Melhor amigo
O Renascer das Pétalas de Cerejeira
A luz suave da manhã de sábado filtrava-se pelas cortinas de linho do quarto de Nari, desenhando padrões de sombra e ouro sobre o tapete. O silêncio da casa era absoluto, interrompido apenas pelo som rítmico da respiração de Jungkook, que havia adormecido sentado em uma poltrona desconfortável ao lado da cama dela. Ele ainda segurava um livro de poesias que estivera lendo em voz alta até que o cansaço o vencesse.
Nari abriu os olhos devagar, sentindo-se, pela primeira vez em duas semanas, verdadeiramente leve. A febre havia cedido, deixando em seu lugar uma fraqueza preguiçosa, mas sua mente estava mais clara do que nunca. Ela observou Jungkook por alguns minutos. A mandíbula dele estava relaxada, e uma mecha de cabelo escuro caía sobre seus olhos fechados. Ele parecia o mesmo garoto com quem ela costumava dividir pirulitos no jardim de infância, mas havia uma maturidade nova em seus traços que a fazia perder o fôlego.
— Jungkook... — sussurrou ela, apenas para testar o som do nome dele no silêncio do quarto.
Ele despertou instantaneamente, como se estivesse programado para reagir a qualquer movimento dela. O livro escorregou de seu colo enquanto ele se inclinava para a frente, os olhos arregalados de preocupação.
— Nari? O que foi? Está sentindo dor? Quer água? — Ele levou a mão à testa dela com uma agilidade treinada. — A febre sumiu. Graças a Deus.
Nari riu suavemente, estendendo a mão para segurar o pulso dele e mantendo a mão dele contra seu rosto.
— Eu estou bem, Kook. Sério. Só estou com fome.
Jungkook suspirou, o corpo relaxando visivelmente. Ele se recostou na poltrona, mas não retirou a mão do contato com a pele dela.
— Fome é um bom sinal. Vou pedir para sua mãe preparar aquela canja, ou talvez...
— Não, nada de canja — interrompeu ela, sentando-se com esforço. — Eu quero panquecas. Aquelas com calda de chocolate que você faz e finge que a receita é segredo de família.
Jungkook arqueou uma sobrancelha, um sorriso ladino começando a brincar em seus lábios.
— Você está muito exigente para quem quase virou um fantasma há três dias. Panquecas exigem esforço. E eu sou um chef muito caro.
— Eu pago com o meu sorriso mais brilhante — disse ela, fazendo exatamente o que prometera.
Jungkook desviou o olhar por um segundo, as orelhas ficando levemente avermelhadas. A dinâmica entre eles havia mudado de forma irreversível desde a noite da confissão na chuva. O ciúme possessivo e as birras infantis haviam dado lugar a uma tensão elétrica e doce, uma consciência constante de que cada toque e cada palavra carregavam agora um peso muito maior.
— Tudo bem — cedeu ele —, mas você fica na cama. Nada de tentar me ajudar na cozinha e acabar desmaiando em cima da farinha.
— Sim, senhor guarda-costas — brincou Nari, batendo uma continência desajeitada.
Enquanto Jungkook descia para a cozinha, Nari pegou o celular. Havia uma mensagem de Taehyung enviada na noite anterior.
"Fico feliz que esteja melhor, Nari. Jungkook me contou que você já está recuperando o apetite. Ele realmente não saiu do seu lado, não é? Cuide-se. Espero que possamos ser amigos algum dia, quando a poeira baixar."
Nari sentiu um aperto de gratidão e melancolia. Ela respondeu de forma breve e gentil, fechando aquele capítulo de sua vida com a certeza de que tomara a decisão certa. Ela nunca amara Taehyung; amara a ideia de ser vista como uma garota comum por um garoto popular. Mas com Jungkook, ela nunca fora comum. Ela era o centro do universo dele, e ele era o dela.
Cerca de vinte minutos depois, um aroma celestial de massa frita e chocolate invadiu o quarto. Jungkook entrou equilibrando uma bandeja com uma destreza impressionante. Ele colocou a bandeja sobre o colo de Nari, sentando-se na beirada da cama.
— Coma tudo — ordenou ele. — Quero ver cor nessas bochechas até o final do dia.
— Você vai comer comigo? — perguntou ela, cortando um pedaço da panqueca.
— Eu já comi algumas sobras na cozinha — mentiu ele, mas o estômago dele o traiu com um ronco audível.
Nari riu e levou o garfo até a boca dele.
— Abre a boca, Kook. Eu sei que você está com fome.
Ele hesitou por um segundo, mas acabou aceitando a comida. O clima era de uma intimidade renovada, como se estivessem redescobrindo um ao outro após uma longa viagem. Entre uma garfada e outra, o assunto que ambos evitavam finalmente surgiu.
— Eu vi a Minji na escola ontem — disse Jungkook, mantendo os olhos fixos na calda de chocolate. — Ela perguntou por você. Ela é uma pessoa realmente boa, Nari.
Nari sentiu uma pontada de insegurança, o velho ciúme agora invertendo os papéis.
— Ela gosta de você, não gosta?
Jungkook finalmente olhou para ela. Havia uma honestidade crua em seus olhos escuros.
— Talvez. Mas eu fui claro com ela. Eu disse que o meu coração já tinha dona desde que eu tinha cinco anos de idade e ela me defendeu daquele cachorro no parque.
Nari sentiu o rosto esquentar. Ela se lembrava daquele dia. Jungkook tinha chorado tanto que ela teve que dar seu urso de pelúcia favorito para ele se acalmar.
— Eu não te defendi do cachorro, Kook. Eu só gritei mais alto que ele.
— Para mim, você foi uma heroína — disse ele, a voz baixando de tom. — E você continua sendo.
O silêncio que se seguiu não era desconfortável. Era preenchido pela compreensão mútua de que o tempo das máscaras havia acabado. Nari afastou a bandeja para o lado e segurou as mãos de Jungkook.
— Eu tive tanto medo de te perder — confessou ela, a voz trêmula. — Quando eu vi você com ela, eu senti como se estivesse sendo apagada. Eu percebi que eu sempre dei o seu amor como garantido. Eu achei que podia brincar de namorar outros e que você estaria lá para me segurar se eu caísse. Eu fui horrível com você.
— Você não foi horrível — disse Jungkook, apertando os dedos dela. — Você só estava tentando crescer. Eu é que fui o egoísta. Eu deveria ter falado antes. Eu deveria ter tido coragem de dizer "eu te amo" em vez de ficar emburrado toda vez que um garoto olhava para você.
— Mas a sua birra era o que me mantinha segura — disse ela, sorrindo entre as lágrimas que começavam a surgir. — Eu sempre soube que, se o mundo ficasse confuso, eu podia olhar para o lado e ver você fazendo bico por causa de alguma bobagem, e tudo ficaria bem.
Jungkook soltou uma risada curta, inclinando a cabeça para encostar a testa na dela.
— Então eu prometo nunca parar de fazer birra. Mas agora, eu vou fazer birra como seu namorado, não apenas como seu amigo ciumento.
O coração de Nari deu um salto.
— Namorado? Você ainda nem me pediu.
Jungkook se afastou um pouco, uma expressão de falsa ofensa no rosto.
— Depois de duas semanas cuidando de você, limpando seu suor frio e ouvindo você resmungar dormindo, eu acho que o cargo é meu por direito de conquista.
— Ainda assim — insistiu ela, travessa —, eu sou uma garota que gosta de formalidades.
Jungkook respirou fundo, endireitando a postura. Ele pegou a mão dela e a beijou com uma solenidade que fez a pele de Nari formigar.
— Park Nari — começou ele, os olhos brilhando com uma intensidade que parecia queimar —, você aceita ser a namorada desse cara possessivo, teimoso e completamente louco por você? Prometo que vou continuar afastando todos os "idiotas", mas desta vez, vou te dar um beijo toda vez que fizer isso.
Nari sentiu que poderia flutuar. Ela se inclinou para a frente, reduzindo a distância entre seus rostos até que suas respirações se misturassem.
— Eu aceito — sussurrou ela. — Mas com uma condição.
— Qual? — perguntou ele, a poucos milímetros dos lábios dela.
— Você tem que admitir que o meu milkshake de morango é melhor que o seu de chocolate.
Jungkook soltou uma risada vibrante, o som mais bonito que Nari já ouvira.
— Jamais. O chocolate é superior em todos os sentidos.
— Então eu acho que não temos um acordo...
Jungkook não a deixou terminar. Ele selou seus lábios nos dela em um beijo que era a mistura perfeita de tudo o que haviam passado: a doçura da infância, a dor da espera e a paixão da descoberta. Foi um beijo lento, profundo, onde cada toque parecia dizer "finalmente". Nari entrelaçou os dedos nos cabelos da nuca de Jungkook, puxando-o para mais perto, querendo absorver cada grama daquele sentimento.
Quando se separaram, ambos estavam ofegantes e com os rostos corados. Jungkook sorriu, um sorriso de pura felicidade que iluminou todo o quarto.
— Tudo bem — disse ele, a voz rouca —, o de morango é melhor. Mas só porque tem o seu gosto.
Nari escondeu o rosto no ombro dele, sentindo o calor do corpo de Jungkook e o cheiro familiar de sabonete e chocolate.
— Você é tão brega, Kook.
— E você me ama por isso.
O restante do dia passou como um sonho. Eles assistiram a filmes, conversaram sobre o futuro e planejaram o que fariam quando Nari estivesse totalmente recuperada. Jungkook não saiu do lado dela nem por um segundo, e Nari percebeu que aquela era a sua nova realidade: um amor que não precisava mais de filtros ou de desculpas.
No final da tarde, Jimin e Hoseok apareceram para uma visita rápida, trazendo flores e doces. A dinâmica do grupo mudou instantaneamente quando viram Jungkook e Nari sentados juntos, com os dedos entrelaçados.
— Finalmente! — exclamou Hoseok, jogando as mãos para o alto. — Eu não aguentava mais o Jungkook choramingando pelos cantos e a Nari agindo como se fosse cega.
— Eu não choramingava — protestou Jungkook, ficando vermelho instantaneamente.
— Ah, não? — provocou Jimin. — "Jimin, ela sorriu para o entregador de pizza, acho que ela vai casar com ele e se mudar para a Itália". Foram as suas palavras exatas na semana passada.
Nari soltou uma gargalhada, olhando para um Jungkook mortificado.
— Você disse isso mesmo, Kook?
— O entregador era italiano! — defendeu-se ele, o que só fez todos rirem mais alto.
A atmosfera era de celebração. O peso que pairava sobre a amizade deles havia desaparecido, dando lugar a uma leveza que contagiava a todos. Quando os amigos foram embora, a noite já começava a cair.
Jungkook ajudou Nari a se acomodar para dormir, ajustando os travesseiros com um cuidado quase exagerado.
— Você vai para casa agora? — perguntou ela, segurando a mão dele antes que ele se afastasse.
— Sua mãe disse que eu posso ficar no quarto de hóspedes se eu quiser — respondeu ele, acariciando o rosto dela. — E eu quero. Não quero acordar amanhã e descobrir que tudo isso foi um delírio da minha própria cabeça.
— Não foi um delírio — garantiu ela. — Eu estou aqui. E não vou a lugar nenhum.
Jungkook inclinou-se e deu um beijo suave na testa dela.
— Durma bem, Nari. Amanhã é domingo. E domingo é o nosso dia.
— Sim — sussurrou ela, fechando os olhos com um sorriso satisfeito. — O nosso dia.
Enquanto Jungkook saía silenciosamente do quarto, ele parou por um segundo no corredor, olhando para a foto da cabine que Nari havia colocado na porta. Ele tocou o papel fotográfico, sentindo uma gratidão imensa por cada tropeço e cada crise de ciúmes que os trouxera até ali.
O "ciúme de amigo" fora a semente, mas o que nascera era uma árvore forte e frondosa, capaz de suportar qualquer tempestade. Ele sabia que ainda haveria momentos em que seu instinto protetor falaria mais alto, em que ele faria bico por alguma bobagem, mas agora ele sabia que Nari estaria lá para rir dele e, logo em seguida, calá-lo com um beijo.
E no silêncio daquela noite estrelada, Jungkook percebeu que não precisava mais ser o segurança dela. Ele era o seu porto seguro, o seu amor e, acima de tudo, o garoto que finalmente aprendera que a maior coragem não estava em proteger quem se ama do mundo, mas em abrir o próprio coração para ser amado de volta.
Lá fora, as pétalas de cerejeira começavam a cair, cobrindo a calçada com um tapete rosa. Era o fim da primavera e o início de algo novo, algo que cheirava a morango, chocolate e a promessa eterna de que, não importa o que acontecesse, Jungkook e Nari sempre seriam um do outro.