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Love

Castigo, Lama e a Greve Inesperada

A manhã na residência Pansa-Tantivejakul começou com o caos habitual que apenas três crianças pequenas e duas mães exaustas poderiam proporcionar. Love terminou de ajustar o laço no cabelo da filha mais velha, que já corria pela sala com a energia de quem tinha tomado café puro, enquanto a pequena de um ano engatinhava velozmente em direção à tigela de comida do cachorro.

— Milk, amor, você ouviu o que eu disse? — Love perguntou, ajeitando a pasta de trabalho no ombro enquanto olhava para a esposa, que ainda parecia meio grogue de sono, usando uma de suas regatas largas e bermudas de basquete favoritas.

— Ouvi, pequena. Pode deixar tudo comigo e com a Namtam — Milk respondeu, bocejando e exibindo aquele sorriso que sempre derretia Love, especialmente depois da noite intensa que haviam compartilhado recentemente. — Vamos cuidar de tudo. As crianças, a casa, o almoço... Vai tranquila.

Film já esperava no carro, buzinando impaciente. Ela e Love tinham uma série de reuniões de produção naquele dia. Namtam apareceu na porta, ainda de pijama, segurando o filho de quase dois anos no colo.

— Podem ir, meninas! — Namtam exclamou, rindo. — Hoje é o dia das "mães desfem" no comando. O que poderia dar errado?

Love trocou um olhar cúmplice com Film através do vidro do carro.

— Eu sinto que vamos nos arrepender disso — murmurou Love, entrando no veículo.

No caminho para o estúdio, Film não parava de falar. Ela detalhava como Namtam andava "relaxada" demais com as tarefas domésticas e como as duas, Milk e Namtam, juntas, eram uma combinação perigosa de falta de foco e excesso de brincadeiras.

— Love, você não entende. Se eu deixar, a Namtam transforma a sala em um acampamento de guerra em cinco minutos — Film comentou, gesticulando enquanto dirigia. — E a Milk é pior, porque ela incentiva! Ela entra na onda das crianças e esquece que alguém tem que limpar o chão depois.

— Eu sei bem como é — Love suspirou, olhando para o celular. — A Milk é um amor, mas às vezes parece que eu tenho três filhas em vez de duas. Mas ontem... bom, ontem ela mereceu um crédito. Depois de tanto tempo sem termos um momento só nosso, ela foi incrível.

Film deu um sorrisinho malicioso.

— Imagino. Mas não deixe o romance cegar você, Love. Elas ficaram com uma lista de tarefas enorme. Se chegarmos e a casa estiver de pernas para o ar, eu juro que entro em greve.

O dia de trabalho foi exaustivo. Entre sessões de fotos e reuniões de roteiro, Love e Film mal tiveram tempo de checar as mensagens. Quando o relógio marcou o fim da tarde, ambas estavam ansiosas para voltar para casa, esperando encontrar as crianças banhadas e o jantar, se não pronto, ao menos encaminhado.

Ao estacionarem em frente à casa de Love e Milk, o silêncio era suspeito. Não havia luzes acesas na sala e a porta da frente estava apenas encostada.

— Milk? Namtam? — Love chamou, entrando na casa com o coração acelerado. — Cadê todo mundo?

A casa estava deserta. Na cozinha, a louça do café da manhã ainda estava na pia e havia restos de massinha de modelar espalhados pelo tapete da sala. Film sentiu o sangue subir à cabeça.

— Eu não acredito nisso — Film sibilou, cruzando os braços. — Elas sumiram com as crianças?

— Olha! — Love apontou para a janela que dava para a praça em frente à residência.

As duas correram até o vidro e o que viram foi uma cena de puro caos recreativo. Milk e Namtam estavam no meio do gramado da praça, mas não estavam apenas sentadas. Elas estavam literalmente dentro de um enorme canteiro de terra molhada que tinha se formado após a rega automática dos aspersores.

A filha de quatro anos de Milk estava coberta de lama da cabeça aos pés, rindo alto enquanto Milk usava uma pá de brinquedo para "enterrar" os pés da esposa. A bebê de um ano estava sentada em um pano, mas já tinha marcas de terra no rosto, e o filho de Namtam tentava, sem sucesso, escalar as costas da mãe, que também estava imunda.

— Elas enlouqueceram? — Film perguntou, a voz subindo uma oitava. — Está ventando! Elas vão pegar um resfriado!

Love não disse nada, apenas caminhou a passos largos em direção à porta, seguida por uma Film furiosa. Elas atravessaram a rua como dois furacões.

Ao chegarem na praça, Milk foi a primeira a notar a presença das esposas. Ela abriu um sorriso radiante, sem perceber o perigo iminente.

— Ei, amores! Vocês chegaram cedo! Olha só, estamos construindo um castelo de...

Antes que Milk terminasse a frase, Love já estava diante dela, com as mãos na cintura e uma expressão que faria um general tremer. Sem dizer uma palavra, Love esticou a mão e puxou a orelha de Milk, fazendo a mais alta se inclinar com um gemido de surpresa.

— Ai! Love! Amor, o que foi? — Milk reclamou, tentando se soltar sem espalhar lama na roupa impecável da esposa.

Ao lado, Film fazia exatamente o mesmo com Namtam, que tentava rir para disfarçar o nervosismo.

— O que foi? O que foi?! — Film gritou. — Olha o estado dessas crianças, Namtam! Olha o estado de vocês! Vocês têm noção da sujeira que vai ser para dar banho em todo mundo? E se elas ficarem doentes?

— Ah, Film, é só terra... — Namtam tentou argumentar, mas o puxão de orelha ficou mais firme. — Ai, ai! Tá bom, tá bom! A gente se empolgou um pouco.

Love soltou a orelha de Milk, mas seus olhos ainda soltavam faíscas. Ela olhou para a filha mais velha, que parou de brincar na hora ao ver a cara da "mãe Love".

— Para dentro de casa. Agora! — Love ordenou para as crianças, que obedeceram imediatamente, correndo em direção à varanda.

Milk tentou se aproximar de Love, fazendo um biquinho adorável que geralmente funcionava.

— Amor, não fica assim... A gente se divertiu tanto. As meninas estavam tão felizes...

— Não adianta fazer essa cara, Milk — Love disse, apontando o dedo para o peito da esposa. — Você é irresponsável. Eu deixei uma lista de coisas para fazer e você preferiu virar uma criança de cinco anos na lama.

Namtam, vendo a situação de Milk, começou a rir baixinho, tentando limpar o braço sujo.

— É, Milk... acho que você se deu mal — Namtam provocou.

Film virou-se para a esposa com um olhar gélido.

— Você não escape, Namtam. Está achando engraçado? Pois saiba que, a partir de hoje, você está de greve. Dois meses! Nem encosta em mim.

O riso de Namtam morreu instantaneamente.

— Dois meses?! Film, isso é crueldade! Foi só um pouco de terra!

Love olhou para Milk, que ainda tentava manter o sorriso amarelo. A lembrança da noite maravilhosa que tiveram ainda estava fresca, mas a visão da casa bagunçada e das filhas imundas falava mais alto.

— E você, Milk... — Love começou, a voz calma e decidida. — Três meses.

Milk arregalou os olhos, chocada.

— Três meses?! Mas amor, ontem mesmo você disse que...

— Ontem foi ontem — Love cortou, implacável. — Hoje você provou que não pode ter responsabilidades. E tem mais: hoje você dorme no sofá. Não quero cheiro de terra e lama na minha cama limpa.

— No sofá? — Milk choramingou. — Mas Love, minhas costas doem naquele sofá!

— Devia ter pensado nisso antes de mergulhar no canteiro — Love deu as costas, começando a caminhar de volta para casa. — E se eu vir uma única mancha de barro no tapete da sala, eu aumento para quatro meses!

Film seguiu Love, deixando as duas esposas "desfem" paradas no meio da praça, cobertas de terra e com expressões de puro desespero.

— Viu o que você fez? — Namtam resmungou para Milk. — Três meses para você, dois para mim. Estamos perdidas.

— Cala a boca, Namtam — Milk suspirou, olhando para as próprias mãos sujas. — Eu só queria ser a mãe legal... Agora vou ser a mãe legal que dorme com as costas travadas e passa vontade por um trimestre inteiro.

Dentro de casa, o som do chuveiro já podia ser ouvido. Love e Film trabalhavam em equipe, limpando as crianças com uma eficiência militar. Milk e Namtam entraram em silêncio, tentando não sujar nada, mas o rastro de gotas de lama no piso de entrada foi inevitável.

— Limpem isso! — a voz de Love ecoou do banheiro.

As duas pegaram panos de chão e começaram a esfregar o piso, trocando olhares de derrota. Milk olhou para o sofá da sala e depois para a escada que levava aos quartos. O caminho para o paraíso estava oficialmente bloqueado por uma barreira de lama e a fúria de uma esposa pequena, mas poderosa.

Naquela noite, o silêncio na casa era pesado. Milk estava deitada no sofá, enrolada em uma manta fina, olhando para o teto. O cheiro de sabonete infantil ainda pairava no ar, indicando que as filhas estavam limpas e seguras em suas camas.

A porta do quarto de cima se abriu e Love apareceu no topo da escada, vestindo um pijama de seda, linda e completamente inalcançável.

— Boa noite, Milk — Love disse, com um tom de voz que não admitia réplicas.

— Boa noite, amor... — Milk respondeu, esperançosa. — Tem certeza que não quer que eu suba só para te fazer uma massagem nos pés? Sem segundas intenções?

Love deu um sorriso de lado, aquele que Milk amava, mas que agora parecia uma tortura.

— Tenho certeza absoluta. Aproveite o seu castigo. Faltam apenas oitenta e nove dias e vinte e três horas.

Love entrou no quarto e fechou a porta com um clique decisivo. Milk afundou a cabeça no travesseiro, soltando um suspiro longo. Ser a "mãe legal" definitivamente tinha um preço muito alto, e ela teria muito tempo para refletir sobre isso enquanto contava os dias para o fim da greve mais longa de sua vida.