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o amor problematico

O Eco das Sombras e o Peso da Traição

O Pequeno Palácio nunca pareceu tão sufocante. Para Clara Nazyalensky, cada corredor era um labirinto de sussurros e cada olhar das outras Grishas era uma lâmina afiada. O boato havia se espalhado como fogo em palha seca pelos jardins de Ravka: o General Negro e a Conjuradora do Sol haviam se beijado durante um treinamento privado.

Diziam que a luz e a sombra haviam se fundido em um momento de destino puro. Diziam que Aleksander Kirigan finalmente encontrara sua igual.

Clara apertou o kefta azul contra o corpo, sentindo o tecido repuxar sobre o ventre que, embora ainda discreto para olhos desatentos, já começava a mudar sua silhueta. Ela tentava respirar, mas o ar parecia feito de chumbo.

— Você ouviu, não ouviu, Clara? — A voz de Zoya veio de trás, carregada daquela arrogância magnética que só sua irmã possuía. — Até você, escondida nos cantos, deve ter sentido o tremor. Aleksander e Alina. É a união que Ravka esperava. Finalmente, ele terá alguém à altura, e não precisará se contentar com... distrações.

Clara não se virou. Se o fizesse, Zoya veria as lágrimas. Se o fizesse, seu coração — que ela tanto lutava para acalmar com seu dom de Sangria — poderia simplesmente parar.

— Ele é o General, Zoya. Ele faz o que é necessário pelo país — murmurou Clara, a voz falha.

— Exatamente. E o que é necessário é a luz. — Zoya passou por ela, as sedas de seu kefta de Conjuradora do Vento chicoteando o ar. — Tente não parecer tão deprimida. As pessoas podem começar a achar que você tinha esperanças ridículas.

Quando Zoya se afastou, o mundo de Clara começou a girar. O oxigênio desapareceu. Ela cambaleou até um nicho na parede, as mãos agarrando a pedra fria. O peito subia e descia em espasmos. Era uma crise, a pior que já tivera. O sangue latejava em suas têmporas, e ela sentia cada batimento cardíaco como uma explosão de dor.

Ela precisava dele. Precisava das sombras dele para escondê-la, do toque dele para ancorá-la. Mas Aleksander não estava lá. Ele estava com a luz.

— Respire, pequena Sangria.

Uma mão pesada pousou em seu ombro. Não era o toque frio e familiar de Aleksander. Era Ivan, o braço direito do General, um homem cuja crueldade só era superada por sua lealdade implacável.

— Eu... eu não consigo... — Clara arquejou, as unhas cravando-se na própria palma da mão.

— O General está ocupado com assuntos de Estado — disse Ivan, e havia algo de predatório em seu tom. — Mas ele deu ordens claras sobre o seu potencial. Ele acha que você tem sido negligenciada. Ele quer ver do que uma Nazyalensky "especial" é capaz quando pressionada ao limite.

Clara tentou protestar, mas a tontura a venceu. Antes que pudesse processar as palavras de Ivan, ela foi conduzida não para os aposentos luxuosos de Kirigan, mas para as câmaras de treinamento subterrâneas, onde o cheiro de mofo e sangue antigo impregnava as paredes.

Nas horas que se seguiram, Clara viveu um pesadelo.

Ivan e outros dois Sangrias de elite a cercaram. Eles não a trataram como a protegida do General. Eles a trataram como um espécime.

— O General acredita que sua reserva de poder é vasta, mas bloqueada por sua fragilidade emocional — declarou Ivan, enquanto os outros dois Sangrias usavam seus dons para acelerar o coração de Clara artificialmente. — Ele autorizou o protocolo de exaustão. Se você quer ser útil a ele, deve ser forte.

— Ele... ele autorizou isso? — Clara gritou, enquanto sentia o próprio sangue ferver sob a influência dos outros. A dor era excruciante. — Ele sabe que eu estou aqui?

— Quem você acha que nos deu a chave desta sala? — Ivan mentiu com uma perfeição gélida. — Ele disse que está cansado de sua fraqueza. Ele tem a Conjuradora agora. Ele não tem tempo para cuidar de uma Grisha que mal consegue controlar os próprios nervos.

Aquelas palavras doeram mais do que a manipulação de suas artérias. Clara sentiu algo quebrar dentro de si. A insegurança, que sempre fora uma névoa, tornou-se um abismo. Se Aleksander a entregara a eles, se ele permitia que a torturassem em nome de um "treinamento", então o que eles tiveram no escuro era realmente apenas uma mentira conveniente.

— Por favor... o bebê... — o pensamento cruzou sua mente, mas ela não o verbalizou. Se soubessem, poderiam usar a criança contra ela.

— Mais uma vez! — ordenou Ivan.

Clara foi forçada a manipular o fluxo sanguíneo de dezenas de prisioneiros de guerra trazidos das masmorras, um após o outro, até que suas mãos estivessem manchadas de um suor frio e seus olhos estivessem vermelhos de esforço. Ela sentia cada vida que passava por seus dedos, cada batimento que ela era forçada a acelerar ou parar. O poder dela, que antes era uma canção suave que ela usava para ninar o General, tornou-se um rugido ensurdecedor.

Ela estava sendo drenada. Abusada. E a cada vez que ela fraquejava, Ivan repetia:

— O General espera resultados, Clara. Não o decepcione mais do que já decepcionou.

Enquanto isso, nos andares superiores, Aleksander Kirigan estava em um estado de fúria contida que fazia as sombras do Pequeno Palácio se agitarem como animais enjaulados. Ele não via Clara há dois dias. Desde a discussão no jardim, ela desaparecera de seu radar. Ele tentara encontrá-la, mas o Rei o convocara, e Alina Starkov exigia cada grama de sua paciência com suas perguntas incessantes e sua luz descontrolada.

Ele odiava o boato do beijo. Ele mesmo o incentivara em parte para acalmar o Conselho, mas a ideia de que Clara pudesse ter acreditado naquilo o corroía.

— Onde está Clara Nazyalensky? — perguntou ele a Ivan, quando o Sangria finalmente apareceu em seu gabinete, tarde da noite.

Ivan manteve a expressão neutra.

— Ela se recolheu, General. Disse que não desejava ser perturbada. Parece que a presença da Conjuradora a afetou mais do que o esperado. Ela pediu para ser deixada sozinha para focar em seus deveres.

Kirigan franziu o cenho, o mau humor tornando suas feições quase assustadoras.

— Ela disse isso? Com essas palavras?

— Sim, senhor. Ela parecia... decidida a não ser mais um fardo.

Aleksander sentiu uma pontada de dúvida, mas sua própria arrogância e o cansaço da guerra o cegaram. Ele achou que Clara estava apenas sendo ranzinza, retribuindo o gelo que ele lhe dera.

— Deixe-a — disse ele, embora cada fibra de seu ser quisesse ir até o quarto dela e derrubar a porta. — Se ela quer espaço, que tenha. Mas informe-a que minha paciência não é infinita.

Lá embaixo, nas sombras, Clara desmaiou no chão de pedra, o corpo exausto e a alma estilhaçada.

Três dias se passaram antes que ela tivesse forças para sair das câmaras de treinamento. Ivan a deixara ir com um aviso: "O General está satisfeito com o seu progresso. Continue assim e talvez ele a chame novamente".

Clara caminhava pelos jardins ao anoitecer, a pele pálida, olheiras profundas marcando seu rosto outrora suave. Ela se sentia oca. O poder de Sangria em suas veias parecia agora uma maldição, uma ferramenta de dor que Aleksander aprovava.

Ela parou diante da fonte, olhando para o próprio reflexo. Ela parecia uma estranha. O kefta azul estava sujo e amassado.

— Clara?

A voz dele.

Ela não se mexeu. Aleksander se aproximou, as sombras deslizando pelo gramado à sua frente. Ele parou a poucos passos, a irritação evidente em sua postura.

— Você sumiu. Ivan disse que você queria ficar sozinha, mas isso já passou dos limites da sensatez.

Clara finalmente se virou. Quando Aleksander viu o estado dela, sua expressão mudou instantaneamente. A irritação evaporou, substituída por um choque genuíno e uma preocupação que ele não conseguiu mascarar.

— Pelos Santos... o que aconteceu com você? Você está pálida, está tremendo...

Ele estendeu a mão para tocar o rosto dela, o mesmo gesto de carinho que sempre a desarmava. Mas, desta vez, Clara recuou como se o toque dele fosse brasa viva.

— Não — disse ela, a voz rouca e sem vida.

— Clara, o que é isso? — Aleksander deu um passo à frente, a voz baixando para aquele tom possessivo. — Quem te machucou?

— Você sabe quem, Aleksander. Não finja.

— Do que você está falando? — Ele franziu o cenho, a confusão lutando com a raiva. — Eu estive em reuniões com o Rei, tentando gerenciar o caos que a Conjuradora causou...

— Pare de mentir! — Clara gritou, e o som de sua voz fez os pássaros levantarem voo das árvores próximas. — Ivan me disse. Ele me disse que você autorizou o "treinamento". Ele disse que você estava cansado da minha fraqueza! Que eu era um fardo!

O silêncio que se seguiu foi pesado. Aleksander sentiu o chão sumir sob seus pés.

— Treinamento? Do que você está falando, Clara? Eu não dei ordem nenhuma para Ivan tocar em você.

— Ele tinha as chaves, Aleksander! Ele usou os outros Sangrias para me drenar por três dias! Ele disse que você queria que eu fosse "útil" já que agora você tem a Alina para ser a sua "igual".

A fúria que emanou de Aleksander Kirigan naquele momento foi algo que Clara nunca vira. Não era apenas a escuridão; era um vácuo de poder que parecia sugar toda a luz do jardim. As árvores ao redor murcharam e a água da fonte congelou em um instante.

— Ivan... fez o quê? — A voz dele era um sussurro de morte.

— Ele disse que você sabia — soluçou Clara, as pernas cedendo. — Ele disse que você me entregou a eles porque eu não era mais necessária. Que o beijo com a Alina mudou tudo.

Aleksander a amparou antes que ela caísse, puxando-a para o peito com uma força desesperada. Desta vez, ele não permitiu que ela recuasse.

— Ouça-me — disse ele, segurando o rosto dela com as duas mãos, forçando-a a olhar nos olhos dele. — Eu nunca, jamais, daria tal ordem. Eu mataria qualquer um que ousasse tocar em um fio de cabelo seu sem a minha permissão. Ivan mentiu para você. Ele agiu pelas minhas costas, talvez achando que estava me "ajudando" a eliminar uma distração, ou talvez por pura crueldade.

Clara olhou para ele, as lágrimas nublando sua visão.

— Mas e a Alina? O beijo... todos estão falando...

— Foi um erro tático! — Aleksander rugiu, a frustração explodindo. — Um momento de encenação que ela interpretou mal e que a corte transformou em um épico! Eu não a beijei por desejo, Clara. Eu a beijei porque preciso que ela confie em mim para que eu possa usar o poder dela e acabar com esta guerra!

Ele a abraçou com tanta força que ela mal conseguia respirar, mas, pela primeira vez em dias, Clara sentiu o calor voltando ao seu corpo.

— Eu vou matar Ivan — prometeu Aleksander, a voz vibrando de uma promessa sombria. — Eu vou fazê-lo implorar por uma morte rápida por ter ousado usar o meu nome para ferir você.

— Aleksander... — Clara tentou falar, mas a exaustão a estava vencendo.

— Shhh. Eu cuido de você. Como eu sempre faço.

Ele a pegou nos braços, carregando-a como se ela fosse a coisa mais preciosa de Ravka. Ele a levou para seus aposentos privados, ignorando os olhares dos guardas e dos outros Grishas que os viam passar. O General Negro não se importava mais com segredos naquela noite.

Ele a deitou em sua cama de seda e, com uma delicadeza que contrastava violentamente com a fúria de momentos antes, começou a limpar as feridas e o suor do rosto dela. Ele usou suas próprias mãos para massagear os músculos tensos dela, sentindo a fragilidade de seu corpo.

— Você está tão magra — murmurou ele, a voz carregada de culpa. — O que eles fizeram com você?

Clara fechou os olhos, sentindo o ritmo cardíaco dele. Estava acelerado, furioso, mas por ela. Não por Alina. Não por Ravka. Por ela.

— Eles queriam que eu fosse forte — sussurrou ela. — Mas eu só conseguia pensar em como eu queria que você me salvasse.

Aleksander encostou a testa na dela.

— Eu sempre vou te salvar, Clara. Mesmo que eu tenha que queimar este palácio até as cinzas para te encontrar.

Clara respirou fundo, o cheiro de sândalo e sombras a envolvendo. Ela sabia que Ivan pagaria um preço terrível, mas a dúvida ainda pairava em seu coração. Aleksander era um homem de muitas faces, e a face que ele mostrava a Alina ainda a assombrava.

Mas então, ela sentiu a mão dele descer para a sua cintura, parando sobre o seu ventre. Foi um gesto inconsciente dele, apenas querendo estar perto dela, mas Clara sentiu o feto se agitar, uma pulsação minúscula que só uma Sangria poderia detectar.

Aleksander parou. Seus olhos se arregalaram. Como um Conjurador de Sombras, ele não tinha o dom de sentir o sangue, mas ele era sensível à vida, à energia. E ali, sob sua palma, havia uma centelha que não existia antes. Uma centelha que carregava o eco de sua própria escuridão.

Ele olhou para Clara, o choque em seu rosto sendo substituído por uma compreensão avassaladora.

— Clara... — a voz dele falhou, algo que ela nunca pensou ser possível. — O que é isso?

Clara sustentou o olhar dele, a insegurança finalmente dando lugar a uma coragem nascida da dor.

— É o motivo pelo qual eu não podia morrer naquela sala de treinamento — disse ela. — É o seu herdeiro, Aleksander. O filho das sombras.

O General Negro, o homem que não se curvava a ninguém, caiu de joelhos ao lado da cama. Ele encostou o rosto no ventre de Clara, e ela sentiu os ombros dele tremerem. Não era tristeza. Era um peso de séculos sendo transformado em algo novo.

— Eu vou matar todos eles — ele jurou novamente, mas desta vez a voz era um sussurro de proteção absoluta. — Ninguém mais tocará em você. Nem a Conjuradora, nem sua irmã, nem o destino. Vocês são meus. E eu sou o monstro que guardará o seu sono.

Naquela noite, as sombras não apenas esconderam Clara; elas a coroaram. E enquanto Aleksander Kirigan velava o sono da mulher que carregava seu futuro, ele sabia que a luz de Alina Starkov era apenas uma vela diante do incêndio que ele estava disposto a causar por Clara.

A guerra estava longe de terminar, e as mentiras de Ivan eram apenas o começo das traições que viriam. Mas no silêncio do quarto do General, a Sangria e o Mestre das Sombras haviam selado um pacto de sangue que nem mesmo o sol poderia quebrar.

— Durma, minha rainha — sussurrou Aleksander, beijando-lhe a testa. — Amanhã, o mundo saberá o que acontece quando alguém tenta roubar o que pertence às sombras.

E pela primeira vez em muito tempo, Clara Nazyalensky dormiu sem medo, sabendo que, embora o mundo a visse como imperfeita, para o homem mais poderoso de Ravka, ela era o único universo que importava.