Loki
O Silêncio entre as Grades de Vidro
O vidro blindado da Torre Stark refletia não apenas as luzes artificiais de Nova York, mas também o cansaço estampado no rosto de Clara. Dois anos haviam se passado desde que Asgard ruíra sob o peso das mentiras de Loki. Dois anos desde que ela decidira que o amor não era uma justificativa aceitável para a tirania. Quando Thor foi banido e a guerra estourou, ela acreditou que Loki pudesse ser salvo. Ela implorou, ela chorou e ela o enfrentou. Mas o Loki que ela encontrou na sala do trono, aquele com o olhar gélido de um estranho, não era o homem que sussurrava promessas em seu ouvido durante as noites de luar.
Agora, Midgard era o seu refúgio. Clara havia se tornado uma espécie de consultora informal para os Vingadores, ajudando Thor a se aclimatar e oferecendo conhecimentos sobre a cultura asgardiana que apenas alguém que viveu entre eles poderia ter. Ela era a mulher gordinha, de risada fácil e mãos gentis, que cuidava dos ferimentos leves de Steve Rogers ou debatia literatura com Bruce Banner. Ninguém ali sabia que ela carregava o coração de um deus caído no peito.
Até aquele dia.
Loki havia invadido a Terra. Ele trouxera um exército de Chitauri, causara o caos em Manhattan e, finalmente, fora derrotado pela força bruta e pela união dos heróis. Agora, ele estava contido em uma cela de alta tecnologia no subsolo da Torre, uma prisão de vidro projetada para segurar o Hulk.
— Ele não fala — disse Steve Rogers, cruzando os braços enquanto observava o monitor de segurança. — Ele apenas sorri. Aquele sorriso que dá vontade de socar a parede.
— Ele está esperando por algo — murmurou Natasha Romanoff, analisando o comportamento do prisioneiro. — Ou por alguém. Já tentamos todas as táticas de interrogatório. Ele simplesmente nos ignora como se fôssemos insetos.
Thor, que estava encostado em uma coluna, com o semblante carregado de uma tristeza milenar, soltou um suspiro profundo. Ele olhou para a porta, onde Clara acabara de entrar trazendo uma bandeja com café para o grupo. O olhar de Thor encontrou o dela, e houve um entendimento silencioso que fez o estômago de Clara revirar.
— Ele não vai ceder para nós — disse Thor, sua voz retumbando na sala. — Loki sempre foi movido por sentimentos que ele se recusa a admitir. Ele está cego pelo ódio e pela sede de poder, mas há uma única âncora que ainda o prende à sanidade.
Tony Stark arqueou uma sobrancelha.
— E quem seria? Outro irmão adotivo secreto? Ou talvez o Papai Noel? Porque, sinceramente, o chifrudo não parece o tipo que tem amigos.
— Ele não precisa de amigos — respondeu Thor, caminhando em direção a Clara. — Ele precisa da verdade. E a verdade é a única coisa que ele não pode manipular quando vem dela.
Clara sentiu o sangue fugir de seu rosto. Ela colocou a bandeja sobre a mesa, as mãos tremendo levemente.
— Thor, não... — sussurrou ela. — Eu disse que não queria vê-lo. Eu passei dois anos tentando esquecer o som da voz dele.
— Eu sei, minha amiga — disse o Deus do Trovão, colocando uma mão pesada e reconfortante em seu ombro. — E eu peço perdão por exigir isso de você. Mas Nova York ainda está em perigo. Ele não nos dirá onde está o cetro ou quais são seus próximos planos. Ele vai deixar este mundo queimar apenas pelo prazer de ver as cinzas. A menos que ele veja que nem tudo o que ele amava foi destruído por sua mão.
Os outros Vingadores observavam a cena em silêncio absoluto. A confusão era visível nos rostos de Stark e Rogers.
— Espera aí — interrompeu Tony, apontando de Thor para Clara. — O que eu perdi? A Clara e o Rena têm uma história? A nossa Clara? Com aquele psicopata?
— Ele não era um psicopata quando o conheci — disse Clara, a voz subitamente firme, embora carregada de mágoa. — Ele era apenas... Loki.
— Ela foi a única que ele respeitou em Asgard — explicou Thor para o grupo. — O povo o temia ou o odiava. Eu o amava, mas não o compreendia. Clara era a única que ele ouvia. O relacionamento deles era... intenso. Loki era cruel com todos, menos com ela.
Clara respirou fundo, fechando os olhos por um momento. Ela se lembrou da última vez que o vira, o brilho de loucura em seus olhos verdes enquanto ele tentava justificar o injustificável. Ela se recusara a visitá-lo após a queda da Ponte Bifrost, e se recusara a falar sobre ele desde que chegara à Terra.
— Se eu fizer isso — começou ela, abrindo os olhos e encarando Thor —, ele vai tentar me quebrar. Ele vai usar cada palavra, cada memória, para me machucar. Você sabe como ele é.
— Eu sei — admitiu Thor. — Mas você é a única pessoa neste reino, ou em qualquer outro, que Loki teme perder de verdade. Mesmo agora.
Clara olhou para o monitor. Na cela, Loki estava sentado no chão, as pernas cruzadas, a postura impecável apesar das algemas e do estado de suas vestes. Ele parecia uma estátua de marfim, fria e inalcançável.
— Tudo bem — disse ela, limpando uma lágrima solitária que insistia em cair. — Eu vou falar com ele. Mas quero os microfones desligados. O que eu tenho a dizer a ele não é para o entretenimento de vocês.
Stark hesitou, mas um olhar de Steve o fez assentir.
— Cinco minutos — disse Tony. — Se ele fizer qualquer movimento brusco, a cela é eletrocutada.
Clara não respondeu. Ela caminhou em direção ao elevador que a levaria ao subsolo. Cada passo parecia pesar uma tonelada. O cheiro de ozônio e metal da torre desapareceu, dando lugar ao silêncio sepulcral da área de contenção.
Quando as portas do elevador se abriram, ela o viu.
Loki não se moveu de imediato. Ele sentiu a presença de alguém, mas não se deu ao trabalho de olhar, assumindo que era apenas mais um dos "heróis" vindo tentar uma nova tática.
— Você veio me perguntar sobre o portal, Stark? — a voz de Loki era seda e veneno. — Ou talvez o Capitão queira me dar uma lição de moral sobre liberdade? Poupem o fôlego.
— Eu não sou o Stark — disse Clara.
O efeito foi instantâneo. Loki ficou rígido. Seus ombros, antes relaxados em um desdém estudado, ficaram tensos. Ele virou a cabeça lentamente, como se não acreditasse nos próprios ouvidos. Quando seus olhos encontraram os de Clara, a máscara de vilão maníaco vacilou por um milésimo de segundo, revelando uma dor tão profunda que Clara sentiu um aperto no peito.
— Clara — sussurrou ele. O nome dela soou como uma oração e uma maldição ao mesmo tempo.
Ele se levantou com uma elegância felina, caminhando até o limite do vidro. Ele estendeu a mão, como se pudesse tocá-la através da barreira invisível.
— Você está diferente — disse ele, os olhos percorrendo o rosto dela, as curvas que ele conhecia tão bem, agora cobertas por roupas midgardianas simples. — O ar deste mundo medíocre parece ter lhe dado uma coragem que você não tinha em Asgard.
— E o abismo parece ter tirado de você o resto de humanidade que ainda restava, Loki — rebateu ela, mantendo a voz firme, apesar do coração martelando. — Por que você está fazendo isso? Por que Nova York?
Loki soltou uma risada seca, sem alegria.
— Eu sou um rei, Clara. Eu vim para dar a este povo o que eles secretamente desejam. A escravidão. A liberdade é a maior mentira da vida.
— A liberdade é o que nos permite escolher quem amamos — disse ela, dando um passo à frente, ficando a poucos centímetros do vidro. — E você escolheu o ódio. Você escolheu nos trair. Você me traiu.
Loki bateu com a mão no vidro, o som ecoando na sala.
— Eu fiz tudo por nós! — gritou ele, a face subitamente retorcida. — Eu ia construir um império onde ninguém ousaria olhar para você com desprezo! Onde ninguém sussurraria que a amante do príncipe era uma mortal sem importância ou uma mulher de formas excessivas! Eu teria colocado o mundo aos seus pés!
— Eu nunca quis o mundo, Loki! — Clara gritou de volta, as lágrimas finalmente transbordando. — Eu queria você! O homem que lia para mim na biblioteca. O homem que, apesar de ser um idiota com o Thor e com a Sif, me trazia flores silvestres das montanhas apenas porque sabia que eu gostava do perfume. Aquele homem morreu?
Loki encostou a testa no vidro, fechando os olhos. O silêncio entre eles era denso, carregado de anos de saudade e ressentimento.
— Aquele homem foi jogado no vazio pelo próprio pai — murmurou ele, a voz agora baixa e rouca. — Ele caiu por dias, Clara. Ele viu verdades que você não pode imaginar. O gelo... o gelo é a minha natureza. Eu sou um monstro. O monstro que os pais contam aos filhos antes de dormir. Por que você ainda está aqui?
— Porque eu sou uma tola — respondeu ela, soluçando baixo. — Porque eu ainda te amo, apesar de tudo o que você fez. E é por isso que eu preciso que você pare. Se você tem algum resquício de afeto por mim, se alguma daquelas noites em Asgard foi real para você... me diga onde está o cetro. Impeça que mais sangue seja derramado.
Loki abriu os olhos. Eles estavam úmidos, um contraste gritante com o brilho maníaco de minutos atrás.
— Se eu fizer isso — disse ele, a voz trêmula —, você voltará para mim? Você virá para Asgard quando eu for levado em correntes?
Clara hesitou. Ela olhou para o homem que amava e para o monstro que ele se tornara.
— Eu não posso voltar para o que éramos, Loki. O vidro quebrou. Mas eu prometo que não deixarei você enfrentar o julgamento sozinho. Eu estarei lá. Não como sua súdita, mas como a mulher que ainda vê o homem por trás do monstro.
Loki olhou para ela por um longo tempo. Ele parecia estar travando uma batalha interna épica, uma luta entre o desejo de conquista e a necessidade desesperada de não perder a única conexão real que já tivera na vida.
Lentamente, ele se afastou do vidro e caminhou até o fundo da cela.
— O cetro está no topo da torre, sendo usado para estabilizar o portal — disse ele, de costas para ela. — A frequência pode ser revertida com a própria energia dele. Selvig sabe como.
Clara sentiu um alívio imenso lavar sua alma. Ela encostou a mão no vidro, um adeus silencioso por enquanto.
— Obrigada, Loki.
— Clara? — chamou ele, antes que ela chegasse ao elevador.
Ela parou e olhou para trás.
— Eles vão me odiar para sempre — disse ele, com um meio sorriso triste. — E eles têm razão. Mas você... você foi a única coisa boa que eu já fiz.
Clara não respondeu com palavras. Ela apenas assentiu e subiu.
Lá em cima, a equipe estava em choque. Eles haviam visto a interação, embora não tivessem ouvido o conteúdo. Thor correu até ela, segurando suas mãos.
— Ele falou — disse Clara, limpando o rosto. — O cetro está no topo da torre. Selvig pode fechá-lo.
— Como você fez isso? — perguntou Tony, genuinamente impressionado e um pouco desconfortável. — Ele parecia... humano por um segundo.
— Ele é humano — disse Clara, olhando para o teto, onde a batalha final estava prestes a terminar. — Esse é o problema. Ele é humano demais, e sentiu dor demais. Agora, vão. Salvem a cidade.
Enquanto os heróis se dispersavam para a batalha final, Clara sentou-se no sofá da sala de estar, exausta. Ela sabia que o caminho à frente seria doloroso. Loki seria levado para Asgard, enfrentaria a fúria de Odin e, provavelmente, passaria o resto dos seus dias em uma masmorra. E ela, fiel à sua promessa, estaria lá.
Porque Loki era ignorante com o mundo, era cruel com seus inimigos e arrogante com seus iguais. Mas, no fim das contas, ele era apenas um homem quebrado que precisava de alguém que não tivesse medo de se cortar nos seus cacos. E Clara sempre fora a melhor em lidar com espinhos.