O Cheiro da Traição
O Amargor das Cinzas e o Silêncio do Ninho
O ar no dormitório do Stray Kids nunca pareceu tão rarefeito. Para Aaron, cada respiração era um esforço consciente, um lembrete doloroso de que ele ainda estava vivo, apesar de sentir que sua alma havia sido arrancada e pisoteada no tapete da sala de estar. O cheiro de gengibre e frutas cítricas, que antes era uma assinatura de vigor e proteção, agora estava pesado, denso e terrivelmente amargo, impregnando as paredes como fumaça de um incêndio que ninguém sabia como apagar.
Aaron se trancou em seu quarto, mas as paredes pareciam estar se fechando. Ele se sentou no chão, as costas pressionadas contra a madeira fria da porta, os joelhos puxados contra o peito largo. O silêncio do lado de fora era pior do que qualquer grito. Ele conseguia ouvir os sussurros abafados, os passos hesitantes no corredor e o som ocasional de alguém chorando — provavelmente Felix ou Jeongin. Mas ele não conseguia se importar. A fonte de sua empatia, de seu instinto de cuidado que sempre o definira, parecia ter secado.
Nas horas que se seguiram àquela cena devastadora, a realidade começou a se assentar como poeira sobre móveis velhos. Ele olhou ao redor do quarto e viu os vestígios de uma vida dedicada aos outros. No canto, a prateleira com os suplementos vitamínicos que ele comprava para Changbin e Bang Chan; no armário, os moletons extras que ele sempre mantinha lavados e cheirosos para quando os mais novos ficassem carentes durante seus períodos de pré-cio. Ele fora o "Pack Omega" em tudo, menos no título oficial. Ele cuidara das febres de Han, das inseguranças de Seungmin, das exaustões de Hyunjin...
Hyunjin.
O nome era como um espinho cravado em sua garganta. Aaron fechou os olhos e viu novamente a cena: a delicadeza de Hyunjin, a forma como ele se encaixava perfeitamente no colo de Chan, como se tivesse sido esculpido para aquele lugar. E ele, Aaron, com seus quase dois metros de altura e ombros que mal passavam pelas portas, sempre fora o escudo, nunca a joia. Ele fora o apoio, nunca o desejo.
Uma batida suave na porta o tirou de seus pensamentos sombrios.
— Aaron hyung? — A voz de Hyunjin era pequena, trêmula e carregada de uma doçura que agora soava como veneno. — Por favor, abre a porta. Eu... eu nunca quis que fosse assim. Eu sinto muito, de verdade. Eu não sabia que você ia chegar hoje com... com aquilo.
Aaron não se moveu. Ele nem sequer abriu os olhos. O pedido de desculpas de Hyunjin era uma ofensa à sua dor. "Eu não sabia", ele dissera. Como se o fato de Aaron estar presente ou não mudasse a traição que vinha sendo cozida em banho-maria há meses sob o teto que compartilhavam.
— Vá embora, Hyunjin — disse Aaron, sua voz saindo rouca, desprovida de qualquer emoção. — Não há nada para você explicar. Você conseguiu o que queria. O alfa é seu. O lugar é seu.
— Não é assim, hyung! — Hyunjin parecia estar chorando agora. — Nós todos amamos você. Você é parte da matilha!
Aaron soltou uma risada seca e sem vida que fez o outro lado da porta silenciar por um momento.
— Parte da matilha? — Aaron falou mais para si mesmo do que para o outro. — Eu fui o empregado da matilha. O enfermeiro. O segurança. Mas nunca fui o ômega de ninguém. Se eu fosse realmente parte de algo, vocês não estariam comemorando o meu descarte como se fosse um feriado nacional.
Passos rápidos se aproximaram da porta. Aaron reconheceu o peso da caminhada de Bang Chan. O líder, o homem que ele amou por uma década, agora estava ali, provavelmente para tentar "consertar" o que não tinha conserto.
— Aaron, saia daí — a voz de Chan era firme, mas havia uma nota de desespero nela. — Precisamos conversar como adultos. O que aconteceu na sala... eu fui fraco em não te contar antes, mas meus sentimentos por Hyunjin não apagam o que vivemos.
— O que vivemos? — Aaron finalmente se levantou, abrindo a porta com uma violência que fez Chan e Hyunjin recuarem.
Aaron estava descalço, vestindo apenas uma calça de moletom, seu torso musculoso e imponente fazendo os outros dois parecerem frágeis diante dele. Mas seus olhos verdes estavam vermelhos e inchados, e seu aroma de gengibre estava tão ácido que queimava as narinas de Chan.
— Dez anos, Christopher — disse Aaron, ignorando Hyunjin completamente, focando apenas no alfa. — Dez anos sendo seu porto seguro. Eu segurei sua mão quando você achou que o grupo ia fracassar. Eu cuidei de você quando você não comia por dias no estúdio. Eu esperei por uma marca que você prometeu quando ainda éramos trainees. E você me trocou pelo primeiro rosto bonito e delicado que te olhou com adoração.
— Não é só a aparência, Aaron! — Chan tentou se defender, mas sua voz falhou sob o olhar gélido do ômega dominante.
— Claro que é — Aaron sorriu tristemente, um gesto que não alcançava seus olhos. — É sobre o papel que você quer que eu desempenhe. Você nunca quis um parceiro, você queria uma ferramenta. E agora que você quer conforto e alguém para proteger, você escolheu o Hyunjin, porque eu... eu sou grande demais para ser protegido, não é? Eu sou forte demais para precisar de você.
Ele olhou para o corredor, onde os outros membros estavam parados, observando a cena com expressões de culpa e medo. Felix tinha o rosto escondido no ombro de Changbin; Seungmin olhava para o chão, incapaz de encarar Aaron.
— E vocês — Aaron disse, sua voz ganhando uma força amarga. — Meus filhotes. Eu limpei o suor de vocês, eu ouvi seus segredos, eu comprei presentes com o dinheiro que eu deveria ter gasto comigo, só para ver um sorriso no rosto de cada um. Eu achei que éramos uma família. Eu achei que eu era o Luna de vocês.
— Você é, Aaron! — Han gritou, as lágrimas escorrendo livremente. — Você sempre vai ser!
— Não, Jisung. Lunas são amados. Lunas são respeitados. Vocês me trataram como um móvel confortável. Algo que sempre estaria lá, não importa o quanto fosse negligenciado. Vocês viram ele se afastando de mim e ninguém disse nada. Vocês viram ele se aproximar do Hyunjin e incentivaram.
O silêncio que se seguiu foi a confirmação que Aaron não queria, mas precisava. Ele viu a verdade nos olhos de cada um deles. Eles preferiam a harmonia do novo casal à complexidade de um relacionamento de dez anos que estava desmoronando. Era mais fácil aceitar a troca de Aaron por Hyunjin do que confrontar o líder.
— Eu sou insuficiente — Aaron sussurrou, e a admissão pareceu quebrar o resto de sua resistência. — Eu sou inadequado para este mundo de vocês. Um ômega dominante é apenas um erro genético para um alfa que só quer um troféu delicado.
— Aaron, por favor, não diga isso — pediu Jeongin, dando um passo à frente, mas parando quando Aaron levantou a mão.
— Não chegue perto, Jeongin. Meu cheiro está amargo agora, não está? Não é doce como o do Hyunjin. Não é convidativo. É apenas... eu.
Aaron voltou para dentro do quarto e começou a pegar uma mala, jogando suas roupas de qualquer jeito. O pânico se instalou no corredor.
— O que você está fazendo? — Chan entrou no quarto, tentando segurar o braço de Aaron. — Você não pode ir embora. Temos o comeback, temos as promoções, você faz parte do grupo!
Aaron se soltou com facilidade, sua força física sendo um lembrete cruel de sua dominância.
— Eu vou para um hotel. Depois falarei com o empresário sobre um dormitório individual ou um apartamento. Eu cumprirei minhas obrigações profissionais, Christopher. Mas eu não sou mais seu. E eu certamente não sou mais o "mãe" deste grupo.
— Aaron, a gente te ama! — Felix soluçou, aproximando-se da porta.
Aaron parou por um segundo, segurando a alça da mala. Ele olhou para Felix, o garoto que ele tantas vezes consolou durante as madrugadas de saudade da Austrália. O coração de Aaron doeu, uma pontada final de um instinto que ele estava tentando matar.
— Se me amassem, Felix, não teriam feito um banquete sobre as cinzas do meu relacionamento. Se me amassem, teriam tido a decência de serem honestos comigo.
Ele passou pelos membros como um gigante ferido. Cada um deles tentou um toque, um olhar, um pedido de desculpas, mas Aaron era agora uma muralha de gelo e gengibre amargo. Ele não olhou para trás quando chegou à porta principal do dormitório.
Ao sair, ele sentiu o vento frio da noite atingir seu rosto, secando as lágrimas que ele se recusava a deixar cair na frente deles. Pela primeira vez em dez anos, ele não tinha um destino, não tinha um alfa e não tinha uma matilha.
Ele caminhou até o elevador, mas antes que as portas se fechassem, ele viu a imagem de todos eles no corredor, parados, pequenos e perdidos. Chan estava no centro, a caixinha de veludo preto ainda em sua mão, parecendo finalmente perceber o peso do que havia jogado fora.
Aaron apertou o botão do térreo. Enquanto o elevador descia, ele sentiu sua própria marca — não a de um alfa, mas a da solidão — queimar em seu peito. Ele sempre fora grande demais para aquele lugar, e talvez, apenas talvez, o mundo lá fora fosse vasto o suficiente para um ômega que não precisava de flores para ser real.
Mas, por enquanto, ele apenas chorou. Seus ombros largos tremeram sob o peso de um luto que dez anos de amor não puderam evitar. Ele era Aaron Malik, o ômega dominante que ninguém soube amar, e o silêncio do corredor que ele deixou para trás era o único aplauso que ele recebeu por sua partida.