Loon
Laços de Sangue e Suor
A luz pálida do amanhecer filtrava-se pelas frestas da entrada da caverna, desenhando linhas douradas sobre o chão de pedra e as capas de viagem que serviam de leito. O silêncio da manhã era absoluto, exceto pelo som da respiração pesada e sincronizada dos dois ninjas. Neji acordou lentamente, sentindo o peso reconfortante de Rock Lee ao seu lado. O calor que emanava do corpo do Alfa era como um cobertor constante, algo que ele nunca soube que precisava com tanta urgência até aquela noite.
Cada músculo do corpo de Neji protestava com uma dor surda, um lembrete físico da intensidade do que ocorrera. No entanto, a agonia febril do cio havia sido substituída por uma sensação de preenchimento que ele jamais experimentara. Ele levou a mão ao pescoço, sentindo a área sensível onde os dentes de Lee haviam deixado a marca definitiva. O vínculo latejava suavemente, uma conexão invisível que agora ligava sua alma à do ninja à sua frente.
Ao seu lado, Lee começou a se mexer. Os olhos redondos e expressivos abriram-se devagar, piscando contra a claridade. Assim que ele percebeu Neji o observando, um sorriso largo e genuíno — o tipo de sorriso que Neji costumava achar irritante, mas que agora aquecia seu coração — iluminou o rosto do Alfa.
— Bom dia, Neji! — Lee sussurrou, a voz ainda rouca de sono, mas transbordando ternura. — Como você está se sentindo? O fogo da sua saúde está recuperado?
Neji sentiu o rosto esquentar, uma reação que ele não conseguiu controlar. Ele, o gênio impassível dos Hyuga, estava corando como um iniciante na academia.
— Estou... melhor — respondeu Neji, puxando a capa para cobrir os ombros. — A febre passou. Obrigado, Lee.
Lee sentou-se, passando a mão pela nuca, parecendo subitamente tímido apesar da noite de paixão que compartilharam.
— Não precisa me agradecer. Eu... eu fiz o que meu coração pedia. Na verdade, eu nunca estive tão feliz em toda a minha vida, Neji. Eu sei que as circunstâncias foram difíceis, e que você queria manter isso em segredo, mas saber que você confia em mim... é o maior presente que um shinobi poderia receber.
Neji desviou o olhar para as cinzas frias de uma pequena fogueira que Lee montara antes da exaustão os vencer. O peso da realidade começou a se assentar sobre seus ombros. Eles ainda estavam em missão. Eles ainda eram ninjas da Folha. E ele ainda era um Hyuga da ramificação secundária, marcado pela maldição da família.
— Lee — começou Neji, a voz recuperando um pouco de sua autoridade habitual, embora suavizada. — Você entende o que isso significa, não é? A marca... o vínculo... as pessoas na vila vão notar. Meus anciãos... eles não vão aceitar isso facilmente. Um Ômega na linhagem principal ou secundária é tratado com um controle rígido. Eles queriam que eu fosse um Alfa para que eu pudesse servir como o escudo perfeito para a Hinata-sama.
Lee se aproximou, colocando a mão sobre a de Neji com firmeza.
— Deixe que eles falem. Deixe que eles tentem controlar. Eu não sou um gênio como você, Neji, e não tenho jutsus secretos. Mas eu tenho a força do meu trabalho duro. Eu vou proteger você e o nosso vínculo com tudo o que eu tenho. Se alguém ousar dizer que você é menos por ser um Ômega, eles terão que passar por cima de mim primeiro!
Neji soltou um suspiro curto, quase uma risada.
— Você é um idiota, Lee. Mas é um idiota persistente.
— O mais persistente de Konoha! — exclamou Lee, fazendo uma pose de "cara legal" com o polegar levantado, o que arrancou um sorriso verdadeiro de Neji.
Eles se levantaram e começaram a organizar os equipamentos. Neji sentia-se estranhamente leve, apesar das preocupações futuras. O segredo que ele carregara por anos, aquela armadura de gelo que ele construíra para esconder sua natureza, havia sido derretida pela honestidade bruta de Rock Lee.
Enquanto limpavam os vestígios de sua estadia na caverna, Neji sentiu um súbito alerta através de seus instintos aguçados. O vínculo com Lee permitia que ele sentisse o estado de espírito do companheiro, mas seus próprios sentidos ninja ainda eram sua maior ferramenta.
— Lee, espere — disse Neji, ativando o Byakugan. As veias ao redor de seus olhos saltaram, e sua visão expandiu-se por quilômetros. — Há movimento a leste. Três assinaturas de chakra. Eles estão se movendo rápido e em nossa direção.
Lee mudou instantaneamente de atitude. O amante carinhoso deu lugar ao guerreiro focado. Ele ajustou as bandagens em suas mãos e se posicionou à entrada da caverna.
— Inimigos? — perguntou Lee, a voz baixa e séria.
— Provavelmente os batedores que fomos enviados para encontrar — respondeu Neji, fechando o Byakugan por um momento para economizar energia. — Eles devem ter sentido o rastro do meu cheiro durante a noite. Mesmo com a caverna protegida, o ápice do cio é difícil de mascarar completamente para ninjas rastreadores.
— Então vamos mostrar a eles o poder do Time Guy! — Lee declarou, embora houvesse uma nota de proteção extra em sua postura. Ele se colocou ligeiramente à frente de Neji, um gesto instintivo de Alfa que, pela primeira vez, Neji não sentiu necessidade de contestar.
Eles saíram da caverna para a floresta densa. O ar estava fresco, mas a tensão era palpável. Não demorou muito para que três vultos aterrissassem nos galhos das árvores ao redor deles. Eram nukenins, ninjas renegados, vestindo uniformes surrados e máscaras que ocultavam seus rostos, mas não a intenção assassina em seus olhos.
— Ora, ora — disse o que parecia ser o líder, um homem alto com uma cicatriz que atravessava o pescoço. — Pensamos que encontraríamos apenas uma dupla de patrulha, mas o cheiro que nos trouxe aqui é muito mais interessante. Um Ômega de sangue nobre... e um Alfa que cheira a esforço barato.
O sangue de Lee ferveu. O insulto a Neji era algo que ele não toleraria.
— Você fala demais para alguém que está prestes a ser derrotado pela Força da Juventude! — gritou Lee, desaparecendo em um borrão de velocidade.
O combate começou em uma explosão de taijutsu. Lee era um furacão de chutes e socos, forçando dois dos renegados a recuarem para a defesa. Neji, por sua vez, moveu-se com a elegância letal do Juken. Ele interceptou o líder, seus dedos movendo-se como agulhas em direção aos pontos de pressão do inimigo.
— Você é rápido, Hyuga — sibilou o líder, desviando de um golpe que teria selado seu fluxo de chakra. — Mas você está fraco. Posso sentir seu corpo ainda reagindo ao Alfa. Como é ser um prodígio que depende de um fracassado para sobreviver ao próprio corpo?
Neji parou por uma fração de segundo, seus olhos perolados brilhando com uma intensidade fria.
— Você cometeu dois erros — disse Neji, sua voz como uma lâmina de gelo. — Primeiro, você assumiu que minha natureza me torna fraco. Segundo, você insultou o homem que me deu a força que eu precisava para aceitar quem eu sou.
Neji avançou com uma velocidade que surpreendeu o oponente.
— Oito Trigramas, sessenta e quatro golpes! — ele anunciou.
Os movimentos de Neji eram fluidos, uma dança de destruição precisa. Cada golpe atingia um tenketsu com perfeição matemática. O líder dos nukenins não teve chance de reagir; ele foi atingido repetidamente, seu sistema de chakra colapsando sob a técnica magistral do Hyuga. Com o último golpe, o homem foi lançado contra o tronco de uma árvore, inconsciente antes mesmo de atingir o chão.
Enquanto isso, Lee finalizava os outros dois com um Furacão da Folha devastador. O impacto dos chutes de Lee ecoou pela floresta, e os inimigos foram neutralizados com eficiência absoluta.
Lee aterrissou ao lado de Neji, respirando um pouco mais rápido, mas com um brilho de orgulho nos olhos.
— Você foi incrível, Neji! — exclamou ele. — Seus movimentos foram mais fluidos do que nunca!
Neji desativou o Byakugan e olhou para as próprias mãos. Ele se sentia diferente. Durante anos, ele lutara contra si mesmo, tentando suprimir sua biologia, o que criava uma tensão constante em seus músculos e em seu chakra. Agora, tendo aceitado sua natureza e formado o vínculo com Lee, o chakra parecia fluir sem obstáculos, mais puro e potente.
— Eu me sinto... em harmonia — admitiu Neji, olhando para Lee. — Pela primeira vez, não estou lutando contra mim mesmo.
Lee sorriu e, sem se importar com a possibilidade de outros inimigos estarem por perto, envolveu Neji em um abraço rápido e apertado.
— É porque você é inteiro agora, Neji. E nós somos uma equipe em todos os sentidos da palavra.
Eles amarraram os prisioneiros para que pudessem ser levados de volta à vila para interrogatório. A viagem de volta seria longa, e Neji sabia que, assim que cruzassem os portões de Konoha, uma nova batalha começaria — uma batalha de política, tradição e preconceito. Mas, ao olhar para Lee, que caminhava ao seu lado tagarelando sobre como o treinamento de hoje seria "incrivelmente revigorante", Neji sentiu que não tinha mais medo.
— Lee — chamou Neji suavemente.
— Sim, Neji?
— O que você disse ontem à noite... sobre me amar mesmo quando achava que eu era um Alfa. Você falava sério?
Lee parou de caminhar e olhou nos olhos de Neji com uma sinceridade que quase o fez desviar o olhar.
— Neji, eu admiro sua alma. Eu admiro sua determinação. O fato de você ser um Ômega só me faz querer ser um Alfa melhor para você. Mas eu amaria você mesmo se você fosse um Beta, um Alfa ou um civil sem nenhum pingo de chakra. Você é o meu destino, Neji. E eu escolhi esse destino.
Neji sentiu o vínculo entre eles vibrar com a verdade daquelas palavras. Ele se aproximou e, em um gesto raro de afeto público, encostou sua testa na de Lee.
— Então vamos enfrentar o que vier juntos — disse Neji. — Não sou mais o gênio solitário do clã Hyuga.
— Não — concordou Lee, segurando a mão de Neji com firmeza enquanto retomavam o caminho para casa. — Você é Neji, o meu parceiro. E juntos, ninguém pode nos parar.
O sol agora estava alto no céu, iluminando a trilha à frente. O caminho para Konoha era conhecido, mas para Neji, cada passo parecia o início de uma jornada inteiramente nova. Ele ainda era o mestre do Juken, ainda era o prodígio do Time Guy, mas agora ele também era alguém que conhecia o calor do amor e a segurança de um par. E, pela primeira vez em sua vida, o futuro não parecia uma prisão de fado imutável, mas uma página em branco que ele e Lee escreveriam juntos, com o suor de seus treinos e a força de seu vínculo.