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Lobo mau

Cinzas e Faíscas sob a Chuva de La Push

O som da chuva martelando o telhado de zinco da casa de Billy Black criava uma sinfonia rítmica, mas para mim, o único som que existia era a respiração pesada de Jacob contra o meu ouvido. O ar na cozinha estava saturado de um calor que não vinha do fogão, mas da eletricidade que ainda vibrava entre nós dois. Meus dedos ainda estavam enterrados nos cabelos dele, sentindo a textura grossa e escura, enquanto o peso do seu corpo sobre o meu, na mesa de madeira, era o único ancoradouro que me impedia de flutuar para longe.

Jacob levantou o rosto lentamente. Seus olhos, antes nublados por um desejo primitivo, agora carregavam aquela vulnerabilidade que ele só mostrava para mim. O Jacob lobo era uma força da natureza, mas o Jacob homem era um emaranhado de preocupação e devoção que me destruía e me reconstruía a cada segundo.

— Você está bem? — ele sussurrou, a voz ainda vibrando com a rouquidão do prazer. — Eu não... eu não pesei demais?

Eu soltei uma risada curta, sentindo a vibração no meu próprio peito. Mesmo depois de tudo, mesmo depois de termos praticamente incendiado a cozinha dele, a primeira preocupação de Jacob era o meu conforto.

— Jake, eu sinto que sou feita de vidro toda vez que você me olha desse jeito — respondi, acariciando a linha da sua mandíbula forte. — Mas você sabe que sou mais resistente do que pareço. E não, você não pesou demais. Foi perfeito.

Ele sorriu, aquele sorriso que começava no canto da boca e iluminava todo o seu rosto, fazendo-me lembrar por que era tão perigoso estarmos no mesmo cômodo. Jacob se afastou apenas o suficiente para me ajudar a sentar na borda da mesa, mas suas mãos continuaram possessivas nas minhas coxas, como se ele tivesse medo de que, se me soltasse, eu desapareceria como a névoa matinal de La Push.

— Esse é o problema — murmurou ele, encostando a testa na minha. — Com você, nunca é apenas "bom". É sempre tudo. É como se meu sangue entrasse em ebulição. Eu tento ser civilizado, juro que tento. Penso: "Ok, hoje vou apenas dizer oi, perguntar como ela está e manter as mãos nos bolsos".

— E quanto tempo isso dura? — provoquei, deslizando minhas mãos pelos seus ombros largos, sentindo a pele ainda úmida de suor.

— Até você respirar perto de mim — confessou ele com um suspiro derrotado. — O seu cheiro... ele anula qualquer lógica que eu tente usar. Eu sou um animal de hábitos, e meu hábito favorito é você.

A tensão sexual que nos consumira minutos atrás não havia desaparecido totalmente; ela apenas se transformara em algo mais profundo, uma melancolia doce que sempre acompanhava nossos encontros. Éramos ex-namorados por um motivo. O mundo dele era perigoso, a minha vida era complicada, e o destino parecia se divertir em nos colocar em rota de colisão constante.

— Nós não podemos continuar fazendo isso, Jacob — eu disse, embora minhas mãos estivessem traindo minhas palavras ao puxá-lo para mais perto. — Billy pode chegar, ou um dos seus irmãos de matilha pode entrar por aquela porta a qualquer momento. Sam vai saber. Todos eles vão saber.

Jacob soltou um rosnado baixo, não de raiva, mas de frustração pura. Ele se levantou, pegando sua calça de ganga do chão e vestindo-a com movimentos rápidos e fluidos que faziam seus músculos dançarem sob a luz amarelada da cozinha.

— Deixe que saibam — disse ele, voltando-se para mim enquanto eu tentava organizar minhas próprias roupas. — Eu estou cansado de fingir que não sinto o seu rastro em cada centímetro desta reserva. Estou cansado de agir como se o fato de não estarmos juntos fosse uma escolha fácil.

— Não foi uma escolha fácil para ninguém — lembrei, minha voz falhando ligeiramente. — Mas você tem responsabilidades. A matilha, a proteção da fronteira... e eu não posso ser a distração que faz você se machucar.

Jacob atravessou o espaço entre nós em dois passos largos. Ele me segurou pelos ombros, forçando-me a olhar para ele. A intensidade em seus olhos era quase dolorosa de testemunhar.

— Você não é uma distração — afirmou ele com uma convicção absoluta. — Você é a razão pela qual eu volto. Você é o que me mantém humano quando tudo o que eu quero é correr pela floresta e esquecer que tenho um nome. Se eu me machucar, vai ser por não ter você, e não o contrário.

Eu desviei o olhar, sentindo as lágrimas arderem. Era tão fácil se perder na retórica de Jacob. Ele era bondoso e protetor, o tipo de homem que moveria montanhas por quem amava. Mas a realidade de La Push era feita de sombras e tratados de paz frágeis.

— O que vamos fazer, Jake? — perguntei, finalmente vestindo minha blusa, que ainda cheirava a ele. — Toda vez que nos vemos, terminamos assim. É como se houvesse um ímã nos puxando. Nós tentamos ser amigos, tentamos o distanciamento... nada funciona.

Jacob soltou um suspiro pesado e caminhou até a janela, observando a chuva cair sobre as árvores escuras. Suas costas largas pareciam carregar o peso do mundo inteiro.

— Talvez a resposta seja parar de lutar contra o ímã — disse ele sem se virar. — Talvez o erro seja tentarmos ser algo que não somos. "Ex-namorados" é uma palavra pequena demais para o que nós temos.

— E o que nós temos? — provoquei, sentindo meu coração acelerar novamente.

Ele se virou, encostando-se na pia, os braços cruzados sobre o peito nu e escultural.

— Nós temos uma tensão que poderia alimentar a rede elétrica de Forks inteira — ele brincou, mas seu olhar permaneceu sério. — E temos uma conexão que eu não sinto com mais ninguém. Nem mesmo o imprinting... — Ele hesitou, e o nome de Bella pairou no ar por um segundo, invisível mas presente. — O que eu sinto por você é diferente. É uma escolha. Eu escolho você, todos os dias, mesmo quando não deveria.

Caminhei até ele, parando a poucos centímetros. O calor que emanava dele era como uma lareira em uma noite de inverno. Eu estendi a mão e toquei a cicatriz leve no seu braço, um lembrete das batalhas que ele já havia enfrentado.

— Eu também escolho você, Jacob. Mas as nossas escolhas têm consequências. Se continuarmos assim, vamos acabar nos destruindo. Não conseguimos ficar no mesmo sítio sem... — eu gesticulei para a mesa da cozinha, sentindo minhas bochechas arderem.

— Sem eu querer te devorar? — Ele deu um passo à frente, invadindo meu espaço, a voz descendo para aquele tom rouco que fazia minhas pernas tremerem. — Sem você me olhar com esse desafio nos olhos, me implorando para que eu perca o controle?

— Eu não imploro — rebati, embora soubesse que era mentira.

— Não com palavras — Jacob sussurrou, inclinando-se até que seus lábios estivessem roçando o meu ouvido. — Mas o seu corpo fala por você. O jeito que você se inclina na minha direção, o jeito que sua respiração falha quando eu chego perto... eu sinto tudo isso. Eu sou um lobo, lembra? Seus instintos não mentem para os meus.

Ele deslizou a mão pela minha cintura, puxando-me para o contato total. Mesmo vestidos, a fricção era insuportável. A tensão sexual não era apenas um desejo físico; era uma necessidade de alma, um vício que nenhum de nós estava pronto para largar.

— Jacob... — meu protesto morreu em um suspiro quando ele começou a beijar a curva do meu pescoço, seus dentes raspando levemente na minha pele, exatamente onde ele sabia que eu era mais sensível.

— Eu sei — murmurou ele contra a minha pele. — Eu sei que é errado, que é perigoso, que Billy vai chegar e que a matilha vai me dar um sermão sobre foco. Mas, agora, eu só consigo pensar em como você se sente nos meus braços.

— Você é impossível — eu disse, jogando a cabeça para trás para dar a ele mais acesso.

— E você é irresistível — ele rebateu, levantando a cabeça para me beijar com uma urgência renovada.

O beijo não era mais o desespero de minutos atrás; era algo mais lento, mais profundo, carregado de uma promessa silenciosa. Jacob me segurava como se eu fosse o seu tesouro mais precioso, suas mãos grandes mapeando minhas costas com uma reverência que me fazia querer chorar e gritar ao mesmo tempo.

De repente, o som de um motor cortou o barulho da chuva. Jacob congelou instantaneamente, sua postura relaxada transformando-se em alerta máximo. Seus olhos focaram na estrada que levava à casa.

— É o Billy? — perguntei, meu coração martelando contra as costelas.

— Não — Jacob respondeu, a voz voltando ao tom sério de guarda. — É o carro do Sam. Ele deve estar vindo me buscar para a ronda noturna.

Eu me afastei rapidamente, tentando alisar meu cabelo e organizar minhas roupas desgrenhadas. O pânico começou a subir pela minha garganta. Se Sam Uley entrasse ali e sentisse o cheiro do que tinha acabado de acontecer — e ele sentiria, com certeza — a situação ficaria insustentável.

Jacob percebeu meu desconforto e colocou as mãos nos meus ombros, acalmando-me com seu toque sólido.

— Ei, olhe para mim — pediu ele. — Vai ficar tudo bem. Eu vou lá fora encontrá-lo. Você fica aqui, termina de se organizar e sai quando o caminho estiver livre.

— Ele vai saber, Jake — sussurrei. — Ele sempre sabe.

— Deixe que saiba — repetiu Jacob com um sorriso desafiador. — Eu não tenho vergonha do que sinto por você. Nunca tive.

Ele me deu um último beijo rápido, um toque de lábios que prometia muito mais para o futuro, e pegou uma camiseta limpa que estava pendurada no encosto de uma cadeira. Ele a vestiu com uma rapidez impressionante e caminhou até a porta. Antes de sair, ele parou e olhou para trás.

— Isso não acabou — avisou ele, os olhos brilhando com aquela promessa sexy e perigosa. — Nós vamos ter que dar um jeito nisso. Porque eu não vou conseguir ficar longe de você por muito mais tempo.

— Eu sei — respondi, observando-o sair para a chuva torrencial.

Fiquei parada na cozinha, o silêncio agora preenchido apenas pelo som da água caindo e pelo pulsar do meu próprio sangue. O cheiro de Jacob ainda estava em todo lugar — na minha pele, nas minhas roupas, no ar. Eu sabia que éramos um desastre anunciado. Sabia que cada vez que cruzávamos aquela linha, ficava mais difícil voltar para a segurança da nossa separação.

Caminhei até a janela e vi Jacob conversando com Sam perto do carro preto. Sam parecia sério, mas Jacob mantinha a cabeça erguida, uma postura de desafio e orgulho que era típica dele. Ele era um homem dividido entre dois mundos, mas naquele momento, eu sabia que uma parte dele ainda estava ali na cozinha comigo.

A tensão sexual entre nós não era algo que pudéssemos resolver com um encontro casual ou uma tarde de paixão. Era uma força fundamental, algo que estava entranhado no que éramos. E enquanto eu observava Jacob entrar no carro e desaparecer na escuridão da floresta, eu sabia que, não importava o quanto tentássemos lutar, nós sempre seríamos atraídos de volta para o calor um do outro.

Afinal, como Jacob disse, éramos como fogo. E eu estava mais do que disposta a me queimar, desde que as chamas fossem dele.

Respirei fundo, sentindo o peso do silêncio na casa de Billy. Eu precisava ir embora antes que o patriarca dos Black voltasse, mas meus pés pareciam pesados. Olhei para a mesa da cozinha e um pequeno sorriso surgiu nos meus lábios ao lembrar da audácia de Jacob, da sua força e da maneira como ele me fazia sentir a mulher mais desejada do mundo.

— Você vai ser a minha ruína, Jacob Black — murmurei para as paredes vazias.

Saí da casa minutos depois, a chuva lavando parte da evidência física do que acontecera, mas nada poderia apagar a memória do toque dele. Enquanto eu dirigia para fora da reserva, Passing pela placa que marcava o limite de La Push, eu já estava contando os minutos para a próxima vez que o destino — ou o nosso próprio desejo incontrolável — nos colocaria frente a frente novamente.

Porque nós éramos isso: uma colisão inevitável, um segredo mal guardado e uma paixão que nem mesmo a chuva mais forte de Washington poderia apagar. E eu mal podia esperar pelo próximo incêndio.