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Não queria admitir mas te amo

Labirintos de Vidro e Sombras

O retorno ao Princeton-Plainsboro após o episódio no aeroporto deveria ter sido um retorno à normalidade, ou ao menos ao caos controlado que definia a rotina de Lisa Cuddy. Mas a normalidade era uma mercadoria rara quando o assunto envolvia Gregory House e os resquícios de um trauma que ela insistia em empurrar para debaixo do tapete.

Cuddy estava em seu escritório, a luz da tarde filtrando-se pelas persianas, criando listras de luz e sombra sobre a papelada acumulada. Ela tocou os lábios distraída, a memória do beijo no aeroporto ainda vívida demais, agindo como um contraponto doce ao medo que sentira semanas antes.

A porta se abriu sem bater. Não precisava de olhar para saber quem era. O som rítmico da bengala era a trilha sonora de sua vida.

— A paciente no 402 acha que está sendo envenenada por gnomos de jardim — anunciou House, mancando até a poltrona e desabando nela com a elegância de um castelo de cartas desmoronando. — Eu disse a ela que os gnomos são apenas o braço armado dos esquilos. Ela quer uma ressonância.

Cuddy suspirou, fechando a pasta à sua frente.

— House, são dez da manhã. Você já insultou pacientes, ignorou três chamados da oncologia e, pelo visto, ainda não tomou seu Vicodin, já que está mais ranzinza que o normal.

— Eu tomei. O efeito é que está perdendo a graça — ele a observou, os olhos azuis semicerrados, escaneando-a. — Você está usando aquele perfume. O que significa que tem uma reunião com doadores ou está tentando compensar o fato de que quase teve um colapso nervoso no Newark.

— Eu estou bem, House — mentiu ela, a voz firme demais para ser convincente.

— Claro que está. E eu sou o próximo Papa.

Antes que ela pudesse retrucar, o bipe de Cuddy tocou. Simultaneamente, o telefone fixo na mesa começou a tocar. Era um daqueles dias. Ela atendeu o telefone, fazendo um sinal para House sair, o que ele prontamente ignorou, pegando um ioiô da mesa dela e começando a brincar.

— Diretora Cuddy falando... Sim, entendo. Não, o pedido foi negado porque o Sr. Miller não apresentou os registros de saúde anteriores e o seguro não cobre exames experimentais sem justificativa clínica sólida. Sinto muito, mas são as regras.

Ela desligou, massageando as têmporas.

— O Sr. Miller? — perguntou House, parando o ioiô no ar. — O cara do "exame de corpo inteiro porque eu tenho dinheiro"?

— O próprio. Ele acha que, porque pode pagar, o hospital deve ignorar os protocolos de segurança e ética para exames radiológicos desnecessários. Ele foi agressivo ao telefone.

— Pessoas ricas detestam ouvir "não" — comentou House, levantando-se com esforço. — É por isso que eu sou pobre. Bom, isso e as apostas em corridas de cavalos.

— Você não é pobre, House. Você só é irresponsável.

Ele caminhou até a porta, parando por um segundo. Olhou para trás, a expressão momentaneamente despida de sarcasmo.

— Tranque a porta quando eu sair.

— Por que? — Cuddy franziu a testa.

— Porque você está com aquela cara de quem está esperando o próximo desastre. E eu não gosto de concorrência.

Ele saiu, deixando o silêncio pesado para trás. Cuddy tentou focar no trabalho, mas a sensação de estar sendo observada não a abandonava. Era o trauma, dizia a si mesma. O "fantasma do Sr. Kovic", como House chamara.

Duas horas depois, a recepção estava estranhamente silenciosa. Cuddy saiu de sua sala para entregar alguns documentos a sua secretária, Brenda, mas a mesa estava vazia. Um café ainda fumegava em uma caneca, mas não havia sinal da mulher.

— Brenda? — chamou ela, caminhando pelo corredor lateral que levava às salas de exame.

Um vulto se moveu rápido demais para ser um funcionário. Antes que Cuddy pudesse reagir, uma mão forte envolveu seu braço e a empurrou para dentro de uma sala de suprimentos escura. O cheiro de antisséptico e medo inundou seus sentidos.

— Você achou que podia simplesmente desligar o telefone na minha cara? — A voz era rouca, instável.

Cuddy tentou se soltar, mas foi prensada contra as prateleiras de metal. O rosto do homem estava a centímetros do dela. Era Miller. Mas não o homem de negócios polido que ela vira em fotos; seus olhos estavam injetados e ele tremia.

— Sr. Miller, por favor, vamos conversar no meu escritório — disse ela, tentando manter a voz de "diretora", aquela que impunha autoridade.

— Não! — Ele gritou, tirando um objeto pesado do casaco. Não era uma arma de fogo, mas uma ferramenta pesada, uma chave inglesa grande o suficiente para esmagar um crânio. — Vocês médicos se acham deuses. Decidem quem vive, quem faz exames, quem tem prioridade. Meu pai morreu esperando uma vaga nesta droga de lugar!

— Sinto muito pelo seu pai, mas sequestrar a diretora não vai mudar o sistema — Cuddy sentiu o coração martelar contra as costelas. A claustrofobia do armário de suprimentos começou a sufocá-la.

— Você vai me dar o que eu quero. Agora. Vamos para a radiologia. E se você gritar, eu juro que não vai sobrar um osso inteiro no seu rosto bonito.

Enquanto isso, no Departamento de Diagnóstico, House girava em sua cadeira. Algo estava errado. Ele conhecia o ritmo do hospital como um músico conhece sua partitura, e havia uma nota desafinada. Wilson entrou na sala, parecendo preocupado.

— House, você viu a Cuddy? Ela perdeu a reunião de orçamento. Isso é... bom, é impossível.

House parou a cadeira abruptamente. A dor em sua perna deu uma fisgada, um aviso biológico de que o estresse estava aumentando.

— Ela não perderia uma chance de cortar meu bônus por nada — murmurou ele. — Onde está a Brenda?

— Também não sei. A mesa dela está abandonada.

House pegou sua bengala e saiu da sala sem dizer uma palavra, mancando o mais rápido que sua perna permitia. Ele foi direto para o escritório de Cuddy. Vazio. O café de Brenda ainda estava lá, mas agora frio. Ele olhou para o chão e viu um brinco pequeno, de pérola. O brinco que Cuddy estava usando naquela manhã.

— Droga, Lisa — sussurrou ele, o medo genuíno perfurando sua couraça de indiferença.

Ele não chamou a segurança imediatamente. Sabia que, se houvesse um sequestrador, um bando de guardas armados só apressaria um desfecho trágico. Ele começou a pensar como um predador. Onde alguém levaria Cuddy?

— O exame — disse House para si mesmo. — O idiota do Miller queria o exame.

Ele se dirigiu à ala de radiologia, que ficava em um setor mais isolado durante o horário de almoço. No caminho, encontrou Brenda trancada em um banheiro, chorando.

— Ele a levou, Dr. House! Ele tinha uma coisa na mão... ele disse que ia matá-la se eu falasse!

— Cale a boca e chame a polícia agora — ordenou House, a voz fria como gelo. — Mas diga para não entrarem com sirenes. Se eles assustarem o sujeito, eu mesmo processo o estado.

House chegou às portas duplas da radiologia. Através do vidro pequeno, ele viu a silhueta de Miller forçando Cuddy a ligar as máquinas. Ela estava pálida, as mãos tremendo tanto que mal conseguia digitar os comandos no computador.

House não hesitou. Ele não tinha um plano, não tinha uma arma, e sua perna estava gritando por descanso. Mas ele tinha uma língua afiada e uma falta de instinto de preservação que beirava o suicídio.

Ele escancarou as portas, o som da bengala batendo forte no linóleo.

— Sabe, Miller, se você quer um exame de corpo inteiro, eu recomendaria a ressonância magnética de 3 Tesla. É muito mais precisa para detectar a estupidez aguda que parece estar afetando seu lobo frontal.

Miller girou, puxando Cuddy pelo pescoço, usando-a como escudo. A chave inglesa estava erguida.

— Fique longe, House! Eu sei quem você é. O médico aleijado que se acha esperto.

— "Aleijado" é um pouco ofensivo. Eu prefiro "desafiado gravitacionalmente" — House continuou a caminhar, cada passo uma agonia, mas seu rosto era uma máscara de tédio. — Solte ela. Ela não sabe operar essa máquina direito. Ela é burocrata, Miller. Se ela apertar o botão errado, você vai ser frito como um nugget de frango.

— House, saia daqui! — gritou Cuddy, os olhos cheios de lágrimas. — Ele está fora de si!

— Ele está frustrado, Lisa. É diferente — House parou a dois metros deles. — Miller, você quer saber se tem câncer, não é? Quer saber se vai morrer como seu pai. Eu posso te dizer agora, sem a máquina.

O homem hesitou, a guarda baixando por um milímetro.

— Como? Você nem me examinou!

— Eu não preciso. Eu vejo o tremor nas suas mãos. Vejo a palidez. Vejo como você está suando apesar do ar-condicionado. Você não está doente, Miller. Você está com culpa. Culpa por não ter estado lá quando seu pai morreu e agora está tentando punir o mundo por isso.

— Você não sabe de nada! — Miller avançou um passo, arrastando Cuddy.

— Eu sei que se você acertar ela, você nunca vai ter as respostas que procura — a voz de House subitamente perdeu o sarcasmo. Tornou-se baixa, quase compreensiva. — Eu vivo com dor todos os dias, Miller. Eu sei o que é querer quebrar tudo porque o mundo parece injusto. Mas ela? Ela é a única coisa que funciona neste hospital de loucos. Se você machucar ela... eu não vou precisar de uma chave inglesa para acabar com você. Eu sou médico. Eu sei exatamente onde dói mais.

O silêncio na sala era absoluto, quebrado apenas pelo zumbido das máquinas. Miller olhou para Cuddy, depois para House. O peso da realidade começou a esmagá-lo. A adrenalina estava baixando, dando lugar ao vazio.

— Eu só queria... eu só queria ter certeza — soluçou Miller, sua mão perdendo a força.

Cuddy sentiu o aperto relaxar. Com um movimento rápido, ela se soltou e correu para trás de House. No mesmo instante, os seguranças do hospital, que haviam chegado silenciosamente seguindo as instruções de House, invadiram a sala e imobilizaram Miller.

O homem não lutou. Ele caiu de joelhos, chorando compulsivamente.

Cuddy estava encostada na parede, tentando recuperar o fôlego. Seus membros pareciam feitos de geléia. House se virou para ela, a bengala apoiada com força, o rosto pálido pelo esforço de ter ficado de pé tanto tempo sob tensão.

— Você está... — ele começou, mas a voz falhou.

Cuddy não respondeu com palavras. Ela se jogou nos braços dele, enterrando o rosto em seu casaco amarrotado. House ficou rígido por um segundo, a bengala quase caindo, mas então ele envolveu a cintura dela com o braço livre, apertando-a contra si.

— Você é um idiota — sussurrou ela contra o peito dele. — Um idiota arrogante e perigoso.

— E você é uma diretora incompetente que se deixa sequestrar duas vezes no mesmo semestre — retrucou ele, mas sua mão estava acariciando o cabelo dela com uma ternura que ele nunca admitiria em voz alta. — Estamos quites.

Eles ficaram assim por um longo tempo, ignorando os seguranças, a polícia que chegava e o burburinho do hospital. Naquele pequeno refúgio entre as máquinas de raio-x, a fachada de House havia caído completamente.

— House — chamou ela, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dele. — Você veio me buscar.

— Eu estava entediado — mentiu ele, mas seus olhos diziam outra coisa. — E os gnomos de jardim da paciente do 402 estavam começando a fazer sentido. Eu precisava de uma voz da razão para me dizer que eu sou louco.

Cuddy sorriu, um sorriso cansado, mas genuíno. Ela limpou o rosto e endireitou o blazer, recuperando sua postura de diretora, embora sua mão ainda estivesse entrelaçada na de House.

— Vamos para casa — disse ela.

— Para a sua casa? — perguntou House, erguendo uma sobrancelha. — Porque a minha tem pilhas de pratos sujos e um piano que precisa de atenção.

— Para a minha. E você vai cozinhar.

— Eu sou um gênio médico, não um chef de cozinha.

— Você vai cozinhar, House. Ou eu conto para o Wilson que você se importa comigo.

House fez uma careta, fingindo horror.

— Isso é chantagem de baixo nível, Lisa. Eu esperava mais de você.

— Aprenda com o melhor — ela piscou para ele.

Enquanto caminhavam pelo corredor, House mancando e Cuddy segurando seu braço, os funcionários abriam caminho. Eles eram uma visão estranha: a diretora impecável e o médico rebelde, unidos por fios invisíveis de dor, sarcasmo e um amor que nenhum diagnóstico poderia explicar.

— House? — disse ela, antes de entrarem no elevador.

— O que foi agora?

— O nome do cachorro. Wilson é um bom nome. Mas acho que ele deveria ser um Beagle, não um Golden Retriever. Beagles são mais teimosos.

House soltou uma risada curta, apertando o botão do térreo.

— Beagles uivam a noite toda, Cuddy. Vai ser como viver com um alarme de incêndio peludo.

— Exatamente — ela encostou a cabeça no ombro dele enquanto as portas se fechavam. — Vai ser perfeito.

Naquele momento, entre as paredes de metal do elevador, o mundo lá fora — com seus sequestradores, burocracias e dores crônicas — parecia pequeno. Eles tinham um ao outro, e para dois corações tão complicados, isso era o começo de uma cura que nenhum remédio poderia oferecer.