Laços que Permanecem
O Reflexo na Água e Outras Mentiras Convenientes
A brisa da noite em Konoha tinha um frescor que Boruto agora associava, quase que instintivamente, ao cheiro de pele úmida e ao som constante do Rio Naka. Já haviam se passado dez meses desde que a dinâmica entre eles implodiu e se reconstruiu em algo novo, clandestino e perigosamente viciante. Dez meses de olhares trocados por cima de relatórios de missão e sorrisos contidos que morriam antes de chegarem aos lábios sempre que alguém olhava.
Boruto chutou uma pedra no caminho de terra, as mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta. Ele estava atrasado. Três minutos atrasado, para ser exato. E Sarada Uchiha tinha um cronômetro interno que faria um relógio atômico parecer impreciso.
Ao chegar à margem isolada, onde as árvores eram tão densas que nem a luz da lua conseguia penetrar totalmente, ele a viu. Ela estava sentada em uma pedra baixa, as sandálias ninja deixadas de lado, os pés mergulhados na água corrente. Ela não usava a capa de missão, apenas uma regata escura que deixava à mostra a curva dos ombros.
— Três minutos e quarenta segundos, Boruto — disse ela, sem se virar. — Eu poderia ter lido metade de um pergaminho de jutsus médicos nesse tempo.
Boruto sentiu aquele calor familiar subir pelo peito. O sarcasmo era o oxigênio deles, mesmo agora. Especialmente agora.
— Sabe como é, Sarada. O herói da vila precisa manter as aparências — ele se aproximou, deixando o tom debochado ecoar suavemente. — Tive que despistar o bando de garotas que estavam tentando me oferecer biscoitos caseiros. Vida de prodígio é um fardo, você não entenderia.
Sarada finalmente virou o rosto, e o brilho dos óculos foi substituído pelo brilho divertido de seus olhos negros.
— Ah, claro. O grande sacrifício de Boruto Uzumaki: comer biscoitos de graça. Como você sobrevive? — Ela estendeu a mão, um gesto silencioso que ele aceitou sem hesitar.
Ao tocar a mão dela, o mundo exterior — as expectativas do Nanadaime, a pressão de ser um Uchiha, a ameaça de invasores espaciais — simplesmente deixava de existir. Ele a puxou para cima, e ela se levantou, ficando a centímetros dele. A diferença de altura tinha aumentado ligeiramente nos últimos meses, algo que Boruto fazia questão de mencionar pelo menos uma vez por semana.
— Senti sua falta hoje no treino — murmurou ele, a voz perdendo a camada de deboche e assumindo um tom que ele só usava quando as árvores eram as únicas testemunhas.
— Estive ocupada com o Hospital de Konoha — explicou ela, deslizando as mãos pelo peito da jaqueta dele, ajeitando a gola que, como sempre, estava torta. — E você sabe que não podemos ficar nos encarando por muito tempo em público. O Mitsuki já olha para nós como se estivéssemos sob um microscópio.
— O Mitsuki sabe, Sarada. O Shikadai sabe. Até a Chocho provavelmente já fez um gráfico sobre a nossa frequência cardíaca quando estamos na mesma sala — Boruto revirou os olhos, mas não se afastou. — Manter isso em segredo dos nossos pais é uma coisa, mas fingir que eu não quero te puxar para um canto toda vez que você me dá uma bronca... isso está ficando difícil.
Sarada soltou uma risada curta, encostando a testa no ombro dele.
— É o seu passatempo favorito, não é? Me irritar até eu perder a compostura.
— É a única forma de ver a verdadeira Sarada — ele sussurrou, passando os braços pela cintura dela. — A que não precisa ser a Hokage perfeita. A que gosta de nadar no rio à meia-noite e que tem o beijo mais teimoso de todo o País do Fogo.
Ela se afastou o suficiente apenas para encará-lo, aquela expressão de desafio que ele tanto amava.
— Teimoso? — Ela arqueou uma sobrancelha.
— Absolutamente — afirmou ele, com um sorriso de canto. — Você beija como se estivesse tentando ganhar uma luta. É competitivo. É caótico. É... você.
— Então acho que vou ter que me esforçar mais para vencer esta rodada — retrucou ela.
Ela o puxou pela nuca, e o beijo que se seguiu não teve nada de diplomático. Era uma mistura de saudade acumulada durante o dia e a urgência de quem vivia em um mundo onde o amanhã nunca era garantido. Boruto a apertou contra si, sentindo o calor da pele dela contra o frio da brisa noturna.
Eles se separaram ofegantes, o som do rio preenchendo o silêncio. Sem dizer uma palavra, Sarada começou a caminhar em direção à parte mais profunda da margem, onde a água formava uma piscina natural protegida pelas rochas. Ela tirou a regata, revelando a silhueta que Boruto já conhecia de cor, mas que ainda o fazia perder o fôlego toda vez.
— A última pessoa a entrar na água vai ter que pagar o ramen amanhã — desafiou ela, já mergulhando com a graça de uma kunoichi de elite.
— Ei! Isso é trapaça! — Boruto gritou, já se livrando da jaqueta e das botas. — Você sabe que eu odeio água fria à noite!
— O herói da vila tem medo de um pouco de gelo? — A voz dela veio do meio do rio, carregada de ironia. — Que decepção, Uzumaki.
Ele mergulhou logo em seguida, o choque térmico fazendo seus pulmões arderem por um segundo antes de o calor do corpo se estabilizar. Ele emergiu perto dela, limpando a água do rosto. Sarada estava flutuando, os cabelos negros espalhados como uma mancha de tinta na superfície prateada da água.
Eles ficaram ali por um longo tempo, apenas flutuando e conversando sobre coisas triviais. Era o único momento em que podiam ser apenas dois adolescentes, sem o peso dos sobrenomes que carregavam.
— Você já pensou no que acontece se o seu pai descobrir? — perguntou Sarada, a voz subitamente séria enquanto ela se apoiava em uma rocha submersa.
Boruto boiou de costas, olhando para as estrelas.
— O Velho? Ele provavelmente teria um curto-circuito. O Hokage e o braço direito dele, o seu pai, teriam que ter uma reunião de emergência para discutir o "Protocolo de Desastre Amoroso" entre as famílias.
— Meu pai mataria você — disse ela, embora houvesse um traço de diversão no tom. — Ele usaria o Amaterasu em você antes mesmo de você conseguir dizer "eu juro que as intenções são nobres".
— Minhas intenções nunca são nobres, Sarada. Você sabe disso — Boruto nadou até ela, ficando entre a rocha e o corpo dela. — Eu sou o caos, lembra? Mas por você... eu acho que enfrentaria até o Susanoo do Sasuke-san.
Sarada suavizou o olhar, passando a mão úmida pelo rosto dele, traçando as marcas de bigode em suas bochechas.
— Às vezes eu me pergunto por que você me escolheu. Há tantas pessoas que te acham incrível sem que você precise fazer esforço.
Boruto soltou um riso seco, segurando o pulso dela e beijando a palma de sua mão.
— Exatamente por isso. Elas acham que eu sou incrível por causa do que elas veem por fora. Você me acha um idiota porque sabe exatamente quem eu sou por dentro. E, de alguma forma, você ainda está aqui, às duas da manhã, em um rio gelado comigo.
— Eu devo ser tão louca quanto você — admitiu ela.
— Não — corrigiu ele, aproximando o rosto do dela. — Você é apenas a única pessoa que é real o suficiente para mim. As outras são previsíveis. Você é o meu maior enigma, Sarada. E eu pretendo passar o resto da vida tentando te decifrar.
Ela o puxou para outro beijo, este mais lento, mais profundo, com o sabor da água do rio e a promessa de um amanhã escondido. Ali, no abraço dela, Boruto sentia que não precisava de reconhecimento, de títulos ou de fama. Ele só precisava daquela garota que se recusava a cair no seu charme, mas que tinha entregado o coração a ele em segredo.
— Temos que ir — sussurrou ela contra os lábios dele, minutos ou talvez horas depois. — O sol vai nascer em breve e eu tenho uma reunião com a Sakura-san logo cedo.
— Mais cinco minutos — pediu ele, escondendo o rosto na curva do pescoço dela. — Só mais cinco minutos sendo apenas o Boruto e a Sarada. Sem clãs. Sem vilas.
Ela suspirou, cedendo ao abraço e fechando os olhos.
— Cinco minutos. Mas você ainda vai pagar o ramen amanhã.
— Justo — ele sorriu.
Eles saíram da água e se vestiram em silêncio, um ritual que já haviam praticado tantas vezes que parecia uma coreografia. Antes de se separarem na borda da floresta, Boruto a segurou pelo braço uma última vez.
— Ei, futura Hokage.
— O que foi agora, irritante?
— Eu te amo. Mesmo que você seja uma ditadora mandona.
Sarada parou. O sarcasmo que ela sempre usava como escudo vacilou por um breve segundo, revelando a garota que ele tanto protegia. Ela se aproximou e deu um beijo rápido na ponta do nariz dele.
— Eu também te amo, seu idiota caótico. Agora vê se não chega atrasado na missão de amanhã. Eu odeio ter que inventar desculpas para o Konohamaru-sensei.
Ela desapareceu entre as sombras das árvores com a velocidade de um relâmpago. Boruto ficou parado ali por um momento, sentindo o cheiro dela ainda impregnado em sua pele. Ele olhou para as próprias mãos, que ainda tremiam levemente.
Dez meses. E cada encontro parecia o primeiro. O mundo podia ser um caos, o futuro podia ser sombrio, mas enquanto houvesse aquele rio, aquele segredo e aquela Uchiha teimosa para desafiá-lo, Boruto Uzumaki sabia que estava exatamente onde deveria estar.
Ele começou a caminhar de volta para casa, assobiando uma melodia qualquer. Ele tinha um ramen para pagar, uma reputação de encrenqueiro para manter e uma vida inteira de mentiras convenientes para contar ao mundo.
E ele não mudaria nada disso por nada no universo.