O dia que vc me deixou
O Último Sacrifício do Sábio
O ar em Hawkins nunca pareceu tão denso. O cheiro de ozônio e carne queimada impregnava a atmosfera, enquanto as luzes do Mundo Invertido sangravam para a realidade através das fendas que se abriam no chão. No centro do caos, Will Byers sentia cada terminação nervosa de seu corpo gritar. Não era apenas dor física; era a invasão. Vecna estava dentro dele, uma presença viscosa e fria que conhecia cada um de seus segredos, especialmente aquele que Will guardara a sete chaves no fundo de sua alma.
Jane estava a poucos metros, os braços estendidos, o nariz sangrando profusamente enquanto mantinha a barreira psíquica contra o monstro. Mike, Dustin e Lucas estavam logo atrás, armados com coquetéis molotov e o desespero nos olhos.
— Will! Fica comigo! — Mike gritou, a voz falhando. Ele deu um passo à frente, mas Will cambaleou para trás, as mãos agarrando a própria cabeça.
— Ele sabe, Mike... — Will sussurrou, a voz saindo como um chiado metálico. — Ele sabe o que eu sinto. Ele está usando isso contra mim!
As veias no pescoço de Will começaram a escurecer, tornando-se negras como tinta sob a pele pálida. Ele olhou para Jane, que tremia sob o esforço. Will sabia que a conexão era o único caminho. Se Vecna estava ancorado nele para se manifestar naquela dimensão, a destruição de um significaria o fim do outro.
— Jane! — Will rugiu, lutando contra o controle da mente coletiva. — Agora! Fecha a conexão! Não para até ele sumir!
— Will, não! Eu não posso! — Jane gritou, as lágrimas misturando-se ao sangue em seu rosto.
— Você precisa! — Will olhou para Mike uma última vez, um olhar que carregava dez anos de palavras não ditas, de desenhos escondidos e de um amor que nunca encontrou espaço para florescer. — Mike, não se preocupe. Eu vou ajudar ela. Eu prometo.
Mike tentou correr em direção a ele, mas Lucas e Dustin o seguraram. O chão estava cedendo.
— Will, sai daí! — Mike implorava. — A gente dá um jeito, a gente sempre dá um jeito!
— Não desta vez, Mike — disse Will, com um sorriso triste que partiu o coração de todos. — O Sábio precisa proteger o grupo.
Com um esforço sobre-humano, Will abriu sua mente completamente, atraindo a essência de Vecna para o núcleo de seu ser, agindo como um para-raios humano. O monstro soltou um grito gutural que ecoou por toda a Hawkins. Jane, entendendo o sacrifício, soltou um grito de fúria e concentrou todo o seu poder.
As chamas dos molotovs lançados por Dustin e Lucas atingiram a forma física de Vecna que tentava se desvencilhar de Will, mas o garoto o segurava mentalmente com todas as suas forças. O fogo consumiu a criatura, e o grito de agonia do monstro se fundiu ao de Will.
Subitamente, uma explosão de energia psíquica jogou todos para trás. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
Jane caiu de joelhos, ofegante, viva, mas exausta. O corpo de Vecna estava reduzido a cinzas e fumaça negra que se dissipava no ar gélido. Por um segundo, houve esperança. Mike se levantou rapidamente, procurando pelo amigo.
— Will? Will! — Ele correu até a figura caída no chão.
Will estava deitado de costas. À medida que Mike se aproximava, o horror se instalava. A pele de Will não estava mais voltando ao normal. As veias pretas continuavam a se espalhar, subindo pelo rosto, contornando os olhos. Ele começou a tossir violentamente, e o sangue que saía de sua boca era escuro, quase viscoso.
— Mike... — A voz de Will era apenas um sopro.
— Ei, ei, olha pra mim! — Mike se ajoelhou e puxou a cabeça de Will para o seu colo, as mãos tremendo incontrolavelmente. — Jane, ajuda ele! Jane!
Jane se arrastou até eles, mas ao tocar o pulso de Will, ela recuou, soluçando. Ela sentia o vazio. A vida de Will estava atada à de Vecna; com a morte da raiz, o broto também fenecia.
— Mike... eu... eu já sabia — sussurrou Will, lutando por cada respiração. O sangue escorria pelo canto de seus lábios. — Tinha que ser assim.
— Não fala isso! — Mike soluçava abertamente agora, as lágrimas caindo no rosto de Will. — Você é o coração do grupo, Will. A gente não é nada sem você. Por favor, fica comigo. A gente tem tanto pra conversar... o quadro que você me deu...
Will sorriu, um gesto fraco que não alcançou totalmente seus olhos, que já estavam começando a perder o brilho.
— O porão... — Will tossiu mais sangue, o corpo tendo um espasmo de dor. — Mike... no porão. Atrás da caixa de D&D.
— O quê? Will, não gasta energia, a gente vai te levar pro hospital! — Lucas gritou, aproximando-se com Dustin, ambos em prantos.
— Eu deixei... uma carta — Will conseguiu dizer, a voz falhando drasticamente. — Pra você, Mike. Sempre foi... pra você.
— Will, eu te amo, cara. Por favor, não vai — Mike chorava, apertando a mão do amigo, que já estava ficando fria.
Will olhou para os três amigos, os "Paladinos" de sua vida. Ele sentiu o frio do Mundo Invertido finalmente deixando sua alma, substituído por uma paz estranha, embora dolorosa. Ele olhou nos olhos castanhos de Mike e, com o último resto de força que possuía, apertou levemente a mão dele.
— Obrigado... por me encontrar... na floresta — Will sussurrou.
Então, seus olhos se fixaram em um ponto distante no céu cinzento de Hawkins. O peito subiu uma última vez e desceu, não voltando a subir. A tensão deixou seu corpo, e as veias negras começaram a desaparecer, deixando para trás apenas o rosto pálido e sereno do menino que se perdeu e, finalmente, se encontrou no sacrifício.
— Will? Will! — Mike o balançou, o desespero atingindo o ápice. — Acorda! Will, por favor!
O grito de Mike ecoou pelas ruas vazias, um som de pura agonia que nenhum poder de Jane poderia curar.
Horas depois, após o caos ser contido e as autoridades (ou o que restava delas) assumirem o controle, o grupo estava de volta à casa dos Wheeler. O silêncio era absoluto, quebrado apenas pelos soluços baixos de Dustin no sofá. Mike, no entanto, parecia um fantasma. Ele desceu as escadas para o porão como se estivesse em transe.
O porão, onde tudo começou. Onde eles lutaram contra dragões e demogorgons com dados de vinte lados. Mike foi direto para a prateleira de jogos. Atrás da velha e desgastada caixa de Dungeons & Dragons, havia um envelope pardo, um pouco amassado.
Com as mãos trêmulas, Mike abriu o papel. A letra de Will era cuidadosa, mas levemente trêmula.
"Querido Mike,
Se você está lendo isso, significa que eu não tive coragem de te dizer essas coisas pessoalmente, ou que o tempo acabou para mim. Eu sinto que o Vecna não vai me deixar ir sem levar algo em troca, e eu aceito ser esse preço se isso significar que você, a Jane e os outros fiquem seguros.
Eu queria que você soubesse que, desde aquele primeiro dia no parquinho, quando você me perguntou se eu queria ser seu amigo, minha vida mudou. Você foi meu paladino. Você me salvou tantas vezes que eu perdi a conta. E o que eu sinto por você... Mike, é a coisa mais real que eu já tive.
Eu sei que você ama a Jane. E eu amo vocês dois. Mas meu coração sempre pertenceu a você. O quadro que eu te mostrei na van... não foi a Jane que pediu para eu pintar. Fui eu. Cada pincelada era o que eu queria te dizer, mas não conseguia. Você é o coração, Mike. Você mantém todos nós unidos.
Não se culpe por nada. Eu morreria mil vezes se isso garantisse que você vivesse uma vida longa e feliz. Por favor, não pare de jogar. Não deixe o grupo se separar. E, às vezes, quando olhar para o céu, lembre-se do seu Sábio.
Com todo o meu amor, para sempre, Will Byers."
Mike apertou o papel contra o peito, caindo de joelhos no chão frio do porão. O cheiro de Will ainda parecia impregnado naquele lugar, entre as miniaturas de chumbo e os mapas desenhados à mão. Ele fechou os olhos e, no silêncio da noite, finalmente permitiu que a realidade da perda o consumisse por inteiro. O Sábio tinha partido, mas ele nunca, jamais, seria esquecido.