My dream boyfriend
Entre Fios de Seda e Lentes de Vidro
O vento da noite soprava leve, carregando o aroma salgado do mar que ficava a poucas quadras dali. Hyunjin caminhava com uma das mãos no bolso da calça de alfaiataria preta, enquanto a outra segurava firmemente a mão de Rayssa. O silêncio entre eles era confortável, preenchido apenas pelo som rítmico de seus passos no asfalto. Ele não era de falar muito quando estavam em público; preferia observar, sentir a presença dela e garantir que ela estivesse segura ao seu lado.
— Olha aquele prédio, Jin — Rayssa apontou para uma construção antiga, com janelas de ferro fundido e uma fachada que misturava tijolos aparentes com trepadeiras secas. — A textura daquelas paredes... seria o fundo perfeito para as peças de linho que eu desenhei ontem. O rústico contra o delicado.
Hyunjin parou por um instante, soltando a mão dela apenas para levar a câmera aos olhos. Ele não precisou de mais do que três segundos para ajustar a abertura. Através da lente, ele não viu apenas o prédio; ele viu Rayssa emoldurada pela arquitetura, o cabelo levemente bagunçado pela brisa e os olhos brilhando com a empolgação de quem enxerga beleza em lugares esquecidos.
*Click.*
— Você tem razão — ele disse, baixando o equipamento e voltando a se aproximar dela. — Mas o linho precisaria de uma luz mais quente, talvez o "golden hour" incidindo diretamente naquelas frestas ali. Se a gente trouxer rebatedores, conseguimos criar um contraste de sombras que vai dar profundidade ao tecido.
Rayssa sorriu, sentindo aquele frio na barriga que sempre surgia quando percebia o quanto ele levava a sério as ideias dela. Hyunjin não apenas ouvia; ele processava, ampliava e transformava os sonhos dela em algo visualmente tangível.
— Às vezes eu esqueço que você já pensa como um profissional — ela comentou, inclinando a cabeça para o lado.
— E eu esqueço que você ainda não tem uma loja na Oscar Freire ou em Paris — ele retrucou com um meio sorriso, aquele jeito discreto e charmoso que fazia o coração dela errar a batida. — Porque o seu talento já está lá.
Eles continuaram caminhando até chegarem à lanchonete favorita deles, um lugar pequeno, com luzes de neon e um balcão de madeira desgastada que fedia a nostalgia e batatas fritas. Hyunjin escolheu a mesa do canto, a mais reservada, onde a iluminação era baixa. Ele ajudou Rayssa a tirar o casaco, um gesto automático de cuidado, e sentou-se à sua frente.
Enquanto esperavam o pedido, Hyunjin pegou o celular. Ele não estava checando redes sociais ou respondendo mensagens. Ele abriu a galeria.
— O que você tanto olha aí? — Rayssa perguntou, debruçando-se sobre a mesa.
— A foto que tirei agora há pouco — ele respondeu, virando a tela para ela. — Veja como a luz da lua pegou no seu perfil. Eu não apaguei o ruído da imagem de propósito. Achei que deu um ar mais cru, mais real.
Rayssa observou a foto. Ela estava de costas, apontando para o prédio, mas o rosto estava parcialmente visível. Havia uma verdade naquela imagem que nenhuma pose de estúdio conseguiria replicar.
— Você me faz parecer mais interessante do que eu realmente sou, Jin.
— Você é a pessoa mais interessante que eu conheço, Rayssa — ele disse, a voz soando profunda e sincera. — Eu só aperto o botão. A magia já está na frente da lente.
Ele estendeu a mão sobre a mesa, e ela prontamente encaixou a sua na dele. O toque era o porto seguro de ambos. Hyunjin tinha essa necessidade de contato físico, uma forma silenciosa de reafirmar que estava ali, que era real. Ele acariciou o dorso da mão dela com o polegar, um movimento lento que a fazia relaxar instantaneamente.
O momento de paz foi levemente interrompido quando um grupo de rapazes entrou na lanchonete. Eles eram barulhentos e, ao passarem pela mesa do casal, um deles parou por um segundo a mais, olhando para Rayssa com uma curiosidade óbvia e um sorriso de canto.
Hyunjin não disse uma palavra. Ele não precisava. Mas Rayssa sentiu a mudança na energia dele. O corpo dele ficou ligeiramente mais tenso, e seu olhar, antes suave, tornou-se fixo e cortante. Ele não encarou o rapaz de forma agressiva, mas sua presença calma tornou-se subitamente imponente. Era o ciúme dele: silencioso, protetor, como uma sombra que se alonga para cobrir o que é precioso.
Assim que o grupo se acomodou em outra mesa, Hyunjin voltou sua atenção para ela, mas sua mão apertou a dela com um pouco mais de firmeza.
— O seu hambúrguer vai chegar gelado se você continuar me olhando assim — ela brincou, tentando dissipar a tensão.
— Só estou garantindo que você saiba que eu estou aqui — ele respondeu, relaxando os ombros e deixando um sorriso discreto escapar. — E que eu não sou muito bom em compartilhar o que é meu.
— Eu não sou um objeto, Hwang Hyunjin — ela provocou, embora amasse aquele lado dele.
— Eu sei que não. Você é uma obra de arte. E obras de arte precisam de curadores que saibam o valor que elas têm.
Rayssa riu, balançando a cabeça.
— Você é impossível.
— Sou apenas um fotógrafo dedicado — ele piscou.
O jantar seguiu entre risadas e discussões sobre o futuro. Eles falavam sobre a faculdade, sobre os prazos de entrega e sobre como pretendiam economizar dinheiro para comprar uma lente nova para ele e uma máquina de costura industrial para ela. Nada parecia impossível quando estavam juntos. A maturidade deles não vinha de experiências amargas, mas de uma compreensão mútua de que a vida era melhor quando se tinha um parceiro de verdade.
Depois de comerem, decidiram voltar para casa caminhando pelo parque. A iluminação dos postes criava poças de luz amarelada no gramado. Hyunjin parou perto de um banco de madeira sob um carvalho antigo.
— Espera — ele disse, pegando a câmera novamente. — Fica aí. Só... olha para cima, para as estrelas.
— Jin, está escuro demais, a foto vai sair escura.
— Confia em mim. Eu sei o que estou fazendo.
Rayssa obedeceu. Ela inclinou a cabeça para trás, fechando os olhos por um momento e sentindo a imensidão do céu noturno sobre ela. Ela pensou em seus desenhos, nas texturas que queria criar, no cheiro dos tecidos novos e na sensação de ver alguém vestindo algo que nasceu de sua mente.
*Click.*
— Ficou boa? — ela perguntou, aproximando-se dele.
Hyunjin não mostrou a foto imediatamente. Ele ficou olhando para o visor por um longo tempo, um sorriso genuíno crescendo em seu rosto.
— Ficou perfeita. Você parece... em paz. É a minha favorita até agora.
— Você diz isso de todas as fotos que tira de mim — ela riu, empurrando o ombro dele de leve.
— Porque cada uma delas captura uma versão diferente de você. E eu sou apaixonado por todas elas.
Ele guardou a câmera na bolsa protetora e puxou-a para um abraço. Rayssa enterrou o rosto no peito dele, aspirando o perfume cítrico que já era sinônimo de "casa" para ela. Os braços de Hyunjin a envolveram com força, protegendo-a do frio e do mundo.
— Sabe, Jin — ela sussurrou contra o tecido da camisa dele —, eu estava pensando no que a sua mãe disse hoje. Sobre a gente se perder nos nossos mundos.
— Ela tem razão, às vezes a gente esquece que o resto do mundo existe.
— Mas eu não me importo — ela confessou, levantando o olhar para encontrá-lo. — Se o meu mundo for composto pelos meus desenhos e pelas suas fotos, eu já tenho tudo o que preciso.
Hyunjin tocou a ponta do nariz dela com o dele, um gesto de carinho que eles compartilhavam desde o início.
— O nosso mundo vai ser grande, Rayssa. Eu prometo. A gente vai construir cada centímetro dele. Eu vou registrar cada vitória sua, cada coleção que você lançar, cada vez que você se sentir cansada e quiser desistir... eu vou estar lá para te mostrar, através das minhas fotos, o quão incrível você é.
— E eu vou estar lá para desenhar o figurino da sua primeira exposição individual — ela completou, os olhos brilhando.
— É um trato? — ele estendeu o dedo mindinho, um gesto infantil que contrastava com a seriedade da promessa.
Rayssa riu e entrelaçou o seu dedo ao dele.
— É um trato.
Eles ficaram ali, sob o carvalho, dois jovens de 18 e 19 anos que sabiam exatamente para onde queriam ir. Não havia pressa. Não havia a ansiedade de tentar provar nada para ninguém. Eles eram apenas Hyunjin e Rayssa, a lente e o esboço, a luz e a sombra.
Enquanto caminhavam de volta para a casa dele, Hyunjin parou por um segundo para ajudar um senhor que carregava sacolas pesadas de compras. Ele fez isso sem alarde, sem esperar agradecimentos exagerados, apenas com aquela educação natural que Rayssa tanto admirava. Ele era um homem de detalhes. Eram os detalhes que o tornavam grande.
Ao chegarem na porta da casa de Rayssa, o silêncio da rua era quase absoluto. Hyunjin a segurou pela cintura, trazendo-a para um último beijo antes da despedida. Foi um beijo calmo, que carregava toda a segurança e o afeto que eles construíram ao longo daquele ano de amizade e namoro.
— Me manda as fotos amanhã? — ela pediu, relutante em entrar.
— Vou editá-las primeiro. Quero que fiquem perfeitas para a minha cliente favorita.
— Bobo — ela sorriu, dando um selinho rápido nele. — Boa noite, Jin.
— Boa noite, Rayssa. Sonha com os seus vestidos. Eu vou sonhar com as fotos deles.
Ela entrou em casa e, da janela do quarto, viu a silhueta alta e discreta dele se afastando pela rua. Hyunjin não olhou para trás, mas ela sabia que ele estava sorrindo. Ela sabia que, no bolso dele, a câmera guardava os momentos mais preciosos do dia dela.
Rayssa sentou-se em sua mesa de desenho e abriu o caderno. Na última página, onde antes havia apenas um esboço inacabado, ela escreveu uma pequena nota para si mesma: "A moda é a forma, mas o amor é a luz que a torna visível".
Ela começou a desenhar um novo conceito. Desta vez, a inspiração não era um prédio antigo ou uma textura de tecido. Era o olhar de um fotógrafo que a via como ninguém mais via. E, enquanto o grafite deslizava pelo papel, ela tinha a certeza de que, não importa o quão longe seus sonhos a levassem, a frequência de Hyunjin estaria sempre sintonizada com a dela.
Eles não eram apenas namorados. Eram parceiros de destino. E o futuro, capturado em cliques e traçado em linhas, nunca pareceu tão brilhante.