Night of drinking
Pecados em Tailandês e Promessas em Inglês
O silêncio da cobertura de luxo era interrompido apenas pelo som rítmico da chuva que voltava a açoitar as janelas de vidro do chão ao teto, oferecendo uma visão privilegiada, porém embaçada, de Bangkok. Charlotte estava sentada na beira da cama king-size, segurando a cabeça com as mãos, enquanto a ficha de sua nova realidade caía com o peso de uma tonelada. O anel de ouro em seu dedo parecia queimar.
— Meus pais vão ter um colapso — murmurou Charlotte, a voz embargada pela ansiedade crescente. — Eles vão simplesmente surtar, P’Fa. Eu sou a "filha perfeita", a herdeira que estuda direito, a que sempre seguiu cada linha do protocolo Austin. E agora? Eu me casei da noite para o dia com uma mulher que eu acabei de conhecer!
Engfa, que estava terminando de abotoar uma nova camisa de seda — desta vez branca, já que a preta fora arruinada pelo drink de morango —, parou o que estava fazendo. Ela se aproximou da cama, observando a agitação da esposa.
— Charlotte, respire — disse Engfa em tailandês, sua voz mantendo aquela calma absoluta que beirava o intimidador. — Você está divagando de novo.
Mas Charlotte já tinha ultrapassado o limite da calma. O nervosismo agia como um gatilho para sua herança britânica, e as palavras começaram a jorrar em um inglês rápido e polido, carregado com o sotaque de Londres que Engfa tanto detestava.
— *It’s not just about the marriage, Engfa! It’s the fact that you’re a bloody mafia boss! My father deals with international trade law, for heaven's sake! If he finds out I’ve tied myself to someone whose business is... well, morally ambiguous at best, he’ll disinherit me before I can say "I do" again. And you don't even speak English! How am I supposed to introduce you? "Mother, Father, this is my wife, she runs the city's underworld and we need a translator for tea time"? It's mental! Absolutely mental!*
Engfa estreitou os olhos por trás das lentes dos óculos. Ela não entendia as palavras, mas entendia o tom de desespero e, acima de tudo, captou algumas palavras que soavam como autocrítica. Ela caminhou até o bar particular no canto do quarto para pegar um copo de água para a esposa, mas a frustração de Charlotte continuava a ecoar pelo quarto.
— *I’m a disappointment...* — Charlotte continuou, agora com a voz mais baixa, quase chorosa. — *I was supposed to be the pride of the family. Now I’m just a girl who got drunk and married a stranger.*
*Crack.*
O som de vidro se partindo cortou o monólogo de Charlotte. Ela deu um pulo, olhando para a direção do som. Engfa estava parada junto ao bar, os pedaços de um copo de cristal espalhados pelo chão e pela bancada de mármore. Ela não parecia ferida, mas sua expressão era de uma frieza cortante. Ela havia apertado o copo com tanta força que a estrutura cedeu.
— Chega — disse Engfa, voltando a falar em tailandês, cada sílaba pesada como chumbo. — Eu não preciso entender seu inglês para saber que você está falando de si mesma como se fosse um erro.
Engfa caminhou até Charlotte, ignorando os cacos de vidro no chão. Ela parou entre as pernas da jovem e segurou seu queixo com uma firmeza possessiva, forçando-a a olhar em seus olhos.
— Escute bem, Nong Char. Eu não me importo com as expectativas dos Austin. Eu não me importo com o que o seu pai pensa sobre leis ou sobre como as coisas deveriam ser. Você não é uma decepção. Você é minha esposa.
— P’Fa... você quebrou o copo — Charlotte sussurrou, voltando para o tailandês, intimidada e ao mesmo tempo fascinada pela intensidade da mulher.
— Eu compro outro. Eu compro a fábrica de cristais inteira se isso fizer você parar de dizer bobagens — Engfa retrucou, o polegar acariciando o lábio inferior de Charlotte. — Se você está preocupada com dinheiro, herança ou status, esqueça. Eu pagarei qualquer preço. Eu comprarei qualquer coisa que você desejar. Se sua família lhe der as costas, eu construirei um império novo apenas para você se sentar no topo. Esse é o meu pacto com você.
Charlotte sentiu o coração disparar. A devoção de Engfa era sombria, absoluta e terrivelmente sedutora. Não era apenas proteção; era uma reivindicação de alma.
— Você é muito intensa — Charlotte admitiu, as mãos subindo para o peito de Engfa, sentindo os batimentos cardíacos constantes da mafiosa.
— Eu nunca estive com alguém mais novo — Engfa confessou, a voz suavizando levemente, mas sem perder o tom de posse. — Geralmente, as pessoas no meu círculo são... gastas. Cínicas. Mas você... você é perfeita, Charlotte. Você tem essa língua afiada, esse fogo que não se apaga nem quando está morrendo de medo, e essa pureza que eu pretendo guardar a sete chaves.
Engfa inclinou-se mais, o nariz roçando o de Charlotte.
— Ninguém será capaz de tirar você de mim. Nem seus pais, nem a lei, nem o oceano que separa este país daquela ilha de onde você veio. Eu não me importo em quebrar regras. Eu não me importo em fazer coisas que pessoas "comuns" considerariam cruéis ou erradas. Se alguém tentar intervir no que é nosso, eu removerei o obstáculo. Entendeu?
Charlotte engoliu em seco. Ela sabia que as "práticas moralmente duvidosas" de Engfa não eram apenas ameaças vazias. Ela estava casada com uma mulher que moldava a realidade conforme sua vontade. E, para sua própria surpresa, aquela percepção não a fazia querer fugir. Fazia com que ela quisesse se perder ainda mais naquele abraço.
— Você é perigosa, P’Fa — Charlotte murmurou.
— Sou — Engfa sorriu de lado, o pequeno corte no canto da boca se acentuando. — Mas sou sua.
Engfa começou a descer os beijos pelo rosto de Charlotte. Ela parecia ter um mapa mental de cada detalhe da pele da mais nova.
— Eu adoro cada parte de você — Engfa sussurrou contra a pele dela. — Mas isso aqui... isso me deixa obcecada.
Os lábios de Engfa encontraram as sardas no nariz de Charlotte, depositando ali um beijo casto, mas carregado de significado. Depois, ela seguiu para as bochechas, beijando cada pequena mancha acastanhada como se estivesse contando estrelas em um céu particular.
— Minha pequena britânica — Engfa continuou, a voz rouca, movendo-se para o pescoço, onde mais sinais delicados adornavam a pele clara de Charlotte. — Cada marca no seu corpo pertence a mim agora.
Charlotte fechou os olhos, soltando um suspiro longo. O peso do mundo lá fora — as amigas preocupadas no hotel, as chamadas não atendidas de seus pais, o curso de direito, as convenções sociais — tudo começou a evaporar. O toque de Engfa era uma âncora que a prendia ao presente. A forma como a mafiosa a tratava, como algo precioso e ao mesmo tempo como um território conquistado, era viciante.
— Sabe que eu ainda vou te irritar muito falando inglês, não sabe? — provocou Charlotte, sentindo as mãos de Engfa deslizarem para suas costas, puxando-a para mais perto, eliminando qualquer espaço entre elas.
Engfa parou o beijo que dava no ombro de Charlotte e olhou para ela, os olhos escuros brilhando com um misto de desejo e uma paciência perigosa.
— Eu sei. E eu vou encontrar formas cada vez mais criativas de calar você, Nong Char.
— *Try me* — Charlotte sussurrou desafiadoramente, apenas para rir quando Engfa a derrubou suavemente de volta nos travesseiros, cobrindo seu corpo com o dela.
— O que eu disse sobre o inglês? — Engfa rosnou, embora houvesse um brilho de adoração em seu rosto.
— Eu esqueci — mentiu Charlotte, passando os dedos pelos cabelos castanhos de Engfa, retirando os óculos da esposa e colocando-os na mesa de cabeceira. — Por que não me faz lembrar?
Engfa não precisou de um segundo convite. Ela se dedicou a beijar cada sinal, cada sarda e cada centímetro da pele de Charlotte, transformando a manhã de caos em um santuário de luxúria e proteção. Charlotte se entregou às carícias, sentindo-se estranhamente segura no centro do furacão que era a vida de Engfa Waraha.
Lá fora, Bangkok continuava seu ritmo frenético, alheia ao fato de que uma das herdeiras mais cobiçadas da elite estava agora irremediavelmente ligada à mulher mais poderosa e temida da cidade. E, enquanto Charlotte se perdia nos toques de sua P’Fa, ela percebeu que, embora o casamento tivesse sido um acidente regado a whisky barato, a escolha de ficar era a decisão mais lúcida que já havia tomado.
— P’Fa? — Charlotte chamou baixinho, enquanto Engfa traçava desenhos imaginários em sua cintura.
— Hum?
— Não me deixe ir. Mesmo quando eu recuperar o juízo. Mesmo quando meus pais vierem com advogados e ameaças.
Engfa levantou o olhar, a expressão séria e protetora voltando com força total. Ela segurou a mão de Charlotte, entrelaçando seus dedos e fazendo as alianças de ouro se tocarem.
— Eu já disse, Charlotte. O que é de Engfa Waraha, permanece com Engfa Waraha. Você é o meu melhor contrato, e eu nunca quebro meus contratos.
Charlotte sorriu, sentindo-se completa. A vida de estudante de direito em Londres parecia uma memória de outra pessoa. Agora, ela era a Nong Char da mafiosa de Bangkok, e o perigo nunca pareceu tão doce quanto naquele quarto, sob o olhar possessivo de sua esposa.
— Então acho que vou precisar de muitos morangos — Charlotte brincou, tentando aliviar a tensão.
— Eu compro uma plantação para você amanhã — Engfa respondeu com total seriedade, fazendo Charlotte rir e puxá-la para mais um beijo, aceitando que sua vida, a partir daquele momento, seria uma sucessão de excessos, proteção extrema e um amor que desafiava qualquer lógica legal ou moral.
Afinal, em Bangkok, Engfa Waraha era a lei. E Charlotte Austin acabara de se tornar sua cláusula favorita.