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Never know when to shut up

O Gosto da Calmaria e o Peso do Amanhã

O sol de meio-dia castigava o convés do Thousand Sunny, mas a brisa marítima trazia um alívio necessário. A rotina havia voltado, ou pelo menos uma versão dela que parecia mais leve. Usopp estava sentada na grama do convés, cercada por ferramentas e pequenos frascos de pop greens, mas seus olhos frequentemente desviavam para a figura que treinava perto do mastro de ré.

Zoro estava sem camisa, o suor brilhando em seus ombros largos enquanto ele levantava pesos que fariam qualquer homem comum desmaiar. Ele não dizia nada, mas, de vez em quando, seu olhar cruzava com o de Usopp. Não era mais aquele olhar frio de julgamento; era algo sólido, uma presença que dizia "estou aqui".

— Você está encarando de novo, Usopp-san — cantarolou Brook, passando com seu violino. — O amor é uma canção linda, embora eu não tenha olhos para ver, yohohoho!

— O quê?! Eu não... eu estava apenas verificando se o Marimo não ia quebrar o convés com esse peso todo! — Usopp exclamou, sentindo as bochechas arderem.

— Sei, sei — disse Nami, aproximando-se com um mapa nas mãos. Ela sentou-se ao lado de Usopp e baixou o tom de voz. — Fico feliz que vocês tenham se resolvido. O clima no navio estava ficando insuportável com vocês dois agindo como estranhos.

Usopp suspirou, mexendo em uma de suas sementes.

— Eu não sei se "resolvemos" é a palavra certa, Nami. Ele me salvou... em mais de um sentido. Mas eu ainda sinto que, a qualquer momento, aquela sombra vai voltar e eu vou estragar tudo de novo.

Nami colocou a mão no ombro da amiga. Os cachos pretos de Usopp caíam sobre seu rosto, escondendo um pouco da insegurança que ainda brilhava em seus olhos escuros.

— Deixe que ele ajude a carregar o peso, Usopp. Zoro é um idiota para muitas coisas, mas ele é a pessoa mais leal que conheço. Se ele disse que é sua âncora, ele vai se afogar antes de deixar você solta.

Usopp sorriu fracamente. Ela sabia que Nami tinha razão. Mas a transição de "companheiros de tripulação que mal se falavam" para "seja lá o que estivessem se tornando" era assustadora.

Mais tarde, após o jantar barulhento onde Luffy quase roubou toda a comida de Chopper e Sanji teve que chutar Zoro três vezes por ele ter dormido em cima da mesa, o navio mergulhou na quietude da noite. Usopp estava em sua oficina, o lugar onde tudo começou. Ela estava tentando consertar um dos óculos de proteção de Franky, mas suas mãos não estavam tão firmes quanto o normal.

A porta rangeu. Ela não precisou olhar para saber quem era. O cheiro de saquê e metal sempre o precedia.

— Você deveria estar dormindo — disse Zoro, encostando-se na bancada.

— O grande Capitão Usopp não precisa de tanto sono quanto meros mortais — ela respondeu por instinto, mas sua voz não tinha a bravata de costume. Ela largou a chave de fenda. — E você? Veio ver se eu não ia tentar pular de novo?

Zoro franziu o cenho, aproximando-se.

— Não brinque com isso.

— Desculpe. É só que... — Ela olhou para as próprias mãos. — É difícil silenciar a voz, Zoro. Mesmo agora, quando tudo está bem, ela sussurra que eu não mereço essa paz.

Zoro caminhou até ficar atrás dela. Ele hesitou por um segundo antes de colocar as mãos grandes sobre os ombros dela. O calor foi instantâneo.

— Então fale — disse ele, a voz vibrando perto do ouvido dela. — O que ela está dizendo agora?

Usopp fechou os olhos, permitindo-se encostar a cabeça no abdômen firme dele.

— Ela diz que você só está aqui porque se sente responsável por mim. Que, no fundo, você preferia estar treinando ou dormindo do que cuidando de uma atiradora quebrada.

Zoro soltou um suspiro pesado, um som que era metade irritação e metade carinho. Ele a virou na cadeira, forçando-a a encará-lo. Ele se ajoelhou entre as pernas dela, ficando na altura de seus olhos.

— Escute bem, porque não vou repetir isso muitas vezes. Eu sou o homem que vai ser o maior espadachim do mundo. Eu não perco meu tempo com nada que não valha a pena. Se eu estou aqui, é porque eu quero estar aqui. Com você.

Usopp sentiu o coração disparar. A luz fraca da oficina criava sombras dramáticas no rosto de Zoro, destacando a cicatriz em seu olho e a linha dura de sua mandíbula. Mas seu olhar era suave.

— Zoro... — ela sussurrou, levando a mão ao rosto dele.

Ele inclinou-se para o toque, fechando o olho.

— Quando você sentir que está caindo, me conte. Não guarde. Eu não sou bom com palavras, você sabe disso. Mas eu posso lutar contra qualquer coisa por você. Até contra os seus próprios pensamentos.

Usopp sentiu uma lágrima escapar e Zoro a limpou com o polegar áspero. Sem pensar, ela se inclinou para frente, unindo seus lábios aos dele. Desta vez, não houve o desespero daquela tarde no mastro. Foi um beijo lento, profundo, cheio de uma promessa silenciosa.

Zoro a puxou para mais perto, as mãos subindo pelas costas dela, por baixo da camisa larga que ela usava. A pele dela era macia e quente, um contraste gritante com as calosidades das mãos dele. Usopp soltou um gemido baixo, enroscando os dedos nos cabelos verdes dele, puxando-o para mais perto, como se quisesse fundir seus corpos.

O clima na oficina mudou drasticamente. O ar parecia mais denso, carregado de uma eletricidade que não vinha de nenhuma tempestade. Zoro a levantou da cadeira, sentando-a na bancada de trabalho, espalhando ferramentas e papéis pelo chão.

— Tem certeza? — ele perguntou, a respiração curta, os lábios roçando o pescoço dela.

Usopp sentiu um arrepio percorrer sua espinha. O desejo era uma chama alta, mas, lá no fundo, uma pequena pontada de pânico surgiu. Não era medo dele, era medo da entrega total. Se ela se entregasse assim, não haveria mais volta. Ela estaria nua, não apenas fisicamente, mas emocionalmente.

— Eu... — Ela parou, ofegante. — Zoro, eu quero. Eu juro que quero. Mas meu coração está batendo tão rápido que eu acho que vou desmaiar.

Zoro parou imediatamente. Ele recuou alguns centímetros, olhando para o rosto corado e os olhos arregalados de Usopp. Ele viu a hesitação, a luta interna que ela ainda travava.

— Tudo bem — disse ele, embora sua voz estivesse rouca de desejo. Ele encostou a testa na dela, tentando controlar a própria pulsação. — Não vamos a lugar nenhum. Temos todo o tempo do Grand Line.

Usopp relaxou, escondendo o rosto no pescoço dele.

— Me desculpa. Eu sou uma covarde até nisso.

— Não chame a minha mulher de covarde — rosnou ele, mas sem raiva. Ele a abraçou apertado, o tipo de abraço que fazia Usopp se sentir a pessoa mais protegida do mundo. — Você só precisa de tempo. E eu sou um homem muito paciente quando o prêmio vale a pena.

Eles ficaram ali por um longo tempo, em silêncio, apenas ouvindo o som do mar e a respiração um do outro. Eventualmente, Zoro a pegou no colo, ignorando os protestos dela de que "podia andar perfeitamente bem", e a levou para o quarto das mulheres.

No dia seguinte, a ilha de destino finalmente apareceu no horizonte. Era uma ilha de outono, com árvores de folhas avermelhadas e um clima fresco.

— Liberdade! — gritou Luffy, saltando do navio antes mesmo de Franky baixar a âncora. — Carne! Aventura!

— Espera, Luffy! — gritou Sanji, correndo atrás dele. — Temos que nos organizar!

Nami suspirou, dando ordens para Robin e Chopper sobre os suprimentos. Franky ficou para cuidar de alguns detalhes técnicos no motor. Usopp estava terminando de ajustar sua bolsa de munições quando sentiu uma mão em seu ombro.

— Vamos? — perguntou Zoro.

— Você não vai se perder se for comigo? — provocou ela, recuperando um pouco de seu brilho habitual.

— Com você, eu sempre encontro o caminho de volta — ele respondeu, com uma sinceridade tão desarmadora que Usopp ficou sem resposta por alguns segundos.

Eles caminharam pela floresta da ilha, longe da confusão dos outros. Usopp falava sobre as plantas que encontrava, explicando como algumas delas poderiam ser transformadas em novos tipos de munição. Zoro ouvia, ocasionalmente fazendo perguntas, apenas para mantê-la falando. Ele percebeu que, quando ela explicava algo que amava, a sombra em seus olhos desaparecia completamente.

— Zoro, olhe aquela ali! — Usopp apontou para uma flor de pétalas azuladas escondida sob uma raiz. — É uma Flor de Lótus do Sono. Se eu conseguir extrair o pólen...

Ela se inclinou para colher a flor, mas tropeçou em uma raiz saliente. Antes que pudesse atingir o chão, os reflexos de Zoro a seguraram. Ele a puxou para cima, mas o impulso os fez cair juntos em um tapete de folhas secas.

Usopp acabou por cima dele, as mãos espalmadas no peito sólido do espadachim. Eles riram por um momento, uma risada genuína e leve. Mas a risada morreu quando seus olhos se encontraram.

O silêncio da floresta era diferente do silêncio do navio. Era mais íntimo, cercado pelo som dos pássaros e pelo cheiro de terra úmida.

— Você está bem? — perguntou Zoro, a mão acariciando o rosto dela, afastando os cachos negros.

— Estou — sussurrou ela. — Sabe, Zoro... hoje a voz está quieta.

— É? E o que ela está dizendo agora?

Usopp sorriu, um sorriso pequeno e radiante que iluminou seu rosto.

— Ela está dizendo que eu tenho muita sorte. E que, talvez, eu não precise ter medo de ser feliz.

Zoro sorriu de volta, um daqueles raros sorrisos que ele guardava apenas para os momentos mais importantes. Ele a puxou para um beijo, e desta vez, não havia hesitação. Havia apenas a certeza de que, não importa o que o futuro reservasse, eles enfrentariam juntos.

Enquanto o sol começava a se pôr, pintando a floresta de dourado, os dois permaneceram ali. O slow burn de sua relação estava longe de terminar, mas a chama agora era constante, quente e segura. Usopp sabia que teria dias difíceis pela frente, que a ansiedade voltaria a bater à sua porta. Mas ela também sabia que, ao abrir essa porta, encontraria um espadachim de cabelos verdes pronto para desembainhar suas espadas contra qualquer demônio que ousasse perturbar a paz de sua atiradora.

E, pela primeira vez em muito tempo, a mentirosa do Thousand Sunny sentiu que não precisava inventar nenhuma história para se sentir uma heroína. Ela era amada. E isso era a maior verdade de todas.