Lord
O Cálice de Acônito e o Rugido das Pedras
O silêncio na Mansão Malfoy era opressivo, interrompido apenas pelo estalo rítmico das chamas na lareira de mármore negro. Clara Riddle estava deitada em um divã de veludo esmeralda, o ombro enfaixado com gazes embebidas em essência de ditamno. A dor, antes uma queimação aguda, agora era um latejo surdo que parecia pulsar em sincronia com o seu coração.
Tom estava de pé junto à janela, observando a tempestade que se formava no horizonte, mas seus olhos não viam as nuvens. Ele estava em transe, conectado mentalmente ao caos que deixara para trás em Hogwarts. A forma humana dele, aquela que ele reservava apenas para a intimidade do olhar de Clara, parecia frágil sob a luz bruxuleante das velas, mas a aura de poder que emanava dele era fria e cortante.
— Você não deveria ter voltado para lá — disse ele, sem se virar. A voz era baixa, carregada de uma decepção que beirava a agonia. — Você quebrou a nossa promessa, Clara.
— Eu nunca prometi que assistiria ao mundo queimar sentada em uma poltrona, Tom — respondeu ela, a voz fraca, mas firme. — Você sabe quem eu sou. Você sempre soube.
Ele se virou bruscamente. Em um segundo, atravessou a sala e ajoelhou-se ao lado dela. A mão pálida acariciou a bochecha rosada de Clara, os dedos traçando o contorno de seu rosto com uma possessividade que a fazia estremecer.
— Eu não posso permitir que você se destrua por causa daqueles tolos. O Potter não é nada. Hogwarts é apenas pedra e poeira. A única coisa que importa nesta existência é a nossa eternidade.
Clara tentou se sentar, mas um gemido de dor escapou de seus lábios. O feitiço de Snape, embora ricocheteado, fora carregado de uma magia defensiva potente que reagira mal com a constituição física dela.
— Você está sofrendo — murmurou Tom, seus olhos castanhos escurecendo. — E eu não suporto o seu sofrimento.
Ele pegou um pequeno frasco de cristal sobre a mesa de cabeceira. O líquido lá dentro era de um roxo profundo, quase negro, exalando um aroma doce e entorpecente.
— O que é isso? — perguntou ela, recuando minimamente.
— Um descanso, minha querida. Uma poção de sono sem sonhos, fortificada com extrato de acônito e mandrágora. Você vai dormir enquanto eu termino o que comecei. Quando você acordar, a guerra terá acabado. O mundo será novo. E você estará segura ao meu lado, sem mais ferimentos, sem mais lealdades divididas.
— Não... Tom, não faça isso — pediu ela, as lágrimas começando a brotar. — Se eu dormir agora, eu vou acordar em um cemitério. Deixe-me ir com você. Deixe-me tentar mediar...
— Mediar? — Ele soltou uma risada seca e sem alegria. — Não há mediação para a morte, Clara. E eu sou a Morte para eles. Beba. É para o seu próprio bem.
— Eu não quero!
Mas ele não era mais o marido atencioso. Naquele momento, ele era o Lorde das Trevas exercendo sua vontade. Com um movimento sutil de varinha, ele forçou os lábios dela a se abrirem e despejou o conteúdo do frasco. Clara tossiu, sentindo o líquido descer como seda gelada pela sua garganta. Em poucos segundos, o mundo começou a girar. O rosto de Tom tornou-se uma névoa borrada e o peso em seus membros tornou-se insuportável.
— Eu te amo — sussurrou ele, a última coisa que ela ouviu antes que a escuridão a tragasse. — E por te amar, eu te trancarei no silêncio até que não haja mais ninguém para te tirar de mim.
***
O tempo é uma substância estranha quando se está sob o efeito de magia negra. Para Clara, pareceram séculos de sonhos fragmentados: o cheiro de grama cortada em Hogwarts, o som da risada de Tom quando eles tinham dezoito anos, e o grito de guerra de Minerva.
De repente, um choque de adrenalina percorreu seu corpo. O feitiço de Snape, que ainda estava ativo em seu sistema, agiu como um catalisador inesperado. O corpo de Clara, resiliente e cheio de uma vontade de viver que Tom sempre subestimara, começou a lutar contra a poção. Seus olhos se abriram abruptamente.
A sala estava vazia. A lareira estava apagada.
Ela se levantou, cambaleando. A cabeça latejava e o estômago revirava, mas a urgência em seu peito era maior que qualquer mal-estar. Ela olhou para o relógio de pêndulo no canto da sala. Horas haviam se passado. A batalha final devia estar em seu ápice.
— Ele acha que pode me manter em uma caixa — rosnou ela, a voz rouca.
Clara buscou sua varinha, que Tom havia deixado sobre a lareira, acreditando que ela não acordaria antes do amanhecer. Com um esforço supremo, ela concentrou toda a sua vontade no pátio de Hogwarts. Ela não era uma mestre em Aparatação sob pressão, mas a conexão que ela compartilhava com Tom servia como uma bússola. Ela podia sentir a fúria dele, o ódio e a exaustão.
Com um estalo violento que pareceu rasgar seus músculos, ela desapareceu.
Clara ressurgiu no meio do caos. O ar estava saturado de fumaça, gritos e o cheiro metálico de sangue. Hogwarts estava em ruínas. Grandes seções das muralhas haviam desmoronado, e o Grande Salão era agora um hospital de campanha a céu aberto.
— Professora Clara! — Alguém gritou, mas ela não parou para olhar.
Ela corria em direção ao centro do pátio, onde a luz verde das maldições imperdoáveis iluminava os escombros. Seus pés tropeçavam em pedaços de armaduras e pedras centenárias. O ombro ferido começou a sangrar novamente, manchando suas vestes, mas ela não sentia nada além da necessidade de chegar até ele.
Então, ela o viu.
Tom estava no centro de um círculo de destruição. Ele não usava mais a forma humana. A pele era pálida como a de um cadáver, os olhos vermelhos brilhando com uma loucura assassina. Ele estava duelando com Harry Potter, mas ao mesmo tempo, lançava feitiços laterais em qualquer um que ousasse se aproximar.
— Tom! — O grito de Clara cortou o estrondo de uma explosão próxima.
Voldemort parou por uma fração de segundo. O choque em suas feições ofídicas foi evidente. A distração foi o suficiente para que um feitiço lançado por um dos Comensais da Morte, que mirava em um estudante que fugia, fosse desviado por um escudo de Harry e ricocheteasse em direção a Clara.
Ela não teve tempo de erguer a varinha. O feitiço — uma maldição de corte violenta — atingiu-a transversalmente no peito.
Clara foi lançada para trás, seu corpo rolando pelo chão pedregoso até parar perto da estátua destruída de um arquiteto de Hogwarts. O mundo ficou vermelho.
— NÃO! — O rugido que saiu da garganta de Voldemort não era humano. Foi um som de puro tormento que fez as janelas restantes do castelo estilhaçarem.
Ele ignorou Harry. Ignorou a varinha das varinhas que vibrava em sua mão. Em um movimento que pareceu um borrão de fumaça negra, ele se ajoelhou ao lado dela.
— Clara... não... eu te dei a poção... você deveria estar dormindo! — Suas mãos longas e pálidas tentavam estancar o sangue que jorrava do peito dela. — Por que você voltou? Por que você sempre volta para a dor?
Clara tossiu, sangue manchando seus lábios. Ela estendeu a mão, tocando o rosto dele. Sob o toque dela, a pele escamosa pareceu suavizar por um momento, a ilusão humana lutando para retornar através da agonia dele.
— Porque... — ela sussurrou, a respiração falhando — ... eu não posso deixar você morrer sozinho, Tom. E eu não posso deixar você matar o que resta de mim.
— Eu vou te curar. Eu vou matar todos eles por terem feito isso! — Ele olhou ao redor, os olhos vermelhos transbordando de uma promessa de genocídio.
— Não — disse ela, segurando o rosto dele com as duas mãos, forçando-o a olhar para ela. — Se você matar mais alguém hoje... eu vou embora. Não para o sono, Tom. Eu vou embora para onde você nunca poderá me seguir.
Voldemort tremeu. O Lorde das Trevas, o ser que desafiara a própria morte, estava soluçando sem lágrimas, o corpo sacudido pelo terror de perder sua única âncora.
— Fique comigo — implorou ele, a voz quebrando. — Eu paro. Eu faço o que você quiser. Apenas não me deixe.
Ao redor deles, a batalha diminuiu de intensidade. Comensais da Morte e defensores de Hogwarts observavam, congelados, a cena surreal do monstro segurando a mulher que era sua fraqueza e sua única verdade.
— Acabe com isso, Tom — sussurrou Clara, sentindo a vida se esvair. — Vá embora. Leve seus seguidores. Deixe este lugar. É o único jeito de eu tentar ficar.
Ele olhou para Harry Potter, que estava a poucos metros, a varinha abaixada, observando com uma tristeza profunda. Voldemort poderia tê-lo matado naquele instante. Ele poderia ter destruído o resto do castelo com um único gesto. Mas ele olhou para Clara, para a mulher gordinha, de coração imenso, que o amara quando ninguém mais o faria, e que estava morrendo por causa da guerra que ele alimentara.
— Recuar! — A voz de Voldemort ecoou por todo o terreno de Hogwarts, fria e sem vida. — Todos vocês... saiam daqui! Agora!
Os Comensais da Morte hesitaram, mas a fúria no olhar de seu mestre era tal que ninguém ousou questionar. Eles começaram a desaparatar, um por um, transformando-se em fumaça negra e sumindo na noite.
Voldemort voltou-se para Clara. Ele a pegou nos braços, levantando-a como se ela não pesasse nada.
— Eu vou te salvar — disse ele, e desta vez não era uma ameaça ao mundo, mas uma súplica ao destino. — Nem que eu tenha que queimar o inferno para trazer você de volta.
— Tom... — ela murmurou, fechando os olhos enquanto ele a apertava contra o peito.
— Shh... descanse agora, minha Clara. Desta vez, eu estarei lá quando você acordar. E o mundo... o mundo estará em silêncio para nós.
Ele não olhou para trás. Com um estalo que soou como um trovão, o Lorde das Trevas e sua esposa desapareceram das ruínas de Hogwarts, deixando para trás um rastro de sangue, mistério e a prova de que, mesmo nas trevas mais profundas, o amor é a única coisa que pode forçar um monstro a se ajoelhar.
Harry Potter ficou parado no pátio, olhando para o lugar onde eles estiveram. Ele sabia que a guerra não tinha terminado da forma que os livros contariam, mas por causa de uma professora que amou demais o homem errado, o massacre daquela noite havia cessado. E, em algum lugar escondido do mundo, Tom Riddle lutaria a única batalha que ele realmente temia perder: a batalha pela vida de Clara.