Lua
Herança de Prata e Vinho
A paz nas densas florestas de Ajan Kloss — ou o que quer que fosse o nome real daquele mundo esquecido que eles chamavam de lar — nunca era um silêncio absoluto. Era um coro de insetos noturnos, o sussurro do vento nas árvores de folhas prateadas e, ocasionalmente, o som metálico de lâminas de treinamento se chocando. Roma observava da varanda, seus dedos brincando com o anel de ônix que usava desde os tempos da Estrela da Morte. O peso de sua linhagem parecia mais leve ali, mas nunca desaparecia completamente.
Valen e Lyra estavam no pátio circular de pedra, sob a supervisão atenta de Jax. O ex-Sith não acreditava em treinamentos puramente meditativos. Para ele, a Força era movimento, instinto e, acima de tudo, sobrevivência.
— O pé esquerdo está muito atrás, Valen! — exclamou Jax, corrigindo a postura do menino com um toque firme no ombro. — Se eu fosse um Inquisidor, você já teria perdido o equilíbrio. A Força flui pela base, não apenas pelas mãos.
Lyra, a menor, soltou uma risadinha, fazendo sua pequena esfera de treinamento flutuar erraticamente ao redor da cabeça de Jax.
— E você, pequena sombra, pare de tentar distrair seu mestre — disse Jax, embora houvesse um brilho de orgulho em seus olhos.
Roma sentiu uma presença calma se aproximar por trás dela. Não precisava olhar para saber que era Kaelen. O cheiro de ervas secas e o calor reconfortante de sua aura na Força eram inconfundíveis.
— Eles estão progredindo rápido demais — comentou Kaelen, encostando-se ao lado de Roma. — Valen tem a sua intensidade, Roma. Às vezes, vejo o brilho da determinação dele e me lembro da primeira vez que você entrou naquela cela de interrogatório.
Roma deu um sorriso melancólico, seus longos cabelos pretos balançando levemente.
— Espero que ele nunca precise usar essa intensidade da mesma forma que eu usei. Às vezes, eu me pergunto se estamos sendo egoístas, Kaelen. Mantendo-os aqui, escondidos. O sangue de Palpatine corre neles. Se a galáxia soubesse...
— A galáxia não precisa saber — interrompeu Kaelen, pegando a mão dela. — Eles não são herdeiros de um Império. São herdeiros de uma escolha. Nossa escolha.
A conversa foi interrompida pelo som de um comunicador de longo alcance apitando dentro da casa. Era um som que eles raramente ouviam. Desde a fuga, o isolamento era a regra de ouro. Roma sentiu um calafrio percorrer sua espinha, uma premonição fria que cheirava a ozônio e metal queimado.
Jax parou o treinamento instantaneamente. Seus olhos encontraram os de Roma. Kaelen já estava se movendo para dentro da cabana.
— É um sinal codificado — disse Kaelen, debruçado sobre o console empoeirado. — Frequência imperial antiga. Mas não é uma transmissão de busca. É um pedido de socorro.
Roma aproximou-se, seus olhos negros fixos na tela trêmula. Uma imagem holográfica surgiu, distorcida por estática. Era uma figura encapuzada, mas Roma reconheceu os adornos no pulso. Era um antigo aliado de Jax, um informante que eles acreditavam estar morto.
— "A sombra se move... o Protocolo de Ressurreição foi ativado... eles estão buscando o que foi perdido..." — a voz na gravação falhou e desapareceu.
O silêncio que se seguiu foi denso. Roma sentiu a mão de Jax em sua cintura, um gesto de proteção e posse.
— O Protocolo de Ressurreição — sussurrou Jax, a voz carregada de um pavor que ele raramente demonstrava. — Palpatine sempre teve planos de contingência. Se ele souber que você sobreviveu, Roma... se ele souber das crianças...
— Ele não sabe — afirmou Roma, embora sua voz tivesse perdido um pouco da firmeza. — Mas ele está procurando por qualquer coisa que tenha a assinatura genética dele. Valen e Lyra são faróis na Força, Jax. Por mais que tentemos escondê-los, eles brilham.
— Então não podemos mais ficar parados — disse Kaelen, sua expressão serena dando lugar a uma determinação de aço. — Se o Império, ou o que restou dele, está se reorganizando, este planeta deixará de ser um refúgio e se tornará uma armadilha.
Roma olhou para fora, onde os filhos agora os observavam pela janela, sentindo a tensão dos pais. Ela sentiu uma onda de proteção tão violenta que a Força ao seu redor estalou. Suas joias vibraram contra sua pele branca.
— Eu não vou deixar que ele os toque — disse Roma, e sua voz tinha o timbre de Darth Roma, a autoridade daquela que um dia comandou legiões. — Eu matei a filha do Imperador para que essa mãe pudesse nascer. Se eu tiver que ressuscitar o monstro para protegê-los, eu o farei.
— Você não fará nada sozinha — disse Jax, sacando seu sabre de luz, a lâmina vermelha iluminando a sala. — Nós somos uma família. Um Jedi, dois Sith e o futuro. Se eles querem o sangue dos Palpatine, terão que nadar em um mar de sangue imperial primeiro.
Kaelen suspirou, mas também ativou seu sabre azul.
— O equilíbrio não é apenas paz, Roma. É a coragem de defender o que é certo.
Naquela noite, eles não dormiram. Roma desceu até o porão da casa e removeu uma placa de metal do chão. Lá, repousava uma caixa de obsidiana. Ao abri-la, a luz vinho de seu sabre de luz refletiu em seus olhos negros. Ela o pegou, sentindo o cristal kyber pulsar, reconhecendo sua mestra após anos de silêncio.
Ela sentiu uma presença pequena à porta. Era Lyra. A menina segurava sua boneca de pano, mas seus olhos estavam fixos no sabre de luz da mãe.
— É bonito — sussurrou a menina. — Mas parece triste.
Roma ajoelhou-se na frente da filha, escondendo a arma atrás das costas por um momento.
— É uma cor de sacrifício, Lyra. Às vezes, para proteger as flores, precisamos cuidar dos espinhos.
— O papai Kaelen disse que vamos viajar — disse Lyra, aproximando-se e tocando o rosto pálido de Roma. — Vamos para o espaço, mamãe? Onde as estrelas moram?
— Vamos, meu amor. Mas não para governar as estrelas. Vamos para garantir que elas continuem brilhando para vocês.
Roma abraçou a filha com força, sentindo o coração pequeno batendo contra o seu. Ela sabia que a partir daquele momento, a vida de anonimato havia acabado. Eles seriam caçados. O legado de Palpatine não era apenas um nome, era uma maldição que exigia ser alimentada.
Ao amanhecer, a nave de carga, camuflada sob folhagens, foi preparada. Jax carregava os suprimentos com uma eficiência militar, enquanto Kaelen apagava todos os rastros de sua existência naquele mundo.
Roma parou na rampa da nave, olhando uma última vez para a casa de madeira. Ela viu as árvores de folhas prateadas e o pátio onde seus filhos aprenderam a rir.
— Roma? — chamou Jax da cabine de comando. — As coordenadas estão prontas. Para onde vamos?
Roma subiu a rampa, seu manto negro ondulando atrás dela como uma sombra que se recusa a partir. Ela olhou para Kaelen, que estava sentado com as crianças, contando-lhes histórias sobre heróis antigos para acalmá-las.
— Para o centro do conflito — respondeu Roma, assumindo o assento do co-piloto ao lado de Jax. — Se meu pai está tentando voltar, ele vai precisar de seguidores. E eu conheço cada culto, cada oficial e cada esconderijo que ele usaria.
— Você quer caçá-los? — perguntou Kaelen, preocupado.
— Eu quero destruí-los antes que eles percebam que o que eles procuram está bem aqui — Roma colocou a mão sobre o painel de controle. — Eles esperam uma herdeira que se ajoelhe. Eles vão encontrar uma mãe que destrói mundos para salvar seus filhos.
Jax deu um sorriso selvagem e puxou a alavanca de hiperespaço. As estrelas se alongaram em linhas brancas infinitas.
— Eu sempre soube que você era a mais perigosa de nós dois — murmurou Jax, pegando a mão de Roma enquanto a nave saltava para o desconhecido.
Kaelen aproximou-se e colocou a mão no ombro de ambos. O trio estava unido novamente, não por necessidade de fuga, mas por um propósito de guerra.
— O que quer que aconteça — disse Kaelen —, faremos juntos. Luz e Sombra.
Roma fechou os olhos por um segundo, sentindo a conexão profunda com os dois homens que amava e a força latente de seus filhos na parte de trás da nave. Ela não era mais apenas a filha do Imperador. Ela era a arquiteta de um novo destino.
— Valen, Lyra — chamou Roma, sem se virar.
— Sim, mamãe? — responderam as vozes em uníssono.
— Mantenham seus cintos apertados. A galáxia é um lugar grande, mas vocês nunca estarão sozinhos.
A nave desapareceu no vácuo, deixando para trás o silêncio de um lar que talvez nunca mais vissem. Mas, pela primeira vez em sua vida, Roma não sentia medo do futuro. Ela era a tempestade, e qualquer um que tentasse tirar sua família descobriria que o sangue de Palpatine, quando misturado ao amor, era a força mais letal de todo o universo.
Nas sombras do hiperespaço, o sabre de luz vinho de Roma vibrou em seu cinto. Ele não estava mais triste, como Lyra dissera. Ele estava faminto. E Roma estava pronta para alimentá-lo com as cinzas de qualquer Império que ousasse ameaçar sua paz.