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Meu admirador não tão secreto

Frequências de Desejo e Outras Variáveis Ocultas

— Você está me ouvindo, Takahashi, ou o seu cérebro de processador de última geração entrou em curto-circuito? — A voz de Douglas cortou o silêncio do escritório, carregada daquela agressividade habitual que agora, eu sabia, era apenas um disfarce para algo muito mais profundo.

Eu pisquei, despertando do transe. Estávamos de volta às nossas mesas após o incidente — ou melhor, o evento catalisador — de dez minutos atrás. Meus lábios ainda formigavam, e o sabor de baunilha dele parecia ter se impregnado na minha pele. Tentei focar na tela do computador, mas os códigos de criptografia da Missão Éden pareciam dançar diante dos meus olhos.

— Estou ouvindo, Douglas. Você estava reclamando da calibração dos motores iônicos pela centésima vez — respondi, tentando manter a voz estável. — E eu já disse que a margem de erro é de 0,0004%. É insignificante.

— Insignificante é a minha paciência com essa sua mania de perfeição! — Ele se levantou, a cadeira batendo contra a parede com um estrondo. Douglas caminhou até a minha mesa e, para minha surpresa, não começou a gritar. Em vez disso, ele se sentou na borda da minha mesa, invadindo meu espaço pessoal de uma forma que fazia meu estômago dar voltas. — Porra, Akira... como você consegue?

— Como eu consigo o quê? — perguntei, sentindo o rosto esquentar.

— Agir como se nada tivesse acontecido. Como se a gente não tivesse quase derrubado a estante de livros de astrofísica enquanto eu enfiava a minha língua na sua boca.

— Um, dois, três, quatro... — murmurei, desviando o olhar para o teclado.

— Não começa a contar, nerd! — Douglas exclamou, embora seu tom tivesse uma nota de diversão. Ele se inclinou para frente, forçando-me a olhar para ele. — Olha pra mim.

Eu obedeci. Os olhos castanhos dele estavam intensos, dilatados. Havia uma sinceridade nele que sempre me chocava. Douglas não possuía filtros; ele era uma explosão de sentimentos brutos, enquanto eu era um castelo de cartas meticulosamente construído.

— Eu não estou agindo como se nada tivesse acontecido — confessei, em um sussurro. — Eu só... eu não sei como processar isso em um ambiente profissional. Temos protocolos, Douglas. O governo está de olho em cada passo nosso para essa missão. Se eles suspeitarem de qualquer... distração...

— Que se foda o governo — ele sibilou, a mão dele descendo para a minha, cobrindo meus dedos que ainda tentavam digitar freneticamente. — Você acha que eu não sei? Eles estão mandando a gente para o espaço para sermos garotos de recados de ETs de luxo. Essa missão fede a merda desde o primeiro dia. E você, com esse seu cérebro gigante, sabe disso melhor do que eu.

Eu congelei. A mão dele era quente e áspera, um contraste absoluto com a frieza do metal do escritório. Ele estava certo. Os dados que eu vinha interceptando nas últimas semanas mostravam irregularidades financeiras e comunicações criptografadas que não passavam pela central oficial da Agência. O governo estava vendendo a Terra por partes, e nós éramos os entregadores.

— Se você sabe disso, por que continua aqui? — perguntei, desafiando-o.

— Porque eu preciso do dinheiro, porra. E porque... — Ele hesitou, e pela segunda vez naquele dia, vi o ruivo agressivo ficar vermelho de vergonha. — Porque se eu saísse, não ia ver você todo dia. E eu prefiro morrer em uma explosão de propulsor do que passar um dia sem te irritar.

Fiquei em silêncio, chocado com a declaração. Douglas era um paradoxo. Ele era capaz de xingar minha linhagem inteira por causa de um café frio, mas escrevia cartas onde dizia que minha inteligência era a coisa mais atraente que ele já tinha testemunhado.

— Você é um idiota completo — eu disse, mas não retirei minha mão da dele.

— Sou o seu idiota — ele rebateu com um sorriso safado. — E agora, abre a gaveta.

— O quê? Por quê?

— Abre logo essa merda, Takahashi.

Eu suspirei e abri a gaveta lateral. Lá estava a última carta, o envelope pardo ainda selado. Douglas a pegou e a jogou sobre a mesa.

— Lê. Agora. Na minha frente.

— Douglas, isso é constrangedor...

— Foda-se. Lê. Eu quero ver a sua cara quando você ler o que eu sinto quando você usa esse óculos de aro fino e fica mordendo a ponta da caneta.

Senti meu coração disparar. Com as mãos levemente trêmulas, abri o envelope. A caligrafia era, como sempre, apressada, mas as palavras eram como fogo.

*"Akira, você me odeia porque eu sou o caos, e você precisa de ordem. Mas a ordem é chata, e o caos é onde a vida acontece. Ontem, quando você explicou a teoria das cordas para aqueles generais imbecis, eu só conseguia pensar em como seria sentir suas cordas vocais vibrando contra a minha pele enquanto eu te ouço dizer meu nome. Você é a única coisa real nesse lugar de mentiras. Eu te desejo tanto que dói."*

Terminei de ler e senti que poderia desmaiar. A honestidade agressiva de Douglas era uma arma de destruição em massa para a minha timidez. Olhei para ele, e ele estava me encarando com uma expectativa quase dolorosa, as mãos cerradas em punhos sobre as coxas.

— Você... você realmente escreveu isso? — perguntei, a voz falhando.

— Escrevi. E escrevi mais dez que estão na minha mochila, porque eu sou um covarde de merda que só consegue ser honesto com um papel — ele rosnou, levantando-se e começando a andar de um lado para o outro. — Eu te chamo de nerd, eu te provoco, eu te irrito porque eu fico duro só de ouvir você digitar, Akira! Você tem ideia do que é isso? Ter que trabalhar do lado da pessoa que você quer despir com os dentes enquanto finge que se importa com a porra do orçamento da agência?

— Douglas! — exclamei, olhando para a porta com pavor de que alguém tivesse ouvido.

— Não tem ninguém no corredor, eu já chequei! — Ele parou na minha frente, a respiração pesada. — Eu sou um bruto, eu sei. Eu não sou delicado como os caras dos seus livros de romance. Mas eu sou louco por você. E eu sei que você sente alguma coisa, porque você não me empurrou lá na copa.

— Eu não senti apenas "alguma coisa" — confessei, levantando-me também, sentindo uma coragem súbita que só ele conseguia despertar em mim. — Eu sinto que você é a variável que eu não consigo resolver. E eu odeio não conseguir resolver as coisas, Douglas. Você me desestabiliza. Você é barulhento, você é vulgar e você não tem nenhum respeito pela lógica.

— E? — Ele deu um passo para frente, reduzindo a distância entre nós a centímetros.

— E eu não consigo parar de pensar em como seria se a gente não estivesse aqui. Se não houvesse uma missão, se não houvesse uma conspiração... se fôssemos apenas nós.

Douglas soltou um suspiro pesado, e sua expressão suavizou. Ele levou a mão ao meu rosto, o polegar acariciando minha bochecha com uma ternura que me fez fechar os olhos.

— Não precisa de "se", Akira. Somos nós. Aqui e agora.

— Mas a missão... — tentei argumentar.

— A missão que se exploda. Se o governo quer que a gente entregue a Terra para os amiguinhos deles, a gente vai dar um jeito de impedir. Mas antes disso... — Ele deslizou a mão para a minha nuca, puxando-me para perto. — Antes disso, eu preciso que você admita.

— Admitir o quê? — sussurrei, sentindo o calor do corpo dele me envolver.

— Que você quer que eu te leve para casa hoje e te mostre que eu sou muito melhor com as mãos do que com as canetinhas de desenho.

O choque da sua sinceridade sexual me fez arfar. Douglas era implacável. Ele não dava espaço para ambiguidades.

— Eu... eu quero — respondi, finalmente cedendo. — Mas com uma condição.

— Qual? — ele perguntou, já distribuindo beijos pelo meu pescoço, o que me fazia perder o fio do raciocínio.

— Você tem que parar de chamar as lojas de colchão de "templos do capitalismo preguiçoso". É uma reclamação muito específica e estranha.

Douglas soltou uma risada vibrante contra a minha pele.

— Fechado, nerd. Mas só se você prometer que vai parar de contar até dez toda vez que eu tentar te tirar a roupa. Eu quero que você perca a conta.

— Eu sou superdotado, Douglas. Eu nunca perco a conta.

— Vamos ver — ele murmurou, e seus lábios encontraram os meus novamente, desta vez com uma fome que prometia que a noite seria longa e completamente ilógica.

De repente, o monitor do meu computador apitou. Era um alerta vermelho, um sinal de que alguém havia tentado acessar os arquivos confidenciais da Missão Éden no servidor central. Nós nos separamos bruscamente, a tensão romântica sendo substituída por um alerta imediato.

— O que foi isso? — Douglas perguntou, sua postura mudando instantaneamente para a de um homem pronto para o combate.

— Alguém está tentando apagar os rastros das comunicações externas — eu disse, meus dedos voando pelo teclado enquanto eu tentava bloquear o acesso. — Eles sabem que eu estou monitorando. Douglas, se eles conseguirem, não teremos provas de que o governo está conspirando com os extraterrestres.

— Consegue rastrear de onde vem o sinal? — Ele se inclinou sobre o meu ombro, a raiva agora direcionada para o inimigo comum.

— Vem do escritório do Diretor. Mas ele não está lá hoje. Alguém se infiltrou.

Douglas soltou um palavrão pesado.

— Um de nós. Um dos astronautas da tripulação. Eles plantaram alguém aqui para garantir que a missão prossiga sem interferências.

Olhei para ele, a compreensão mútua passando entre nós. Estávamos em perigo. A bolha de romance que havíamos criado estava prestes a ser estourada por uma realidade muito mais perigosa do que qualquer briga de escritório.

— Akira, presta atenção — Douglas disse, segurando meus ombros com força. — A gente vai terminar esse trabalho. Você bloqueia esse acesso e eu vou até o setor de segurança ver quem entrou no escritório do Diretor. Se as coisas ficarem feias, a gente sai daqui e vai direto para o meu apartamento. Entendido?

— Douglas, é perigoso...

— Perigoso é o que eu vou fazer com quem estiver tentando foder o nosso futuro — ele disse, e por um momento, a agressividade dele foi a coisa mais reconfortante do mundo. — Confia em mim, nerd. Eu protejo você.

Ele me deu um selinho rápido e saiu da sala a passos largos, deixando para trás o cheiro de baunilha e uma sensação de urgência que fazia meu cérebro trabalhar a mil por hora.

Voltei-me para a tela, meus dedos digitando sequências complexas de algoritmos. Um, dois, três, quatro... Eu precisava de ordem. Precisava de lógica. Mas, pela primeira vez, eu sabia que a lógica não seria suficiente para nos salvar. Eu precisava do caos de Douglas.

Enquanto as linhas de código subiam pela tela, eu percebi que a verdadeira conspiração não era apenas sobre o governo ou sobre alienígenas. Era sobre como duas pessoas tão diferentes podiam se tornar o único ponto de apoio uma da outra em um mundo que estava prestes a desmoronar.

— Eu não vou perder a conta, Douglas — sussurrei para a sala vazia, um pequeno sorriso surgindo nos meus lábios enquanto eu bloqueava o invasor. — Mas eu aceito o desafio.

A Missão Éden estava prestes a começar, e o infiltrado podia estar em qualquer lugar. Mas naquela sala, entre papéis espalhados e o eco de uma confissão de amor agressiva, eu sabia que tinha encontrado o meu único aliado real. E eu faria qualquer coisa para garantir que chegássemos às estrelas — juntos.