O amor impossível
O Peso de uma Coroa de Papel
A manhã na Torre dos Vingadores surgiu com uma névoa densa que abraçava os arranha-céus de Manhattan, mas dentro da cobertura, o clima era de uma tensão elétrica. Clara não havia dormido bem. Cada vez que fechava os olhos, via o rosto de Loki — não o vilão que tentou subjugar a Terra, mas o homem que lia poesia para ela nas sombras da biblioteca de Stark. E agora, havia Leo.
O bebê estava em seu estado mais radiante, alheio aos conflitos interdimensionais que o cercavam. Leo batia as mãos gordinhas na mesa de carvalho da cozinha, tentando alcançar um pedaço de torrada que Pepper tentava, heroicamente, manter longe de seu alcance.
— Ele tem a força de um pequeno asgardiano, Clara — comentou Pepper, com um sorriso cansado, enquanto desviava de um manuseio desajeitado de Leo. — Tony passou a noite inteira revisando os protocolos de segurança. Ele está apavorado, embora nunca vá admitir.
Clara tomou um gole de café, sentindo o calor da caneca aquecer suas mãos trêmulas. Ela vestia um suéter macio e calças confortáveis; sua silhueta curvilínea era um testemunho da vida que ela carregava e nutria, algo que ela aprendera a amar apesar das críticas veladas da sociedade.
— Meu pai acha que pode controlar tudo com tecnologia — disse Clara, observando o filho. — Mas ele não pode controlar o que o Loki vai sentir quando vir o Leo. Nem o que eu estou sentindo.
— E o que você está sentindo? — Pepper perguntou suavemente, colocando a mão sobre a de Clara.
— Como se eu estivesse prestes a abrir uma caixa de Pandora que nunca mais poderá ser fechada.
Momentos depois, o elevador emitiu um sinal sonoro. Tony Stark entrou na sala, parecendo que não dormia há três dias. Ele carregava um tablet holográfico e tinha uma expressão de pura negação.
— Tudo pronto lá embaixo — anunciou Tony, sem preâmbulos. — Eu reforcei o vidro com um campo de força de íons. Se ele tentar qualquer ilusão, o sistema detecta na hora. Clara, você tem certeza disso? Podemos simplesmente... não fazer isso.
Clara levantou-se e pegou Leo no colo. O bebê soltou um "buh!" entusiasmado e agarrou os cabelos castanhos da mãe.
— Ele é o pai, Tony. E ele nos deu a localização da base. Ele cumpriu a parte dele. Agora eu vou cumprir a minha.
O trajeto até os níveis inferiores foi feito em silêncio. Tony as acompanhou até a porta blindada, mas parou ali.
— Eu vou estar na sala de monitoramento — disse ele, a voz subitamente rouca. — Se ele fizer qualquer movimento brusco, Clara...
— Ele não vai, pai.
As portas se abriram. A sala de contenção estava na penumbra, exceto pela luz fria que emanava da cela de Loki. Ele estava de pé, de costas para a porta, olhando para a parede de metal como se pudesse ver através dela. Ele não vestia mais as armaduras douradas ou o couro verde; usava roupas de detento fornecidas pela S.H.I.E.L.D., o que o tornava estranhamente mais humano e, ao mesmo tempo, mais perigoso em sua simplicidade.
Ao ouvir o som dos passos de Clara — e o som inconfundível de um bebê balbuciando —, Loki girou sobre os calcanhares.
O tempo pareceu parar.
Loki ficou estático. Seus olhos verdes, geralmente cheios de sarcasmo e sombras, dilataram-se ao focar na pequena criatura nos braços de Clara. Leo, por sua vez, parou de brincar com o colar da mãe e inclinou a cabeça, observando o estranho atrás do vidro com uma curiosidade solene.
— Pelas normas de Asgard... — sussurrou Loki, sua voz mal passando de um sopro. Ele caminhou lentamente até o vidro, como se tivesse medo de que a visão fosse apenas mais uma de suas próprias ilusões. — Ele é... ele é real.
— Ele é muito real, Loki — disse Clara, aproximando-se até ficar a poucos centímetros da barreira. — Conheça o Leo.
Loki ajoelhou-se no chão da cela para ficar no nível do bebê. Suas mãos, longas e pálidas, tocaram o vidro com uma delicadeza que Clara nunca vira. Leo, encorajado pela proximidade, esticou uma mãozinha gordinha e a pressionou contra o vidro, exatamente onde os dedos de Loki estavam.
— Ele tem os meus olhos — observou Loki, e Clara pôde ver uma lágrima solitária traçar um caminho por seu rosto pálido. — Mas o resto... o resto é todo seu, Clara. Ele tem a sua luz.
— Ele tem o seu temperamento — brincou Clara, embora sua voz estivesse embargada. — Ontem ele ficou bravo porque eu não deixei ele comer o controle remoto. Ele fez uma cara de quem ia conjurar uma adaga a qualquer momento.
Loki soltou uma risada curta e trêmula, encostando a testa no vidro frio.
— Um príncipe de Asgard não deveria comer controles remotos, pequeno tesouro — murmurou ele para o bebê. — Mas a fúria... a fúria é uma herança de família, receio.
Leo soltou um gritinho de alegria e começou a chutar as pernas, animado com a nova interação. O bebê não sentia medo; ele via apenas um rosto que, de alguma forma instintiva, parecia familiar.
— Por que você não me contou, Clara? — A pergunta de Loki veio carregada de uma dor antiga. — Eu teria... eu teria feito as coisas de forma diferente. Eu teria queimado o mundo, se necessário, mas eu estaria lá.
— Esse era exatamente o problema, Loki — respondeu ela com firmeza, ajeitando o peso de Leo. — Você teria queimado o mundo. E eu não queria que o meu filho crescesse nas cinzas. Eu queria que ele tivesse uma chance de ser alguém bom. Sem o peso de uma coroa ou de uma vingança.
Loki olhou para cima, encontrando o olhar de Clara.
— E você acha que ele pode ser bom? Com o meu sangue correndo nas veias dele?
— Eu sei que ele pode. Porque ele também tem o meu sangue. E ele tem o amor de pessoas que se importam com ele.
Loki ficou em silêncio por um longo tempo, apenas observando Leo tentar morder o próprio pé. A vulnerabilidade no rosto do Deus da Trapaça era quase insuportável de assistir. Naquela sala fria, ele não era o monstro de quem os livros falavam; era apenas um homem percebendo a magnitude de tudo o que havia perdido.
— Stark nunca vai me deixar fazer parte da vida dele, não é? — Loki perguntou, sua voz voltando a ter aquele tom cortante, mas agora tingido de resignação.
— Meu pai está projetando um berço de vibranium neste exato momento — disse Clara, dando um meio sorriso. — Ele está apavorado, mas ele ama esse menino mais do que a própria vida. Se você quer estar na vida do Leo, Loki, você vai ter que provar que é mais do que o vilão que eles trancaram aqui.
Loki levantou-se, recuperando um pouco de sua postura real, embora seus olhos nunca deixassem o filho.
— Eu já dei a vocês a localização da base. O que mais eles querem? Minha alma em uma bandeja de prata?
— Eles querem a garantia de que você não vai traí-los assim que as portas se abrirem — disse Clara. Ela hesitou por um momento, então suspirou. — E eu quero saber se o homem que eu amei ainda existe aí dentro, ou se ele foi consumido pelo trono que ele nunca teve.
Loki se aproximou tanto do vidro que sua respiração o embaçou.
— Aquele homem morreu no momento em que você me deixou naquela sacada, Clara. Mas... — ele olhou para Leo, que agora bocejava, encostando a cabeça gordinha no ombro da mãe — ... por ele, eu posso tentar encontrar o caminho de volta. Não pela redenção, pois não acredito nela. Mas por ele.
Clara sentiu um aperto no peito. Ela sabia que não podia confiar plenamente nele, não ainda. Mas ver a forma como Loki olhava para Leo — com uma mistura de adoração e terror — dava a ela uma esperança que ela não sentia há meses.
— O Leo precisa tirar uma soneca — disse ela suavemente, percebendo os olhos do bebê pesarem. — Mas eu vou voltar. E vou trazer fotos. E talvez, se você se comportar e ajudar os Vingadores com as informações sobre os códigos de acesso, eu consiga que o Thor venha aqui. Ele merece saber que tem um sobrinho.
Loki fez uma careta cômica ao mencionar o irmão.
— Thor vai ser insuportável. Ele vai tentar ensinar o menino a brandir um martelo antes mesmo de ele saber andar.
— Provavelmente — riu Clara.
Ela começou a se afastar, mas a voz de Loki a deteve.
— Clara?
Ela parou e olhou para trás.
— Sim?
— Obrigado — disse ele, com uma sinceridade que desarmou qualquer defesa que ela ainda tivesse. — Por não tê-lo escondido de mim. Eu não merecia ver esse rosto, mas... obrigado.
Clara assentiu silenciosamente e saiu da sala. Quando as portas se fecharam, ela encostou as costas na parede do corredor e respirou fundo, sentindo as lágrimas finalmente caírem. Leo dormia tranquilamente em seus braços, um pequeno milagre de paz no meio de uma guerra de deuses e heróis.
Ao subir para a sala comum, ela encontrou Tony esperando por ela perto do elevador. Ele não disse nada de imediato, apenas olhou para a filha e para o neto.
— E então? — Tony perguntou, cruzando os braços. — Ele tentou alguma coisa?
— Ele chorou, pai — disse Clara, passando por ele. — Loki chorou.
Tony ficou em silêncio, processando a informação. Ele sabia que um Loki motivado pelo poder era perigoso, mas um Loki motivado pelo amor por um filho era uma variável que nem mesmo o J.A.R.V.I.S. poderia calcular.
— Vou reforçar a segurança do andar dele — resmungou Tony, seguindo-a. — E Clara... eu mandei instalar uma poltrona confortável naquela sala de observação. Se você vai passar tanto tempo lá embaixo mostrando fotos para aquele projeto de rena, pelo menos não destrua suas costas.
Clara sorriu, sabendo que aquela era a forma de Tony Stark aceitar a situação.
— Obrigada, pai.
Naquela noite, enquanto Clara ninava Leo em seu quarto com vista para as luzes de Nova York, ela sabia que a jornada estava longe de terminar. Loki ainda era um prisioneiro, os inimigos ainda estavam à espreita, e o futuro era uma névoa incerta. Mas, enquanto olhava para os olhos de Leo — os olhos que ele herdara de um deus — ela sentiu que, pela primeira vez, a trapaça tinha sido vencida pela verdade. E a verdade era que, por mais gordinho e pequeno que fosse, Leo era o elo que poderia, finalmente, trazer um pouco de paz para o caos da família Stark-Laufeyson.