Voltar ao resumo

Nemhum

Névoa sobre paralelepípedos

A manhã em São Paulo nasceu cinzenta, mimetizando o humor de Emanuel. O som das máquinas de tatuagem ainda ecoava em sua mente, um zumbido constante que competia com a dor de cabeça latejante. Ele estava sentado à mesa de mármore da cozinha de sua cobertura, cercado pelo luxo que o trabalho árduo e o talento bruto lhe proporcionaram, mas sentia-se estranhamente exausto. À sua frente, um tablet exibia planilhas de lucros dos estúdios de Londres e Tóquio, mas seus olhos não focavam nos números.

O silêncio da casa foi quebrado pelo som rítmico de saltos altos. Sara entrou na cozinha usando um conjunto de seda preta que deixava pouco para a imaginação, o decote generoso destacando o bronzeado artificial e o brilho do silicone. Ela parecia ignorar completamente a briga da noite anterior, agindo como se o mundo fosse seu palco particular.

— Bom dia, meu rei — disse ela, inclinando-se para beijar o topo da cabeça de Emanuel, deixando um rastro de perfume doce e forte no ar. — Estava pensando... aquele evento da Vogue em Paris é mês que vem. Já garantiu nossos convites? Eu preciso de um vestido novo, algo que faça aquelas modelos magricelas parecerem cabides velhos.

Emanuel suspirou, fechando o tablet.

— Sara, eu ainda não decidi se vou. Tenho muito trabalho acumulado e a fusão dos estúdios europeus está exigindo mais de mim do que eu previ.

Sara revirou os olhos, servindo-se de um suco verde que a governanta havia deixado preparado.

— Você sempre com esse papo de trabalho. Você é rico, Emanuel. Deixe os outros trabalharem por você. A gente precisa ser visto. Se a gente some, as pessoas esquecem quem dita as regras nessa cidade. — Ela se sentou na mesa, cruzando as pernas longas. — E leve a santinha se quiser, contanto que ela fique no hotel lendo os livrinhos dela e não estrague minhas fotos.

Antes que Emanuel pudesse responder à provocação, a porta do corredor se abriu suavemente. Eduarda apareceu, parecendo um anjo deslocado naquele ambiente de ostentação. Ela usava um pijama de flanela com pequenas flores azuis e meias de lã. Seus cabelos castanhos estavam levemente bagunçados, e ela esfregava um dos olhos com o punho da manga comprida, um gesto que Emanuel sempre achava irresistivelmente fofo.

— Bom dia... — sussurrou ela, caminhando timidamente até a mesa.

— Olha só quem acordou — desdenhou Sara, sem desviar o olhar do próprio reflexo na tela do celular. — Sobreviveu à noite, "Duda"? Ou o esforço de ontem foi demais para o seu coraçãozinho sensível?

Eduarda parou por um momento, as bochechas ficando levemente rosadas. Ela olhou para Emanuel, buscando o refúgio de sempre. Ele estendeu a mão, e ela prontamente a segurou, sentando-se na cadeira ao lado dele, quase se fundindo ao corpo do namorado.

— Dormi bem, obrigada — respondeu Eduarda, a voz baixa, mas firme o suficiente para não tremer.

Emanuel apertou a mão dela, sentindo a pele macia e fria.

— Você está com fome, pequena? — perguntou ele, o tom de voz suavizando-se instantaneamente, o que fez Sara bufar e bater o celular na mesa.

— Um pouco — disse Eduarda. Ela hesitou por um segundo, olhando para o tablet de Emanuel e depois para o rosto cansado dele. — Manu... eu estive pensando em uma coisa. Para o meu projeto final de História da Arte.

— Lá vem — murmurou Sara, bebendo o suco com desdém. — Vai pedir um museu de presente?

Eduarda ignorou a loira, mantendo o foco total em Emanuel.

— Eu andei pesquisando muito sobre a arquitetura gótica e os manuscritos medievais. Tem um lugar que eu sempre sonhei em ver de perto. Não é Paris, nem Milão... eu queria ir para York, na Inglaterra.

Emanuel arqueou as sobrancelhas, genuinamente surpreso.

— York? É uma escolha bem específica, Duda. Por que lá?

Eduarda se inclinou um pouco mais para perto, seus olhos brilhando com uma intensidade que poucas pessoas tinham o privilégio de ver.

— Por causa da Catedral de York Minster. Os vitrais são os maiores e mais preservados do mundo medieval. E as ruas... o Shambles... dizem que parece que o tempo parou no século XIV. Eu li sobre como a luz atravessa aqueles vidros antigos e como isso influenciou a percepção do divino na época. Eu queria muito ver isso com você.

Sara soltou uma gargalhada estridente, jogando a cabeça para trás.

— York? Você quer levar o Emanuel para uma cidadezinha úmida, velha e cheia de fantasmas na porra do norte da Inglaterra? Eduarda, você é mais patética do que eu pensava. O Emanuel é um artista de renome mundial, ele pertence às capitais da moda, ao brilho, ao poder. Ele não vai perder tempo vendo vidro velho em uma igreja caindo aos pedaços.

— Não está caindo aos pedaços, Sara — rebateu Eduarda, a voz ganhando uma nota de assertividade que fez Emanuel observar a cena com atenção. — É história. É sobre entender as raízes da estética que até hoje influencia as tatuagens que o Emanuel faz. O estilo gótico, as linhas, o contraste entre sombra e luz... está tudo lá.

Emanuel sentiu um nó se desatar em seu peito. A proposta de Eduarda não era apenas um desejo de viagem; era um convite para o silêncio e para a inspiração que ele tanto buscava.

— York... — ponderou Emanuel, ignorando a expressão de fúria que começava a se formar no rosto de Sara. — Eu tenho um estúdio parceiro em Leeds, que fica bem perto. Eu poderia aproveitar para resolver algumas pendências lá e tirar uns dias para ficar com você em York.

Sara levantou-se abruptamente, a cadeira arrastando no chão com um ruído estridente.

— Você está brincando, não é? Você vai preferir ir para o meio do nada com essa sonsa em vez de me levar para a França? Emanuel, olha para ela! Ela quer te levar para um retiro espiritual de freiras! Eu sou quem te dá prazer, quem te acompanha nos eventos, quem te faz ser invejado!

Emanuel levantou o olhar para Sara, a frieza voltando aos seus olhos.

— Sara, eu decido para onde vou e quando vou. A Duda me deu um motivo real, algo que me interessa profissionalmente e pessoalmente. Se você quiser vir, as portas do jato estão abertas, mas não espere festas de gala. Vai ser uma viagem de estudos e descanso.

— Eu não vou para um lugar onde chove o dia inteiro e o entretenimento é ver pedra velha! — gritou Sara, os seios subindo e descendo com a respiração ofegante. — Você está sendo manipulado por essa carinha de santa! Ela faz isso de propósito, ela sabe que você está estressado e usa essa "calmaria" fake para te afastar de mim!

Eduarda permaneceu em silêncio, mas não era um silêncio de derrota. Ela se aproximou de Emanuel, passando os braços pelo pescoço dele por trás, apoiando o queixo em seu ombro. Ela olhou para Sara com uma serenidade que foi mais cortante do que qualquer insulto.

— Talvez — disse Eduarda, com um tom de voz doce e quase melodioso — o Manu só precise de alguém que entenda o que ele sente, e não apenas o que ele pode comprar.

Sara ficou vermelha, as unhas cravadas nas palmas das mãos. Sem dizer mais nada, ela pegou sua bolsa de grife e saiu da cozinha pisando forte, o som dos saltos ecoando como tiros pelo corredor até que a porta principal da cobertura batesse com força.

O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som da respiração dos dois. Emanuel relaxou o corpo na cadeira, sentindo o peso de Eduarda contra suas costas.

— Você sabe que ela vai passar uma semana sem falar comigo por causa disso, não sabe? — comentou ele, fechando os olhos e aproveitando o carinho que Eduarda fazia em seu rosto.

— Ela fala demais, Manu. O silêncio dela vai ser um presente para você — respondeu ela, contornando a orelha dele com a ponta dos dedos.

Emanuel a puxou para o seu colo, fazendo-a rir baixinho com a surpresa. Ele a olhou nos olhos, tentando decifrar a profundidade daquela garota que todos julgavam ser apenas "frágil".

— York, hein? Você realmente pesquisou sobre os vitrais ou só queria me tirar de perto da Sara por uns dias?

Eduarda deu um sorriso enigmático, o tipo de sorriso que fazia o sangue de Emanuel correr mais rápido.

— Os vitrais são reais, Manu. A técnica de pintura em vidro do século XII é fascinante. Mas... — ela se inclinou, sussurrando contra os lábios dele — eu também li que as pousadas antigas de York têm lareiras maravilhosas, camas de dossel enormes e paredes tão grossas que nenhum grito... ou gemido... consegue atravessar.

Emanuel sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A dualidade de Eduarda era sua maior perdição. Ela tinha a aparência de uma boneca de porcelana, mas possuía uma mente que devorava informações e uma sensualidade que florescia na intimidade de forma avassaladora.

— Você é perigosa, Duda — disse ele, a voz rouca, as mãos descendo pela cintura dela, apertando a carne macia sob o pijama de flanela.

— Eu só sou curiosa — respondeu ela, roçando o nariz no dele. — E eu gosto de aprender. Você me ensinou tanto sobre o corpo, Manu... eu quero ver como esse conhecimento se traduz em um lugar onde ninguém nos conhece. Onde eu não precise ter medo da Sara ou de qualquer outra pessoa.

Emanuel a beijou com uma urgência que há muito não sentia. Não era o beijo possessivo e performático que Sara costumava exigir. Era um beijo de entrega, de descoberta. Ele podia sentir a doçura de Eduarda, mas também a promessa de algo muito mais profundo que fervilhava abaixo da superfície.

— Vamos para York — decretou ele, afastando-se apenas o suficiente para olhá-la. — Vou mandar o piloto preparar o plano de voo para o final da semana. Quero que você escolha a pousada mais isolada e histórica que encontrar.

Eduarda brilhou. Ela se sentia vitoriosa, não por ter "ganho" de Sara, mas por ter conseguido oferecer a Emanuel exatamente o que ele precisava: um escape.

— Eu já escolhi — disse ela, levantando-se e caminhando em direção ao quarto, parando na porta para olhar para trás. — Chama-se "The Ivy Manor". É um prédio do século XVII. E, Manu... não se preocupe com os livros. Eu já selecionei alguns sobre a história da tortura medieval e simbolismo erótico na arte sacra para levarmos. Acho que vamos ter muito o que discutir... e praticar.

Ela deu uma piscadela e desapareceu no corredor, deixando Emanuel sozinho na cozinha, processando o que acabara de ouvir. Ele soltou uma risada curta, a primeira risada genuína em semanas.

Enquanto isso, em seu quarto, Sara jogava frascos de perfume caros contra a parede, o cheiro de essências misturadas tornando o ar irrespirável. Ela odiava York. Odiava a chuva. Mas, acima de tudo, odiava o fato de que, por trás daquela fachada de timidez e mansidão, Eduarda estava jogando um jogo de xadrez onde ela, Sara, era apenas uma peça barulhenta prestes a ser descartada do tabuleiro.

— Ela acha que venceu — sibilou Sara para o espelho, limpando uma lágrima de raiva que borrava seu rímel caro. — Mas se ela quer história, eu vou dar a ela uma tragédia.

Mas Emanuel não estava pensando em Sara. Ele já estava imaginando as luzes filtradas pelos vitrais de York Minster refletindo na pele alva de Eduarda, e em como aquela viagem transformaria a dinâmica entre os três para sempre. A santinha estava começando a mostrar suas garras, e Emanuel, pela primeira vez em muito tempo, estava ansioso para ser arranhado.