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O contrato

O Eco das Cinzas e o Despertar do Vidro

A manhã seguinte ao coquetel da Fundação Lovelace não trouxe a paz que o silêncio do apartamento de luxo costumava oferecer. Pelo contrário, o ar parecia denso, saturado com o resíduo de um beijo que não deveria ter acontecido e palavras que não poderiam ser retiradas. Christine estava na cozinha, as mãos envolvendo uma caneca de chá que já havia esfriado, observando a luz gélida de Manhattan filtrar-se pelas janelas panorâmicas.

Ela ainda podia sentir a pressão das mãos de Leona em sua cintura e o gosto de champanhe e desafio que definira aquele momento na varanda. O contrato era claro: uma farsa. Mas o que aconteceu entre as colunas de mármore do museu não teve nada de contratual. Foi uma explosão de necessidade pura e acumulada.

O som de passos firmes ecoou pelo corredor. Christine não precisou se virar para saber que Leona estava lá. O perfume de sândalo e a aura de autoridade inabalável a precediam.

— Você está acordada cedo — disse Leona, sua voz soando perfeitamente controlada, como se a noite anterior tivesse sido apenas um relatório de lucros e perdas. — Temos uma reunião com o conselho da Lovelace em duas horas. Espero que o seu "entusiasmo" de ontem tenha sido guardado em uma caixa. Hoje precisamos de profissionalismo, não de espetáculos.

Christine virou-se lentamente, apoiando-se na bancada de mármore. Leona estava impecável em um terno azul-marinho, o cabelo preso em um coque tão firme que parecia uma extensão de sua disciplina.

— Espetáculo? — Christine soltou uma risada seca. — Foi você quem me prensou contra a balaustrada, Leona. Foi você quem transformou a "performance" em algo que quase nos fez ser presas por atentado ao pudor. Não tente colocar isso na minha conta.

Leona caminhou até a cafeteira, seus movimentos precisos escondendo a tensão que Christine sabia que existia sob aquela pele de porcelana.

— Eu fiz o que era necessário para selar o acordo com Arthur — afirmou Leona, servindo-se de café preto. — Marcus estava nos observando. Se ele tivesse a menor dúvida de que nossa relação é real, ele usaria isso para me destruir. Eu apenas garanti que ele fosse dormir com a certeza da derrota.

— Mentira — rebateu Christine, dando um passo à frente, invadindo o espaço que Leona tanto protegia. — Marcus já tinha ido embora quando você me beijou daquela forma. Não havia câmeras, não havia acionistas. Havia apenas nós duas. Por que você não admite, pelo menos uma vez, que sentiu algo que não consegue controlar?

Leona deixou a xícara sobre a bancada com um estalo que ecoou pela cozinha. Ela se virou para Christine, os olhos gélidos faiscando com uma faísca perigosa.

— Controle é a única coisa que me mantém viva neste mundo, Christine. Eu não sinto "coisas". Eu tomo decisões. E a decisão de ontem foi puramente tática. Se você começou a confundir a ficção com a realidade, o problema é seu, não meu.

— Você é uma mentirosa brilhante, Leona. Mas eu vi seus olhos na varanda. Vi o jeito que você me olhou no espelho antes de sairmos. Você está apavorada porque, pela primeira vez na vida, encontrou algo que não pode comprar com o seu dinheiro ou esmagar com o seu poder.

Leona deu um passo em direção a Christine, a proximidade fazendo o ar vibrar.

— Você acha que me conhece? — sussurrou Leona, a voz carregada de uma ameaça sedutora. — Você é apenas uma assistente que eu contratei para um serviço sujo. Não confunda a minha tolerância com intimidade.

— Então por que suas mãos estão tremendo agora? — perguntou Christine, baixando o olhar para os dedos de Leona, que se fechavam em punhos ao lado do corpo.

Leona recuou como se tivesse sido queimada. Ela ajeitou o paletó, recuperando a máscara de frieza absoluta em um piscar de olhos.

— Esteja no carro em dez minutos. E Christine... — Leona parou na saída da cozinha, sem olhar para trás. — Use o anel de noivado. O diamante é grande o suficiente para lembrar a todos, inclusive a você, que isso é apenas um investimento.

***

A reunião na Lovelace Enterprises foi um triunfo. Leona Blair, a "mulher redimida pelo amor", navegou pelas perguntas dos acionistas com uma destreza invejável. Ela usava Christine como um escudo e uma arma, tocando sua mão ocasionalmente, trocando olhares cúmplices que pareciam transbordar afeto. Christine, por sua vez, desempenhou seu papel com uma perfeição dolorosa, sentindo cada toque de Leona como uma cicatriz em formação.

Ao final do dia, o escritório de Leona na nova empresa já estava montado. Era amplo, com vista para o Central Park, mas mantinha a mesma frieza minimalista de seu apartamento.

— Arthur quer que passemos o fim de semana na casa de campo dele em Connecticut — disse Leona, fechando o laptop assim que a última secretária saiu. — Ele quer que "conheçamos a família".

— Mais teatro? — suspirou Christine, massageando as têmporas. — Leona, eu estou exausta. Minha mãe teve uma crise ontem à noite e eu mal consegui falar com a enfermeira porque estava ocupada fingindo que adorava o jeito que você toma uísque.

Leona parou o que estava fazendo. Por um breve momento, a dureza em seu rosto vacilou.

— Como ela está? — perguntou, a voz desprovida do veneno habitual.

— Estável. Mas ela sente minha falta. E eu me sinto um lixo mentindo para ela sobre onde estou e com quem estou. Ela acha que eu encontrei o amor da minha vida, Leona. Ela reza por você todas as noites.

Leona desviou o olhar para a janela. O sol estava se pondo, pintando o céu de Nova York com tons de laranja e roxo.

— Eu já providenciei a transferência dela para a clínica na Suíça — disse Leona, a voz baixa. — O jato particular estará pronto na segunda-feira. Ela terá os melhores médicos do mundo. Esse é o nosso acordo, Christine. O preço da sua mentira é a vida dela. Vale a pena, não vale?

— Às vezes eu me pergunto se você tem um coração ou apenas uma planilha de custos no lugar dele — respondeu Christine, aproximando-se da mesa de Leona. — Você fala de vidas humanas como se fossem transações bancárias.

— Porque elas são — retrucou Leona, voltando a encará-la. — O mundo não se importa com as suas intenções, Christine. Ele se importa com o que você pode oferecer. Eu ofereço segurança à sua mãe. Você me oferece a imagem de que eu preciso. É limpo. É honesto, à sua própria maneira.

— Não há nada de honesto nisso. Especialmente depois de ontem.

Leona levantou-se, caminhando ao redor da mesa até ficar a poucos centímetros de Christine. O silêncio no escritório era absoluto, quebrado apenas pelo som distante do trânsito lá embaixo.

— Ontem foi um erro — disse Leona, embora seus olhos estivessem fixos nos lábios de Christine. — Um erro que não se repetirá.

— Então por que você está tão perto? — desafiou Christine. — Por que não me manda ir embora agora e me encontrar apenas no carro amanhã?

— Porque eu sou a sua chefe — disse Leona, a voz falhando levemente. — E eu decido quando a conversa termina.

— Não — disse Christine, colocando a mão no peito de Leona, sentindo a batida acelerada do coração da executiva sob o tecido caro. — Você decide os contratos. Mas você não decide o que eu sinto. E você certamente não decide o que sente, por mais que tente se convencer do contrário.

Christine aproximou o rosto do de Leona, sentindo a hesitação da outra. Leona Blair, a mulher que nunca perdia, parecia estar à beira de um abismo.

— O que você quer de mim, Christine? — sussurrou Leona, a voz carregada de uma vulnerabilidade que ela nunca permitira que ninguém visse. — Quer que eu diga que você me desconcentra? Que eu passo as reuniões pensando no cheiro da sua pele? Quer que eu admita que odeio o fato de você ser a única pessoa que me olha e não vê uma conta bancária?

— Eu quero que você seja humana — respondeu Christine. — Pelo menos por um minuto.

Leona fechou os olhos e, por um instante, encostou a testa na de Christine. O contato era leve, mas carregava o peso de tudo o que não fora dito.

— Ser humana é perigoso, Christine. Ser humana é o que permitiu que o Marcus me passasse para trás. Ser humana dói.

— Mas é a única forma de viver de verdade — disse Christine, deslizando a mão para a nuca de Leona, puxando-a suavemente para baixo.

Desta vez, não houve agressividade. O beijo começou lento, uma exploração cautelosa de duas almas que se odiavam por necessidade e se desejavam por instinto. Leona soltou um suspiro trêmulo, suas mãos encontrando a cintura de Christine com uma urgência que não tinha nada a ver com tática.

Ela puxou Christine para mais perto, prendendo-a entre seu corpo e a mesa de carvalho. O beijo intensificou-se, tornando-se mais profundo, mais faminto. Era um beijo de rendição. Leona Blair estava perdendo o controle, e, pela primeira vez, ela parecia não se importar.

Christine sentiu a força de Leona, a determinação que ela aplicava em tudo o que fazia, agora voltada inteiramente para aquele contato. As mãos de Leona subiram para o rosto de Christine, segurando-a como se ela fosse o ativo mais precioso de sua vida.

— Christine... — murmurou Leona contra seus lábios, o nome soando como uma prece e uma maldição ao mesmo tempo.

Elas se separaram ofegantes, os olhos fixos uns nos outros. A máscara de Leona tinha caído completamente, revelando uma mulher que estava, pela primeira vez, aterrorizada com o próprio desejo.

— Isso muda tudo — disse Christine, a voz rouca.

Leona respirou fundo, tentando recompor os pedaços de sua armadura. Ela se afastou, passando a mão pelo cabelo, tentando recuperar a compostura.

— Isso não muda nada — disse Leona, embora sua voz não tivesse a convicção de antes. — Amanhã, iremos para Connecticut. Seremos o casal perfeito. O contrato continua em vigor.

— Leona, você não pode continuar fingindo que isso é apenas um negócio.

— Eu posso e eu vou — afirmou Leona, voltando para trás de sua mesa, o espaço físico servindo como uma barreira necessária. — Minha vingança contra o Marcus está quase completa. O cargo é meu. A clínica da sua mãe está paga. Não vamos arruinar tudo por causa de... química.

— Química? É assim que você chama isso? — Christine sentiu uma pontada de mágoa, apesar de saber que Leona agiria assim. — Você é inacreditável.

— Eu sou pragmática, Christine. E o pragmatismo diz que sentimentos são variáveis incontroláveis que destroem impérios. Eu não vou deixar meu império cair de novo. Nem por você.

— Então você vai viver assim? Em um castelo de gelo, protegendo um império que não tem ninguém para compartilhar?

Leona sentou-se em sua cadeira de couro, a luz do crepúsculo tornando suas feições quase etéreas e sombrias.

— É o preço que eu escolhi pagar. Vá para casa, Christine. Descanse. Amanhã será um longo dia.

Christine olhou para Leona por um longo tempo, vendo a solidão que a executiva tentava disfarçar de poder.

— Boa noite, Leona — disse Christine, caminhando até a porta.

Antes de sair, ela parou e olhou por cima do ombro.

— Mas saiba de uma coisa: o gelo sempre derrete. E quando o seu castelo cair, eu não sei se estarei lá para te segurar.

A porta se fechou, deixando Leona Blair sozinha em seu escritório monumental. Ela olhou para as próprias mãos, que ainda tremiam, e depois para a cadeira onde Christine estivera sentada. O silêncio do escritório, que antes era seu refúgio, agora parecia uma prisão.

Leona serviu-se de mais um uísque, o líquido âmbar queimando sua garganta. Ela tinha o cargo, tinha a vingança e tinha o controle. Mas, enquanto observava as luzes de Nova York, ela não conseguia tirar da mente o gosto de lavanda e a sensação de que, pela primeira vez em sua vida, ela estava ganhando a guerra, mas perdendo a si mesma.

O contrato de vidro estava rachado. E as faíscas que começaram como um jogo de ódio agora ameaçavam incendiar tudo o que ela construíra, deixando apenas cinzas e a verdade nua que ela tanto temia enfrentar. A viagem para Connecticut não seria apenas mais um ato da farsa; seria o campo de batalha final entre a executiva tirana e a mulher que Christine Lovel estava despertando.

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