Minha princesa
Entre Fumaça e Batidas
O sol da tarde começava a baixar, tingindo o céu da Vila Áurea com tons de laranja que competiam com o vermelho vibrante das minhas mechas. Desci a ladeira com o pacote da minha mãe bem guardado na bolsa e o maço de cigarros no bolso do short jeans. O movimento na quebrada estava naquele ritmo de transição: o pessoal voltando do trabalho, as crianças correndo antes do jantar e o som dos paredões começando a ser testado para a noite.
Eu sentia os olhares. Sabia que o cropped valorizava meu corpo e que o novo visual tinha me dado um ar de mistério, mas minha mente ainda estava na conversa com os meninos. O Pulga... ele estava estranho. Sempre foi o mais palhaço do grupo, aquele que perdia o amigo mas não perdia a piada, só que hoje ele parecia travado. Balancei a cabeça, espantando o pensamento. "Deve ser a pressão do corre", pensei comigo mesma.
Ao chegar em casa, o cheiro de café passado inundava a sala pequena, mas arrumada. Minha mãe estava sentada no sofá, massageando os pés cansados depois de um dia inteiro limpando chãos de porcelanato nos apartamentos de luxo do Jardins.
— Demorou, Hanna — disse ela, sem abrir os olhos. — Passou no salão ou foi dar volta com aquele bando de desocupado?
— Fiz os dois, mãe — respondi, aproximando-me e entregando o pacote para ela. — O Doni estava lá, ficamos trocando ideia. E passei no Nando, como a senhora pediu.
Minha mãe abriu um dos olhos e me encarou de cima a baixo, detendo-se no meu cabelo.
— Vermelho, Hanna? Você já chama atenção demais, menina. Quer que o mundo inteiro olhe para você?
— Quero que olhem e saibam que eu não sou qualquer uma — respondi com um sorriso brincalhão, dando um beijo no topo da cabeça dela. — Vou tomar um banho. O Nando mandou um abraço.
— Aquele ali tem um coração bom, mas a vida que escolheu... — Ela suspirou, já começando a preparar o cigarro artesanal que era seu único alívio para a fibromialgia. — Toma cuidado, viu? Não é porque você cresceu com eles que o perigo não chega perto.
— Eu sei, mãe. Eu sei me cuidar.
No banho, a água quente relaxava meus ombros. Eu pensava na escola, nos livros de sociologia que eu amava e na realidade nua e crua da Vila. Era um contraste constante. Eu era a "inteligente", a que tinha futuro, mas meu coração batia no ritmo do funk e minha lealdade pertencia àquelas ruas.
Quando saí, vesti uma roupa leve e me deitei na cama, pegando meu celular. Havia uma mensagem no grupo da galera.
— "Hoje o fluxo vai ser na rua 3. Quem vai?" — era a mensagem do Formiga.
Logo abaixo, um vídeo do Doni no estúdio, gravando uma prévia de uma música nova. Ele realmente estava voando alto. Fiquei feliz por ele. Doni era o exemplo de que a gente podia sair dali pelo talento. Mas meu dedo hesitou ao ver que o Pulga tinha visualizado a mensagem e não tinha comentado nada. O Pulga sempre era o primeiro a agitar.
Resolvi mandar uma mensagem no privado dele, só por desencargo.
— "E aí, sumido? O gato comeu sua língua hoje lá no Nando ou o vermelho do meu cabelo te assustou?"
Deixei o celular de lado e fui ler um pouco, mas não demorou dois minutos para o aparelho vibrar.
— "Assustou nada. Só achei que você ficou muito gringa. Mó responsa falar com você assim agora."
Eu ri alto, digitando rápido.
— "Deixa de ser bobo, Pulga. Sou a mesma Hanna de sempre. Vai no fluxo mais tarde?"
A resposta demorou um pouco mais dessa vez.
— "Vou sim. Mas o Nando quer que eu fique de olho em umas entregas primeiro. Se você for, me avisa? Queria te mostrar um negócio."
— "Que negócio?" — perguntei, curiosa.
— "Surpresa. Aparece lá pelas onze."
A curiosidade é um defeito perigoso, e eu tinha de sobra.
A noite caiu e a Vila se transformou. Onde antes havia o silêncio da tarde, agora ecoavam batidas graves que faziam as janelas tremerem. Coloquei uma bota cano curto, retoquei o batom e avisei minha mãe que ia dar uma volta. Ela apenas murmurou um "juízo", já meio sonolenta.
Caminhar pela Vila à noite era diferente. As luzes dos postes, muitas vezes piscando ou queimadas, criavam sombras longas. Passei por um grupo de moleques que faziam o "estica" na esquina.
— Ô, ruivinha! Tá perdida? — um deles gritou, mas logo recuou quando me reconheceu. — Ah, é a Hanna. Mal ae, Hanna! Tá lindona, hein?
— Foca no rádio, moleque — respondi, sem parar de andar.
Cheguei na rua 3 e o som estava ensurdecedor. O paredão do "Tigrão" estava ligado no máximo, e a galera se aglomerava com copos de plástico na mão, a fumaça de narguilé e de cigarro misturando-se no ar úmido. Avistei Doni no centro de um círculo, rodeado de meninas, tirando fotos e fazendo vídeos. Ele me viu, piscou e apontou para o cabelo, fazendo um sinal de positivo.
Procurei pelo Pulga, mas não o vi de imediato. Senti uma mão no meu ombro e dei um pulo, virando-me rapidamente.
— Calma, sou eu! — disse o Pulga, rindo da minha reação.
Ele estava usando uma jaqueta corta-vento nova e um boné de marca. Parecia ter se arrumado mais do que o costume.
— Que susto, garoto! Quer me matar do coração? — Falei, tentando recuperar o fôlego enquanto a música "Te Amo Sem Compromisso" começava a tocar ao fundo.
— Jamais. O mundo ficaria sem graça sem a Hanna para dar patada na gente — ele disse, aproximando-se para que eu pudesse ouvi-lo por cima do som. — Vem cá, vamos sair desse barulho um pouco.
Ele me guiou para uma parte mais alta da rua, um escadão que dava vista para quase toda a comunidade e, ao longe, para os prédios iluminados da cidade "lá de baixo". O contraste era lindo: o mar de luzes humildes da Vila e o brilho frio dos arranha-céus.
Sentamos no degrau de cimento. O barulho do baile chegava ali de forma abafada, permitindo que a gente conversasse.
— E aí, qual é a surpresa? — perguntei, acendendo um cigarro e oferecendo a ele.
Pulga aceitou, deu uma tragada longa e soltou a fumaça, olhando para o horizonte.
— Na verdade, não é bem uma surpresa material — ele começou, parecendo nervoso. — É que... eu ando pensando em umas paradas, Hanna.
— Que paradas? O Nando tá te dando muito trabalho?
— Não é o Nando. É a vida, sabe? O Doni tá estourando, o Nando agora é o cara da quebrada... e eu? Eu sou só o Pulga que fica na contenção.
Eu o observei de lado. O rosto dele, geralmente cheio de sorrisos, estava sério. Pela primeira vez, vi uma vulnerabilidade que ele nunca mostrava para os outros meninos.
— Você é importante, Pulga. Todo mundo gosta de você. Você é o cara que mantém a harmonia — eu disse, sendo sincera.
— É, mas eu queria ser o cara que você olha diferente — ele soltou, a voz quase sumindo.
Eu congelei com o cigarro a meio caminho da boca. Olhei para ele, processando o que ele tinha acabado de dizer. As luzes da cidade refletiam nos olhos dele, e vi que ele não estava brincando.
— Pulga... eu... — comecei, mas ele me interrompeu.
— Eu sei, Hanna. Você é a CDF, a menina que vai sair daqui e ser doutora. E eu sou o moleque do corre. Eu sempre soube disso. Por isso que eu nunca falei nada. Mas hoje, quando te vi com esse cabelo, com esse jeito de quem é dona do mundo... eu senti que se eu não falasse, ia explodir.
— Por que o cabelo mudou alguma coisa? — perguntei, minha voz saindo mais suave do que eu pretendia.
— Porque o vermelho é cor de quem tem coragem — ele deu um sorriso triste. — E eu percebi que eu sou um covarde por não te dizer que eu sou louco por você desde que a gente jogava bola no terreno baldio.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável, mas carregado. Eu sempre vi o Pulga como um irmão, ou pelo menos era o que eu dizia a mim mesma. Mas, olhando para ele ali, vendo o esforço que ele estava fazendo para ser honesto, algo dentro de mim balançou. Eu lembrava de como ele sempre me defendia quando alguém falava besteira, de como ele sempre sabia qual era o meu doce favorito no bar do seu Francisco.
— Eu não sabia — confessei, baixando o olhar para minhas mãos. — De verdade, Pulga. Eu sempre achei que você só gostava de me zoar.
— Zoar é o jeito que eu achei de ficar perto sem você me dar um fora — ele riu, um riso sem graça. — Mas relaxa. Eu não falei isso para te deixar estranha. Só queria que você soubesse. Que quando eu te chamei para dançar no baile, não era só zoeira.
Eu olhei para o baile lá embaixo. A música estava vibrante, a energia da Vila estava no auge. Voltei meus olhos para ele e, sem pensar muito, aproximei minha mão da dele no degrau.
— E se eu dissesse que não sei o que sinto, mas que não quero que você pare de falar comigo por causa disso? — perguntei.
Pulga olhou para nossas mãos, depois para mim. Um brilho de esperança surgiu em seu rosto.
— Para mim, já é um começo melhor do que eu esperava.
— Vamos fazer assim — eu disse, levantando-me e limpando o short jeans. — A gente volta lá para baixo. Você me paga uma bebida e a gente dança aquela música que o Doni vai cantar. Sem pressão. Só a gente, como sempre foi, mas talvez... com um olhar novo.
Ele se levantou, parecendo dez quilos mais leve.
— Fechado. Mas ó, se o Nando ou o Formiga começarem a encher o saco, eu vou dizer que a culpa é sua e desse seu cabelo que enfeitiçou o pai aqui.
— Você não vale nada, Pulga! — Eu ri, dando um tapa no braço dele, exatamente como tinha feito com o Doni mais cedo, mas dessa vez, o toque pareceu eletrizar minha pele de um jeito diferente.
Descemos o escadão lado a lado. A Vila Áurea continuava a mesma, barulhenta e perigosa, mas para mim, algo tinha mudado. O vermelho no meu cabelo realmente era a cor da audácia, e talvez, apenas talvez, eu estivesse pronta para ser audaciosa também com o meu coração.
Quando chegamos de volta ao fluxo, Doni já estava no microfone.
— Essa aqui vai para todos os casais da Vila! E para quem tá tentando conquistar aquela morena... ou ruiva, né? — Doni gritou, olhando diretamente para nós dois na multidão e soltando uma piscadela.
O Pulga ficou vermelho, mas não desviou o olhar. Ele passou o braço pelos meus ombros, de um jeito protetor, e eu não me afastei. Pelo contrário, encostei minha cabeça no ombro dele, sentindo o cheiro do perfume misturado com o cheiro da noite.
A música começou, a batida envolveu todo mundo, e ali, no meio da Sintonia, eu percebi que as melhores histórias não são as que a gente lê nos livros da escola, mas as que a gente escreve no asfalto quente da nossa própria realidade.
— Hanna? — Pulga sussurrou no meu ouvido.
— Oi?
— O vermelho realmente combinou com você.
Eu sorri, fechando os olhos e deixando a música me levar. A noite estava apenas começando, e eu sentia que, na Vila Áurea, tudo era possível quando se tinha lealdade, coragem e um pouco de cor para enfrentar o escuro.