Meu dono
O Peso da Coroa e o Calor do Perdão
O silêncio do quarto era preenchido apenas pelo som das nossas respirações pesadas e pelo eco distante do batidão que ainda rolava lá embaixo, no coração da Rocinha. O ar-condicionado no dezoito graus não era suficiente para esfriar o clima que Derek e eu tínhamos criado entre aquelas quatro paredes. Ele estava por cima de mim, os braços tatuados servindo de pilares enquanto ele me encarava com aqueles olhos que pareciam querer ler até minha alma. A raiva de minutos atrás tinha se transformado em uma tensão sexual tão absurda que eu sentia o ar faltar.
— Você gosta de brincar com o perigo, né, Karen? — ele sussurrou, a voz ainda rouca, passando o nariz pelo meu pescoço, onde o perfume ainda exalava com força. — Sabe que se fosse qualquer outra pessoa no seu lugar, eu não teria tido metade da paciência que eu tive.
— Mas eu não sou qualquer pessoa, Derek — respondi, sentindo um arrepio percorrer minha espinha quando os lábios dele roçaram minha orelha. — E você sabe que não adianta tentar me trancar em casa. Eu brilho, e você vai ter que aprender a lidar com isso sem querer dar o papo de dono do morro pra cima de mim.
Ele soltou uma risada baixa, um som vibrante que senti contra o meu peito. Derek se afastou apenas o suficiente para me olhar de novo, o maxilar menos tenso, mas a expressão ainda possessiva. Ele puxou a alça fina do meu vestido de lurex, observando como o tecido brilhava sob a luz fraca do abajur.
— Eu lido com guerra todo dia, Karen. Lido com traição, com polícia, com invasão... Mas nada me tira mais do sério do que o medo de te perder — ele confessou, e aquela vulnerabilidade vindo do homem mais temido da comunidade sempre me desarmava. — Quando eu te vi lá, com esse vestido que não tampa nada, cercada de cara que não vale o que come, minha cabeça deu um nó. Eu só pensava em tirar você dali antes que eu fizesse uma besteira e sujasse minhas mãos na frente de geral.
— Você não confia em mim? — perguntei, levando minha mão até o rosto dele, sentindo a barba por fazer arranhar levemente minha palma.
— Em você eu confio de olhos fechados. Eu não confio é no resto do mundo. E eu odeio quando a gente tá brigado, porque parece que tudo fica fora do lugar.
Eu suspirei, sentindo a última gota de orgulho se esvair. A briga por causa da foto, o ciúme dele com meus amigos, o meu ciúme das piranhas que ficavam cercando o camarote... tudo aquilo parecia pequeno agora que estávamos sozinhos.
— Eu também odeio — admiti em voz baixa. — Mas você tem que parar de ser tão autoritário. Eu não sou sua propriedade, Derek. Eu sou sua mulher. Tem uma diferença enorme aí.
— Eu sei, porra. Eu sei — ele murmurou, e o beijo que se seguiu foi diferente do anterior. Não era mais urgente ou agressivo, era lento, profundo, cheio de uma desculpa silenciosa que ele não conseguia colocar em palavras.
As mãos dele, grandes e calejadas, desceram pela minha cintura, puxando o vestido para cima com uma lentidão torturante. Cada centímetro de pele que ele descobria era marcado por um beijo ou uma carícia possessiva. Derek me tratava como se eu fosse o tesouro mais precioso que ele já tinha conquistado, e naquela noite, ele fazia questão de demonstrar que, apesar de mandar em milhares de pessoas, ali, naquele quarto, quem ditava o ritmo era o sentimento que ele tinha por mim.
— Esse vestido... — ele disse, enquanto finalmente se livrava da peça, jogando-a em qualquer canto do chão. — Ele vai sumir do seu guarda-roupa amanhã.
— Nem pense nisso, Derek! — eu ri, tentando parecer séria, mas falhando miseravelmente quando ele começou a trilhar um caminho de beijos pelo meu abdômen. — Eu paguei caro nele.
— Eu te compro dez, cem vestidos novos. Mas esse aqui... esse aqui me deu muito trabalho hoje — ele rebateu, subindo o corpo novamente para me encarar. — Hoje eu quero que você sinta que é só minha. Sem baile, sem rádio tocando, sem vapor na porta. Só eu e você.
A madrugada passou voando. Entre carícias e sussurros, a gente se reencontrou daquela forma que só quem vive um amor intenso e conturbado entende. A paz na Rocinha era relativa, mas dentro daquele quarto, o mundo poderia estar desabando que nada importava. Derek era meu porto seguro, mesmo sendo o próprio caos, e eu era a única que conseguia acalmar a fera que ele carregava no peito.
Horas depois, eu estava deitada com a cabeça no peito dele, ouvindo as batidas ritmadas do seu coração. Derek fazia carinho no meu cabelo, o olhar perdido no teto, parecendo finalmente relaxado.
— Karen? — ele chamou baixinho.
— Hum?
— Amanhã eu vou pedir pro pessoal organizar um churrasco aqui em casa. Só os chegados. Sem aquela bagunça de baile, sem exposição. Só pra gente ficar de boa.
— E você vai deixar eu usar o que eu quiser? — provoquei, levantando um pouco a cabeça para olhá-lo com um sorriso sapeca.
Ele revirou os olhos, mas não conseguiu segurar um sorriso de canto.
— Se você aparecer de biquíni de fita na frente dos meus soldados, eu juro que te tranco numa torre igual à Rapunzel — ele brincou, mas eu sabia que tinha um fundo de verdade ali. — Mas sério... vamos tentar não brigar por uns dias? Meu coração não aguenta esse pique todo não, morena.
— Se você se comportar e parar de dar moral pra qualquer uma que encosta na sua mesa, eu prometo que sou um anjo — respondi, dando um selinho nele.
— Eu só tenho olhos pra você, sua maluca. Você sabe disso. O problema é que você gosta de testar meu limite.
— É que ver o dono do morro perdendo a linha por minha causa tem um certo charme, sabe? — brinquei, sentindo ele me apertar mais forte contra si.
— Você é terrível. Mas é a minha terrível.
A luz do sol começou a querer aparecer por entre as frestas da persiana, anunciando que um novo dia estava começando na favela. Lá fora, o movimento dos trabalhadores saindo e dos vapores trocando o plantão já devia estar a todo vapor. Mas ali, no alto do morro, no refúgio do homem que comandava tudo, o tempo parecia ter parado.
Derek acabou pegando no sono primeiro, exausto da noite e das preocupações que o cargo exigia. Eu fiquei ali, observando-o dormir. Ele parecia tão mais jovem quando não estava franzindo a testa ou gritando ordens. Era o meu Derek, o cara que me conhecia desde antes de ter esse poder todo, o cara que ainda perdia o chão quando eu o encarava com raiva.
Eu sabia que nossa vida nunca seria fácil. Viver ao lado do dono do morro significava dormir com um olho aberto e conviver com a incerteza do amanhã. Mas, olhando para ele agora, eu tinha certeza de que não queria estar em nenhum outro lugar. A adrenalina, o ciúme, a paixão avassaladora... tudo isso fazia parte do pacote.
Levantei-me devagar para não acordá-lo, peguei uma camisa dele que estava jogada na poltrona e a vesti. O cheiro dele me envolveu imediatamente. Fui até a varanda e observei a Rocinha acordando. A imensidão de casas, a vida pulsando em cada beco. Era um império, e ele era o rei. Mas eu? Eu era a única que tinha a chave do palácio e o coração do monarca na palma da mão.
Senti dois braços fortes envolverem minha cintura por trás e um beijo quente ser depositado no meu ombro.
— Já de pé? — Derek perguntou, a voz ainda rouca de sono.
— Só admirando a vista — respondi, encostando as costas no peito dele.
— A vista mais bonita desse morro tá aqui nos meus braços — ele disse, e eu soube que, por mais que a gente brigasse, o nosso amor era o lugar onde a gente sempre voltaria para se encontrar.
— Tá ficando romântico, Derek? Os seus soldados não podem saber disso, hein? — zombotei, virando-me para ele.
— Eles não sabem de nada. Pra eles, eu sou o chefe. Pra você... — Ele deu um sorriso que fez minhas pernas fraquejarem. — Pra você, eu sou o que você quiser que eu seja.
A briga do baile já era passado. Naquele momento, sob o céu que começava a clarear, nós dois éramos apenas dois jovens apaixonados tentando encontrar equilíbrio no meio do caos. E, enquanto eu estivesse com ele, eu sabia que a Rocinha inteira poderia estar aos nossos pés, mas o que realmente importava era o fogo que nunca se apagava entre nós dois.
— Vamos voltar pra cama — ele ordenou, mas dessa vez, foi uma ordem que eu tive todo o prazer em obedecer. — O churrasco pode esperar. Eu ainda não cansei de ter você só pra mim.
E assim, entre idas e vindas, o dono do morro e sua fiel seguiam escrevendo sua história, um capítulo de cada vez, com muito fogo, ciúme e uma paixão que nada, nem ninguém, era capaz de apagar.