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My royal lady

O Banquete das Sombras e o Gosto da Rebeldia

O sol mal havia cruzado o horizonte quando o som de cascos de cavalos contra o solo de pedra anunciou a chegada da subcomandante Engfa Waraha à Fortaleza de Punyapat. Engfa era a única pessoa em todos os reinos conhecidos que conseguia caminhar ao lado de Lookmhee sem que a sombra da tirana a obscurecesse completamente. Elas eram duas forças da natureza: uma, o fogo frio e calculista; a outra, a tempestade que precede o caos.

Lookmhee já estava pronta, vestida em sua armadura de couro negro reforçado, o anel da família pendurado no pescoço batendo contra o peito enquanto ela conferia o fio de sua espada.

— O Reino Pedersen está em polvorosa, Comandante — disse Engfa, retirando o elmo e deixando um sorriso de canto surgir. — O Rei está oferecendo metade de suas terras para quem trouxer a cabeça da "sequestradora" da princesa.

Lookmhee soltou um riso seco, ajustando as luvas sobre as cicatrizes de suas mãos.

— Ele pode oferecer o mundo inteiro, Engfa. Ninguém entra aqui, e ninguém tira o que é meu. Vamos. Quero ver o desespero nos olhos daqueles nobres antes do meio-dia. Quero que eles entendam que Sonya não é mais uma peça no tabuleiro deles.

Enquanto as duas líderes partiam para uma incursão de "entretenimento" e destruição nas fronteiras de Pedersen, dentro da torre leste, o clima era de guerra silenciosa.

Sonya estava sentada em uma poltrona de veludo carmesim, observando a mesa posta à sua frente. Havia frutas frescas, pães ainda quentes, mel silvestre e pequenas tortas de amêndoas — exatamente o que ela costumava pedir nos verões em seu castelo. Uma jovem criada, de mãos trêmulas, tentava organizar os talheres de prata.

— Por favor, Alteza... — murmurou a criada, quase em um súplica. — A senhora precisa comer. Lady Punyapat deixou ordens expressas. Se a senhora não se alimentar, ela ficará irritada. E quando ela se irrita, todos nós pagamos o preço.

Sonya desviou o olhar da janela, seus olhos castanhos brilhando com uma teimosia latente.

— Então deixe que ela se irrite — respondeu Sonya, a voz firme apesar da fome que começava a roer seu estômago. — Não vou me alimentar às custas de uma tirana babaca que me arrancou de casa. Ela acha que pode me comprar com doces e sedas? Ela me subestima.

— Mas, Alteza... é o seu prato favorito...

— Leve embora — ordenou Sonya, cruzando os braços sobre o peito, as tiras de couro em seus pulsos rangendo levemente. — Eu prefiro a fome à submissão.

Enquanto Sonya mantinha seu protesto, a quilômetros dali, Lookmhee e Engfa cavalgavam pelas ruas periféricas da capital de Pedersen. O caos era a música favorita de Lookmhee. Casas de nobres aliados ao Rei estavam em chamas, e o povo corria em pânico enquanto os soldados de Punyapat demonstravam sua superioridade técnica.

No centro da praça, Lookmhee avistou o que procurava. O Príncipe herdeiro de um reino vizinho, o homem a quem Sonya fora prometida em um acordo comercial disfarçado de casamento. Ele estava cercado por guardas, tentando empunhar uma espada ornamentada com joias que parecia pesada demais para seus braços finos.

Lookmhee desmontou com uma elegância predatória. Ela caminhou em direção ao jovem, ignorando os soldados que recuavam diante de sua presença intimidadora. Com um movimento rápido, ela desarmou o príncipe com um simples chute na base da lâmina, fazendo a arma voar para longe.

— Então é este o "homem" que reivindicava a mão de Sonya? — Lookmhee perguntou, sua voz carregada de um desprezo tão profundo que o príncipe empalideceu instantaneamente.

Ela sacou sua própria espada e pressionou a ponta fria do aço contra a garganta dele, forçando-o a levantar o queixo.

— Você mal consegue segurar um pedaço de metal, quanto mais proteger uma mulher como ela — sibilou Lookmhee, aproximando seu rosto, o olho esquerdo desfocado dando-lhe uma aparência demoníaca. — Sonya Pedersen é areia demais para o seu castelo de cartas. Se eu souber que você proferiu o nome dela novamente, eu não vou apenas ameaçar sua garganta. Eu vou decorá-la com o seu sangue.

O príncipe soluçou, incapaz de articular uma palavra. Lookmhee guardou a espada, sentindo apenas tédio. Ele não era um rival; era um inseto.

Enquanto isso, em outra parte da cidade, Engfa Waraha observava a execução iminente de prisioneiros em uma praça secundária. Entre os condenados, uma mulher de cabelos loiros e olhar penetrante chamou sua atenção. Era Charlotte Austin, uma mulher acusada de feitiçaria e rebeldia contra a coroa de Pedersen.

Engfa, movida por um instinto que raramente falhava, avançou contra os carrascos. Em poucos movimentos, ela derrubou os guardas e cortou as cordas de Charlotte.

— Você parece ter utilidade — disse Engfa, limpando o sangue de sua adaga. — O Reino Punyapat aprecia talentos... incomuns.

Charlotte Austin não disse uma palavra. Ela olhou para Engfa com uma mistura de choque e desconfiança, e no momento em que a subcomandante se distraiu com um soldado que se aproximava, a feiticeira correu, desaparecendo entre as ruelas estreitas sem sequer um "obrigada".

Engfa soltou uma risada curta, guardando a arma.

— Interessante. Eu gosto de uma caçada.

Ao retornar para a Fortaleza no final do dia, o humor de Lookmhee mudou drasticamente ao receber o relatório da criada. Sonya não havia tocado em uma única uva. O quarto estava intocado, e a princesa permanecia em silêncio, olhando para a parede.

Lookmhee entrou nos aposentos sem bater. O cheiro de jasmim ainda estava lá, mas o ar estava pesado com a tensão da vontade de Sonya.

— Saiam todos — ordenou Lookmhee.

A criada saiu apressada, fechando a porta. Lookmhee caminhou até a mesa, pegou uma pequena tigela com caldo de carne e legumes e aproximou-se de Sonya.

— Você está tentando me punir, pequena princesa? — perguntou Lookmhee, sentando-se na beira da cama, perto de Sonya. — Ou está tentando se matar?

— Estou exercendo a única liberdade que você ainda não conseguiu me tirar — retrucou Sonya, virando o rosto. — A liberdade de recusar o que vem de suas mãos sujas de sangue.

Lookmhee suspirou, uma paciência incomum surgindo em seu peito. Ela mergulhou a colher no caldo e a levou até os lábios de Sonya.

— Coma. Eu não vou pedir uma segunda vez de forma gentil.

— Então não peça — Sonya voltou-se para ela, os olhos brilhando com uma fúria renovada. — Você me sequestrou, destruiu o futuro que eu conhecia e agora espera que eu seja sua boneca de estimação? Você é patética, Lookmhee.

A comandante estreitou os olhos. Ela largou a tigela na mesa de cabeceira e segurou o rosto de Sonya com uma das mãos, os dedos apertando as bochechas da princesa de forma firme, mas sem machucar.

— Eu vi o seu noivo hoje — disse Lookmhee, a voz baixa e perigosa. — Ele chorou como uma criança quando encostei minha espada nele. Aquele reino babaca nunca soube o que tinha em você. Eles iam te dar para um fraco. Eu te dei um império.

— Você me deu uma prisão! — Sonya tentou se soltar, mas a força de Lookmhee era absoluta.

— Eu te dei proteção! — rugiu Lookmhee, sua face a centímetros da de Sonya. — Ninguém nunca mais vai olhar para você como um objeto de troca. Você é Sonya Punyapat agora, quer aceite ou não.

Em um ato de rebeldia pura e desesperada, Sonya acumulou saliva e cuspiu diretamente no rosto de Lookmhee.

O tempo pareceu parar. Uma gota de saliva escorreu pela bochecha da comandante, passando por cima da cicatriz no canto de sua boca. Sonya prendeu a respiração, esperando um tapa, um grito, ou que as cordas em seus pulsos fossem apertadas até que ela perdesse os sentidos.

No entanto, Lookmhee não reagiu com violência. Seus olhos brilharam com algo que beirava o êxtase. Ela soltou o rosto de Sonya e, lentamente, passou o dedo indicador pela bochecha, colhendo a saliva da princesa.

Com um olhar fixo em Sonya, Lookmhee levou o dedo à própria boca, saboreando o gesto de desrespeito como se fosse o vinho mais caro de sua adega.

— Você é deliciosa quando está com raiva — sussurrou Lookmhee, sua voz vibrando com um desejo sombrio e distorcido. — Cada parte de você me fascina. Até o seu desprezo é mais real do que qualquer adoração que eu já recebi.

Sonya sentiu um calafrio que não era de medo, mas de uma compreensão terrível: não havia como vencer aquela mulher com lógica ou resistência comum. Lookmhee se alimentava do fogo de Sonya.

— Você é louca — murmurou Sonya, sua voz tremendo.

— Sou obcecada — corrigiu Lookmhee, levantando-se e pegando novamente a tigela. — E minha obsessão exige que você esteja viva e saudável para que eu possa ver o dia em que você vai implorar pelo meu toque. Agora, abra a boca, Sonya. Ou eu terei que encontrar formas muito mais... invasivas... de garantir que você se alimente.

Sonya olhou para os olhos da comandante — o direito afiado, o esquerdo nublado — e viu uma promessa de que Lookmhee cumpriria cada palavra. Lentamente, com o orgulho ferido, mas a curiosidade e o instinto de sobrevivência falando mais alto, Sonya abriu a boca.

Lookmhee a alimentou, colher por colher, em um silêncio carregado de eletricidade. A cada vez que a colher entrava, os dedos de Lookmhee roçavam propositalmente nos lábios de Sonya, marcando território, mapeando as curvas de seu rosto.

— Boa menina — disse Lookmhee quando a tigela estava vazia. Ela limpou o canto da boca de Sonya com o polegar, deixando-o ali por um segundo a mais do que o necessário. — Amanhã, trarei flores de Pedersen. As que sobraram dos jardins reais que eu mandei queimar. Elas ficarão lindas no seu vaso de cristal.

Lookmhee saiu do quarto com a postura de uma conquistadora, deixando Sonya sozinha com o gosto do caldo e a sensação sufocante de que as paredes da Fortaleza estavam começando a parecer, assustadoramente, com um lar. Ela odiava Lookmhee. Ela odiava o modo como seu corpo reagia àquela presença. Mas, acima de tudo, Sonya odiava o fato de que, pela primeira vez na vida, ela estava ansiosa para ver o que a tirana faria no dia seguinte.