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O Eco da Guitarra e o Silêncio de Hollywood

A luz da manhã em Buenos Aires tinha uma tonalidade diferente da de Londres ou Los Angeles. Era mais quente, mais direta, desprovida daquele filtro cinzento e polido que Maria se acostumara a ver pelas janelas das mansões que dividira com Tom. Enquanto ela observava Patricio na cozinha, discutindo de forma acalorada com Gastón sobre a distorção de uma pedaleira nova, Maria sentiu uma paz que beirava o desconhecido.

O anúncio oficial — se é que se pode chamar um solo de guitarra dedicado e um beijo técnico diante de milhares de pessoas de "anúncio" — havia mudado tudo. Seu celular não parava de vibrar. Eram notificações de portais de fofoca, mensagens de amigos que ela não via há anos e, claro, as tentativas desesperadas de contato vindas do outro lado do oceano.

— Você está olhando para esse aparelho como se ele fosse explodir — comentou Guido, entrando na cozinha e pegando uma torrada da mão de Patricio, que reclamou imediatamente. — Se for o Homem-Aranha de novo, eu posso bloquear para você. Eu tenho dedos rápidos.

Maria riu, balançando a cabeça.

— Não é só ele, Guido. É o mundo inteiro. Parece que ninguém consegue aceitar que eu simplesmente mudei de estação.

Patricio parou o que estava fazendo e caminhou até ela. Ele encostou-se no balcão, cruzando os braços tatuados. O olhar dele era intenso, mas carregava uma doçura que ele raramente mostrava para quem estava fora do círculo dos Sardelli.

— Eles não aceitam porque você quebrou o roteiro, Maria — disse Patricio, a voz rouca de quem tinha passado a noite cantando. — Em Hollywood, espera-se que a ex-namorada de nove anos fique em um canto, chorando em silêncio ou dando entrevistas melancólicas sobre "crescimento pessoal". Ninguém esperava que você aparecesse em um show de rock na Argentina, sendo a musa de uma banda que não pede permissão para ser barulhenta.

— Ele me mandou um e-mail — confessou Maria, soltando um suspiro longo. — Como eu bloqueei o número, ele usou o e-mail pessoal.

Gastón parou de mexer no café e olhou para ela, curioso.

— E o que o herói da vizinhança disse dessa vez? — perguntou Gastón, com um tom de deboche que era característico dos irmãos.

— O de sempre. Que eu estou sendo "impulsiva". Que esse estilo de vida não combina com a minha essência. Que ele está preocupado com a minha imagem pública — Maria deu um riso seco, sentindo uma pontada de indignação. — Ele passou nove anos controlando a minha imagem. Ele queria que eu fosse a "namorada perfeita", aquela que não causava escândalos, que usava as roupas certas e sorria para as câmeras enquanto ele decidia se eu era digna de um anel. Agora que ele está com a Zendaya e o mundo os chama de "casal real", ele se sente no direito de dizer que o meu relacionamento com o Pato é um erro.

Patricio descruzou os braços e se aproximou, colocando as mãos nos ombros de Maria. O calor do toque dele a trouxe de volta ao presente.

— Deixe que ele se preocupe com a imagem dele — disse Pato, com firmeza. — Aqui, a gente se preocupa com a música e com a verdade. Se ele está tão incomodado, é porque o nosso barulho está chegando lá. E isso é bom. O silêncio dele te machucou por muito tempo. Agora é a nossa vez de fazer barulho.

— Temos um ensaio em duas horas — lembrou Guido, batendo no ombro do irmão. — E Maria, se eu fosse você, postaria uma foto bem bonita hoje. Só para dar o que falar no chá das cinco em Londres.

Maria sorriu. Ela não era de alimentar polêmicas, mas havia algo libertador em não ter mais medo.

Mais tarde naquele dia, enquanto os meninos estavam no estúdio montado na casa, Maria sentou-se no jardim. O som da bateria de Guido e os riffs de Patricio ecoavam pelas paredes, criando uma trilha sonora vibrante. Ela abriu o e-mail de Tom novamente.

"Maria, eu sei que você está passando por uma fase difícil após o nosso término. Mas se envolver com esse tipo de gente, com essa exposição... não é você. As pessoas estão comentando. Sua classe e sua elegância estão sendo ofuscadas por esse espetáculo de rock. Por favor, pense na sua carreira e no que construímos. Podemos conversar de forma civilizada?"

Ela leu e releu. Dois anos atrás, aquelas palavras teriam feito Maria chorar. Ela teria se questionado se estava realmente enlouquecendo, se estava manchando sua reputação. Mas hoje, as palavras pareciam vazias. "O que construímos", ele escreveu. Mas o que eles tinham construído? Um castelo de cartas onde apenas as necessidades dele eram prioridade.

Ela começou a digitar a resposta, mas parou. Tom não merecia uma resposta longa. Ele não merecia o seu tempo.

Ela fechou o notebook e caminhou até o estúdio. O ar lá dentro estava pesado com o cheiro de eletrônicos aquecidos e a energia pura da criação. Patricio estava de costas, lutando com uma sequência de notas na guitarra, o cabelo caindo sobre o rosto.

— Pato — chamou ela, suavemente.

Ele parou de tocar instantaneamente e se virou.

— Tudo bem? — perguntou ele, preocupado.

— Sim. Eu só queria te pedir uma coisa.

— O que você quiser.

— Aquela música nova... "Nossa Vez". Eu quero que você a toque hoje no rádio.

Patricio sorriu, um sorriso largo que iluminou o rosto cansado.

— Achei que você queria manter a discrição por mais um tempo.

— A discrição morreu no momento em que eu percebi que ser discreta era apenas outra forma de ser invisível — Maria caminhou até ele e pegou a palheta da mão dele. — Eu quero que eles ouçam. Eu quero que ele ouça.

— Então vamos fazer o seguinte — disse Patricio, puxando-a para um beijo rápido e cheio de promessas. — Vamos gravar um vídeo agora. Só nós dois. Um acústico. Sem filtros, sem assessores de imprensa, sem a perfeição de Hollywood. Apenas a música.

Eles fizeram exatamente isso. No sofá de couro do estúdio, com uma iluminação natural e o som ambiente de Buenos Aires ao fundo, Patricio dedilhou os acordes iniciais. Maria não cantava profissionalmente, mas ela conhecia cada palavra daquela letra, pois fora escrita nas entrelinhas das conversas que tiveram nas madrugadas de vinho e confissões.

Enquanto Patricio cantava sobre "cicatrizes que brilham como cristal" e "encontrar a voz no meio do caos", Maria sentiu que estava finalmente lavando a alma.

O vídeo foi postado sem legenda, apenas com um emoji de coração preto e uma guitarra.

O impacto foi imediato. Em menos de uma hora, a internet estava em chamas. Os fãs do Airbag celebraram a "Rainha do Rock", enquanto os tabloides britânicos tentavam desesperadamente encontrar um ângulo negativo. Mas não havia um. Era apenas uma mulher feliz, ao lado de um homem que a admirava não como um acessório, mas como uma força da natureza.

O celular de Maria tocou. Era um número desconhecido, mas ela sabia o código de área. Reino Unido.

Ela atendeu.

— Alô?

— Maria? — A voz de Tom soou do outro lado, carregada de uma mistura de irritação e incredulidade. — O que foi aquilo? Aquele vídeo? Você tem noção de como isso me faz parecer?

Maria sentiu uma calma absoluta. Ela se afastou dos meninos e foi para a varanda.

— Tom, eu não postei aquele vídeo pensando em como você pareceria — disse ela, com a voz firme. — Na verdade, eu não pensei em você em nenhum momento.

Houve um silêncio do outro lado da linha. Tom parecia chocado com a audácia.

— Você mudou — disse ele, finalmente. — Você não é a mulher que eu amei por nove anos.

— Você está certo, Tom. A mulher que você "amou" por nove anos era uma versão de mim que tentava caber no seu mundo. Aquela mulher esperou por um casamento que nunca veio, por uma prioridade que nunca foi dada a ela. A mulher que eu sou hoje não precisa esperar por nada. Eu já tenho tudo o que eu preciso bem aqui.

— Você está com um músico, Maria. Alguém que vive de turnês, de excessos... Isso não vai durar. É apenas uma rebeldia tardia.

— Se for uma rebeldia, é a melhor coisa que já me aconteceu — rebateu Maria. — E quanto a durar... o que tivemos durou nove anos e, no fim, não significou nada além de tempo perdido e promessas vazias. O que eu tenho com o Patricio em alguns meses tem mais verdade do que quase uma década com você.

— Você vai se arrepender — disse Tom, o tom de voz agora frio. — Quando as luzes se apagarem e a música parar, você vai ver que esse mundo não é para você.

— A diferença, Tom, é que com o Patricio, a música nunca para. E mesmo quando as luzes se apagam, ele ainda está lá. Ele não me esconde. Ele não me trata como algo que precisa ser polido antes de ser mostrado ao mundo.

Sem esperar por uma resposta, Maria desligou. Ela sentiu um peso enorme saindo de seus ombros. Ela não bloqueou o número de novo; ela simplesmente o deletou. Ele não tinha mais poder sobre suas emoções.

Ela voltou para dentro, onde os irmãos Sardelli estavam agora discutindo sobre o setlist da turnê europeia que se aproximava.

— Tudo bem? — perguntou Patricio, observando a expressão dela.

— Mais do que bem — Maria sorriu, caminhando até ele e sentando-se em seu colo, ignorando os assobios brincalhões de Gastón. — Eu acabei de encerrar um contrato de nove anos que já tinha expirado há muito tempo.

Patricio a abraçou pela cintura, encostando a testa na dela.

— Então agora você é uma agente livre? — brincou ele.

— Não exatamente — disse ela, olhando nos olhos castanhos e intensos do músico. — Eu acho que acabei de assinar com uma nova gravadora. Uma que gosta de solos de guitarra longos e de viver o agora.

— É uma gravadora exigente — avisou Pato, com um brilho malicioso nos olhos. — Mas os benefícios são ótimos.

Naquela noite, Maria recebeu uma mensagem de uma conta verificada no Instagram. Era Zendaya.

"Você parece feliz, Maria. De verdade. Fico feliz por você ter encontrado o seu ritmo. Algumas pessoas demoram para entender que nem todo mundo quer o mesmo tipo de palco. Aproveite a música."

Maria leu a mensagem e sorriu. Não havia ódio ali, apenas a compreensão de duas mulheres que, de formas diferentes, tiveram que lidar com as expectativas de um homem que amava mais a própria imagem do que as pessoas ao seu redor.

Ela não respondeu com palavras. Apenas curtiu a mensagem e guardou o celular.

O jantar foi uma bagunça barulhenta na casa dos Sardelli. A mãe deles, Alicia, apareceu com empanadas e tratou Maria como se ela fizesse parte da família desde sempre. Não havia formalidades, não havia necessidade de manter as aparências. Se Maria queria rir alto, ela ria. Se queria discutir política ou música, sua voz era ouvida.

Enquanto a noite avançava, Patricio pegou um violão e começou a tocar algo suave na varanda. Maria sentou-se ao lado dele, observando as luzes de Buenos Aires.

— Sabe — começou Patricio, sem parar de dedilhar —, eu recebi uma oferta para tocar em Londres no final do ano. Um festival grande.

Maria ficou em silêncio por um momento. Londres era o território de Tom. Onde cada esquina trazia uma lembrança de uma vida que ela havia deixado para trás.

— Você quer ir? — perguntou ela.

Patricio parou de tocar e olhou para ela.

— Só se você estiver comigo. Eu não vou sem a minha musa. E eu adoraria ver a cara de certas pessoas quando a gente passar pelo tapete vermelho do festival... mas dessa vez, com você usando uma jaqueta de couro e segurando a minha mão.

Maria imaginou a cena. Ela não sentiu medo ou ansiedade. Sentiu uma antecipação vibrante.

— Eu acho que Londres precisa de um pouco de rock argentino — disse ela, sorrindo. — E eu acho que eu preciso mostrar para aquela cidade que eu finalmente aprendi a dançar conforme a minha própria música.

Patricio a puxou para um beijo profundo, um beijo que selava um compromisso que nenhum contrato ou aliança de diamante poderia igualar.

— Então está decidido — disse ele. — Vamos fazer barulho na terra da rainha.

Maria deitou a cabeça no ombro dele, ouvindo o som rítmico do violão. O ciúme de Tom, os boatos de noivado em Hollywood, as críticas dos puristas... tudo isso era apenas ruído de fundo. A melodia principal era o que eles estavam construindo ali, nota por nota, no silêncio cúmplice da noite portenha.

Ela não era mais a "ex de alguém". Ela era Maria. E ela nunca tinha soado tão bem.

— Ei, Pato? — chamou ela, quase pegando no sono.

— Sim?

— Não pare de tocar.

— Nunca — prometeu ele, e o som da guitarra continuou a ecoar, preenchendo o espaço onde antes só existia o vazio de uma espera que nunca teve fim.

Agora, a espera tinha acabado. O show estava apenas começando.