Mafia
O Despertar do Lobo Gentil
Hyunjin observava Yejin dormir, o rosto sereno e as sardas que pareciam salpicadas pelo sol. O cheiro de morango preenchia o quarto, um aroma doce que antes o inebriava com uma possessividade quase febril. Agora, porém, algo parecia diferente. Uma pontada de desconforto, um suspiro silencioso da alma de seu lobo, vinha incomodando-o há semanas. Ele se lembrava vividamente do dia em que a encontrou na rua, seus olhos cheios de lágrimas, apenas querendo um sorvete. A punição que se seguiu, o silêncio, a dor dela... Aquele Hyunjin parecia um estranho para ele agora.
Ele se afastou da cama, sentindo um peso no peito que não era de satisfação, mas de culpa. Sim, ele a amava, de uma forma avassaladora e inegável. Mas o que havia feito com ela? A transformara em uma sombra de si mesma, uma prisioneira em sua própria casa. A menina vibrante e cheia de vida que ele vira na festa, com os olhos curiosos e o riso cristalino, havia se apagado. Seus olhos verdes agora carregavam uma melancolia sutil, e o riso, quando vinha, era contido.
Naquela manhã, ao café da manhã, Hyunjin tentou agir normalmente, mas a tensão era palpável. Yejin, comia em silêncio, seus movimentos delicados e quase automáticos. Ele notou a forma como ela evitava o contato visual, a maneira como suas mãos tremiam levemente ao pegar a xícara de chá.
– Moranguinho – ele começou, a voz mais suave do que o habitual, tentando quebrar o gelo.
Yejin levantou os olhos, mas não havia a animação de antes.
– Sim, Hyunjin?
– Eu… eu andei pensando muito ultimamente. Sobre nós.
Ela apenas assentiu, esperando pelo inevitável. Seria outra bronca? Outra regra?
Hyunjin respirou fundo.
– Eu sei que tenho sido… uhm… intenso. E… e eu sinto muito.
A confissão pairou no ar. Yejin piscou, surpresa. Era a primeira vez que ele se desculpava por algo.
– Sinto muito por ter te isolado. Por ter te impedido de ver seus amigos, de ir à escola… por ter te transformado em uma prisioneira.
As lágrimas começaram a brotar nos olhos de Yejin. Não eram lágrimas de tristeza, mas de um alívio inesperado.
– Eu… eu não sei o que dizer.
– Não precisa dizer nada. Apenas me ouça. Eu te amo, Yejin. Mais do que qualquer coisa. Mas eu percebi que o meu amor estava te sufocando, te machucando. E isso não é amor de verdade.
Ele se levantou e foi até ela, ajoelhando-se ao lado de sua cadeira.
– Eu não quero mais te ver triste, meu moranguinho. Eu quero ver o seu sorriso, aquele sorriso que me encantou na festa. Quero ver seus olhos brilharem de novo.
Ele pegou as mãos dela, que estavam frias.
– Eu quero que você tenha uma vida normal, Yejin. Quero que você volte a estudar, a ver seus amigos, a desenhar. Quero que você seja livre.
Yejin não conseguia acreditar no que estava ouvindo. Era um sonho?
– Mas… e você? – ela perguntou, a voz embargada.
– Eu estarei aqui. Sempre. Mas de uma forma diferente. Eu serei seu suporte, não sua gaiola. Eu serei o seu alfa, sim, mas um alfa que te protege, não que te prende.
Ele beijou as mãos dela.
– Eu sei que não vai ser fácil, para nenhum de nós. Eu tenho meus instintos, e você… você se acostumou com essa rotina. Mas eu prometo que vou tentar, Yejin. Vou lutar contra a minha possessividade, contra o meu ciúme. Pela sua felicidade. Pela nossa felicidade.
Naquele dia, o cheiro de menta de Hyunjin parecia mais suave, menos opressor. E o cheiro de morango de Yejin, pela primeira vez em muito tempo, parecia um pouco mais doce.
A mudança não foi instantânea, nem fácil. Hyunjin teve que lutar contra seus próprios demônios, contra o lobo possessivo que uivava dentro dele. Cada vez que Yejin saía de casa, uma pontada de ansiedade o atingia. Mas ele se lembrava de suas promessas, do olhar triste dela, e resistia. Ele a deixava ir.
Yejin, por sua vez, estava cautelosa. Ela havia sido ferida, e a confiança não se reconstrói da noite para o dia. Ela começou com pequenos passos. Primeiro, ela voltou a frequentar a escola. Hyunjin a levava e a buscava, mas nunca mais a esperou na porta com um olhar furioso. Ele lhe deu um celular novo, sem monitoramento, e a encorajou a ligar para os pais e amigos.
As conversas com os pais foram difíceis. Eles estavam preocupados, aliviados, mas ainda desconfiados de Hyunjin. Ele, porém, fez questão de se apresentar a eles de uma forma diferente, mais respeitosa, explicando que havia cometido erros e que estava determinado a corrigi-los. Aos poucos, a barreira entre eles começou a diminuir.
Yejin voltou a ver seus amigos. No início, eles estavam chocados com a mudança dela, o quão quieta e retraída ela havia se tornado. Mas com o tempo, e com o apoio de Hyunjin, ela começou a florescer novamente. Ela ria mais alto, seus olhos brilhavam com a antiga curiosidade. Ela até mesmo começou a desenhar novamente, seus cadernos cheios de cores e formas vibrantes.
Hyunjin, por sua vez, estava aprendendo a amar de uma forma diferente. Ele ainda a mimava com presentes, mas agora eram presentes que a incentivavam, não que a prendiam. Ele comprou materiais de arte de alta qualidade para ela, livros sobre design, até mesmo a matriculou em um curso de desenho avançado. Ele a ouvia, realmente ouvia, quando ela falava sobre seus projetos, suas ideias. Ele a via como uma pessoa, não apenas como sua posse.
A infantilidade de Yejin ainda estava lá, mas agora era tratada com carinho e respeito. Ela ainda gostava de ser mimada, de ter momentos de pura inocência. Hyunjin a levava para parques, comprava sorvetes, assistia a desenhos animados com ela. Mas ele também a tratava como uma mulher, uma parceira, uma igual.
Uma noite, Yejin estava deitada no peito de Hyunjin, sentindo o cheiro familiar de menta.
– Hyunjin – ela sussurrou.
– Sim, meu moranguinho?
– Obrigada. Por me deixar ser eu de novo.
Ele a apertou em seus braços.
– Eu que agradeço, Yejin. Por me mostrar o que é o amor de verdade.
A maior prova da mudança de Hyunjin veio alguns meses depois. Yejin foi convidada para uma exposição de arte em Seul, para exibir um de seus desenhos. Era uma grande oportunidade para ela. Hyunjin, claro, estava radiante.
No dia da exposição, Yejin estava nervosa e animada. Ela escolheu um vestido elegante, mas confortável, e Hyunjin a ajudou a se arrumar. Ele a olhava com orgulho e admiração.
– Você está linda, meu amor – ele disse, beijando sua testa. – Você vai brilhar lá.
Na exposição, Yejin foi um sucesso. Seus desenhos, cheios de cores e emoção, chamaram a atenção de muitos. Ela conversou com artistas, com críticos, com pessoas que admiravam seu trabalho. Hyunjin estava ao seu lado, sim, mas não a monopolizava. Ele a observava de longe, um sorriso satisfeito em seus lábios, contente em vê-la brilhar.
No entanto, uma situação inesperada surgiu. Um jovem artista, um beta charmoso e talentoso, começou a flertar abertamente com Yejin. Hyunjin sentiu o lobo dentro dele rosnar, a possessividade tentando emergir. Seus punhos se cerraram. Ele queria ir até lá, afastá-lo, lembrá-lo de quem Yejin pertencia.
Mas ele respirou fundo. Ele olhou para Yejin, que parecia desconfortável, mas estava lidando com a situação com graça. Ela sorria educadamente, mas desviava o olhar, procurando por ele em meio à multidão.
Hyunjin se aproximou, mas não com raiva. Ele colocou a mão suavemente na cintura fina de Yejin, sentindo o calor de sua pele. O cheiro de morango se intensificou, um sinal de sua presença.
– Amor – ele disse, sua voz calma, mas firme. – Está na hora de irmos. Temos um jantar reservado.
O jovem artista percebeu a mudança no clima e se desculpou, afastando-se. Yejin olhou para Hyunjin, surpresa, e depois com um brilho de gratidão em seus olhos.
– Obrigada – ela sussurrou, apertando a mão dele.
No carro, a caminho do jantar, Yejin se virou para ele.
– Você estava… tão calmo. Eu achei que você ia…
– Eu queria – Hyunjin admitiu, um sorriso torto nos lábios. – Queria muito. Mas eu confio em você, Yejin. E eu prometi que não te prenderia mais. Além disso, eu sei que você é minha. Não preciso de um colar para provar isso.
Yejin sentiu um calor se espalhar pelo peito. O colar que ele a fazia usar, um símbolo de sua posse, havia sido guardado em uma gaveta há muito tempo. Ele não o impôs mais.
– Eu sou sua – ela disse, inclinando-se para beijá-lo. – Mas sou sua por escolha, Hyunjin.
Ele a beijou de volta, um beijo cheio de amor, respeito e uma nova compreensão. O cheiro de menta e morango se misturou no carro, mas desta vez, era uma fragrância de parceria, de liberdade, de um amor que havia amadurecido.
Ainda havia desafios, é claro. Hyunjin era um chefe da máfia, e a vida deles nunca seria completamente "normal". Mas ele estava aprendendo a equilibrar seus dois mundos, a proteger Yejin sem sufocá-la. Ele a ensinou a se defender, a ser independente, a ter sua própria voz.
Yejin, por sua vez, estava se tornando uma mulher forte e confiante. Ela ainda era infantilista às vezes, ainda manhosa e carente, mas agora ela tinha a liberdade de ser quem ela realmente era. Ela tinha um alfa que a amava incondicionalmente, mas que também a respeitava.
Um dia, Yejin estava em seu estúdio, desenhando. Hyunjin entrou, com uma xícara de chá para ela.
– No que você está trabalhando, meu moranguinho? – ele perguntou, observando seu desenho.
Era um retrato dele. Mas não era o Hyunjin sombrio e possessivo do passado. Era um Hyunjin sorridente, com os olhos cheios de carinho, o lobo gentil que ele havia se tornado.
– Estou desenhando o meu alfa – ela disse, com um sorriso. – O alfa que me deu a liberdade de ser eu mesma.
Hyunjin a abraçou, sentindo o cheiro de morango que agora era sinônimo de amor e liberdade. Ele havia aprendido que o verdadeiro poder não estava em possuir, mas em amar. E naquele momento, ele se sentia o homem mais rico e poderoso do mundo, não por causa de sua máfia, mas por causa do amor e da confiança de sua Yejin.