Maikon e manu
Entre o Sussurro e o Perigo
O pátio da escola estadual fervia com o calor típico das duas da tarde. O sinal havia acabado de tocar, e o fluxo de alunos saindo das salas criava um caos de uniformes brancos e mochilas pesadas. Maikon caminhava pelo corredor com as mãos nos bolsos da calça jeans impecável, destoando sutilmente do ambiente. Mesmo em um colégio público, ele carregava aquela aura de "old money": o cabelo liso perfeitamente cortado, a pele clara que parecia nunca ter tomado um sol sem proteção e aquele olhar castanho que parecia analisar tudo com uma calma aristocrática.
Ele tentava ignorar os olhares. Sabia que era o centro das atenções, não apenas pelo estilo, mas pelo drama que o cercava. No final do corredor, encostada em um armário, estava Beatriz, sua ex-namorada. Ela era o motivo de Maikon sentir que caminhava sobre um campo minado. O término deles fora explosivo, e a família de Beatriz era influente no bairro; qualquer passo em falso de Maikon seria visto como uma ofensa pessoal. O "acordo" implícito era que ele deveria permanecer sozinho, sofrendo pelo fim do namoro, ou voltaria para ela sob os termos dela.
Mas Maikon tinha um segredo. Um segredo que fazia seu coração bater contra as costelas sempre que ele dobrava a esquina da biblioteca.
Manu estava lá, sentada em uma das mesas do fundo, escondida por uma pilha de livros de literatura. Ela era o oposto de Beatriz. Morena, magra, com cachos pretos que pareciam ter vida própria e óculos de armação fina que lhe davam um ar intelectual e misterioso. Quando Maikon a viu, o peso do mundo pareceu diminuir.
Ele se aproximou silenciosamente e sentou-se na cadeira à frente dela.
— Você está atrasado cinco minutos — disse Manu, sem tirar os olhos do livro, mas com um sorriso de canto de boca que Maikon adorava.
— O corredor estava congestionado — respondeu ele, baixando o tom de voz. — E a Beatriz estava perto da saída. Tive que dar a volta pelo bloco C.
Manu finalmente fechou o livro e o encarou. Os olhos dela, escuros e intensos, brilhavam atrás das lentes.
— Até quando a gente vai viver assim, Maikon? Nos escondendo como se estivéssemos cometendo um crime?
Maikon esticou a mão sobre a mesa, tocando levemente os dedos dela. A pele morena de Manu era quente, um contraste gritante com a frieza que ele sentia quando estava perto de sua ex.
— Você sabe o que acontece se nos virem. A Beatriz não aceita que eu segui em frente. Ela acha que eu sou uma posse. E aqui dentro, as paredes têm ouvidos. Se o irmão dela souber que eu estou com você...
— Eu sei, eu sei — interrompeu ela, suspirando. — O "menino de ouro" não pode se misturar com a garota dos cachos bagunçados sem causar um escândalo. É proibido.
— Não é por causa de classe social, Manu. É por causa dela. Eu não quero que ninguém encoste em você ou fale de você.
Manu puxou a mão dele, entrelaçando seus dedos. O toque enviou uma corrente elétrica pelo braço de Maikon.
— Então me leva para algum lugar onde as paredes não falem — sussurrou ela, com a voz carregada de uma urgência que ele sentia no fundo da alma.
Maikon olhou ao redor. A biblioteca estava quase vazia, mas ainda era perigoso. Ele se levantou, sem soltar a mão dela.
— Vem comigo.
Eles saíram pelos fundos, atravessando o ginásio deserto e seguindo para uma área que estava em reformas, isolada por tapumes de madeira e faixas amarelas. Era um depósito de materiais de construção desativado, onde o cheiro de serragem e o calor abafado do teto de zinco criavam uma atmosfera claustrofóbica e íntima.
Assim que a porta pesada de metal se fechou atrás deles, Maikon não esperou. Ele a prensou contra a parede de tijolos aparentes, as mãos encontrando a cintura fina de Manu.
— Eu passei o dia inteiro pensando nisso — confessou ele, a voz rouca, o rosto a centímetros do dela.
— Só o dia inteiro? — provocou Manu, passando as mãos pelo pescoço dele, puxando-o para mais perto. — Eu não consigo mais focar nas aulas. Cada vez que eu te vejo no corredor e tenho que fingir que você é um estranho, eu sinto que vou explodir.
Maikon selou os lábios nos dela. O beijo começou urgente, faminto, como se estivessem tentando recuperar o tempo perdido nas horas de fingimento. A língua dele explorava a boca de Manu com uma intensidade que a fazia arfar. O contraste entre o jeito polido de Maikon e a agressividade do seu desejo era o que mais fascinava Manu. Por trás daquela fachada de menino rico e educado, havia um fogo que só ela conseguia despertar.
As mãos de Maikon subiram pelas costas dela, por baixo da camiseta do uniforme, sentindo a pele macia. Manu soltou um gemido baixo, puxando o cabelo liso dele com os dedos, desmanchando a perfeição do penteado que ele mantinha com tanto cuidado.
— Maikon... — murmurou ela entre os beijos. — Se alguém entrar...
— Ninguém vem aqui — disse ele, descendo os beijos para o pescoço dela, parando exatamente onde o pulso dela pulsava acelerado. — É o nosso lugar. Só por agora, esquece a Beatriz, esquece a escola. É só você e eu.
Ele a levantou pela cintura, e Manu instintivamente entrelaçou as pernas ao redor do quadril dele. O calor entre os dois era quase insuportável, alimentado pela proibição e pelo perigo de serem descobertos. Maikon a encostou em uma mesa de madeira velha, os olhos castanhos fixos nos dela, agora sem os óculos que ela havia deixado cair no processo.
— Você é linda — disse ele, a voz carregada de uma sinceridade que o assustava. — Eu nunca senti isso com ninguém. Esse medo de te perder e essa vontade de nunca te soltar.
Manu acariciou o rosto dele, o polegar traçando o lábio inferior de Maikon.
— Então não solta. Mesmo que o mundo lá fora diga que a gente não combina, ou que sua ex tente destruir tudo... aqui dentro, eu sou sua.
O clima esquentou ainda mais. Maikon deslizou as mãos pelas coxas de Manu, sentindo a firmeza da pele dela. Cada toque era uma provocação, cada suspiro era um combustível. O som da respiração ofegante dos dois preenchia o espaço pequeno, abafado apenas pelo barulho distante dos carros na avenida do colégio.
A química era inegável. Era um amor que queimava, que não pedia licença e que ignorava as regras sociais do colégio público e as ameaças de um passado mal resolvido. Maikon sentia que, com Manu, ele podia ser quem realmente era, sem as expectativas da sua linhagem ou a pressão de manter aparências.
De repente, um barulho de passos do lado de fora os fez congelar. Maikon colocou a mão sobre a boca de Manu, os corações batendo em uníssono, tão alto que pareciam tambores.
— Eu juro que vi o Maikon vindo para este lado — era a voz de Beatriz, aguda e carregada de desconfiança.
— Esquece isso, Bia. Ele deve estar na diretoria ou algo assim — respondeu uma voz masculina, provavelmente um dos amigos dela.
— Não, eu conheço ele. Ele está me escondendo algo. Ele anda muito estranho ultimamente. Se eu descobrir que ele está com outra... ele vai se arrepender de ter nascido.
O silêncio que se seguiu foi torturante. Maikon e Manu permaneceram imóveis, colados um ao outro, mal respirando. A tensão no ar era palpável, uma mistura de medo e a adrenalina residual do momento íntimo que fora interrompido.
Os passos se afastaram lentamente até que o silêncio absoluto retornasse ao depósito.
Maikon soltou o ar que nem sabia que estava segurando. Ele encostou a testa na de Manu, fechando os olhos.
— Ela não vai desistir — sussurrou Manu, a voz trêmula pela primeira vez.
Maikon se afastou o suficiente para olhar nos olhos dela. Ele ajeitou os óculos no rosto de Manu e limpou um borrão de batom no canto da boca dela com o polegar.
— Deixa ela tentar. Ela pode ter o controle do que as pessoas falam no corredor, mas ela não tem controle sobre o que eu sinto.
— Isso é perigoso, Maikon. Você sabe que a família dela tem contatos. Se eles quiserem te prejudicar na escola...
— Que prejudiquem — disse ele, com uma determinação que Manu nunca tinha visto. — Eu passei a vida inteira fazendo o que era esperado de mim. Sendo o filho perfeito, o namorado perfeito para a menina "certa". Mas com você, eu me sinto vivo. E eu não vou trocar essa vida por segurança nenhuma.
Manu sorriu, puxando-o para um último beijo, mais calmo, porém mais profundo. Era uma promessa silenciosa.
— A gente tem que ir — disse ela, ajeitando o uniforme. — Se sairmos juntos, é o fim.
— Eu saio primeiro. Espera cinco minutos e vai pela lateral do ginásio.
Maikon caminhou até a porta, mas parou antes de abri-la. Ele olhou para trás e viu Manu, a garota que havia virado seu mundo de cabeça para baixo, parada entre as sombras e os raios de sol que filtravam pelo telhado.
— Manu?
— Oi?
— Eu te amo. E não importa quem tente nos impedir.
Ela não respondeu com palavras, apenas com um olhar que dizia tudo o que ele precisava saber. Maikon saiu, recompondo a postura de "old money", o cabelo novamente no lugar, o rosto impassível. Mas por dentro, ele ainda sentia o calor da pele de Manu e a batida frenética de um amor que, por ser proibido, ardia com a força de mil sóis.
Ele caminhou pelo pátio, passando por Beatriz sem sequer olhá-la. Ela gritou seu nome, mas ele continuou andando. O poder que ela exercia sobre ele havia acabado no momento em que Manu tocou sua alma. O jogo de aparências continuaria, mas agora Maikon tinha um motivo real para jogar: proteger o único fogo que realmente o aquecia naquele ambiente frio e cheio de julgamentos.