Naquela estancia
O Juramento das Sombras e do Aço
As semanas que se seguiram à partida de Bento foram um exercício de dissimulação e resistência. Joana sentia seu corpo mudar, uma transformação silenciosa que ela tentava esconder sob as pregas generosas de seus vestidos de lã e xales pesados. O inverno gaúcho, rigoroso e implacável, tornara-se seu aliado; o frio justificava as camadas extras de roupa e a palidez de seu rosto era atribuída às noites mal dormidas pela preocupação com a guerra.
Contudo, a paz frágil da Estância da Barra foi abalada por um tropel de cavalos que não trazia o lenço farroupilha. Eram fardas azuis, botões dourados que brilhavam sob o sol pálido da tarde. O coração de Joana saltou no peito quando, da varanda, reconheceu a figura altiva e rígida que liderava o pequeno destacamento.
— Estevão — sussurrou ela, sentindo um calafrio que nada tinha a ver com o minuano.
Seu irmão desmontou com a eficiência de um soldado veterano. Ele não vinha como visita, mas como autoridade. Acompanhado por quatro soldados, ele subiu os degraus da casa grande, onde Ana Joaquina e Maria já o aguardavam com a hospitalidade cautelosa de quem sabe que o inimigo está à mesa.
— Minha irmã — disse Estevão, ignorando as donas da casa por um momento para fixar o olhar em Joana. Ele avançou e a tomou pelos ombros, dando-lhe um beijo seco na testa. — Você está mais magra. Este lugar está lhe consumindo.
— Este lugar é meu lar, Estevão — respondeu ela, tentando manter a voz firme, embora sentisse o olhar inquisidor do irmão percorrer seu rosto. — O que faz aqui? Sabe que corre risco cruzando estas terras.
— O Império não corre riscos em solo brasileiro, Joana. Nós o retomamos — ele declarou com a arrogância típica dos oficiais da Corte. — Vim buscá-la. Recebi ordens de transferência para o Rio de Janeiro e não a deixarei aqui, no covil daquele rebelde, enquanto a guerra se torna cada vez mais sangrenta. Prepare suas coisas. Partimos ao amanhecer.
Um silêncio pesado caiu sobre a varanda. Ana Joaquina deu um passo à frente, os olhos faiscando com a dignidade de uma matriarca.
— O senhor é bem-vindo para descansar e se alimentar, Capitão. Mas Joana é nossa convidada e uma mulher livre. Ela não é um espólio de guerra para ser levada contra a vontade.
Estevão soltou uma risada curta e sem humor.
— Com todo o respeito, senhora, ela é minha irmã. Sob a lei de Deus e dos homens, eu sou o seu tutor na ausência de nosso pai. E eu decidi que a segurança dela está na capital, longe da influência nefasta de Bento Gonçalves.
Joana sentiu o peso do segredo em seu ventre. Se fosse para o Rio de Janeiro, sua condição seria descoberta em poucos meses. O escândalo destruiria a carreira de Estevão e a condenaria ao ostracismo ou a um convento. Mas, mais do que isso, ela seria separada do homem que amava e do ideal que passara a abraçar.
— Eu não vou, Estevão — disse ela, dando um passo atrás, buscando o apoio da coluna de madeira da varanda.
— Não lhe dei uma escolha, Joana — a voz dele subiu um tom, a autoridade militar sobrepondo-se ao afeto fraternal. — Você vai, nem que seja amarrada a uma sela. Não permitirei que o nome da nossa família seja manchado por sua convivência com traidores.
— Traidores? — Joana rebateu, sentindo uma coragem nova arder em seu peito. — Traidores são aqueles que oprimem o próprio povo. Eu encontrei aqui uma dignidade que a Corte nunca me ofereceu. E não sou sua propriedade.
Estevão avançou, a mão repousando no punho da espada, um gesto instintivo de dominação.
— Você está delirando. Essa convivência com as mulheres dos rebeldes corrompeu seu juízo. Amanhã, ao raiar do dia, você estará pronta.
Ele se retirou para os aposentos que lhe foram oferecidos, deixando um rastro de tensão. Joana sentiu as pernas fraquejarem, mas as mãos de Manuela, que observara tudo das sombras da sala, a seguraram.
— Ele não pode levá-la — sussurrou Manuela. — Se ele a levar, você estará perdida.
— Ele é meu irmão, Manuela. Ele acredita que tem esse poder sobre mim — Joana disse, as lágrimas começando a descer. — E se ele descobrir... se ele notar...
— Ele não terá tempo — a voz de Ana Joaquina soou firme atrás delas. — Esta casa protege os seus. Estevão é um soldado do Império, mas ele está em minoria aqui, rodeado por terras que respiram a República.
Naquela noite, o sono foi impossível. Joana arrumou uma pequena trouxa, não para seguir o irmão, mas para o que quer que o destino lhe reservasse. Perto da meia-noite, um ruído de cascos no pátio a fez correr para a janela. Seu coração disparou. Não era um exército, mas um pequeno grupo de homens, movendo-se como sombras. Na frente, montado no cavalo baio, estava Bento.
Ele não deveria estar ali. O acampamento ficava a léguas de distância. Mas o instinto de Bento Gonçalves, ou talvez algum aviso enviado por mensageiros ocultos das mulheres da casa, o trouxera de volta.
Joana desceu as escadas correndo, encontrando Bento já dentro do salão, com o poncho molhado pela garoa e o olhar em chamas.
— Onde ele está? — perguntou Bento, a voz baixa e perigosa.
— No quarto de hóspedes — respondeu Joana, atirando-se nos braços dele. — Bento, ele quer me levar. Ele diz que tem poder sobre mim.
Bento a apertou contra o peito por um momento, a mão grande acariciando seus cabelos.
— Ninguém tira você de mim, Joana. Nem o Imperador, nem o seu sangue.
Nesse momento, Estevão apareceu no topo da escada, a farda desabotoada, mas a pistola na mão. O clique da arma engatilhada ecoou pelo salão silencioso.
— Solte-a, Gonçalves! — gritou Estevão. — Eu deveria matá-lo aqui mesmo e acabar com essa farsa de República.
Bento não se moveu. Ele manteve o braço em volta da cintura de Joana, protegendo-a com o próprio corpo.
— Você está em minha casa, Capitão — disse Bento, com uma calma que era mais aterrorizante que qualquer grito. — E ameaça a mulher que eu amo sob o meu próprio teto.
— A mulher que você corrompeu! — Estevão desceu alguns degraus, a arma apontada para o peito do General. — Ela é uma dama da sociedade, irmã de um oficial da Coroa. Você a transformou em nada mais que uma...
— Não termine essa frase — Bento interrompeu, a voz vibrando de autoridade. — Joana está aqui porque quer. Ela acredita na nossa causa. E ela é mais livre nesta estância do que jamais seria nos salões perfumados do Rio de Janeiro.
— Ela vai comigo agora! — Estevão avançou mais um passo.
Joana se soltou de Bento e deu um passo à frente, ficando entre os dois homens. Ela olhou para o irmão, não com medo, mas com uma piedade que o desarmou mais do que qualquer golpe.
— Estevão, olhe para mim — pediu ela. — Você diz que quer me proteger, mas quer me levar para uma vida de aparências e submissão. Você fala em honra, mas quer me arrebatar de onde meu coração encontrou paz.
— Você não sabe o que diz, Joana! Esse homem tem uma esposa! Ele tem uma família! O que você acha que será para ele quando essa guerra acabar?
Joana respirou fundo, sentindo a vida que crescia nela dar um leve sinal, um latejar de esperança.
— Eu sou a mulher que carrega o futuro dele, Estevão — disse ela, a voz clara e audível para todos no salão.
O choque no rosto de Estevão foi total. A arma em sua mão baixou alguns centímetros. A desonra que ele tanto temia acabara de ser confirmada, mas da boca da própria irmã, com um orgulho que ele não conseguia compreender.
— Você... você está grávida desse rebelde? — a voz dele era um sussurro de horror.
— Eu estou grávida do homem que eu amo — corrigiu ela. — E agora eu lhe pergunto, irmão: você vai me levar à força para a Corte? Vai exibir a minha "vergonha" para todos os seus amigos oficiais? Ou vai me deixar viver a vida que eu escolhi?
Estevão parecia ter envelhecido dez anos em um segundo. Ele olhou para Bento, que permanecia como uma estátua de ferro atrás de Joana, pronto para agir ao menor sinal de perigo. O Capitão imperial percebeu, naquele momento, que não tinha poder ali. A lei que ele representava estava a milhas de distância, e a autoridade moral que ele julgava ter sobre a irmã fora destruída pela coragem dela.
— Se você ficar — disse Estevão, a voz trêmula de raiva e dor —, você morre para mim. Não tenho mais irmã. Você será apenas a amante de um traidor, vivendo em fuga, escondida como um animal.
— Prefiro ser livre nas sombras do que escrava na luz da sua Corte — respondeu Joana, firme.
Estevão guardou a pistola com um movimento brusco. Ele olhou para Bento uma última vez, um olhar de puro ódio.
— Você venceu esta batalha, Gonçalves. Mas a guerra é longa. E quando o Império esmagar vocês, não espere que eu intervenha por ela.
— Eu nunca pedi nada ao Império, Capitão — Bento respondeu, os olhos fixos no adversário. — E Joana nunca precisará da sua misericórdia, pois ela tem a minha proteção e o meu amor.
Estevão virou as costas e saiu pela porta da frente, chamando seus homens. O som dos cavalos partindo na noite foi o sinal final de que o antigo mundo de Joana havia desmoronado. Ela sentiu os joelhos cederem, mas Bento estava lá para segurá-la.
Ele a levou até a grande poltrona perto da lareira, enquanto as outras mulheres, que assistiam a tudo das sombras, começaram a se aproximar. Ana Joaquina trouxe um chá, Maria um cobertor. Havia um respeito novo no olhar delas. Joana não era mais apenas a irmã do inimigo; ela havia provado ser uma delas.
— Ele se foi — sussurrou Joana, encostando a cabeça no ombro de Bento. — Eu perdi meu irmão.
— Você ganhou uma vida nova, Joana — Bento disse, beijando-lhe as mãos. — E este filho... este filho será o herdeiro de uma terra livre. Eu prometo a você.
— Bento — ela o chamou, olhando-o nos olhos —, a guerra vai nos cobrar um preço alto. Eu sei disso. Caetana... o mundo lá fora...
— O mundo lá fora pode esperar — ele a cortou, envolvendo-a em seus braços largos. — Esta noite, e em todas as noites que eu puder fugir do campo de batalha, este é o meu único reino. Você e o nosso filho.
Mais tarde, quando a casa voltou ao seu silêncio habitual, Bento e Joana subiram para o quarto. O desejo que sentiam um pelo outro estava agora temperado pela gravidade dos acontecimentos. Havia uma urgência em seus toques, uma necessidade de reafirmar que, apesar de todas as perdas, eles ainda possuíam um ao outro.
Bento despojou-se de sua farda, a peça de roupa que o definia para o mundo, e tornou-se apenas o homem. Joana deixou cair o vestido pesado, revelando a curva ainda suave de seu ventre. Bento ajoelhou-se diante dela, como fizera antes, mas desta vez não havia hesitação. Ele beijou a pele quente de Joana, murmurando palavras de carinho em uma língua que só o amor conhece.
— Você foi corajosa hoje — disse ele, levantando-se e puxando-a para si. — Enfrentar Estevão daquela maneira... eu nunca vi tamanha bravura, nem nos meus melhores soldados.
— Eu não fiz por bravura, Bento — ela respondeu, passando as mãos pelos ombros largos dele. — Fiz por nós. Porque eu não poderia respirar em outro lugar que não fosse onde você estivesse.
Eles se deitaram na cama de madeira maciça, onde o calor dos corpos combatia o frio que soprava das janelas. O amor deles foi lento, uma celebração da vitória sobre o medo. Cada carícia de Bento era um juramento de que ele a manteria segura; cada resposta de Joana era uma entrega total ao destino que ela mesma traçara.
Na penumbra do quarto, Bento observava Joana adormecer. Ele sabia que os dias à frente seriam de provação. A República Farroupilha enfrentava tempos sombrios, e sua posição como líder exigia sacrifícios constantes. Mas, ao olhar para a mulher ao seu lado, ele sentia uma força renovada. Ela era seu refúgio, sua verdade em meio a tantas mentiras políticas e estratégias militares.
Pela manhã, antes do sol nascer, Bento teve que partir novamente. Ele se vestiu em silêncio, observando Joana por um longo tempo enquanto ela dormia. Ele sabia que Estevão não voltaria, mas a ameaça do Império continuava viva.
Ele desceu e encontrou Manuela na cozinha, preparando o mate.
— Cuide dela, Manuela — pediu o General, a voz rouca.
— Com a minha própria vida, tio — respondeu a jovem, com a seriedade de quem também conhecia as dores do amor proibido. — Ela é uma de nós agora. E o filho que ela carrega é o sangue dos Gonçalves.
Bento assentiu, montou em seu cavalo e partiu em direção ao horizonte onde o canhão voltaria a rugir.
Joana acordou com a luz suave da manhã entrando no quarto. Ela levou a mão ao ventre e sorriu. Pela primeira vez em meses, o peso no peito havia desaparecido. Estevão não tinha mais poder sobre ela. As leis da Corte não a alcançavam mais. Ela estava no coração da revolução, protegida pelas paredes da estância e pelo amor de um homem que desafiava impérios.
Ela se levantou, vestiu-se e desceu para se juntar às outras mulheres. A guerra continuava lá fora, o sangue continuaria a ser derramado nos campos do Sul, mas dentro dela, uma nova vida florescia, protegida pelo silêncio e pela coragem. Joana, a irmã do capitão imperial, agora era Joana da Liberdade, a mulher que encontrara seu refúgio e seu destino nos braços do General da República. E nada, nem o aço das espadas, nem o fogo dos canhões, poderia tirar isso dela.