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Meu destino do outro lado do mundo

Ponte de Palavras e Silêncios

O outono em Pequim trazia uma brisa fresca que balançava as folhas das árvores no campus, tingindo a paisagem de tons alaranjados e dourados. Para Aylen, cada dia naquela universidade era uma descoberta, mas também um desafio constante. O mandarim, com seus tons e ideogramas complexos, ainda parecia uma barreira alta demais para escalar sozinha, e as aulas de Relações Internacionais exigiam uma compreensão profunda que ia além das palavras de um dicionário.

Naquela tarde de terça-feira, o professor Zhang havia anunciado os grupos para o primeiro grande projeto do semestre: uma análise comparativa sobre as políticas de desenvolvimento sustentável entre os países do BRICS. Quando o nome de Aylen Victoria foi pronunciado ao lado de Shen Yuze, ela sentiu um frio na barriga que não era apenas nervosismo acadêmico.

Eles haviam combinado de se encontrar na biblioteca central, um edifício imponente que misturava vidro moderno com detalhes em madeira escura. Aylen chegou cinco minutos mais cedo, carregando seu notebook e um caderno cheio de anotações coloridas. Ela avistou Yuze em uma mesa nos fundos, perto de uma janela enorme que dava para o jardim de pedras. Ele já estava lá, mergulhado em um livro grosso, os óculos de armação fina levemente baixos no nariz.

— Oi, Yuze. — Aylen sorriu, puxando a cadeira à frente dele. — Espero não ter te deixado esperando.

Yuze levantou o olhar, e o movimento pareceu lento, quase calculado. Ele fechou o livro com cuidado, marcando a página com um marcador de seda.

— Você chegou cedo — observou ele, com sua voz calma característica. — Eu que cheguei muito antes. Gosto do silêncio daqui para organizar os pensamentos antes de começar um novo projeto.

— Eu também — admitiu Aylen, abrindo seu notebook. — Especialmente porque este trabalho é bem denso. Eu andei lendo sobre a cooperação Brasil-China em energia renovável. Acho que pode ser um ótimo ponto de partida para o nosso estudo de caso.

Yuze assentiu, retirando um tablet da mochila e deslizando os dedos pela tela para abrir um arquivo que já havia preparado.

— Eu concordo. O Brasil tem uma matriz energética muito interessante para a China analisar. Mas precisaremos estruturar isso dentro da teoria das relações de poder. Se você cuidar da parte histórica e dos dados brasileiros, eu posso focar na análise macroeconômica e na tradução técnica dos termos para o relatório final.

Eles começaram a trabalhar em silêncio por alguns minutos, mas Aylen logo percebeu que, embora Yuze fosse extremamente eficiente, ele era como uma fortaleza. Ele não falava a menos que fosse necessário, e seus olhos raramente deixavam a tela ou os livros. Aylen, por outro lado, sentia a necessidade de quebrar aquele gelo. Na Zona Norte do Rio, o silêncio era algo raro e, para ela, o trabalho fluía melhor quando havia uma conexão.

— Yuze — chamou ela, fazendo-o olhar para cima novamente. — Você sempre foi assim? Tão focado?

Ele inclinou a cabeça levemente para o lado, parecendo processar a pergunta como se fosse um problema matemático.

— Assim como?

— Ah, você sabe... sério, compenetrado. Parece que você está sempre calculando o próximo passo.

Yuze soltou um suspiro baixo, quase imperceptível, e retirou os óculos para limpá-los com um lenço. Sem os óculos, seus olhos pareciam menos protegidos, revelando um cansaço que Aylen ainda não tinha notado.

— Minha família é de médicos, Aylen. Três gerações. Quando você cresce em um ambiente onde a precisão é a diferença entre a vida e a morte, você aprende a não desperdiçar movimentos.

— Mas você não escolheu a medicina — pontuou ela, gentilmente.

— Não — respondeu ele, e houve uma pausa pesada. — Minha escolha pelas Relações Internacionais não foi... bem recebida. Meus pais acreditam que estou desperdiçando meu potencial com "política e conversas". Então, para provar que eles estão errados, eu preciso ser o melhor. Não há espaço para erros ou distrações.

Aylen sentiu uma pontada de empatia. Ela também tinha a pressão de ser a primeira da família a ir tão longe, mas o peso de Yuze parecia diferente, carregado de uma expectativa que sufocava sua individualidade.

— Eu entendo sobre querer orgulhar a família — disse ela, estendendo a mão sobre a mesa, mas parando antes de tocá-lo. — Mas você não é um robô, Yuze. Han Yichen me disse que você é a pessoa mais leal que ele conhece. Isso não vem da precisão, vem do coração.

Yuze pareceu surpreso com a menção ao amigo. Um pequeno e raro meio sorriso surgiu em seus lábios.

— O Yichen fala demais.

— Ele fala, mas ele gosta muito de você. E eu também estou feliz de ser sua dupla. Acho que podemos aprender muito um com o outro, além do que está nos livros.

Yuze colocou os óculos de volta e olhou para Aylen de uma forma diferente. Não era mais apenas a "estudante estrangeira" ou a "colega de grupo". Havia uma curiosidade genuína ali.

— Talvez você tenha razão — disse ele. — Vamos continuar? Eu vi que você marcou um parágrafo sobre o BNDES, mas a tradução para o mandarim que você usou no rascunho está um pouco... imprecisa.

Aylen soltou uma risada baixa, encostando-se na cadeira.

— Eu sabia! O Google Tradutor me traiu de novo, não foi?

— Foi — confirmou Yuze, agora com um brilho divertido nos olhos. — "Banco" em mandarim pode ter nuances. Você escreveu algo que soa mais como um "banco de praça" para investimentos.

— Ai, que vergonha! — Aylen escondeu o rosto nas mãos, rindo. — Imagine eu entregando isso para o professor Zhang!

— Não se preocupe — disse Yuze, e para a surpresa de Aylen, ele puxou a cadeira um pouco mais para perto, diminuindo a distância entre eles. — Eu vou te ajudar com isso. O mandarim é uma língua de contextos. Se você entender o contexto, as palavras fazem sentido.

As horas seguintes passaram voando. O trabalho progrediu rápido, mas a dinâmica havia mudado. Yuze começou a explicar os tons das palavras com uma paciência que Aylen não esperava. Ele repetia a mesma sílaba várias vezes, observando atentamente o movimento dos lábios de Aylen enquanto ela tentava imitar.

— Não, o terceiro tom é como se você estivesse mergulhando e subindo — explicava ele, fazendo um gesto com a mão. — *Mǎ*.

— *Mǎ*? — tentou ela, concentrada.

— Melhor. Quase perfeito.

Enquanto isso, em outra parte da universidade, no pátio próximo ao prédio de Moda, a atmosfera era bem menos acadêmica e muito mais agitada. Han Yichen estava encostado em sua moto, observando Su Yiran sair do ateliê. Ela carregava um rolo de tecido de seda vermelha e parecia estar em uma missão urgente.

— Ei, Yiran! — gritou Yichen, acenando com entusiasmo. — Precisa de uma carona para o dormitório? Esse tecido parece pesado para uma pessoa tão pequena.

Yiran parou, respirou fundo e olhou para ele com aquela expressão de desdém que ela vinha aperfeiçoando desde que se conheceram.

— Eu não sou pequena, Yichen. E eu consigo carregar minhas próprias coisas, obrigada. Além disso, sua moto faz um barulho horrível.

Yichen riu, descendo da moto e caminhando em direção a ela com a confiança de quem sabia que era o centro das atenções.

— O barulho é o charme. É a música da liberdade! E admita, você está morrendo de vontade de dar uma volta e sentir o vento no rosto.

— Eu estou morrendo de vontade de terminar esse vestido antes do jantar — retrucou ela, embora o brilho nos olhos de Yichen estivesse tornando difícil manter a postura séria. — Por que você não vai incomodar alguma das suas "fãs" no ginásio? Ouvi dizer que o time de vôlei estava procurando por você.

Yichen parou na frente dela, bloqueando seu caminho de forma brincalhona. Ele diminuiu o tom de voz, tornando-o subitamente mais sério.

— Mas nenhuma delas é você, Yiran. E nenhuma delas tem esse mau humor tão fascinante.

Yiran sentiu o rosto esquentar — um traição de sua pele clara que ela odiava. Ela o conhecia desde os oito anos. Sabia que por trás daquela máscara de *bad boy* popular, ele era o mesmo menino que dividia doces com ela quando os pais deles estavam ocupados demais com o hospital. Mas a reputação de mulherengo dele na faculdade era algo que ela não podia ignorar.

— Você é impossível — murmurou ela, tentando passar por ele.

— Sou persistente — corrigiu ele, pegando delicadamente uma ponta do tecido que estava escorregando do braço dela. — Deixe-me pelo menos levar isso até a porta do seu prédio. Como um cavalheiro. Ou como um amigo de infância que não quer ver você tropeçando no meio do campus.

Yiran hesitou, olhando para o tecido e depois para o sorriso de Yichen.

— Só até a porta do prédio. E nada de manobras perigosas com a moto no caminho.

— Promessa de escoteiro! — mentiu ele, já pegando o rolo de seda com facilidade.

Enquanto caminhavam, Yichen não parava de falar. Ele contava piadas, falava sobre os treinos de basquete e tentava, de todas as formas, arrancar um sorriso dela. Yiran lutava contra a vontade de rir, mantendo a conversa focada em críticas ao estilo de roupa dele, mas por dentro, seu coração batia em um ritmo que nenhuma aula de modelagem jamais conseguira provocar.

— Você viu a Aylen hoje? — perguntou Yichen, mudando de assunto. — Ela e o Yuze estão trancados na biblioteca. Eu aposto que o Yuze está assustando a coitada com aquela montanha de livros.

— A Aylen é forte — disse Yiran, sorrindo de verdade ao pensar na amiga. — Ela tem uma energia que o Yuze precisa. Acho que eles vão acabar se dando bem. Ela não se deixa intimidar fácil.

— É verdade. Ela é como você nesse sentido — comentou Yichen, parando em frente ao prédio do dormitório feminino. — Duas mulheres que não facilitam a vida de ninguém.

Ele entregou o tecido para ela, e por um breve momento, suas mãos se tocaram. O contato foi elétrico. Yiran rapidamente puxou o tecido para si, tentando recuperar o fôlego.

— Obrigada, Yichen. Pela ajuda.

— Disponha, senhorita Su. — Ele fez uma reverência exagerada. — Vejo você no jantar? O grupo combinou de ir àquela lanchonete nova.

— Vou ver se termino meu trabalho a tempo — respondeu ela, já se virando para entrar, mas com um sorriso que ela não conseguiu esconder até chegar ao elevador.

De volta à biblioteca, o sol já estava se pondo, criando sombras longas entre as estantes de livros. Aylen e Yuze estavam finalizando a última parte da estrutura do trabalho.

— Acho que por hoje terminamos a pesquisa — disse Aylen, espreguiçando-se e sentindo os músculos das costas relaxarem. — Meu cérebro está fritando, mas me sinto muito mais confiante agora.

— Você aprende rápido — elogiou Yuze, guardando seus pertences. — Seus tons melhoraram muito em apenas duas horas.

— É o professor — brincou ela, piscando para ele. — Você tem jeito para isso. Devia considerar dar aulas.

Yuze deu uma risada curta, um som que Aylen achou incrivelmente agradável.

— Acho que prefiro a diplomacia. É menos barulhento.

Eles saíram da biblioteca juntos, caminhando pelo campus que agora estava iluminado por lanternas suaves. O céu estava de um azul-escuro profundo, a cor favorita de Aylen, o que a fez se sentir em casa, mesmo estando a milhas de distância do Rio.

— Aylen — chamou Yuze, parando perto da fonte onde se conheceram. — Obrigado.

— Pelo quê? Eu que deveria agradecer pela ajuda com o trabalho e com o idioma.

— Por me lembrar que não sou um robô — disse ele, olhando para ela com uma sinceridade que a deixou sem fôlego por um segundo. — Às vezes, eu esqueço disso.

Aylen sorriu, sentindo uma conexão genuína se formando ali. Ela percebeu que, apesar das diferenças de cultura, de altura e de personalidade, eles estavam buscando a mesma coisa: um lugar no mundo onde pudessem ser eles mesmos, sem o peso das expectativas alheias.

— De nada, Yuze. — Ela deu um passo à frente e, movida por um impulso de carinho brasileiro, deu um abraço rápido nele.

Yuze ficou rígido por um milésimo de segundo, surpreso com o contato físico súbito, mas logo relaxou, retribuindo o abraço de forma desajeitada, mas calorosa. Quando se afastaram, ambos estavam um pouco sem graça, mas o silêncio entre eles não era mais desconfortável. Era um silêncio cheio de possibilidades.

— Vamos? — perguntou ele, apontando para o caminho dos dormitórios. — Yichen e Yiran devem estar nos esperando para o jantar.

— Vamos — concordou Aylen. — E prepare-se, porque eu vou querer comer algo bem apimentado hoje para comemorar nosso progresso!

Enquanto caminhavam em direção ao encontro dos amigos, Aylen olhou para as estrelas. O intercâmbio na China estava se revelando muito mais do que uma oportunidade acadêmica. Era o início de uma nova vida, tecida com fios de amizade, desafios e o começo de algo que ela ainda não conseguia nomear, mas que fazia seu coração vibrar mais do que qualquer sonho que já teve nas ruas da Zona Norte. Ela estava pronta para o que viesse a seguir.