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Meu animal favorito.

O Jogo da Incerteza e a Pressão do Refletor

A rotina de João Vitor era uma dança incessante entre a quadra e a academia, entre o suor e a estratégia. Os treinos se intensificavam à medida que as semifinais da liga se aproximavam, e a pressão sobre ele, como levantador titular, era imensa. Cada passe, cada levantamento precisava ser perfeito. A cada dia, ele se dedicava com a mesma paixão e disciplina que o levaram tão longe, mas agora, havia algo mais em sua mente: Janete. Ela era o seu refúgio, o seu porto seguro em meio ao turbilhão de bolas e gritos de torcida.

Janete, por sua vez, mergulhava de cabeça em seu estágio, absorvendo cada novo conhecimento como uma esponja. O cheiro de animais e remédios se tornara seu perfume favorito, e o sorriso de um tutor aliviado após o tratamento de seu pet era sua maior recompensa. A faculdade a consumia, com provas e trabalhos se acumulando, mas ela encontrava tempo para João Vitor, mesmo que fossem apenas mensagens trocadas na calada da noite.

Apesar do amor que os unia, a distância e as agendas conflitantes começaram a cobrar seu preço. As conversas, antes longas e cheias de risadas, agora eram apressadas, pontuadas por "tenho que ir" e "estou exausta". A intensidade dos primeiros meses dava lugar a uma rotina que, por vezes, parecia engoli-los.

Uma noite, João Vitor estava voltando de um treino pesado. O corpo doía, a mente estava exausta. Ele pegou o celular para ligar para Janete, mas hesitou ao ver a hora: 23h45. Ela provavelmente estaria estudando ou, pior, dormindo. Ele enviou uma mensagem rápida:

*João Vitor: "Cheguei agora. Saudade. Boa noite, meu amor."*

A resposta veio minutos depois:

*Janete: "Boa noite, João. Tive um dia louco. Acabei de terminar um trabalho. Também estou exausta. Beijos."*

Ele sentiu um leve pontada no peito. O "meu amor" dele não foi correspondido. Era bobagem, ele sabia, mas a insegurança era um monstrinho que, de vez em quando, dava as caras.

No dia seguinte, um sábado, era o raro dia de folga de João Vitor. Ele decidiu surpreender Janete com um almoço. Ligou para ela, que atendeu com a voz sonolenta.

– Oi, João. – ela murmurou. – Aconteceu alguma coisa?

– Não, nada. – ele respondeu, com um sorriso. – Eu só queria saber se você está livre para almoçar. Eu queria te levar naquele restaurante japonês que você adora.

Houve um breve silêncio do outro lado da linha.

– Ah, João… – a voz dela estava carregada de culpa. – Eu esqueci de te avisar. Marquei de estudar com a Carol e o Pedro hoje. Temos uma prova de parasitologia na segunda.

O sorriso de João Vitor murchou.

– Ah, entendi. – ele disse, tentando disfarçar a decepção. – Tudo bem, sem problemas. A gente se fala depois, então.

– Me desculpa, de verdade. – Janete lamentou. – Eu te ligo mais tarde, prometo.

Ele desligou, sentindo um vazio no estômago. Não era a primeira vez que algo assim acontecia. As prioridades dela, ele sabia, eram importantes, mas a sensação de ser deixado de lado começava a incomodar.

Mais tarde, ele foi para a academia, descontando a frustração em cada levantamento de peso. Seu treinador, um homem experiente que o conhecia desde as categorias de base, percebeu a tensão.

– Algum problema, João? – ele perguntou, observando o atleta.

João Vitor suspirou, secando o suor da testa.

– Problemas de relacionamento, coach. – ele confessou. – É difícil conciliar tudo. Minha namorada é estagiária em veterinária e a rotina dela é tão puxada quanto a minha.

– Entendo. – o treinador assentiu. – É uma fase complicada, garoto. Mas se ela for a pessoa certa, vocês vão encontrar um jeito. Não deixe que isso afete seu desempenho na quadra. As semifinais estão chegando.

Aquelas palavras pesaram sobre ele. Ele sabia que não podia se dar ao luxo de se distrair. O time dependia dele.

Janete, por sua vez, sentia o peso da culpa. Estudar com os amigos era importante, mas a voz decepcionada de João Vitor ainda ecoava em sua mente. Ela o amava, sem dúvida, mas a vida adulta, com suas responsabilidades e compromissos, era mais complexa do que ela imaginava. Ela sentia que estava se dividindo em mil pedaços, tentando ser a melhor estagiária, a melhor estudante e a melhor namorada.

Naquela tarde, enquanto revisava os ciclos de vida de parasitas, sua mente divagava para João Vitor. Ela pensava no sorriso dele, na forma como ele a abraçava, no beijo que a fazia esquecer de tudo. Ela sentia falta da espontaneidade dos primeiros meses, quando eles podiam passar horas conversando sem se preocupar com o relógio.

À noite, ela ligou para ele.

– Oi, João. – ela disse, a voz suave. – Desculpa de novo por hoje.

– Tudo bem, Janete. – ele respondeu, o tom de voz ainda um pouco distante. – Eu entendo.

– Não, não está tudo bem. – ela insistiu. – Eu sinto muito. Eu sei que tenho estado um pouco distante. A faculdade e o estágio estão me consumindo.

– Eu sei, meu amor. – ele disse, o tom se suavizando um pouco. – Eu também estou na mesma. É complicado.

– É sim. – ela concordou. – Mas eu não quero que a gente se perca nisso. Eu te amo, João.

– Eu também te amo, Janete. – ele respondeu, e ela pôde ouvir o alívio em sua voz. – Mais do que você imagina.

Eles conversaram por mais um tempo, tentando reacender a conexão que parecia se esvair. Decidiram que, na próxima semana, fariam um esforço para passar um tempo de qualidade juntos, mesmo que fosse apenas uma noite.

A semana seguinte foi um turbilhão. João Vitor estava em plena preparação para as semifinais, com treinos intensos e reuniões táticas. Janete enfrentava uma bateria de provas e um caso complicado na clínica – um cachorro com uma doença rara que exigia atenção constante.

Eles mal se viam. As mensagens se tornaram ainda mais curtas, e as ligações, raras. A tensão entre eles era quase palpável, mesmo à distância.

Na véspera do primeiro jogo das semifinais, João Vitor ligou para Janete. Ele estava no hotel com o time, sentindo a adrenalina e a ansiedade pré-jogo.

– Janete? – ele perguntou, a voz um pouco rouca.

– Oi, João. – ela respondeu, parecendo cansada. – Tudo bem?

– Tudo sim. – ele hesitou. – Eu só queria te ouvir antes do jogo. Amanhã é o grande dia.

– Eu sei! – ela disse, com um entusiasmo forçado. – Eu vou estar torcendo por você, como sempre.

– Você vai assistir? – ele perguntou, uma ponta de esperança em sua voz.

– Ah, João… – ela suspirou. – Eu tenho plantão amanhã à noite. É um turno extra que peguei para cobrir uma colega.

O silêncio se instalou entre eles. João Vitor sentiu o coração apertar. Era o jogo mais importante da temporada, e ela não estaria lá.

– Entendi. – ele disse, tentando soar indiferente. – Tudo bem.

– Não fica bravo, por favor. – ela pediu. – Eu realmente preciso desse dinheiro extra, e eu não podia recusar.

– Não estou bravo. – ele mentiu. – Só… esperava que você estivesse lá.

– Eu sei. – ela disse, a voz embargada. – Eu também queria estar. Mas você sabe como é. As contas não esperam.

Ele sabia. Ele entendia. Mas a decepção era uma facada em seu peito. Ele sentiu que, mais uma vez, sua paixão, seu trabalho, não eram tão importantes quanto os dela.

– Boa sorte amanhã, João. – ela disse, quebrando o silêncio. – Arrase na quadra.

– Obrigado, Janete. – ele respondeu, e desligou.

João Vitor passou a noite em claro, a mente borbulhando. A raiva se misturava com a tristeza e a frustração. Ele se sentia sozinho, apesar de estar cercado por seus companheiros de equipe. Ele amava Janete, mas a distância emocional que se instalara entre eles parecia intransponível.

No dia do jogo, João Vitor estava irreconhecível. Ele era o levantador titular, o cérebro do time, mas seus passes estavam imprecisos, seus levantamentos, falhos. O time sentiu a falta de sua liderança. O primeiro set foi um desastre.

No intervalo, o treinador o puxou para uma conversa particular.

– O que está acontecendo com você, João? – o treinador perguntou, a voz firme. – Você não é você mesmo.

João Vitor olhou para o chão, os ombros curvados.

– Não estou bem, coach. – ele confessou. – Minha cabeça está em outro lugar.

– Eu não quero saber o que está acontecendo na sua vida pessoal. – o treinador disse, sem rodeios. – Mas quando você entra naquela quadra, você é um atleta profissional. Você tem um time que depende de você. Coloque seus problemas de lado e jogue. Ou eu vou te tirar do jogo.

As palavras do treinador foram um choque de realidade. João Vitor respirou fundo. Ele não podia decepcionar seu time. Ele não podia se deixar abater. Ele era um campeão, e campeões não desistem.

No segundo set, João Vitor entrou em quadra com uma nova postura. Ele se forçou a focar, a deixar de lado as preocupações com Janete. Ele se concentrou em cada passe, em cada jogada. Lentamente, a liderança voltou aos seus olhos. Seus levantamentos voltaram a ser precisos, seus bloqueios, impecáveis. Ele começou a gritar, a motivar seus companheiros.

O time reagiu. Eles venceram o segundo set, o terceiro e o quarto, garantindo a vitória no primeiro jogo das semifinais. João Vitor foi o grande destaque da partida, apesar do início vacilante.

Após o jogo, exausto, mas com a adrenalina ainda correndo em suas veias, João Vitor foi para o vestiário. Seu celular vibrou. Era uma mensagem de Janete.

*Janete: "Vi os melhores momentos agora. Você foi incrível, João! Parabéns pela vitória. Estou orgulhosa de você."*

Ele leu a mensagem, e um misto de emoções o invadiu. Orgulho pela vitória, mas também uma tristeza persistente. Ela não estava lá. Ela não viu a luta, a superação. Ela não viu o esforço que ele fez para deixar de lado a dor e se concentrar no jogo.

Ele respondeu:

*João Vitor: "Obrigado. Eu senti sua falta lá."*

A resposta de Janete demorou a vir. Quando veio, foi curta:

*Janete: "Eu sei, meu amor. Eu também senti. Mas eu não podia faltar ao plantão."*

João Vitor jogou o celular no banco. A frustração era esmagadora. Ele sabia que ela tinha suas razões, mas a cada vez, a sensação de que ele não era uma prioridade aumentava. Ele sentiu que estava se esforçando sozinho para manter a relação, enquanto ela parecia se distanciar cada vez mais.

No dia seguinte, ele ligou para ela.

– Janete, a gente precisa conversar. – ele disse, a voz séria.

– Sobre o quê, João? – ela perguntou, a voz apreensiva.

– Sobre nós. – ele respondeu. – Não está funcionando desse jeito.

O silêncio do outro lado da linha era ensurdecedor. Janete sentiu um arrepio na espinha. Ela sabia que essa conversa era inevitável, mas não estava pronta para ela.

– Eu… eu sei. – ela finalmente disse, a voz embargada. – Eu sinto que estamos nos afastando.

– Eu me sinto sozinho, Janete. – ele confessou, a voz carregada de dor. – Eu sinto que estou lutando por nós dois, e você está em outro mundo.

– Não é verdade! – ela protestou, as lágrimas começando a rolar. – Eu te amo, João! Eu só… eu estou sobrecarregada.

– Eu entendo que você está sobrecarregada. – ele disse, com a voz embargada. – Mas eu também estou. E eu preciso de você. Eu preciso que você esteja ao meu lado. Não só quando der, mas quando for importante.

– Eu queria estar lá ontem, João! – ela gritou, as lágrimas escorrendo livremente. – Eu juro que queria! Mas eu não podia! O que você quer que eu faça? Largue meu estágio? Abandone a faculdade?

– Não! – ele respondeu, a voz elevada. – Não é isso que eu quero! Eu quero que você me mostre que eu sou importante para você. Que eu sou uma prioridade. Porque nesse momento, eu não me sinto assim.

Houve um longo silêncio. Janete soluçava do outro lado da linha. João Vitor sentiu o coração quebrar.

– Eu… eu não sei o que dizer, João. – ela finalmente disse, a voz fraca. – Eu não sei o que fazer.

– Eu também não, Janete. – ele respondeu, sentindo as próprias lágrimas nos olhos. – Eu também não.

Eles desligaram, a conversa deixando um gosto amargo na boca de ambos. Era a primeira vez que a relação deles enfrentava um desafio tão grande, uma crise que ameaçava desmoronar tudo o que haviam construído.

João Vitor se deitou na cama, olhando para o teto. O brilho da vitória no jogo parecia insignificante diante da dor que sentia. Ele amava Janete, mas a distância entre os mundos deles parecia se tornar cada vez maior. E ele não sabia se conseguiria encontrar uma ponte para atravessar esse abismo.

Janete chorou até adormecer. Ela se sentia culpada, frustrada e com o coração partido. Ela amava João Vitor, mas a vida parecia estar conspirando contra eles. Ela não queria perdê-lo, mas não sabia como conciliar suas paixões e responsabilidades com o amor que sentia por ele.

O jogo da incerteza havia começado, e nenhum dos dois sabia qual seria o placar final. A pressão do refletor, que antes iluminava apenas a quadra de vôlei e o consultório veterinário, agora mirava diretamente no relacionamento deles, expondo cada rachadura, cada insegurança. E a pergunta que pairava no ar era: eles seriam capazes de vencer esse jogo?