Melhores amigos
Entre o Reflexo e o Corredor
O tempo tem uma maneira curiosa de distorcer as lembranças, mas para Pietro, o primeiro dia do sexto ano ainda estava gravado em sua mente como se tivesse acontecido ontem. Ele se lembrava de se sentir desengonçado, com o cabelo cacheado formando uma nuvem indomável e seca sobre a cabeça, e de como suas pernas pareciam longas demais para o próprio corpo. Foi naquele dia, entre o caos dos armários e a ansiedade do novo ciclo, que ele conheceu Isabele.
Agora, anos depois, enquanto caminhavam lado a lado pelo corredor principal da escola para o início de mais um semestre, muita coisa havia mudado. Pietro não era mais aquele menino que não sabia o que fazer com os próprios cachos. Seus fios agora eram bem definidos, hidratados e caíam com leveza sobre o rosto de traços suaves e olhos levemente puxados, que ele herdara de sua ascendência. Ele havia crescido muito, tornando-se um dos garotos mais altos da turma, o que criava um contraste quase cômico com Isabele.
Ela continuava pequena, embora tivesse ganhado uma postura mais confiante. Sua pele era de um branco quase leitoso, ainda mais clara que a dele, e seus olhos castanhos brilhavam com uma inteligência perspicaz sob a franja bem cortada. Para todos que olhavam de fora, eles eram a definição de "inseparáveis".
— Você passou o creme que eu te emprestei? — perguntou Isabele, olhando para cima para conseguir encarar o amigo. — Seus cachos estão bem melhores hoje.
Pietro soltou uma risada baixa, um som que agora saía mais grave do que no sexto ano.
— Passei, Isa. Você não me daria paz se eu aparecesse com o cabelo parecendo um ninho de passarinho de novo.
— Exatamente — ela sorriu, dando um tapinha no braço dele. — Eu tenho uma reputação de melhor amiga a zelar. Não posso deixar você andar por aí parecendo que acabou de sair de um furacão.
Eles pararam em frente ao mural de avisos, onde uma pequena multidão de alunos se aglomerava. Assim que chegaram, o burburinho começou. Não era um segredo, mas sim aquela espécie de fofoca constante que pairava sobre a escola.
— Olha lá, o casal perfeito chegou — comentou um dos alunos do fundo, provocando risadinhas entre o grupo de amigos de Pietro.
Pietro sentiu suas bochechas esquentarem instantaneamente. Ele desviou o olhar para o mural, fingindo ler a lista de horários das aulas de educação física. Por dentro, seu coração martelava contra as costelas. Ele sabia o que sentia. Sabia que, em algum momento entre as tardes estudando matemática e as idas ao cinema nos fins de semana, a amizade com Isabele tinha se transformado em algo mais profundo, algo que ele ainda tinha medo de nomear em voz alta.
Isabele, por sua vez, apertou a alça da mochila com força. Ela também sentia o rosto arder.
— Eles não cansam, né? — murmurou ela, tentando manter a voz firme, embora seus olhos castanhos estivessem fixos no chão.
— É a única coisa que sabem fazer — respondeu Pietro, finalmente criando coragem para olhar para ela. — Ignora, Isa.
Mas ignorar estava se tornando uma tarefa impossível. Especialmente quando ele passava as noites pensando nela, e quando ela, em segredo, escrevia o nome dele nas margens dos seus cadernos de literatura.
A verdade era que Pietro estava passando por um processo de autodescoberta complexo. Ele sabia que era gay, sentia isso no fundo da alma, mas havia algo em Isabele que desafiava suas próprias definições. Era uma conexão que transcendia rótulos, um amor que nascera da convivência e do carinho puro. E ele tinha pavor de que, se confessasse o que sentia, perderia a única pessoa que realmente o entendia.
— Ei, Pietro? — Isabele chamou, tirando-o de seus pensamentos.
— Oi? — Ele piscou, voltando à realidade.
— Você está encarando o cartaz do clube de xadrez há três minutos. E você odeia xadrez.
Ele riu, sem graça, passando a mão pelos cabelos.
— Só estava distraído. Vamos para a aula?
— Vamos.
Enquanto caminhavam, a mão de Pietro roçou na de Isabele. Foi um toque acidental, breve, mas eletrizante. Ambos recolheram as mãos rapidamente, como se tivessem levado um choque, e o silêncio que se seguiu foi carregado de uma tensão que nenhum dos dois sabia como quebrar.
No intervalo, a situação não melhorou. Sentados no pátio, sob a sombra da grande árvore onde costumavam lanchar desde o ensino fundamental, eles foram abordados por um grupo de colegas.
— E aí, Pietro, quando é que vocês vão oficializar? — perguntou Lucas, um dos meninos da sala, com um sorriso provocador.
— Oficializar o quê, Lucas? — Pietro tentou soar desinteressado, abrindo sua garrafa de água.
— Ah, para com isso! Todo mundo vê. Vocês são o casal perfeito da escola. Até os professores comentam que vocês não se desgrudam.
Isabele sentiu um nó na garganta. Ela olhou para Pietro, esperando que ele dissesse algo, que negasse de forma veemente ou que, talvez, apenas talvez, desse algum sinal de que não achava a ideia de serem um casal tão absurda assim.
— Somos melhores amigos — disse Pietro, a voz um pouco mais trêmula do que ele gostaria. — É só isso.
— Sei... — Lucas deu de ombros, saindo com os outros. — Melhores amigos não se olham do jeito que vocês se olham.
Quando o grupo se afastou, o silêncio entre Pietro e Isabele tornou-se quase insuportável. Isabele começou a brincar com a ponta do seu cabelo castanho, um hábito que tinha quando estava nervosa.
— Você se incomoda? — perguntou ela, baixinho.
— Com o quê? — Pietro olhou para ela, notando como a luz do sol fazia os olhos dela parecerem quase dourados.
— Com o que eles dizem. De chamarem a gente de casal.
Pietro respirou fundo. Ele sentiu que estava na beira de um precipício. Se dissesse que não se incomodava, estaria revelando demais. Se dissesse que se incomodava, poderia magoá-la.
— Eu não me incomodo com a ideia de estar com você, Isa — ele disse, com uma coragem que não sabia que possuía. — Eu só me incomodo com as pessoas se metendo na nossa vida.
Isabele levantou o olhar, surpresa. O coração dela deu um salto.
— Você... você não se incomodaria?
Pietro sentiu o rosto queimar de novo, mas desta vez ele não desviou o olhar.
— Não. Eu acho que... acho que eu não me importaria nem um pouco.
Isabele sentiu um sorriso começar a brotar em seus lábios, uma mistura de alívio e pura felicidade.
— Eu também não — confessou ela, a voz quase um sussurro.
Eles ficaram ali, sentados lado a lado, enquanto o sinal tocava para o fim do intervalo. Não houve um beijo cinematográfico, nem uma declaração de amor grandiosa diante de toda a escola. Em vez disso, Pietro estendeu a mão e, desta vez, não a recolheu. Isabele entrelaçou seus dedos nos dele, e a mão pequena dela se encaixou perfeitamente na mão maior e mais áspera de Pietro.
— Vamos? — perguntou ele, levantando-se e ajudando-a a subir.
— Vamos — respondeu ela, sem soltar a mão dele.
Eles entraram no corredor de volta para a sala de aula, de mãos dadas, sob os olhares curiosos e os sussurros que agora não pareciam mais tão irritantes. Pietro sabia que ainda tinha muito o que entender sobre si mesmo, sobre sua sexualidade e sobre o futuro, mas, naquele momento, enquanto sentia o calor da mão de Isabele na sua, ele sabia que não precisava de todas as respostas agora.
Eles eram, de fato, o casal perfeito, mas não porque a escola dizia, e sim porque, desde o primeiro dia de aula no sexto ano, eles vinham construindo um mundo onde só os dois sabiam o caminho de volta para casa.
Ao entrarem na sala, a professora de história já estava organizando os livros na mesa. Ela olhou para os dois, notou as mãos unidas e sorriu discretamente, voltando sua atenção para a lousa.
— Abram o livro na página quarenta e dois — anunciou a professora.
Pietro e Isabele sentaram-se em suas carteiras habituais, uma ao lado da outra. O silêncio entre eles agora era confortável, preenchido por uma nova compreensão. Pietro abriu seu caderno e começou a anotar o título da aula, mas sua mente estava em outro lugar. Ele olhou de soslaio para Isabele e viu que ela estava fazendo o mesmo, com um pequeno sorriso no rosto que ela tentava esconder atrás da mão.
— Ei — sussurrou Pietro, inclinando-se um pouco para o lado dela.
— O quê? — ela sussurrou de volta, os olhos brilhando.
— O seu cabelo está muito bonito hoje também.
Isabele soltou uma risadinha abafada e voltou a atenção para o livro, sentindo que, independentemente do que o futuro reservasse, aquele era o melhor início de ano que eles já tinham tido. A vergonha ainda estava lá, escondida em algum canto, mas o sentimento que os unia era muito maior do que qualquer medo de ser rotulado. Eles eram Pietro e Isabele, e isso, por enquanto, era tudo o que importava.