Meus sonhos
Ecos de Posse e Luar
O eco daquela promessa parecia reverberar por toda a gruta suspensa, fazendo as pétalas luminescentes tremerem em sincronia com o bater descompassado do meu peito. Eu pertencia à Terra do Nunca. Pertencia a ele. Dizer aquelas palavras em voz alta não havia sido uma rendição fraca, mas um ato de entrega tão absoluto que fez o ar ao nosso redor vibrar com uma magia densa e inebriante.
Peter não desfez o abraço. Pelo contrário: seus braços ao redor da minha cintura se apertaram ainda mais, como se quisesse ter certeza de que eu não era uma ilusão tecida pelas brumas do vulcão. Seus lábios, ainda úmidos e quentes pelo beijo que acabáramos de compartilhar, desceram vagarosamente pela linha da minha mandíbula, deixando um rastro de fogo contra a minha pele sensível.
— Wendy... — sussurrou ele contra o meu pescoço, e a aspereza sedutora daquela voz causou um arrepio que desceu direto até a ponta dos meus dedos. — Você não faz ideia do que essas palavras significam para mim.
Ergui a mão trêmula, afundando meus dedos pelos seus cabelos curtos e castanhos claros. Eram tão macios quanto a penugem de um pássaro silvestre, mas desgrenhados pela ferocidade dos ventos que ele comandava. Inclinei a cabeça para trás, oferecendo-lhe a curva pálida da minha garganta, sentindo a respiração dele bater ali, quente e urgente.
— Eu sei exatamente o que significam, Peter — respondi em tom doce, embora minha voz vacilasse sob o peso do desejo que crescia entre nós. — Significam que não há navio, nem estrela, nem tempo no mundo que possa me arrancar do seu lado.
Ele soltou um rosnado baixo, quase um ronronar perigoso, antes de pressionar a boca no ponto exato onde meu pulso batia freneticamente na lateral do pescoço. Era uma mordida suave, uma marcação sem lâminas, uma prova física de que o líder da Terra do Nunca havia reivindicado a sua rainha. Gemi baixinho, surpresa com a ousadia do gesto, mas meu corpo inteiro amoleceu contra o peito rijo dele.
Peter ergueu o rosto devagar. Seus olhos verdes brilhavam com uma satisfação triunfante e quase selvagem. Havia nele aquela essência de tempestade contida, o predador que acabara de encurralar a criatura mais bela da floresta e descobrira que ela não desejava fugir.
— Eu não divido nada do que é meu — declarou ele, a voz firme e autoritária, enquanto um de seus polegares deslizava lentamente sobre o meu lábio inferior, que ainda ardia pelo atrito do beijo anterior. — Nem com os rapazes, nem com os índios, e muito menos com aquele capitão miserável. Se qualquer um deles tentar tocar em um único fio do seu cabelo loiro, Wendy, eu juro que farei a ilha inteira engoli-los vivos.
Dei um sorriso complacente, fascinada por aquele ciúme abrasador. Peter era um garoto quando voava contra piratas, mas a masculinidade que transbordava de seus gestos agora não tinha nada de pueril.
— Você é ciumento demais, capitão — provoquei docemente, deslizando minhas mãos de seus cabelos para seus ombros firmes, sentindo a tensão dos músculos sob o tecido rústico de sua túnica. — Acha mesmo que algum pirata seria capaz de me encantar?
— Nenhum homem nesta ilha se atreveria — rebateu ele, os olhos faiscando em um tom esmeralda ainda mais vivo. — Mas eu vejo como eles olham para você. Até mesmo os rapazes... Às vezes, quando você se senta para costurar ou cantar, eu vejo o jeito como eles a adoram. Eles esquecem que você veio para cá comigo. Que você só existe neste mundo porque eu a trouxe.
— Eles me veem como uma mãe, Peter — argumentei, tentando acalmar a fera que rugia dentro dele, embora no fundo eu me sentisse secretamente extasiada com a possessividade daquele olhar.
— Mas eu não vejo você como uma mãe — cortou ele com aspereza, dando mais um passo à frente e me prensando ainda mais contra o tronco retorcido da árvore sagrada. — Nunca vi. Desde a primeira noite em que entrei pela sua janela e vi você deitada naquela cama, com esses cabelos dourados espalhados pelo travesseiro... Eu soube que não queria apenas ouvir histórias. Eu queria a contadora de histórias. Inteira para mim.
A revelação me atingiu como um raio. O ar pareceu sumir de meus pulmões. Olhei nos olhos dele, buscando qualquer vestígio de pilhagem ou zombaria infantil, mas só encontrei devoção absoluta e uma fome voraz que espelhava a minha própria.
— Peter... — murmurei, meus olhos azuis procurando os dele com intensidade desarmada. — Por que nunca me disse isso antes?
Ele deu um sorriso de canto, uma centelha de sua costumeira arrogância brilhando em meio à penumbra roxa da gruta.
— Porque eu tinha medo — confessou ele em tom confidencial, e admitir aquilo pareceu custar-lhe uma gota de orgulho, tornando o momento infinitamente mais precioso. — Medo de que você quisesse crescer rápido demais e voltasse para Londres. Medo de que me achasse apenas uma brincadeira passageira.
— Você nunca foi uma brincadeira para mim — afirmei com toda a doçura e firmeza que habitavam minha alma. Levantei a mão e acariciei sua bochecha áspera, onde uma pequena cicatriz de batalha contava a lenda de um dos seus inúmeros duelos. — Desde o momento em que minhas mãos costuraram sua sombra aos seus pés, minha alma ficou presa à sua.
O olhar de Peter amoleceu, perdendo a postura defensiva para acolher o carinho do meu toque. Ele fechou os olhos por um segundo, inclinando o rosto contra a palma da minha mão e suspirando com um alívio quase doloroso.
Um zumbido agudo e estridente, acompanhado por um clarão dourado irritadiço, cortou a atmosfera mística da clareira.
Sininho emergiu da névoa das trepadeiras, voando em zigue-zague frenético. Seus sinos tiniram com uma fúria ensurdecedora, ecoando notas metálicas de protesto e desespero. Ela pousou agressivamente em um galho próximo, apontando para mim com o rostinho miúdo retorcido em uma carranca de puro ódio, emitindo sons estridentes que pareciam vidro se estilhaçando.
Peter nem sequer piscou. Sem tirar os olhos de mim, ele apenas ergueu a mão livre e fez um gesto impaciente no ar, dispensando a fada como se ela não passasse de uma folha seca levada pela brisa.
— Vá embora, Sininho — ordenou ele, com uma frieza cortante que eu raramente o vira usar com ela. — Agora não.
A pequena criatura emitiu um guincho agudo de indignação, voando em círculos raivosos ao redor da cabeça dele, puxando uma mecha dos seus cabelos curtos castanhos para chamar sua atenção. Ela gesticulava na minha direção, obviamente exigindo que ele me levasse de volta para o esconderijo subterrâneo, longe daquele santuário proibido.
Peter agarrou o pulso minúsculo da fada no ar com dois dedos, com destreza impressionante, contendo-a sem machucar, mas com uma autoridade que fez a luz dourada dela vacilar para um tom cinzento de choque.
— Eu avisei — sibilou Peter, encarando a fada com os olhos estreitos e letais. — Wendy é intocável. Se você tentar qualquer travessura contra ela de novo, como fez com a flecha de Tootles, eu juro que tranco você dentro de uma garrafa no fundo do oceano. Saia daqui.
Ele a soltou. Sininho soltou um choro fino, semelhante ao tinir de cristais quebrados, e disparou para a escuridão da floresta como uma estrela cadente amarelada, deixando para trás apenas uma trilha de poeira luminosa que logo se extinguiu no ar úmido da noite.
Senti um aperto de compaixão no peito, mas a determinação sombria de Peter em me proteger de tudo e de todos sufocou qualquer resquício de culpa.
— Ela está com ciúmes — disse eu suavemente, puxando a túnica dele para atrair sua atenção de volta. — Ela sempre esteve ao seu lado.
Peter virou-se para mim novamente, e a fúria que acabara de mostrar desapareceu como névoa ao sol, substituída por um olhar tão doce e embevecido que fez meu coração derreter.
— Ela pode ter o céu inteiro para voar — murmurou ele, enlaçando meus quadris e me puxando para si até que não restasse nenhum milímetro de ar entre nós. — Mas você tem a mim. E eu pertenço apenas a você, mesmo que o mundo inteiro se revolte contra isso.
A dominância dele agora se mesclava com uma carência desarmante, um paradoxo que apenas Peter Pan conseguia sustentar: o deus indomável daquela ilha transformado em um servo devoto diante da mulher que amava.
— Mostre-me o que mais há neste lugar, capitão — sussurrei, deixando um sorriso carismático e provocador curvar meus lábios. — Se este é o coração da Terra do Nunca, quero conhecer todos os seus segredos.
Os olhos de Peter brilharam com um fogo infantil e malicioso que rapidamente se converteu em uma promessa madura e audaciosa.
— Os segredos deste lugar pertencem apenas a quem tiver coragem de tomá-los — desafiou ele, com a voz rouca arranhando suavemente meus sentidos.
Sem esperar por uma resposta, Peter curvou-se e passou um braço forte por baixo dos meus joelhos, erguendo-me nos braços com facilidade estarrecedora. Soltei um pequeno riso de surpresa, passando meus braços firmemente ao redor do seu pescoço enquanto ele caminhava com passos silenciosos através do tapete de musgo aveludado.
Ele nos conduziu até a borda mais alta da caverna suspensa. Ali, a vegetação abria espaço para uma plataforma natural de pedra polida, coberta por samambaias prateadas e folhas macias que formavam um leito digno da realeza das florestas. Abaixo de nós, descortinava-se uma vista inacreditável: a ilha inteira banhada pelo luar de safira. A Lagoa das Sereias brilhava à distância como um espelho encantado, a silhueta ameaçadora do Jolly Roger repousava nas águas escuras da baía, e a densa floresta sussurrava segredos antigos sob a brisa morna.
Peter ajoelhou-se lentamente sobre o leito de folhagens, depositando-me com uma gentileza que contrastava brutalmente com a força de seus braços. Ele não se afastou; rastejou por cima de mim, pairando com a agilidade de um predador elegante, mantendo o peso do corpo apoiado nos cotovelos enquanto seus cabelos castanhos claros roçavam a minha testa.
— Nós não vamos voltar para o esconderijo hoje — anunciou ele, em tom de decreto, seus olhos verdes devorando cada detalhe do meu rosto iluminado pela lua. — Os rapazes podem cuidar de si mesmos por uma noite.
— Peter, eles podem ter medo do escuro... — comecei a dizer, movida pelo meu instinto protetor natural.
— Wendy — interrompeu ele, a voz descendo uma oitava, firme e irresistivelmente dominante. Ele segurou minhas mãos e as prensou suavemente contra o leito verdejante acima da minha cabeça, entrelaçando nossos dedos com força. — Esta noite não é sobre os garotos. Não é sobre piratas. Não é sobre contos de fadas. Esta noite é sobre nós. Pare de pensar neles. Olhe para mim.
Engoli em seco, sentindo o calor do corpo dele irradiar contra o meu através das nossas roupas leves. Meus olhos azuis encontraram os dele, submissos àquela autoridade deliciosa que ele impunha sem esforço.
— Estou olhando — sussurrei, sentindo a respiração dele acelerar ao ver a minha entrega.
— Você é linda — disse ele, a voz rouca quebrando-se ligeiramente sob a força de uma emoção pura e avassaladora. — Tão linda que quase me faz querer esquecer como lutar, apenas para passar a eternidade admirando você.
— Então não lute — murmurei em resposta, sentindo a doçura do meu amor preencher cada canto daquela noite mágica. — Apenas fique aqui. Comigo.
Peter soltou minhas mãos apenas para acariciar meus cabelos compridos e loiros, espalhando as mechas douradas sobre as folhas escuras, criando uma moldura reluzente para o meu rosto. Seus dedos desceram lentamente pela minha bochecha, contornaram o arco do meu queixo e desceram pelo meu colo, traçando caminhos invisíveis de fogo sobre a minha pele.
Quando seus lábios encontraram os meus novamente, não havia mais nenhuma barreira de hesitação entre nós. Foi um beijo profundo, ritmado e sedento, carregado com a verdade avassaladora de sentimentos que haviam sido silenciados por tempo demais. Minha língua tocou a dele, e Peter soltou um gemido abafado, aprofundando o contato com uma urgência que me fez arquear o corpo contra o seu.
Ele desceu os beijos para o canto da minha boca, para o lóbulo da minha orelha, sussurrando palavras desconexas na língua selvagem e encantada da ilha, promessas eternas de posse e paixão que só o vento da noite podia traduzir. Sentir o peso do corpo dele contra o meu, a aspereza de suas mãos acariciando minhas costelas e subindo para a curva da minha cintura, era a sensação mais vertiginosa que eu já havia experimentado — muito mais arrebatadora do que voar sob a poeira das estrelas.
— Você é a minha casa, Wendy — confessou ele contra a minha pele febril, com a voz embargada por um sentimento tão colossal que a própria ilha parecia tremer ao redor. — Eu nunca tive um lugar no mundo... até encontrar você.
Lágrimas de pura comoção marejaram meus olhos azuis. Puxei o rosto dele para cima, segurando suas bochechas com as duas mãos, obrigando-o a ver a intensidade da minha resposta.
— E você é o meu destino, Peter — respondi, com o coração aberto e vulnerável diante do meu rei selvagem. — Eu deixei tudo para trás por você. Minha família, meu futuro, o mundo dos homens comuns. Eu escolhi este céu. Eu escolhi você.
Peter sorriu, e naquele instante não havia nada de infantil em seu semblante. Era o olhar triunfante e apaixonado de um homem que sabia que havia conquistado a coisa mais valiosa de todo o universo. Ele voltou a me beijar, com uma doçura infinita e reverente, enquanto a noite cobria a gruta suspensa com um manto de sombras violetas e aromas adocicados.
Adormecemos horas depois, aninhados um no outro sobre o tapete de musgo encantado. Peter dormia com um dos braços firmemente cruzado sobre a minha cintura, mantendo-me colada às suas costas mesmo em meio aos sonhos, com a mão possessiva repousando sobre meu ventre.
Ao longe, sob o dossel escuro da floresta, o uivo de um lobo e o tique-taque distante e rítmico das profundezas das águas ecoaram pelo ar. Mas nenhuma fera, nenhum crocodilo e nenhum pirata ousaria perturbar aquele refúgio. O capitão da Terra do Nunca havia encontrado o seu tesouro definitivo, e a noite velava o romance misterioso e eterno daqueles que haviam aprendido que amar era a maior de todas as aventuras.