o amor problematico
O Labirinto de Vidro e a Claridade Amarga
A ausência de Aleksander era um vazio físico que Clara sentia no centro do peito, como se o fluxo sanguíneo que ela tão bem manipulava tivesse se tornado espesso e lento. Três semanas haviam se passado desde que o General Negro partira para o acampamento de guerra perto da Dobra. Três semanas em que Clara voltou a ser apenas uma sombra nos corredores do Pequeno Palácio, a irmã menos interessante de Zoya, a Grisha que baixava os olhos quando os outros passavam.
Ela se olhou no espelho de seu quarto, ajeitando a túnica azul de Sangria. O tecido parecia mais apertado do que o normal, ou talvez fosse apenas a sua insegurança sussurrando que ela não deveria estar ali. "Gordinha", "desajeitada", "fraca". As palavras de Zoya ecoavam em sua mente como um mantra cruel. Mas então, ela se lembrava do toque de Aleksander. De como as mãos dele, que podiam invocar a escuridão para dilacerar exércitos, percorriam suas curvas com uma adoração que beirava o sagrado.
Ele a via. Ele a queria. E ele voltaria para ela naquela noite.
Clara sentiu um formigamento na ponta dos dedos, um sinal de que sua ansiedade estava começando a subir. Ela respirou fundo, tentando controlar o próprio ritmo cardíaco. Ele enviara uma mensagem curta: "Estarei de volta ao anoitecer. Espere por mim".
O sol começou a se pôr, tingindo as torres de Ravka com tons de laranja e sangue. Clara esperou até que o palácio ficasse em silêncio, até que os passos dos guardas se tornassem rítmicos e previsíveis. Com o coração martelando, ela deslizou pelas passagens secretas, o caminho que ele mesmo a ensinara a percorrer, até chegar às portas de ébano.
Quando entrou no gabinete, o cheiro de Aleksander — sândalo, couro e a frieza da neve — a envolveu imediatamente. Mas havia algo diferente. O ar estava carregado, vibrando com uma energia que ela não reconhecia.
As sombras no canto da sala se agitaram, e Aleksander emergiu delas. Ele parecia exausto. Havia poeira de estrada em suas roupas negras e uma rigidez em sua mandíbula que indicava um mau humor terrível.
— Aleksander... — Clara deu um passo à frente, as mãos estendidas, pronta para aliviar a tensão que emanava dele.
Ele se virou rapidamente. Por um segundo, o olhar gélido e ranzinza que ele reservava para o mundo brilhou em seus olhos, mas, ao reconhecê-la, a expressão suavizou-se instantaneamente. Ele atravessou a sala em três passos largos e a puxou para um abraço quase doloroso, enterrando o rosto no vão do pescoço dela.
— Você está aqui — murmurou ele, a voz mais rouca do que o habitual. — Pelos santos, Clara, este lugar é um inferno sem você.
— Você está tenso — disse ela, as mãos subindo para os ombros dele, sentindo os nós de tensão nos músculos. — O que aconteceu no acampamento? As notícias dizem que houve um ataque...
Aleksander se afastou apenas o suficiente para segurar o rosto dela entre as mãos. O polegar dele traçou o contorno de sua bochecha, um gesto de carinho que contrastava com a tempestade em seus olhos.
— O mundo mudou, Clara. O que eu buscava há séculos... eu finalmente encontrei.
Clara sentiu um frio súbito na espinha. Como Sangria, ela podia sentir o sangue dele acelerar, uma mistura de triunfo e uma irritação profunda.
— O que você encontrou?
— Uma Conjuradora do Sol — disse ele, a palavra saindo como um veredito. — Uma órfã do Primeiro Exército. Alina Starkov.
O nome ecoou no gabinete como um trovão silencioso. Clara sentiu o chão oscilar. Uma Conjuradora do Sol. A antítese de tudo o que Aleksander era. A luz que poderia destruir a Dobra... ou o General.
— Ela está aqui? — perguntou Clara, a voz falhando.
— Sim. Eu a trouxe comigo. Ela está sob guarda pesada em uma das alas nobres. — Aleksander soltou um suspiro irritado, soltando Clara e começando a caminhar de um lado para o outro. — Ela é... teimosa. Não tem ideia do poder que carrega e se recusa a entender a importância de sua posição. Os outros Grishas já estão começando a sussurrar. Zoya já tentou intimidá-la.
Clara sentiu uma pontada de insegurança que a atravessou como uma lâmina. Se havia uma mulher que brilhava literalmente, uma mulher que era a chave para a salvação de Ravka, o que restaria para ela? A irmã invisível, a amante escondida?
— Você vai passar muito tempo com ela, não vai? — A pergunta saiu antes que Clara pudesse contê-la.
Aleksander parou. Ele olhou para Clara e, por um momento, a máscara de General caiu completamente, revelando a frustração pura.
— Terei que treiná-la. Terei que ser o mentor que ela espera. Terei que suportar a luz dela para que possamos finalmente ter paz. — Ele se aproximou de Clara novamente, notando o brilho de lágrimas nos olhos dela. — Por que essa expressão?
— Ela é a luz, Aleksander. E eu... eu sou apenas a Sangria que se esconde no escuro com você.
Ele soltou um som gutural, algo entre um rosnado e um suspiro, e a prensou contra a mesa de carvalho, as mãos prendendo-a pelos quadris.
— Escute-me bem, Clara Nazyalensky. A Conjuradora do Sol é uma ferramenta. Um meio para um fim. Ela é o sol que queima os olhos, mas você... — ele encostou a testa na dela — ...você é o meu descanso. Você é a única pessoa que me permite ser o homem que eu sou, e não o monstro que eles precisam. Não ouse se comparar a uma garota que nem sequer sabe manter a coluna ereta diante de um rei.
— Mas ela é bonita, não é? E magra... e perfeita para o que você precisa projetar para o povo.
Aleksander apertou os dedos na carne das coxas de Clara, um aperto firme que a fez soltar um arquejo.
— Eu não quero perfeição de porcelana, Clara. Eu quero você. Eu quero a sua força, o seu toque que acalma o meu sangue. Eu passei semanas naquele acampamento cercado de idiotas e soldados incompetentes, desejando cada segundo o calor do seu corpo. Se você duvidar do que sinto por você mais uma vez, eu juro que tranco você neste quarto e nunca mais a deixo sair.
A possessividade na voz dele, a forma como ele a olhava — como se ela fosse a única coisa sólida em um mundo de fumaça — fez o coração de Clara disparar por um motivo diferente. Ela estendeu a mão e tocou o peito dele, sentindo o ritmo cardíaco dele se acalmar sob sua influência.
— Você está com dor de cabeça — diagnosticou ela suavemente.
— Aquela garota grita quando se assusta. É irritante — resmungou ele, fechando os olhos e inclinando-se para o toque dela. — E os Apparat não param de falar sobre profecias. Minha paciência está no limite, Clara.
— Venha — disse ela, puxando-o em direção ao quarto interior. — Deixe-me cuidar de você.
No santuário de seda e sombras, o General Negro deixou-se cair na cama, puxando Clara para cima dele. Ele a tratava com uma delicadeza que ninguém acreditaria ser possível. Para o mundo, ele era o homem ranzinza que dava ordens com um olhar gélido; para ela, ele era o homem que desabotoava seu próprio Kefta com mãos trêmulas de cansaço, buscando apenas o conforto do abraço dela.
Clara sentou-se sobre ele, suas mãos pequenas e macias começando a massagear as têmporas dele. Ela usou seu poder de Sangria para dilatar levemente os vasos sanguíneos na base do crânio dele, aliviando a pressão da enxaqueca causada pelo estresse.
— Melhor? — sussurrou ela.
— Hummm — ele murmurou, as mãos subindo pelas costas dela, sentindo a maciez de sua pele sob a túnica. — Você é a única coisa que faz sentido neste palácio de mentiras.
— Aleksander... o que vai acontecer agora? Com ela aqui?
Ele abriu um dos olhos, a escuridão neles parecendo mais profunda.
— Ela será apresentada ao Rei. A corte entrará em frenesi. Zoya provavelmente tentará matá-la de inveja ou de fato. E eu... eu terei que fingir que ela é a coisa mais importante do mundo.
— E eu?
Aleksander a puxou para baixo, forçando-a a deitar-se ao lado dele, cobrindo-os com o edredom pesado. Ele a abraçou por trás, seu corpo grande e quente envolvendo as curvas dela como um escudo.
— Você continuará vindo a mim todas as noites. Você continuará sendo o meu segredo mais precioso. E se alguém, seja a Conjuradora, sua irmã ou o próprio Rei, ousar olhar para você de forma errada, eu farei com que as sombras os devorem vivos.
Clara sentiu uma lágrima solitária escorrer. Ela sabia que o que tinham era perigoso. Sabia que Aleksander Kirigan não era um homem bom. Ele era manipulador, impiedoso e agora tinha em mãos a arma definitiva. Mas, naquele momento, sentindo a respiração dele em seu pescoço e a forma como ele a segurava — como se ela fosse feita de vidro soprado que pudesse se estilhaçar ao menor descuido — ela não conseguia se importar com o resto do mundo.
— Eu vi como Zoya olhou para o seu palanquim quando você chegou — disse Clara em voz baixa. — Ela está orgulhosa de você ter trazido a Conjuradora. Ela acha que isso aumenta o prestígio da nossa família.
— Zoya é uma tola — Aleksander rosnou, o mau humor retornando momentaneamente. — Ela não percebe que a Conjuradora do Sol é uma ameaça ao status quo tanto quanto é uma promessa. E ela certamente não percebe que a irmã que ela tanto despreza é a única razão pela qual eu ainda não mandei este palácio pelos ares.
Ele virou Clara de frente para ele. A luz fraca da lareira refletia nos olhos dele, mostrando uma vulnerabilidade que ele só permitia que ela visse.
— Você se sente insegura por causa dela, Clara? Por causa da luz?
Clara hesitou, mas a honestidade sempre fora a base do que tinham no escuro.
— Ela é o que todos esperavam. Eu sou... apenas eu.
Aleksander soltou uma risada curta e seca, sem humor.
— O que todos esperam é uma ilusão. O que eu tenho com você é real. A luz de Alina Starkov é cega, Clara. Ela não vê as nuances, ela não entende o peso da eternidade. Você entende. Você sente o meu sangue, você conhece a minha escuridão e não foge dela. A luz pode até iluminar o caminho, mas é na sombra que a gente encontra a verdade.
Ele a beijou então. Não foi um beijo suave, mas um beijo carregado de uma fome desesperada, como se ele estivesse tentando provar a si mesmo que ela ainda estava lá, que ela era real. Clara respondeu com a mesma intensidade, suas mãos subindo para o cabelo dele, puxando-o para mais perto.
Naquela noite, as crises de ansiedade de Clara não vieram. O peso do corpo de Aleksander sobre o dela, a possessividade de seus toques e a forma como ele murmurava seu nome entre beijos eram o único remédio que ela precisava.
No entanto, enquanto Aleksander finalmente caía em um sono profundo e sem sonhos, Clara permaneceu acordada por um tempo, observando as sombras dançarem no teto. Ela sabia que a chegada da Conjuradora do Sol mudaria tudo. O equilíbrio de Ravka estava prestes a ser quebrado.
Mas, enquanto sentia o coração de Aleksander batendo contra suas costas, estável e forte sob sua influência silenciosa, ela fez uma promessa a si mesma. Ela não deixaria a luz de Alina Starkov apagar o que eles tinham. Se Aleksander era o monstro das sombras, ela seria a Sangria que manteria o coração desse monstro batendo.
Pois no jogo de luz e sombra que estava prestes a começar, Clara Nazyalensky sabia que a luz mais brilhante era também a que projetava as sombras mais profundas. E era nessas profundezas que ela reinava, absoluta e única, nos braços do homem que o mundo inteiro temia, mas que apenas ela ousava amar.
De manhã, ele seria novamente o General Negro, ranzinza, distante e focado em sua nova "esperança" luminosa. Mas ali, no silêncio da madrugada, ele era apenas Aleksander. E ele era dela.