Luz, câmera, ação
Sussurros de Veludo e o Som do Silêncio
O restaurante era um refúgio de luz âmbar e paredes revestidas de madeira escura no coração do Soho. O cheiro de manteiga, cebola frita e o onipresente tabaco flutuava no ar, misturando-se ao som suave de um piano que tocava alguma melodia de Burt Bacharach ao fundo. Eva e Thomas estavam sentados em uma mesa de canto, protegidos por uma divisória de vidro canelado que lhes conferia uma privacidade preciosa.
Thomas estava sentado rigidamente, suas mãos entrelaçadas sobre a toalha de mesa xadrez. Ele havia tirado o paletó, revelando uma camisa de algodão azul-claro que parecia um pouco grande demais para seus ombros, dando-lhe um ar ainda mais juvenil. Sem os óculos, ele piscava um pouco mais do que o normal, tentando se acostumar com a proximidade física de Evangeline fora do caos do estúdio.
— Você está fazendo de novo, Tommy — disse Eva, apoiando o queixo na palma da mão, os olhos azuis-acinzentados brilhando sob a luz das velas.
— Fazendo o quê? — perguntou ele, a voz um pouco mais alta do que o necessário, antes de pigarrear e baixar o tom.
— Apertando os lábios desse jeito. Parece que está prestes a levar uma bronca da diretoria, e não a jantar com a mulher mais bonita da emissora.
Thomas sentiu o calor subir pelo pescoço. Ele desviou o olhar para o cardápio, fingindo uma concentração intensa nos preços das bebidas.
— Eu só... eu não costumo sair muito. Especialmente com você. Quer dizer, com a estrela do programa. É um pouco intimidante.
Eva soltou uma risada curta e deliciosa, inclinando-se para frente. O decote de seu vestido de jérsei oscilou levemente, e Thomas sentiu que precisava de muito mais oxigênio do que o restaurante oferecia.
— Eu não sou "a estrela do programa" agora, seu bobo. Sou apenas Eva. E você não é o diretor-chefe que quase teve um colapso porque o Johnny resolveu improvisar uma piada sobre o primeiro-ministro.
— Aquela piada foi de péssimo gosto — resmungou Thomas, o bico infantil retornando instantaneamente. — Nós poderíamos ter sido multados. Ou pior, censurados.
— Mas não fomos. Porque você é excelente no que faz, Thomas Bennett. Você cortou para o comercial no segundo exato em que ele ia dizer o palavrão.
Thomas finalmente sorriu, um sorriso pequeno que iluminou seus olhos avelã.
— Eu tive que ser rápido. Meus dedos estavam suando sobre o painel.
— Viu só? Você é um herói dos bastidores.
O garçom chegou, interrompendo o momento para anotar os pedidos. Eva pediu o estrogonofe russo que tanto elogiara, acompanhado de uma taça de vinho tinto. Thomas, após hesitar por longos segundos, pediu o mesmo, embora tivesse certeza de que seu estômago estava fechado demais para processar qualquer alimento sólido.
Quando ficaram sozinhos novamente, o silêncio que se seguiu não foi desconfortável, mas carregado de uma tensão elétrica. Eva observava a forma como o cacho de cabelo de Thomas voltara a cair sobre sua testa. Ela sentia uma vontade quase incontrolável de bagunçar todo aquele cabelo penteado, de ver o que aconteceria se ela quebrasse a última barreira de formalidade dele.
— Por que você é tão tímido, Tommy? — perguntou ela, a voz suave como veludo. — Com o talento que você tem, e esse rosto... você poderia ter qualquer lugar naquela emissora. Poderia estar na frente das câmeras, se quisesse.
Thomas balançou a cabeça rapidamente, quase horrorizado com a ideia.
— Oh, não. De jeito nenhum. Eu gosto da sombra, Eva. Gosto de como as coisas se encaixam atrás das lentes. Na frente das câmeras, tudo parece... falso. As pessoas sorriem quando não querem, falam coisas que não acreditam. Eu prefiro a verdade dos cabos, das luzes e da edição.
— E você acha que eu sou falsa? — Ela arqueou uma sobrancelha, um desafio brilhando em seu olhar.
Thomas arregalou os olhos, as mãos gesticulando freneticamente.
— Não! Não foi isso que eu quis dizer. Você é... você é a única coisa real naquele set. É por isso que eu fico tão nervoso. Você brilha tanto que eu tenho medo de que, se eu olhar direto demais, eu perca a visão.
Eva ficou em silêncio por um momento, genuinamente tocada pela honestidade desarmante dele. Thomas não usava cantadas baratas como Johnny; ele falava o que sentia, mesmo que isso o deixasse vulnerável.
— Essa foi a coisa mais romântica que alguém já me disse — sussurrou ela.
Thomas baixou a cabeça, as orelhas tornando-se escarlates.
— Desculpe. Eu às vezes falo demais quando estou nervoso.
— Não peça desculpas por ser adorável — disse ela, esticando o braço sobre a mesa e cobrindo a mão dele com a sua. — E não se preocupe com o Johnny. Ele é apenas um colega de trabalho barulhento.
— Ele é muito bonito — murmurou Thomas, fazendo um pequeno círculo na toalha com o dedo indicador da outra mão. — E ele é engraçado. E ele não gagueja quando olha para você.
— Ele também é incrivelmente vaidoso e gasta mais tempo no laquê do que eu — rebateu Eva com um sorriso travesso. — E ele não tem esses olhos avelã que parecem que estão sempre pedindo um abraço.
Thomas olhou para ela, surpreso.
— Meus olhos pedem um abraço?
— O tempo todo — afirmou ela. — Especialmente quando você faz esse bico de quem está chateado com o mundo.
O jantar chegou, e a conversa fluiu de forma mais natural. Thomas começou a relaxar, incentivado pelo vinho e pelo interesse genuíno de Eva. Ele contou sobre sua infância no interior, sobre como costumava desmontar os rádios do pai para entender como o som viajava pelo ar, e sobre o medo constante de decepcionar seus mentores na BBC.
Eva, por sua vez, falou sobre seus irmãos russos — o caos de crescer em uma casa cheia de homens altos, barulhentos e protetores.
— Se o meu irmão mais velho, Mischa, visse você agora, ele provavelmente tentaria te oferecer uma dose de vodka pura para ver se você aguenta — riu ela.
— Eu provavelmente desmaiaria no primeiro gole — admitiu Thomas, rindo junto.
— Ele gostaria de você. Ele diz que homens que ficam vermelhos são os únicos em quem se pode confiar.
Ao terminarem o jantar, decidiram caminhar um pouco pelas ruas de Londres. O ar da noite estava fresco, e a névoa começava a descer sobre o asfalto úmido. Eva entrelaçou seu braço no de Thomas, puxando-o para perto enquanto caminhavam sob os letreiros de neon dos teatros.
— Sabe, Thomas — disse ela, parando em frente a uma vitrine de loja de discos fechada —, eu notei o que você fez hoje no estúdio.
— O que eu fiz? — Ele parou, olhando para ela com curiosidade.
— Aqueles cortes de câmera. Toda vez que o Johnny tentava ser um pouco mais... invasivo, você cortava para um plano geral ou focava apenas em mim.
Thomas pigarreou, ajeitando a gola do casaco.
— A composição visual estava desequilibrada, Eva. Como diretor, eu tenho a obrigação de manter a harmonia da imagem.
— Harmonia, sei — ela provocou, aproximando-se dele até que suas botas tocassem os sapatos dele. — Pareceu-me muito mais um diretor com um leve caso de ciúmes possessivos.
— Eu não sou possessivo — ele protestou, mas sua voz não tinha convicção. — Eu apenas... eu não gosto da forma como ele olha para você. Como se você fosse um troféu que ele ganhou por ter o cabelo mais loiro da Inglaterra.
Eva sorriu, sentindo o coração aquecer. Ela estendeu a mão e, com cuidado, removeu o cacho de cabelo da testa de Thomas pela décima vez naquela noite.
— Eu não sou um troféu, Tommy. Mas se eu fosse, eu preferiria estar na estante de um diretor tímido do que nas mãos de um apresentador convencido.
Thomas sentiu o mundo girar. Eles estavam sozinhos na calçada, a luz de um poste de luz lançando sombras longas ao redor deles. Eva parecia uma visão de um filme noir — perigosa, bela e irresistível.
— Eva... eu não sou o tipo de homem que sabe o que fazer nessas situações — confessou ele, a voz falhando.
— Você não precisa fazer nada — sussurrou ela. — Apenas fique parado.
Ela se inclinou, eliminando o pouco espaço que restava entre eles. Quando seus lábios tocaram os dele, Thomas sentiu um choque elétrico percorrer sua espinha. O beijo de Eva tinha gosto de vinho tinto e batom de cereja, e era muito mais suave do que ele imaginara.
Por um segundo, Thomas ficou paralisado, as mãos pairando no ar sem saber onde se apoiar. Mas então, a timidez deu lugar a um instinto mais profundo. Ele envolveu a cintura de Eva, puxando-a para mais perto, sentindo a curva de suas costas sob o casaco de pele.
Eva soltou um pequeno gemido de surpresa contra os lábios dele, aprofundando o beijo. Thomas não era tão inexperiente quanto sua timidez sugeria; havia uma doçura e uma urgência nele que a deixaram sem fôlego.
Quando finalmente se separaram, Thomas estava ofegante, o rosto mais vermelho do que nunca, mas seus olhos avelã brilhavam com uma nova confiança.
— Uau — disse Eva, limpando um pouco do batom borrado no canto da boca dele com o polegar. — O diretor-chefe certamente sabe como dar ordens quando quer.
Thomas deu um sorriso torto, aquele cacho de cabelo caindo novamente sobre seus olhos.
— Eu... eu acho que a iluminação aqui fora está perfeita agora.
Eva soltou uma gargalhada e o abraçou apertado.
— Vamos, Tommy. Me leve para casa antes que eu decida que você precisa de uma "revisão de roteiro" no meio da rua.
Eles continuaram a caminhada, de mãos dadas desta vez. Thomas sentia que poderia flutuar sobre o Tâmisa. Ele ainda era o homem tímido que fazia bico quando as coisas davam errado, e ela ainda era a jornalista atrevida que adorava provocá-lo. Mas, ali, sob a névoa de 1974, as luzes do estúdio pareciam muito distantes, e a única coisa que importava era o calor da mão dela na sua.
— Ei, Eva? — chamou ele, enquanto se aproximavam do carro dele, um pequeno Morris Minor estacionado na esquina.
— Sim, meu querido?
— Amanhã... no primeiro bloco... se o Johnny tentar te abraçar de novo...
— Sim? — Ela sorriu, esperando a conclusão.
— Eu vou mandar a equipe de áudio abrir o microfone dele bem na hora que ele soltar um daqueles suspiros dramáticos. Vai ser horrível para a imagem dele.
Eva parou e olhou para ele, admirada.
— Thomas Bennett, você é terrivelmente vingativo. Eu adoro isso.
— Eu sou apenas um diretor zeloso — disse ele, abrindo a porta do carro para ela com uma reverência desajeitada, mas cheia de charme.
Enquanto entravam no carro e o motor ganhava vida, Thomas sabia que o dia seguinte no estúdio seria um desafio. Ele teria que lidar com Johnny, com os produtores e com a pressão da audiência. Mas ele também sabia que, em algum momento entre os comerciais e as trocas de câmera, Eva olharia para a lente e sorriria apenas para ele.
E para Thomas, isso era mais do que suficiente para enfrentar qualquer holofote.