Lamine
O Delírio do Diamante: O Fogo sob a Pele
A atmosfera no vestiário do Camp Nou antes do confronto decisivo contra o Atlético de Madrid era de eletricidade pura. Mas, no canto mais afastado, Lamine Yamal sentia que o mundo estava girando um pouco mais rápido do que o normal. Ele sentia calafrios percorrendo sua espinha, contrastando com o suor frio que brotava em sua testa antes mesmo do aquecimento começar.
— Lamine, você está pálido, garoto — comentou Raphinha, aproximando-se com o uniforme de treino na mão. — Bebeu água o suficiente?
— Só... o nervosismo de sempre, Rapha — mentiu Lamine, sua voz saindo um pouco mais rouca do que pretendia. — O café estava forte demais.
Na verdade, a cabeça de Lamine latejava. Cada batida do seu coração parecia um tambor ecoando dentro do crânio. Ele sabia o que era: desde a noite anterior, uma gripe súbita o atingira, e o termômetro no seu quarto marcara 38.9°C antes de ele sair de casa. Ele escondera o aparelho sob o travesseiro para que sua mãe não visse. Ele não podia perder esse jogo. Não depois de tudo o que as lendas haviam feito por ele.
No centro do vestiário, Robert Lewandowski conversava com Xavi, enquanto Ibrahimovic, convidado de honra para acompanhar o time no banco de reservas naquela noite, observava cada jogador com seu olhar de águia.
— Ele está estranho — murmurou Zlatan para Xavi, apontando discretamente com o queixo para o jovem prodígio. — O garoto está se movendo como se estivesse debaixo d'água.
Xavi franziu a testa e caminhou até Lamine.
— Lamine, olhe para mim.
O garoto levantou a cabeça, fazendo um esforço hercúleo para focar a visão. Seus olhos estavam vermelhos e vidrados.
— Estou bem, mister. Pronto para os noventa minutos.
— Você está queimando — disse Xavi, encostando a palma da mão na testa do garoto. Ele recuou imediatamente. — Meu Deus, Lamine! Você está com uma febre altíssima. Dr. Pruna!
O médico do clube correu até eles, já com o termômetro infravermelho em mãos. O bipe foi implacável: 39.2°C.
— De jeito nenhum — sentenciou o Dr. Pruna. — Você vai para a enfermaria agora. Isso é perigoso, pode ser uma infecção ou uma gripe severa. Jogar com essa temperatura pode causar um colapso cardíaco.
— Não! — Lamine se levantou, cambaleando levemente, mas mantendo a postura. — Eu não vou sair. Eu já curei meus pés, eu aprendi a jogar sem dor. Não vou deixar uma febre me parar. O time precisa de mim.
— O time precisa de você vivo, pequeno — disse Ibrahimovic, aproximando-se. — Zlatan já jogou com ossos quebrados, mas jogar com o cérebro cozinhando é estupidez, não coragem.
Lewandowski se aproximou, colocando as mãos nos ombros de Lamine.
— Robert, escute. Nós sabemos o quanto você quer estar lá. Mas olhe para as suas mãos, elas estão tremendo.
— É a adrenalina! — insistiu Lamine, as lágrimas de frustração começando a se misturar ao suor febril. — Por favor, mister. Eu tomo um antitérmico, eu aguento. Se eu não jogar, vão dizer que eu sou frágil. Que depois dos pés, agora é a saúde.
Xavi olhou para o Dr. Pruna, depois para as lendas ao redor. Messi e Cristiano Ronaldo estavam assistindo por uma chamada de vídeo no tablet de um dos assistentes, mantendo a tradição de monitorar a joia do clube.
— Deixe-o jogar o primeiro tempo — disse a voz de Cristiano Ronaldo através do alto-falante. O vestiário ficou em silêncio. — Mas com uma condição. Se a frequência cardíaca dele subir acima do limite de segurança no monitor que ele usa sob a camisa, Xavi o tira no mesmo instante, sem discussão.
— Cristiano, você enlouqueceu? — perguntou Messi na chamada. — Ele é uma criança. O risco de desidratação é enorme.
— Eu conheço esse olhar, Leo — respondeu Cristiano. — Se o proibirmos agora, a febre psicológica será pior que a física. Ele precisa entender onde está o limite dele. Mas, Lamine... se você desmaiar, eu mesmo vou até Barcelona te dar uma bronca que você nunca esquecerá.
Xavi hesitou, mas acabou cedendo sob a pressão do olhar determinado de Lamine.
— Vinte minutos. Se em vinte minutos você não mostrar que tem controle, você sai. E vai tomar medicação na veia.
Lamine assentiu, sentindo um alívio momentâneo que logo foi substituído por uma tontura quando ele se abaixou para amarrar as chuteiras.
O túnel de acesso ao campo parecia um labirinto infinito. As luzes do estádio eram borrões brilhantes que feriam seus olhos. Quando o hino começou, Lamine sentiu o corpo pesado, como se estivesse vestindo uma armadura de chumbo.
O apito inicial soou. Nos primeiros cinco minutos, Lamine mal tocou na bola. Ele sentia que o campo estava inclinado. O som da torcida não era um rugido, mas um zumbido constante que o deixava desorientado.
— Lamine! Acorda! — gritou Raphinha, passando por ele.
A bola veio em sua direção. Lamine a dominou, mas o toque parecia estranho. A percepção de profundidade estava falhando. Ele tentou um drible simples, mas suas pernas não responderam com a velocidade habitual. O defensor do Atlético roubou a bola facilmente.
No banco de reservas, Xavi olhava para o tablet que monitorava os sinais vitais. A frequência cardíaca de Lamine estava em 185 batimentos por minuto, alto demais para o ritmo do jogo naquele momento.
— Ele não vai aguentar — murmurou o Dr. Pruna, preparando a substituição.
Aos quinze minutos, algo aconteceu. Lamine recebeu a bola na lateral. Ele sentiu uma onda de calor tão forte que sua visão escureceu por um segundo. No seu delírio febril, ele não viu apenas os jogadores do Atlético; ele viu as silhuetas de Messi e Cristiano ao fundo, como se estivessem no gramado com ele.
— Não pare — sussurrou a voz na sua mente.
Lamine arrancou. Ele não estava correndo com os músculos, estava correndo com a alma. Ele passou pelo primeiro marcador com um drible de corpo que parecia um borrão. O segundo defensor tentou uma entrada dura, mas Lamine saltou, a gravidade parecendo não ter efeito sobre seu corpo febril.
Ele invadiu a área. O goleiro saiu para fechar o ângulo. Lamine viu três traves, três goleiros. Ele fechou os olhos por um milésimo de segundo, confiando no instinto que Lewandowski lhe ensinara. Ele chutou.
GOL.
O estádio explodiu, mas Lamine não comemorou. Ele parou, colocou as mãos nos joelhos e começou a arfar. O mundo ao seu redor começou a perder as cores, tornando-se um cinza pálido.
Raphinha correu para abraçá-lo, mas ao tocar no ombro de Lamine, sentiu o calor emanando do tecido.
— Lamine? Ei, garoto!
Lamine Yamal desabou. Antes que seus joelhos tocassem o gramado, Lewandowski, que estava por perto, o segurou nos braços.
— Médico! Agora! — gritou o polonês, sua voz carregada de pânico.
O jogo parou instantaneamente. Xavi e o Dr. Pruna correram para o campo, seguidos por Ibrahimovic, que saltou a mureta com uma agilidade surpreendente. Lamine estava inconsciente, sua respiração curta e rápida.
— Eu avisei! — exclamou o Dr. Pruna, enquanto colocavam o garoto na maca. — O corpo dele entrou em choque térmico.
No vestiário, o clima era de velório. O jogo continuava lá fora, mas ninguém na área médica do Barcelona estava prestando atenção. Lamine estava coberto por toalhas geladas, com dois acessos venosos administrando soro e antitérmicos.
Lentamente, ele começou a abrir os olhos. A primeira coisa que viu foi o rosto sério de Ibrahimovic, que estava sentado em uma cadeira ao lado da maca, observando-o como um guarda-costas.
— Você é o idiota mais talentoso que eu já conheci — disse Zlatan, sua voz grave ecoando na sala silenciosa.
— Eu... eu marquei? — perguntou Lamine, a voz quase inaudível.
— Marcou. Um gol de quem não estava neste planeta — respondeu Lewandowski, aparecendo atrás de Ibra. — Mas você quase nos matou de susto, Lamine.
Xavi entrou na sala, segurando o tablet. Na tela, Messi e Cristiano Ronaldo ainda estavam conectados. As expressões de ambos eram uma mistura de alívio e severidade.
— Lamine — disse Messi, sua voz suave mas firme. — Você provou que tem o coração de um leão. Mas um leão que morre cedo não lidera a alcateia.
— Você desrespeitou seu corpo de novo — acrescentou Cristiano. — Nós te ensinamos sobre os pés, mas a saúde geral é o motor. Você correu com o motor fundindo, garoto. Isso não é ser profissional. É ser imprudente.
Lamine baixou a cabeça, sentindo o frio do soro entrando em suas veias.
— Eu só queria mostrar que sou forte o suficiente para o Barcelona. Que sou forte como vocês.
— Forte como nós? — Ibrahimovic riu, um som seco. — Garoto, Zlatan sabe quando recuar para poder atacar mais forte depois. Ser forte é ter a inteligência de dizer "hoje não". Você tem dezessete anos e agiu como se fosse sua última final de Copa do Mundo.
— O mister está certo em uma coisa — disse Raphinha, entrando na sala após ser substituído. — Aquele gol foi incrível. Mas ver você caindo... nenhum gol vale isso.
O Dr. Pruna aproximou-se e checou a temperatura. 37.8°C. Estava caindo.
— Você vai ficar em observação esta noite — disse o médico. — E vai perder o próximo jogo, quer queira ou não. Seu sistema imunológico está esgotado.
— Eu aceito — disse Lamine, finalmente se entregando ao cansaço real. — Eu aprendi a lição. De verdade, desta vez.
— Esperamos que sim — disse Xavi, sentando-se aos pés da maca. — Porque o talento que você tem é um empréstimo do destino, Lamine. Se você não cuidar do frasco, o perfume se perde.
Naquela noite, Lamine ficou no hospital do clube. Ele recebeu mensagens de jogadores de todo o mundo. Bellingham enviou uma foto de um termômetro com a legenda: "Da próxima vez, use isso antes da chuteira". Haaland mandou um vídeo comendo uma sopa gigante, dizendo que era "comida de viking para garotos febris".
Mas a mensagem que ele mais guardou foi uma de um número desconhecido, que ele sabia pertencer a um dos grandes.
"O fogo que você tem por dentro deve ser usado para queimar os adversários, não para consumir você mesmo. Descanse, Fênix. O trono ainda estará lá quando você acordar. — M."
Lamine fechou os olhos, sentindo o sono finalmente sereno. Ele não sentia mais o peso das faixas, nem a dor das chuteiras apertadas, nem o fogo da febre. Ele sentia apenas a paz de saber que, embora fosse um diamante, ele ainda era humano. E que, para brilhar por vinte anos, ele precisava, acima de tudo, aprender a respirar.
Na manhã seguinte, quando o sol da Catalunha entrou pela janela do quarto, Lamine Yamal se levantou. Seus pés tocaram o chão com firmeza. Ele não sangrava. Ele não queimava. Ele apenas existia, pronto para recomeçar, desta vez, do jeito certo. Sem segredos, sem torturas, apenas com o futebol puro que o mundo tanto esperava ver.