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Mime and Dash(Marita & Miffy) :3

Notas Silenciosas e Travessuras em Preto e Branco

Os corredores da Paper School costumavam oscilar entre uma calmaria enganosa e o mais puro caos desenhado em grafite. Mister Demi caminhava com passos cautelosos, o som de seus saltos estalando contra o piso quadriculado que parecia feito de cartolina reforçada. Sob o braço esquerdo, ele segurava com extremo zelo uma pilha desajeitada de partituras recém-impressas, cujas notas musicais pareciam dançar conforme o vento gélido entrava pelas frestas das janelas geométricas. Ele ajeitou os óculos escuros com a ponta dos dedos pretos, piscando o único olho visível — aquela íris verde-clara com nuances azuladas que sempre trazia um ar perpétuo de preocupação.

Demi suspirou, sentindo os lápis brancos presos no topo de sua cabeça pesarem um pouco mais do que o habitual, bem ao lado de seus pequenos chifres escuros. Ensinar música naquela instituição era uma tarefa que exigia nervos de aço, algo que ele decididamente não possuía.

Foi quando dobrou a esquina do corredor leste e estancou abruptamente.

Bem diante dele, no final daquele corredor silencioso, uma das portas havia sido completamente transformada. Não era mais a típica porta de papelão bege e pautada com maçaneta cinzenta; agora, ela estava pintada de um preto absoluto, fosco e profundo, como se alguém tivesse derramado um frasco inteiro de tinta nanquim sobre a superfície. A visão era desconcertante, quase sinistra. Na Paper School, qualquer alteração drástica nas paredes costumava significar perigo iminente ou o rastro de alguma punição violenta.

— Mas o que... quem faria uma coisa dessas? — murmurou Demi para si mesmo, recuando meio passo, apertando as partituras contra o peito onde brilhava a estampa de sua colcheia.

Antes que pudesse dar meia-volta e fingir que nunca tinha visto aquilo, duas mãozinhas repentinas, cobertas por luvas avermelhadas com um tom forte de rosa, tocaram suavemente suas costas e puxaram a barra de seu suspensório preto.

Demi deu um pulo assustado, soltando um guincho agudo e quase derrubando todas as folhas de música no chão. Seus chifres quase rasparam o teto imaginário do susto. Ele girou nos calcanhares com o coração disparado, pronto para implorar por sua vida caso fosse Miss Circle brandindo seu compasso gigante.

Mas não era nenhuma professora homicida. Eram duas figuras diminutas.

— Ai, pelos céus! — exclamou o professor, apoiando a mão livre no peito enquanto tentava recuperar o fôlego. — Vocês... vocês quase me mataram de susto!

Paradas diante dele, com sorrisos travessos estampados nos rostos e posturas impecavelmente teatrais, estavam Marita Belén e a pequena Miffy. As duas estavam vestidas dos pés à cabeça em trajes idênticos de mímica: boinas inclinadas em um tom rosa avermelhado, regatas pretas com listras brancas horizontais presas por alças pretas bem ajustadas sobre o peito, calças pretas e reluzentes botinhas brancas. O cabelo preto de Marita, em seu corte Chanel na altura dos ombros, emoldurava perfeitamente a maquiagem improvisada, enquanto os cachos brancos e fofos de Miffy escapavam graciosamente por baixo de sua boina.

Demi piscou repetidas vezes, confuso.

— Marita? Miffy? O que significa tudo isso? Por que vocês estão vestidas assim? E onde foi parar seu chapéu de marinheiro, mocinha?

Marita Belén não respondeu com palavras. Em vez disso, colocou um dedo sobre os lábios pintados, emitindo um "shh" perfeitamente silencioso. Com uma agilidade impressionante para seu tamanho, ela puxou de trás das costas um pedaço retangular de papelão recortado às pressas.

Escrito com giz de cera grosso e torto, lia-se:

*OLÁ! QUER JOGAR PRA ADIVINHAR?*

O professor de música franziu a testa, ajeitando a franja esquerda que descia como teclas de piano sobre metade de seu rosto. Ele olhou para a porta pintada de preto, depois para as duas crianças e engoliu em seco. A situação era bizarra, mas, tratando-se de sua sobrinha hiperativa e de sua inseparável amiga, dizer "não" costumava resultar em confusões ainda maiores.

— Eu... eu realmente preciso levar essas partituras para a sala de aula antes que o sinal toque — tentou justificar ele, a voz vacilando naquele tom tímido característico. — Não acho que seja um bom momento para brincadeiras de mímica...

Marita inclinou a cabeça para o lado, arregalando os olhos escuros em uma expressão dramática de desapontamento que faria qualquer ator clássico sentir inveja. Miffy deu um passo à frente, juntando as mãos enluvadas sob o queixo e fazendo um beicinho tão exagerado que Demi sentiu toda a sua determinação adulta desmoronar como papel molhado.

— Está bem, está bem! — cedeu Demi, suspirando em derrota. — Mas só uma rodada rápida. O que eu tenho que adivinhar?

No mesmo instante, o desapontamento das meninas evaporou. Marita Belén saltou para o centro do corredor, assumindo uma pose clássica de mímica. Com movimentos deliberados e rígidos, ela ergueu as mãos e começou a apalpar o ar, fingindo encontrar superfícies invisíveis diante de si. Ela tateava uma parede imaginária, virava nos cantos de uma caixa invisível e batia com os nós dos dedos no vazio, fazendo uma careta de esforço dramático.

Miffy não aguentou o entusiasmo. A garotinha de cabelos brancos levou as duas mãos às bochechas coradas, balançando o corpo de um lado para o outro em pura euforia silenciosa, assistindo à melhor amiga encenar a clássica prisão invisível.

— Uma... uma caixa de vidro? Você está presa em uma caixa? — arriscou Demi, tentando entrar no espírito da coisa para acabar logo com aquilo.

Marita balançou a cabeça negativamente de forma enérgica. Ela mudou de tática. Agachou-se, fingiu colocar uma chave gigantesca em uma fechadura invisível, girou-a com ambas as mãos e puxou uma corrente pesada do chão. Em seguida, apontou diretamente para a porta pintada de preto no fundo do corredor, fez um gesto com a garganta imitando alguém sendo decapitado e, por fim, colocou as duas mãos na cintura, empinando o nariz e simulando uma risada maligna e imponente.

Demi franziu os lábios, o olho verde arregalando-se aos poucos conforme as pistas se conectavam em sua mente.

— Chave pesada... porta preta... cortar a garganta... risada autoritária... — Ele congelou, sentindo um arrepio gélido percorrer sua espinha. — A sala restrita da diretoria? Ou pior... a despensa secreta da Miss Circle?!

Ao ouvir o palpite correto, Marita Belén quebrou imediatamente o voto sagrado do silêncio dos mímicos.

— Acertou em cheio, titio! — gritou a menina, jogando os braços para o alto e rindo alto, sua voz infantil ecoando pelas paredes de papel da escola.

— Eba! Ponto para o Mister Demi! — comemorou Miffy, batendo palminhas com as luvas cor-de-rosa, a voz doce e saltitante revelando que a atuação silenciosa tinha acabado de vez.

Demi levou a mão à testa, sentindo uma dor de cabeça iminente começar a pulsar sob seus lápis brancos.

— Marita! Mímica não fala! E mais importante: por que raios você está encenando algo sobre a despensa da Miss Circle?! Vocês não sabem que é extremamente perigoso brincar com assuntos relacionados àquela mulher?

Marita Belén cruzou os bracinhos sobre o peito, ajeitando a boina que havia escorregado levemente para o lado. Seus olhos brilhavam com aquela faísca inconfundível de peraltice que Demi conhecia muito bem — a mesma faísca que costumava preceder desastres de proporções titânicas.

— Porque esse era só o aquecimento, titio — disse a sobrinha, aproximando-se com passos leves de suas botinhas brancas. — Quem acerta a charada do mímico tem o direito sagrado de participar do Grande Desafio!

— Não, não, não. Nada disso — recusou Demi imediatamente, dando dois passos para trás e abraçando suas partituras como se fossem um escudo mágico de proteção. — Eu conheço essas suas regras inventadas, Marita. Elas nunca terminam bem. Da última vez, você tentou convencer os alunos do fundamental a usarem compassos como varas de pescar no aquário da sala de ciências!

— Mas dessa vez é diferente! É um desafio de honra e arte! — insistiu a menina, gesticulando com as luvas dramáticas. — Olha em volta, tio. Todo mundo acha que mímico é chato. A gente pintou essa porta de preto pra ser a nossa entrada triunfal para o mundo das sombras!

— Vocês vandalizaram uma porta da escola com tinta nanquim permanente?! — A voz de Demi atingiu uma oitava acima do normal pelo pânico.

— Não é vandalismo, é cenário! — corrigiu Miffy, inflando as bochechas fofas e tentando parecer muito séria. — A gente precisa criar o clima, Mister Demi!

— E o desafio é super simples — continuou Marita, abrindo um sorriso ladino que fez o estômago de Demi dar um nó. — A gente ouviu dizer que a Miss Circle confiscou um pacote novinho de gizes especiais de cera importados e uma caixa gigante de biscoitos de chocolate recheados. E ela trancou tudo lá dentro daquela salinha que a gente pintou a porta!

Demi olhou para a porta preta. Ele sabia exatamente o que era aquele cômodo: não era a despensa pessoal de ninguém, mas sim o antigo depósito de materiais que Miss Circle às vezes usava como esconderijo para seus lanches favoritos e seus instrumentos de punição mais afiados.

— E qual seria esse tal... desafio? — perguntou ele, odiando a si mesmo por fazer aquela pergunta.

Marita e Miffy trocaram olhares cúmplices. A pequena Miffy deu um pulinho animado antes de revelar a ideia mirabolante:

— O desafio é: o senhor tem que entrar lá dentro, fingindo que é uma estátua invisível se a Miss Circle passar, pegar a caixa de biscoitos sem fazer um único barulho e entregar pra gente! Em troca, a gente não conta pra diretora que foi o senhor quem nos deu a tinta preta!

O queixo de Demi caiu. Seus óculos escorregaram pelo nariz.

— O QUÊ?! — ele sibilou, apavorado, olhando para os dois lados do corredor para ter certeza de que ninguém havia escutado. — Eu não dei tinta nenhuma para vocês! Isso é chantagem descarada, Marita Belén! Eu sou seu tio! Eu sou um professor respeitável!

— Mas quem vai acreditar? — Marita rebateu com uma inocência fingida que beirava a vilania cômica. — A lata de tinta vazia tem exatamente a sua assinatura de requisição da sala de artes, tio Demi. Eu peguei emprestada da sua mesa mais cedo!

Demi levou as duas mãos às têmporas pretas, quase arrancando os próprios cabelos brancos.

— Marita, isso é suicídio acadêmico! Se a Miss Circle me pegar roubando os biscoitos dela, ela não vai apenas me dar uma advertência. Ela vai me transformar em tirinhas de confete para o baile de formatura! Ela usa um compasso de três metros de altura como arma! Vocês perderam o juízo?!

— Não vai acontecer nada, titio — tranquilizou Marita, dando tapinhas consoladores na coxa dele. — É por isso que você vai usar a técnica da mímica! Se você não fizer barulho, o compasso dela não te acha. Mímicos são silenciosos como fantasmas. Veja a Miffy!

Miffy imediatamente fechou a boca em uma linha reta, colocou as mãos nas bochechas novamente e fingiu ser uma escultura de cera, sem nem mesmo piscar os olhos, arrancando um suspiro exasperado do professor.

— Isso é loucura... uma loucura sem tamanho — murmurou Demi, sentindo o suor frio escorrer pelo pescoço por baixo da gola alta de sua camisa. — Eu deveria levar as duas imediatamente para a sala da Miss Grace.

— Se fizer isso, a gente diz que o plano foi todo seu — ameaçou Marita, cruzando os braços e arqueando uma sobrancelha infantil, mas incrivelmente intimidadora. — E a gente ainda chora no chão dizendo que você nos forçou a usar essas roupas listradas esquisitas!

— Mas as roupas são fofas! — protestou Miffy, quebrando o voto de silêncio mais uma vez.

— Silêncio, Miffy, nós estamos negociando! — repreendeu Marita baixinho, antes de voltar sua atenção implacável para o tio. — E então, Mister Demi? Vai cumprir o desafio duvidoso do mímico ou vai preferir encarar a fúria da diretora e da Miss Circle juntas?

O pobre professor de música olhou para a porta negra. Ele podia jurar que a maçaneta parecia uma caveira zombando de sua desgraça. Depois, olhou para a sobrinha, que sustentava o olhar com uma confiança inabalável, e para Miffy, que agora fazia poses dramáticas de mímica, fingindo carregar uma bandeja pesada invisível.

Ele estava encurralado. Completamente encurralado por duas crianças de menos de um metro de altura vestidas como artistas de rua franceses.

— Eu não acredito que vou fazer isso — gemeu Demi, derrotado. Ele caminhou até um banco de papelão próximo e colocou suas preciosas partituras cuidadosamente sobre o assento. — Se eu morrer lá dentro... digam à minha mãe que eu tentei ser um bom filho.

— Eba! Sabia que você era corajoso, titio! — comemorou Marita, dando um abraço rápido na cintura dele, as luvas avermelhadas sujando de leve a camisa branca de Demi.

— Shh! Falem baixo! — sibilou ele, rastejando até a porta preta como se estivesse pisando em ovos de vidro.

A maçaneta estava fria. Demi respirou fundo, puxou o trinco com o máximo de cuidado para não fazer ranger as dobradiças de papelão reforçado e entreabriu a porta. O interior do depósito estava na penumbra, cheirando a giz de lousa velho, poeira e... surpreendentemente, baunilha e cacau.

Lá no fundo, sobre uma prateleira alta iluminada por um feixe solitário de luz que entrava por um respiradouro, repousava o prêmio: um pote de vidro lacrado, cheio até a borda com biscoitos pretos e brancos recheados. Ao lado dele, repousava uma caixa intocada de gizes coloridos.

Demi olhou para trás. Marita Belén e Miffy estavam grudadas no batente da porta, espiando com apenas os olhos visíveis por baixo das boinas rosa, fazendo gestos sincronizados de encorajamento — puxando cordas invisíveis para indicar que ele deveria ir em frente.

Engolindo o restante de sua dignidade, Mister Demi começou a avançar no escuro. Para tentar diminuir a tensão insuportável em seus nervos, ele começou a imitar, com uma precisão patética e involuntária, os mesmos movimentos teatrais das meninas: levantando os pés em ângulos retos perfeitos, equilibrando-se nos saltos de suas botas pretas e tateando o ar como se andasse sobre uma corda bamba imaginária.

Do lado de fora, Marita Belén e Miffy cobriram as próprias bocas com as luvas, explodindo em risadinhas abafadas ao verem o respeitável professor de música da Paper School descer pelo depósito escuro como o mímico mais desajeitado da história da arte.

Ele esticou as mãos pretas para alcançar o pote. Seus dedos quase tocaram o vidro quando, vindo do final do corredor principal da escola, um som inconfundível ecoou pelas paredes: o arranhar metálico e pesado de uma ponta de compasso gigante contra o chão, acompanhado pelo cantarolar desafinado e aterrorizante de Miss Circle.

Demi paralisou no meio do movimento, uma perna erguida no ar, os olhos esbugalhados atrás dos óculos.

Na porta, Marita e Miffy congelaram juntas, trocando um olhar de puro pânico silencioso. Desta vez, nenhuma das duas precisou de fantasia para encenar a mais perfeita e apavorada mímica daquele colégio de papel.

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