Só... por favor, Lix. Tenta controlar esse excesso de toque perto de mim. Dói olhar.
Sohee recuou silenciosamente, os pés parecendo pesados como chumbo. Ela caminhou sem rumo até chegar à biblioteca, onde se sentou em uma mesa isolada. Suas mãos tremiam quando ela abriu seu caderno de desenhos.
Ultimamente, ela vinha desenvolvendo um hábito estranho. Todos os dias, antes de dormir ou durante os intervalos, ela desenhava um rosto. Não era uma paisagem, não era um objeto. Era sempre o mesmo perfil: um maxilar definido, olhos que pareciam ler a alma de alguém e um sorriso que raramente aparecia, mas que, quando aparecia, iluminava tudo.
Ela olhou para o desenho inacabado na página atual. O sombreado nos olhos, a curva exata do nariz...
— Meu Deus — sussurrou para si mesma, sentindo o rosto queimar.
Ela não estava desenhando um modelo de revista ou uma criação da sua imaginação. Era Seungmin. Cada traço que ela fazia inconscientemente era uma memória dele. A forma como ele a observava, os conselhos escondidos em ironias, a proteção silenciosa contra Yuna. Ela estava apaixonada por ele e nem sequer tinha percebido até que as palavras dele, ouvidas por acaso, servissem como a chave para abrir aquela porta trancada em seu coração.
Os dias que se seguiram foram uma tortura de autoconsciência. Sohee tentava agir normalmente, mas cada vez que Felix se aproximava para um abraço, ela via, pelo canto do olho, a mandíbula de Seungmin se contrair. Ela tentava retribuir as piadas dele, mas as palavras morriam em sua garganta, agora que sabia o que estava por trás de cada comentário ácido.
Yuna, percebendo a distração de Sohee, tentou intensificar seus ataques. Em uma manhã, ela "acidentalmente" derrubou o suco de uva sobre o caderno de Sohee no refeitório.
— Ops! Que desastrada eu sou — disse Yuna, com um sorriso falso, enquanto as outras garotas riam. — Mas tudo bem, eram só uns rabiscos bobos, não é?
Sohee sentiu as lágrimas pinicarem seus olhos enquanto via a mancha roxa se espalhar pelas páginas que continham os rostos de Seungmin. Antes que ela pudesse reagir, Seungmin se levantou da mesa ao lado.
— Sabe, Yuna, é fascinante como a sua coordenação motora falha exatamente quando você está perto de alguém que tem o talento que te falta — disse ele, a voz fria como gelo.
— O que você disse, Seungminnie? — Yuna piscou, surpresa.
— Eu disse que você é previsível. E chata. — Seungmin pegou um guardanapo e, com uma delicadeza que contrastava com suas palavras, começou a secar a borda do caderno de Sohee, evitando tocar nas partes molhadas. — Vá comprar outro suco e, desta vez, tente mantê-lo dentro do copo. Ou da sua boca. De preferência, calada.
Yuna saiu pisando fundo, bufando de ódio. Wonhee, que estava sentada com Hyunjin logo ali, piscou para Sohee, indicando que a "cobra" tinha sido derrotada novamente.
— Você está bem? — perguntou Seungmin, sem olhar diretamente para Sohee, mas sua mão ainda estava perto da dela sobre a mesa.
— Sim... obrigada, Seungmin. Sinto muito pelo caderno.
— É só papel — mentiu ele. — Você desenha outro. Seus traços são melhores do que qualquer coisa que ela tente destruir.
Ele se afastou rapidamente, voltando para o seu livro, mas Sohee notou que ele não virou a página nos dez minutos seguintes.
Naquela tarde, as aulas terminaram mais cedo devido a uma reunião de professores. A escola estava silenciosa, mergulhada em uma luz alaranjada de fim de dia. Sohee percebeu que tinha esquecido seu estojo de lápis especiais na sala de artes e decidiu voltar para buscar.
Ao passar pelo corredor do bloco de música, um som a fez parar.
Alguém estava tocando piano. Não era uma peça clássica ou um exercício técnico. Era uma melodia suave, melancólica e profundamente bonita. E então, uma voz começou a cantar.
Era uma voz de ouro. Limpa, estável, mas carregada de uma emoção que parecia transbordar pelas paredes da sala.
Sohee aproximou-se da porta entreaberta da sala de música. Lá dentro, sentado ao piano, estava Seungmin. Ele estava sozinho, os olhos fechados, os dedos movendo-se com uma confiança que ele raramente demonstrava nos corredores.
A letra da música falava sobre observar de longe. Falava sobre o medo de quebrar o que é frágil e a frustração de ser o "porto seguro" silencioso enquanto o coração gritava por atenção.
— "Você traduz o mundo em cores que eu não ouso tocar..." — cantava ele, a voz subindo para uma nota alta e cristalina que fez a espinha de Sohee estremecer. — "E eu traduzo meu silêncio em palavras que você nunca vai escutar. Sou o rascunho de um desenho que você nunca terminou..."
Sohee sentiu uma lágrima escorrer pelo rosto. A música era sobre ela. Cada verso, cada metáfora sobre arte e timidez, era um reflexo da relação deles. Ele não era apenas o garoto sarcástico; ele era um poeta que usava a música para dizer tudo o que a sua insegurança o impedia de falar.
Sem pensar, ela deu um passo à frente, e a madeira do piso rangeu sob seus pés.
O som do piano parou abruptamente. Seungmin abriu os olhos e virou a cabeça rapidamente, a expressão de pânico cruzando seu rosto ao ver Sohee na porta.
— Sohee? — Ele se levantou tão rápido que a banqueta do piano quase tombou. — O que... há quanto tempo você está aí?
Sohee não conseguia falar. Ela entrou na sala, as mãos trêmulas segurando a alça da mochila. Ela caminhou até ele, parando a apenas um passo de distância. O cheiro cítrico e limpo dele a envolveu.
— Eu ouvi tudo — sussurrou ela, a voz embargada.
Seungmin desviou o olhar, as orelhas ficando vermelhas. Ele tentou recuperar sua máscara, procurando por uma resposta sarcástica que pudesse salvá-lo daquele momento de exposição total.
— Eu estava apenas... praticando. A letra é de um compositor desconhecido, eu só achei interessante o arranjo e...
— Pare de mentir, Seungmin — interrompeu ela, dando mais um passo. — Você escreveu isso. E você escreveu para mim.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Seungmin finalmente olhou para ela, e a intensidade em seus olhos fez Sohee perder o fôlego. Não havia mais sarcasmo, não havia mais proteção. Era apenas o Kim Seungmin real, o garoto que a amava em segredo por seis meses.
— E se eu escrevi? — perguntou ele, a voz baixa e desafiadora, embora suas mãos estivessem escondidas nas costas para ocultar o tremor. — O que você vai fazer com isso, Sohee? Vai rir? Vai dizer que eu sou estranho por observar você desenhar por tanto tempo?
Em resposta, Sohee abriu a mochila e tirou o caderno manchado de suco de uva. Ela o abriu na página do perfil dele, o desenho que ela tinha passado horas aperfeiçoando sem nem saber o porquê.
— Eu também observo você, Seungmin — disse ela, estendendo o caderno. — Eu desenho o seu rosto todos os dias porque, mesmo quando eu não entendia o que estava sentindo, meu coração já sabia que você era a única coisa que eu realmente queria retratar.
Seungmin pegou o caderno com as mãos trêmulas. Ele olhou para o desenho, para a precisão dos traços que capturavam não apenas sua aparência, mas a essência da sua alma que ele tentava tanto esconder. Uma pequena risada escapou de seus lábios, mas não era sarcástica. Era uma risada de alívio puro.
— Então... — começou ele, olhando do caderno para os olhos dela — quer dizer que eu passei seis meses sendo sarcástico com o Felix por ciúmes, quando eu poderia ter apenas pedido para você me desenhar?
Sohee sorriu, as lágrimas ainda brilhando em seus cílios.
— Talvez. Mas eu gosto do seu sarcasmo. Ele me faz prestar atenção em você.
Seungmin fechou o caderno e o colocou sobre o piano. Ele deu o passo final que faltava, diminuindo a distância entre eles até que suas testas se encostassem.
— Eu não sou bom com abraços como o Felix — sussurrou ele, a voz de ouro agora reduzida a um murmúrio íntimo. — E eu não sou um artista sensível como o Hyunjin. Eu sou só... eu.
— "Só você" é exatamente o que eu estava procurando desenhar — respondeu Sohee.
Seungmin sorriu, o sorriso lindo que Sohee tanto amava, e finalmente, sem a interferência de Yuna, sem o ciúme de Felix e sem a timidez que os mantinha afastados, ele inclinou-se para beijá-la. Foi um beijo que cheirava a notas de piano e papel de desenho, um encontro de duas almas que tinham passado tempo demais se observando entre linhas e acordes, mas que agora, finalmente, começavam a escrever sua própria história em cores vivas.