O Assassino das Noivas
Sombras sob o Altar de Pedra
O silêncio que se seguiu à prisão do sacristão era pesado, carregado com o cheiro acre de pólvora e o perfume adocicado e enjoativo dos lírios que ainda decoravam o altar. Ichabod Crane permanecia sentado no chão frio da igreja, as mãos pálidas repousando sobre os joelhos, enquanto observava Brom Bones e os outros homens arrastarem o prisioneiro para fora. A luz das tochas projetava sombras grotescas e alongadas contra as paredes de pedra, fazendo com que os santos esculpidos parecessem observar a cena com um julgamento silencioso e severo.
Ichabod sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ele ajeitou o colarinho de seu casaco escuro, um gesto nervoso e mecânico, enquanto tentava organizar seus pensamentos. A lógica, sua fiel companheira, parecia ter sido estilhaçada pela brutalidade fanática que acabara de testemunhar.
— Ichabod, você está pálido como um espectro — disse Katrina, sua voz suave quebrando o transe do investigador. Ela permanecia ao lado dele, a capa branca agora manchada de poeira e fuligem, mas seus olhos castanhos brilhavam com uma preocupação genuína.
— Eu... eu temo que minha constituição não tenha sido feita para tais exaltações físicas, Katrina — respondeu ele, aceitando a mão que ela lhe estendia para ajudá-lo a levantar. Suas pernas ainda pareciam feitas de papel, e ele precisou se apoiar nela por um breve momento, sentindo o calor de seu corpo contra o frio de suas roupas úmidas.
— Você foi heróico — sussurrou ela, aproximando-se o suficiente para que Ichabod sentisse o aroma de lavanda que emanava de seus cabelos loiros. — Usou sua mente para desarmar um homem que não possuía alma.
Ichabod soltou um suspiro trêmulo, ajeitando o cabelo preto que caía desalinhado sobre seu rosto fino.
— Não foi heroísmo, Katrina. Foi... desespero científico. — Ele olhou para o altar, onde o rosário manchado de sangue ainda repousava. — Aquele homem... ele acreditava estar salvando você. Ele via o amor, ou qualquer afeição humana, como uma mancha. Como alguém pode distorcer a fé a ponto de transformá-la em um cutelo de carniceiro?
Katrina desviou o olhar para as janelas de vitral, onde a primeira luz cinzenta da manhã começava a se infiltrar.
— Em Sleepy Hollow, Ichabod, as linhas entre o sagrado e o profano são tão tênues quanto a névoa que cobre nossas estradas. O medo faz com que os homens busquem controle, e alguns buscam esse controle na destruição da beleza.
Ichabod caminhou lentamente até sua maleta de instrumentos, que jazia aberta no chão. Ele começou a recolher seus frascos e ferramentas de medição com dedos trêmulos. Cada objeto metálico produzia um tilintar que ecoava na nave vazia da igreja.
— Eu preciso documentar tudo — murmurou ele, mais para si mesmo do que para ela. — O ângulo da corda, a composição das pétalas... se eu puder transformar isso em um relatório, em fatos frios e objetivos, talvez eu consiga dormir sem ver o rosto daquele homem em meus sonhos.
— Você sempre busca refúgio nos seus livros e frascos — observou Katrina, caminhando até ele e colocando uma mão gentil sobre seu ombro. — Mas a lógica não explica por que seu coração batia tão forte quando ele se aproximou de mim.
Ichabod parou o que estava fazendo. Ele olhou para cima, encontrando o olhar penetrante de Katrina. Sua vulnerabilidade era evidente; ele era um homem que temia o sobrenatural, mas temia ainda mais a intensidade de seus próprios sentimentos.
— Eu não suportaria... — ele começou, sua voz falhando. — Se algo acontecesse a você por causa da minha presença aqui, ou por causa do que... do que sentimos, eu não teria mais razão para acreditar em nada. Nem na ciência, nem na justiça.
— Então não tema pela minha alma, Ichabod — disse ela, com um sorriso triste e doce. — Tema apenas pelo tempo que perdemos nos escondendo de nós mesmos.
Um barulho na entrada da igreja os interrompeu. Brom Bones retornou, sua figura imponente preenchendo o portal. Ele olhava para Ichabod com uma mistura de desprezo e uma relutância em admitir que o "homem da cidade" tivera algum papel na captura.
— O louco está trancado nas celas do magistrado — anunciou Brom, sua voz grossa ressoando nas vigas de madeira. — Ele não para de balbuciar passagens da Bíblia e maldições contra você, Crane. Diz que você é um emissário do inferno disfarçado de mestre de leis.
Ichabod endireitou a postura, tentando recuperar sua dignidade aristocrática, apesar do suor que ainda brilhava em sua testa pálida.
— As opiniões de um maníaco dificilmente me preocupam, Sr. Van Brunt — respondeu Ichabod, embora suas mãos tivessem voltado a tremer levemente dentro dos bolsos do casaco. — Minha única preocupação é que a ordem seja restaurada e que as famílias das vítimas possam encontrar algum consolo na justiça dos homens.
Brom soltou uma risada ruidosa e seca.
— Justiça? Em Sleepy Hollow, a justiça geralmente vem com uma lâmina ou uma corda, não com papéis e selos de cera. Mas admito... o truque da luz foi impressionante. Por um momento, achei que o próprio diabo tivesse subido pelo assoalho.
— Foi apenas uma reação química controlada — explicou Ichabod, recuperando um pouco de seu tom professoral. — O fósforo branco, quando exposto ao...
— Poupe-me da aula, Crane — interrompeu Brom, lançando um olhar possessivo para Katrina. — Katrina, seu pai está preocupado. A vila não é segura à noite, mesmo com o sacristão atrás das grades. Deixe-me escoltá-la de volta.
Katrina olhou de Brom para Ichabod. O contraste entre os dois homens era absoluto: um representava a força bruta, a tradição e a segurança física; o outro representava a fragilidade, a inteligência inquieta e uma doçura que ela nunca encontrara em nenhum outro lugar.
— Agradeço sua oferta, Brom — disse ela, sua voz calma mas firme —, mas o Sr. Crane ainda tem investigações a concluir aqui, e eu prometi ajudá-lo com as traduções das páginas bíblicas encontradas. Voltaremos juntos em breve.
Brom franziu a testa, a mandíbula cerrada. Ele lançou um olhar gélido para Ichabod antes de girar sobre os calcanhares e sair da igreja sem dizer mais uma palavra.
O silêncio que retornou parecia mais leve, mas ainda carregado de uma tensão não resolvida. Ichabod aproximou-se do altar novamente, desta vez com mais cautela. Ele pegou uma das páginas bíblicas que o assassino havia deixado para trás.
— Veja isto, Katrina — disse ele, apontando para a caligrafia nas margens da página. — Não são apenas citações. Há anotações. Ele estava observando todas as mulheres da vila. Há datas... e nomes.
Katrina aproximou-se, lendo por cima do ombro dele.
— Ele tinha uma lista — murmurou ela, o horror crescendo em sua voz. — Ele planejava isso há meses.
— E aqui — Ichabod sentiu um nó na garganta enquanto apontava para a última entrada —, o seu nome, Katrina. Escrito em tinta vermelha. Ele acreditava que o festival de outono seria o momento da sua... "ascensão".
Katrina estremeceu, e Ichabod, em um impulso raro de coragem física, envolveu os ombros dela com o braço. Ela se encostou nele, buscando o conforto de sua presença.
— Ele achava que o casamento era o fim da pureza — disse Katrina, a voz abafada contra o casaco dele. — Ele via a união entre duas pessoas como algo sujo. Ichabod... você acha que ele estava certo sobre o mundo ser um lugar sombrio?
Ichabod olhou para as mãos de Katrina, tão pequenas e delicadas, e depois para o rosto dela, que permanecia belo mesmo sob a luz pálida e doentia da manhã.
— O mundo é, de fato, cheio de sombras e horrores que a minha ciência mal consegue catalogar — admitiu ele suavemente. — Mas enquanto houver uma única luz, por mais frágil que seja, as sombras não podem vencer. Você é essa luz para mim, Katrina.
Ela levantou o rosto, e por um momento, o tempo pareceu parar. O cheiro de morte e fanatismo que impregnava a igreja foi substituído pela promessa silenciosa entre os dois. Ichabod inclinou-se, sua timidez lutando contra o desejo, e tocou os lábios dela com os seus em um beijo que era, ao mesmo tempo, um pedido de desculpas e uma declaração.
Quando se afastaram, Ichabod estava mais corado do que Katrina jamais o vira. Ele pigarreou, ajeitando o casaco com movimentos rápidos e desajeitados.
— Nós... nós devemos ir — disse ele, voltando a pegar sua maleta. — O magistrado Philipse precisará do meu relatório preliminar, e eu suspeito que o Sr. Van Tassel não ficará satisfeito se demorarmos mais.
— Sim — concordou Katrina, um brilho travesso voltando aos seus olhos. — Mas antes, Ichabod, você precisa prometer uma coisa.
— Qualquer coisa — respondeu ele prontamente.
— Pare de tentar explicar tudo com a ciência. Algumas coisas em Sleepy Hollow... e algumas coisas entre nós... não precisam de fórmulas. Elas precisam apenas de fé.
Ichabod abriu a boca para argumentar que a fé era precisamente o que levara o sacristão à loucura, mas ao ver o sorriso de Katrina, ele a fechou. Ele apenas assentiu, oferecendo-lhe o braço com uma elegância antiquada.
Eles saíram da igreja para encontrar a névoa se dissipando sob o sol nascente. O caminho de volta para a mansão Van Tassel estava lamacento e difícil, mas pela primeira vez desde que chegara àquela vila amaldiçoada, Ichabod Crane não sentia que estava fugindo de algo. Pelo contrário, ele sentia que, finalmente, estava caminhando em direção a algum lugar.
Enquanto caminhavam, Ichabod não pôde deixar de notar um pequeno lírio branco crescendo na beira da estrada, intocado pela violência da noite anterior. Ele parou por um segundo, olhando para a flor.
— É apenas uma planta, Ichabod — disse Katrina, percebendo sua hesitação. — Um lírio é apenas um lírio, a menos que você escolha dar a ele outro significado.
— Eu sei — disse ele, voltando a caminhar. — Mas, por precaução... creio que prefiro as rosas. Elas têm espinhos para se defender.
Katrina riu, um som cristalino que parecia afastar os últimos resquícios do horror que haviam vivido. E assim, o investigador e a jovem bruxa seguiram pela estrada, dois seres deslocados que haviam encontrado, no meio da morte e da loucura, uma razão para acreditar na vida. O mistério do assassino dos lírios estava resolvido, mas Ichabod sabia que os mistérios de Sleepy Hollow — e os do seu próprio coração — estavam apenas começando a se revelar.