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Meu mar na sombra do seu coração

O Despertar da Lógica e o Caos dos Sentimentos

A brisa da noite soprava suavemente sobre o jardim do QG, balançando as marias-chiquinhas vermelhas de Batatinha enquanto ela caminhava saltitante ao lado de Kode. O encontro no cinema tinha sido, nas palavras dela, "absolutamente esplêndido e domindador". Kode, por outro lado, ainda sentia as bochechas arderem. Ele carregava um saco de pipoca murcha e um sorriso bobo no rosto, tentando processar o fato de que Batatinha não tinha reclamado nem uma vez quando ele, por puro nervosismo, derrubou refrigerante no pé dela.

— Você viu, Kode? — Batatinha exclamou, gesticulando dramaticamente para o céu estrelado. — Aquele filme sobre o império das formigas foi uma inspiração! Eu já estou planejando como usar levros de estratégia para treinar meu exército de formigas gigantes. O mundo vai se curvar diante da Batatinha!

— Mas, Batatinha... — Kode começou, com sua voz mansa e cuidadosa — acho que aquelas formigas eram de computação gráfica. E, além disso, você não acha que dominar o mundo dá muito trabalho? A gente podia só... sei lá, comer mais pão com manteiga amanhã.

— Kode, seu bobo! — Ela parou de andar e o encarou com as mãos na cintura, as sobrancelhas (ou "sobrancias", como ela preferia) franzidas. — Você não tem ambição. Mas tudo bem, eu deixo você ser o meu conselheiro de lanches. É um cargo de alta confidenciação.

Kode riu baixo, achando graça no jeito dela de inventar palavras. Ele olhou para Batatinha e sentiu aquela pontada de coragem que só aparecia em momentos raros.

— Batatinha, eu... eu gostei muito de hoje. Mesmo com a confusão da melância no meio da sessão.

— É melância, Kode! Tem que falar com o sotaque da realeza — ela corrigiu, mas seus olhos brilharam de um jeito diferente. — E eu também gostei. Você é um bom súdito. O melhor de todos.

Enquanto o casal improvável se aproximava da entrada do QG, o clima lá dentro ainda estava carregado de uma eletricidade residual. No jardim, perto do lago, Sunny e Yuyu permaneciam sentados, o silêncio entre eles não era mais desconfortável, mas sim reflexivo. Sunny sentia que seu "processador" estava tentando organizar os eventos das últimas horas em pastas que fizessem sentido.

— Yuyu — Sunny quebrou o silêncio, sua voz voltando ao tom calmo e analítico, embora ainda houvesse um rastro de rubor em suas bochechas — eu estive revisando os dados. O erro de interpretação que cometi em relação à Névoa... ele foi causado por um excesso de processamento emocional. Isso é incomum para o meu sistema.

Yuyu, que ainda estava enrolado em seu cobertor roxo e sentindo os efeitos remanescentes da febre, soltou um risinho rouco. Ele puxou o capuz com chifres um pouco mais para baixo, tentando esconder o quanto estava feliz por ela estar ali.

— É chamado de ciúmes, Sunny. Até as máquinas mais inteligentes dão tilt quando o assunto é... sabe, gostar de alguém.

— Gostar de alguém — Sunny repetiu a frase, como se estivesse testando o sabor das palavras. — Meus cálculos indicam que essa variável altera todas as outras equações da minha vida. Quando você me beijou... houve uma sobrecarga de energia. Eu não sabia se devia reiniciar ou continuar o programa.

Yuyu sentiu o rosto esquentar novamente, e desta vez não era a febre. Ele lembrou-se da sensação de prender Sunny contra a parede, da coragem súbita que a doença lhe dera. Ele sempre fora o "durão", a sombra que observava de longe, mas Sunny tinha um jeito de trazê-lo para a luz, mesmo que ele reclamasse o tempo todo.

— E agora? — Yuyu perguntou, olhando para o lago. — O seu programa diz o quê?

Sunny inclinou a cabeça para o lado, as pontas rosas de seus cabelos azuis brilhando levemente sob a luz da lua.

— O programa diz que o tempo de execução ao seu lado é mais eficiente e agradável do que qualquer outra atividade no meu banco de dados. Eu gostaria de... continuar o experimento.

Yuyu deu um sorriso de lado, o típico sorriso de quem se acha o máximo, mas seus olhos entregavam a doçura.

— Justo. Mas se você contar para a Batatinha que eu fiquei carente e pedi para você não ir embora, eu juro que apago todos os seus recordes de videogame.

— Você não faria isso — Sunny respondeu, com uma pontinha de diversão na voz. — Seria um crime contra a tecnologia.

Nesse momento, Batatinha e Kode apareceram no portão do jardim. Batatinha parou bruscamente ao ver os dois sentados tão próximos.

— Mas o que é isso?! — Batatinha gritou, apontando o dedo para Yuyu. — O Yuyu saiu da tumba? E a Sunny está sentada na grama? Isso vai contra todas as leis da minha ditadura! A grama é para ser pisada com elegância, não para servir de banco para doentes!

Yuyu revirou os olhos e se levantou com dificuldade, ainda segurando a mão de Sunny por um breve segundo antes de soltá-la.

— Cala a boca, Batatinha! Eu só vim pegar um ar. E você, por que está com essa cara de quem comeu um estoque inteiro de melância?

— Nós fomos ao cinema! — Batatinha anunciou, estufando o peito. — E o Kode foi um excelente acompanhante, apesar de não saber ler os levros de instrução do balde de pipoca.

Kode acenou timidamente para Sunny e Yuyu.

— Oi, pessoal. O Yuyu está melhor? A Sunny parecia preocupada mais cedo quando passou correndo pela cozinha.

Sunny sentiu o erro de sistema voltando e rapidamente se levantou, limpando o vestido.

— Eu estava apenas... realizando um teste de estresse cardiovascular através de corrida aeróbica — ela mentiu, de forma pouco convincente.

Névoa, que estava observando tudo de forma invisível até então, materializou-se de repente ao lado de Kode, fazendo o garoto loiro dar um pulo de susto.

— Ela estava com ciúmes, isso sim! — Névoa riu, sua forma fantasmagórica oscilando. — Ela achou que eu e o Yuyu estávamos num momento romântico só porque eu estava segurando o casaco dele!

— Névoa! — Yuyu e Sunny gritaram em uníssono, ambos ficando vermelhos.

Batatinha soltou uma gargalhada escandalosa, batendo palmas.

— O quê?! O Yuyu e a Sunny? Isso é mais engraçado do que ver o Kode tentando abrir um pote de conserva! A sabichona e o gatinho roxo! Eu vou anotar isso no meu diário de dominação mundial. "Capítulo 4: O amor deixa as pessoas bobas e fáceis de conquistar".

— Não enche, Batatinha! — Yuyu rebateu, tentando recuperar sua postura de tsundere. — Vai cuidar das suas sobrancias e deixa a gente em paz.

— Minha sobrancia está perfeita! — Batatinha retrucou, aproximando-se de Yuyu para começar uma de suas discussões infinitas. — Você que está aí, todo acabado, parecendo um travesseiro velho.

Enquanto Batatinha e Yuyu começavam a briga habitual, Sunny e Kode se entreolharam. Havia uma cumplicidade silenciosa entre os dois — os membros mais calmos da turma que, de alguma forma, acabaram se apaixonando pelos mais caóticos.

— Eles nunca mudam, não é? — Kode comentou, sorrindo enquanto observava Batatinha gesticular freneticamente sobre como ela seria uma rainha melhor do que qualquer personagem de filme.

— A mudança é uma constante universal, Kode — Sunny respondeu, observando Yuyu, que apesar de estar discutindo, lançava olhares furtivos para ela para garantir que ela ainda estava lá. — Mas, em alguns casos, a estabilidade de certas personalidades é o que mantém o sistema funcionando. Eu... eu acho que gosto desse caos.

— Eu também — admitiu Kode, olhando para a pipoca em sua mão. — Mesmo que seja um caos que chama livro de levro.

A noite continuou com os gritos de Batatinha e as respostas sarcásticas de Yuyu ecoando pelo QG. Eventualmente, a exaustão da febre e do dia agitado atingiu a todos. Névoa voltou para as sombras, satisfeito por ter causado um pouco de drama produtivo.

Antes de entrarem, quando Batatinha já tinha arrastado Kode para dentro para ajudá-la a "catalogar as estrelas" (o que provavelmente significava apenas fazê-lo carregar coisas pesadas), Yuyu parou na porta e esperou por Sunny.

— Ei, Sunny — ele chamou, a voz baixa para que os outros não ouvissem.

— Sim, Yuyu?

— Obrigado por cuidar de mim. Mesmo que eu tenha sido um... você sabe, carente e idiota.

Sunny aproximou-se e, de forma inesperada, deu um beijo rápido na bochecha dele, logo abaixo da borda do capuz.

— O cuidado médico foi concluído com sucesso. Mas o monitoramento emocional continuará por tempo indeterminado.

Yuyu ficou estático por um momento, sentindo o coração martelar contra as costelas. Ele não disse nada, apenas puxou o capuz para esconder o sorriso bobo e entrou, resmungando algo sobre como "água-vivas eram estranhas".

Sunny ficou um momento sozinha no corredor, olhando para suas próprias mãos. Ela ainda não entendia completamente o que era o amor, ou como ele se encaixava em suas equações lógicas. Mas, ao sentir o calor que ainda restava em seu rosto e a felicidade que parecia flutuar em seu peito, ela decidiu que não precisava de uma fórmula para tudo.

Algumas coisas na Turma da Batatinha não precisavam fazer sentido. Elas só precisavam ser sentidas. E, com esse pensamento, ela desligou as luzes da sala, pronta para o próximo capítulo de sua vida, onde a lógica e o coração finalmente caminhavam lado a lado — ou, no caso de Yuyu e Batatinha, discutindo o caminho inteiro.